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Por que 2005 Será Pior PDF Imprimir E-mail
Escrito por Chico Villela   
Tuesday, 01 March 2005
O governo acha-se empenhado em superávits primários para pagamento de dívidas e juros (mais de 100 bilhões/ano) aos eternos credores internacionais, tanto quanto a elite colonial ocupava-se em pagar os quintos à Coroa (100 arrobas de ouro/ano), e subordinava-se às derramas (todos os ricos pagam) quando a produção de ouro não correspondia. Como não há perspectiva de reversão dessa duradoura corrente, 2005 vai ser pior para todos.

"Em Minas, tudo se tinha visto em matéria de crimes, e na espécie de assaltos para roubar conheciam-se fatos isolados de ciganos ou de escravos fugidos, mas nunca salteadores em bandos organizados, crimes coletivos em semelhantes proporções e tanta crueldade".

Esta citação do historiador Diogo de Vasconcelos (1843-1927), da obra "História Média de Minas Gerais" (Itatiaia, p. 216), refere-se aos crimes bárbaros de uma quadrilha que agia no alto da Serra da Mantiqueira, comandada por um tal "Montanha", que matava os viajantes ricos e sua comitiva, em geral um ou dois escravos e algum eventual acompanhante, para roubar-lhes mercadorias, ouro e diamantes e dinheiro.

O trecho a seguir [destaques meus] foi escrito por um militar de carreira das tropas regulares do rei de Portugal no Brasil, em 19 de abril de 1783, há 221 anos. É uma informação ao seu superior sobre as diligências iniciais que empreendia, como o responsável pela fiscalização do caminho de Minas para o Vale do Paraíba onde vinham acontecendo os crimes.

"Com toda a submissão e respeito, vou pôr na presença de V. Excia. que, indo na diligência da fatura do caminho, tive notícia de que acharam uns boiadeiros três corpos no alto da Mantiqueira, e indo logo averiguar desse acontecimento, achei o Coronel José Aires Gomes com 12 pedestres, que andava a procurar pelo corpo de José Antônio de Andrade [...] achamos mais uma sepultura [...] e desenterramos os corpos, e achamos um negro e um cão, e o corpo do dito José Antônio de Andrade; o qual pondero que por permissão divina estava com seu corpo inteiro, sem mais lesões nenhuma que uma cicatriz de uma facada no peito, e na testa o buraco de um perdigoto com seis bagos de chumbo[...]

"No dia 18 se prendeu um cabra Januário Vaz, que tem assistido, por confissão do mesmo, a 12 mortes [...] e diz o dito que ele e os companheiros andam nestes insultos há quatro anos, e que ainda anda outra quadrilha [...]"

Os destaques gráficos desse pequeno trecho da mão de um militar de carreira no remoto ano de 1783 são um resumo da nossa história e desvendam uma realidade que nos autoriza a pensar que 2005 será pior.

Coronel José Aires Gomes

A história de Minas até a República é a mesma história do Brasil, e a formação da capitania das Minas do Ouro repete e reforça as características da formação dessa miscigenada nacionalidade.

O início, à parte aventuras sem resultados, deu-se com as marchas dos arregimentados por Fernão Dias Pais, nobre da cidade de São Paulo, e outros pares e iguais que se seguiram, que organizaram tropas com pessoas do povo para desbravar os sertões, apresar índios para escravidão, tomar posse para si e os seus das terras e das minas e riquezas porventura achadas e fundar povoados, tornando-se a autoridade local, de inigualável e documentada tirania, em nome do rei.

Este foi o modelo social-militar da colonização: ilustres, nacionais ou estrangeiros, tomavam para si as terras e as riquezas, eram investidos de autoridade e títulos militares pelos representantes do rei, organizavam forças armadas por bem ou à força, e passavam a explorar para si as terras e suas benesses, sempre contribuindo com partes para o rei.

Além disso, eram também a garantia da ordem (quando não entravam em choque entre si), e comandavam as forças militares auxiliares das forças regulares do rei (que sempre foram inexpressivas frente aos contingentes particulares).

Compunham a mistura nacional, além dessas elites brancas e da base de negros e índios, uma classe mediana, formada por "mercadores fixos e ambulantes, artífices, pedreiros, ferreiros, carpinteiros, alfaiates, sapateiros, entalhadores, ourives", seleiros, servidores dos poderes e das igrejas, etc. Augusto de Lima Jr. ("A Capitania das Minas Gerais", Itatiaia, 1978, p. 75) destaca ainda: "[...] centenas de 'mulheres erradas' de todas as cores e tons, fora a multidão de vadios, vivendo de assaltos e bromas [...] Cada um deles [europeus], ou por não ter, ou por deixar em Portugal[na Europa] suas famílias, ligava-se a escravas africanas ou mulatas, que por essa procura, atingiam preços altíssimos".

Um retrato dos formadores dessa elite acha-se delineado no trecho seguinte de Sérgio Faraco ("Tiradentes", Civilização Brasileira, 1980, p. 41), ao falar sobre o inconfidente Inácio José de Alvarenga Peixoto, apresentado às crianças nas escolas como poeta-mártir e vítima da tirania portuguesa: "

[...] ex-ouvidor da comarca do Rio das Mortes e coronel do 1º Regimento de Cavalaria Auxiliar da Campanha do Rio Verde, também latifundiário, usineiro, proprietário de lavras, cafezais e algum estro poético. Magistrado chicaneiro, ao tempo em que desempenhava a ouvidoria aproveitou-se do cargo para, mancomunado ao sogro, apropriar-se dos bens imóveis do ex-contratador João de Souza Lisboa.

Mau pagador, tinha contra si em Lisboa uma ação no valor de 11:193$507 [...] Devia grandes somas a João Rodrigues de Macedo e, ultimamente, a Joaquim Silvério dos Reis, não pagando nem mesmo os juros respectivos, e a possibilidade do levante representava uma alternativa desesperada para sua caótica situação financeira. Bajulador de poderosos, covarde, desleal [...]"

Esclareça-se ao leitor: o "levante" a que se refere o autor é mais conhecido como Inconfidência Mineira. Esta é a origem da elite brasileira: proprietários de terras, minas e riquezas, representantes legais da Fazenda e da Justiça, alguns nobres e militares portugueses, autoridades religiosas.

Debaixo das suas botas e sujeitos a sua crueldade, gemiam os "pés-rapados", como eram chamados os sem-calçado: centenas de milhares de pretos escravos; mulatos e caboclos, muitos deles filhos bastardos dos ilustres com negras e índias; índios, mamelucos e cafusos; pobres que vinham do Reino e da Europa fugindo da Inquisição e da miséria. Ou seja, a maioria da população.

Uma pequena elite no topo, uma mediana mínima acomodada de europeus e poucos mulatos, uma base imensa de pobres Em 2004, cerca de 0,1% das famílias detinha mais de 50% das terras e riquezas do país. Nada mudou, e vai ser pior em 2005, como apontam as tendências. A geometria perversa da pirâmide social brasileira continua inalterada.

Buraco de um perdigoto

Com sua história conduzida na boca do bacamarte, repleta de golpes, batalhas, revoltas e levantes, torturas e assassinatos, não espanta que o país atual tenha na violência, oficial ou civil, um dos seus mais atávicos problemas.

A mídia diariamente expõe a violência do Rio e de São Paulo, mostra traficantes armados em afronta à polícia, assaltos e seqüestros, cadáveres sem conta. Os moradores de outros lugares suspiram aliviados. São ingênuos e felizes, não consultam arquivos nem estatísticas do Registro Civil, e não ficam sabendo do que morrem os brasileiros.

Recente levantamento divulgado pelo IBGE mostra que a maior proporção de homens vítimas de mortes causadas por acidentes de trânsito, homicídios, suicídios e outras causas externas está... no Distrito Federal (24,5%). Pela ordem, após o DF, os nove estados mais violentos são: Roraima e Rondônia (24,1%), Mato Grosso (23,7%), Amapá (23,1%), Espírito Santo (21,8%), São Paulo (18,8%), Pernambuco (17,6%), Goiás (17,5%) e... Rio de Janeiro (17,2%). Minas está em 23º lugar (12,1%), e em 27º e último acha-se o campeão da pobreza e da paz: o Piauí (8,1%). A taxa da Inglaterra anda por volta de 5%. O Brasil ostenta uma das mais altas taxas de violência do mundo.

Por que o Distrito Federal? Assim: pela ação de um dos representantes da sua elite política, exatamente o mais arcaico do país, um tal Roriz, que, para garantir seu curral eleitoral, atraiu para o DF com ofertas de terrenos (da União) gratuitos cerca de 1 milhão de pessoas sem qualificação e sem emprego.

Somado à impunidade dos notáveis locais e ao saque aos bens públicos que sempre foi a tônica desta capital, deu no que deu. Minas já foi a capitania mais violenta, nos anos 1700, pelas riquezas e a terra. Hoje, no século XXI, os estados mais violentos são aqueles em que a questão da terra está na berlinda e na ponta dos fuzis.

Entre 1993 e 2003, nesses dez anos, a taxa geral de mortes violentas subiu de 14% para 16%. Como as questões são similares; como a violência reside onde os interesses da elite se manifestam, e não a pobreza, que não guarda relação direta com a violência; como a ferocidade da elite é a mesma, se não maior; e como a questão das drogas ainda é considerada "de polícia" e não social e o governo não tem peito de propor a descriminalização, assume vulto uma certeza: 2005 será pior, mais violento.

Um negro e um cão

O registro frio do militar, naquele longínquo 1783, na cova improvisada, do cadáver do ilustre José Antônio de Andrade, acompanhado de um negro e um cão, aclara boa parte da história do país.

A temível quadrilha de início só atacava contrabandistas de ouro e diamantes, para os quais a pena era de morte, cuja falta não se fazia sentir, e que sempre contavam com o silêncio dos seus cúmplices. José Antônio de Andrade era uma personalidade do Tijuco (hoje Diamantina), que ia a negócios ao Rio. Avisado do sumiço desse luminar da mais destacada elite, o governador D. Rodrigo colocou as tropas na rua e ordenou desbaratar a quadrilha.

O registro traz um dado intrigante, que passou à margem da história: o corpo de Andrade estava intacto, após sete meses enterrado, um caso sem dúvida único que hoje suscitaria alvoroço nos meios científicos. Já o negro e o cão, estes obedeceram às leis da natureza. Impossível resgatar os seus nomes para a história.

O cão era apenas um cão, o negro era apenas um negro, que tinha, a mais do cão, algum valor, mas talvez menor que o de uma boa alfaia de prata ou uma essencial provisão de chumbo e pólvora para o bacamarte do ilustre proprietário de minas, terras, comércios, poderes e negros.

Os negros eram desiguais em vida. Mesmo aos índios prestava-se algum respeito, e um generoso el-rey mandara mesmo distribuir terras a tribos pacíficas, para que se encarregassem do seu sustento e pudessem ser mais prestamente pastoreados por algum caridoso vigário.

Negros, se eram desiguais em vida, hoje continuam a ser: "Brancos no Brasil vivem em média seis anos a mais que negros. E são também desiguais na morte".

Homens negros morrem mais por violência que brancos; brancos morrem mais por doenças. As diferenças falam pelos números. Mortes por homicídios: pretos, 12,3%; brancos: 5,5%. Entre jovens de 15 a 25 anos: pretos: 52,1%; brancos: 38,1%. Também as mulheres negras morrem mais no parto (mais que o dobro das brancas) e de causas mal definidas (o dobro).

As estatísticas oficiais eliminaram do mapa a população de descendentes de indígenas; hoje, o IBGE só quantifica pretos e pardos, como se fossem a mesma coisa mulatos, mamelucos, caboclos, cafusos, etc. Mas, mesmo que no Norte, por exemplo, haja muito mais caboclos que mulatos, são todos escuros e pobres, e ficam cada vez mais pobres.

A renda da mão-de-obra do país em 2003 foi de 40% da renda interna; há uns vinte anos, era de 60%. Trabalhador, quanto mais trabalha, menos ganha.

Como as políticas governamentais, sociais-democratas ou da "nova esquerda" atual, retiram cada vez mais e ininterruptamente direitos e renda ao trabalhador e à maioria pobre, uma certeza brilha como as estrelas da bandeira: para a maioria de pretos, pardos e brancos pobres, 2005 vai ser muito pior.

Insultos há quatro anos.

Os assassinos do bando de "Montanha" por quatro anos mataram e roubaram sem conseqüências, até que atacaram um membro proeminente da elite colonial. Essa elite não se comportava muito diferentemente de "Montanha": o pequeno trecho sobre Alvarenga Peixoto ilustra o fato à perfeição. Mas o comportamento de parte de peso da elite contemporânea também não foge a esse padrão.

Abstendo-nos de citar políticos, para não aborrecer o leitor com o óbvio, basta um caso com um destacado componente da elite nacional. Há três anos Edemar Cid Ferreira, dono do Banco Santos, era incensado como (e era) o maior mecenas do país. Hoje, é apenas banqueiro; bilionário, claro, mas "maldito": deu golpes e safou-se com o dinheiro.

Os jornais informam que "o Banco Central sabia desde o primeiro semestre de 2001 que o Banco Santos aumentava seus lucros por meio de operações não usuais". Para o leigo, esclareça-se: 'operações não usuais' e similares são eufemismos para bandidagem financeira.

Um exemplo dessas "operações não usuais" traz à tona uma parcela da elite nacional: os intelectuais. O Banco Santos "emprestou" 145,6 milhões para a empresa Quality. O procurador da Quality é o editor Pedro Paulo de Sena Madureira, o Oscar Wilde tupiniquim, amigo que estimulava o mecenato do banqueiro. Perguntado, Madureira debocha que a única Quality que conhece é a marca da margarina. O dinheiro esfumaçou-se.

O Banco Central acompanhava tudo há quase quatro anos e nada fez. Mas, como em 1783, quando os cabedais dos assaltados sumiam, hoje os cabedais dos assaltantes também não irão aparecer: estão nas Ilhas Virgens Britânicas e paraísos tais. Outros fatos piores ocorrerão nessa arena financeira, com certeza, sob os olhares complacentes do Banco Central, feudo do banqueiro-sonegador Meirelles. Em 2005, a bandidagem de fraque vai ser pior. Alguém duvida?

A grande fratura

A colonização selvagem e violenta do país conduziu a uma sociedade dividida, dada a presença do negro escravo e do índio sem direitos, bem como dos seus descendentes ocupados em funções menores, de braços com os reinóis pés-rapados. As políticas sociais e econômicas contemporâneas só têm feito aprofundar essa divisão.

Em dez anos, mais de 1,5 milhão de famílias deixaram a classe média e cruzaram a linha da pobreza, segundo os dados e parâmetros oficiais. Parcelas dos pobres rolam também para as fronteiras da miséria.

O governo acha-se empenhado em superávits primários para pagamento de dívidas e juros (mais de 100 bilhões/ano) aos eternos credores internacionais, tanto quanto a elite colonial ocupava-se em pagar os quintos à Coroa (100 arrobas de ouro/ano), e subordinava-se às derramas (todos os ricos pagam) quando a produção de ouro não correspondia. Como não há perspectiva de reversão dessa duradoura corrente, 2005 vai ser pior para todos.

A fratura social aprofunda-se e, no quadro desalentador que a realidade impõe, em 2005 tende a agravar-se.

Em entrevista recente, o sensível artista Chico Buarque enfatizou a sua gravidade:

"O medo da violência na classe média se transforma também em repúdio, não só ao chamado marginal, mas aos pobres em geral, ao sujeito que tem um carro velho, ao sujeito que é mulato, ao sujeito que está mal vestido. [...] não vejo apenas um sentimento contra o marginal, o traficante, o ladrão. Mas contra o motoboy, contra o desempregado, contra o sujeito que não fala direito, isso apesar de a elite brasileira falar muito mal o português. Constato um sentimento difuso quase a favor do apartheid social."

Em tempo: o militar autor do texto de síntese desta coluna era o alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes.

 

nova-e, la insignia

Comentarios (1)Add Comment
meu namorado e gay e eu não sabia
escrito por joyciele, 2008-08-14 14:32:36
smilies/tongue.gif smilies/kiss.gifvoces tem que me mandar uma solução porque ele não me ama

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