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Escrito por Vladimir Safatle   
Monday, 28 February 2005
Estudos recentes que cruzam o aumento do consumo de luxo na sociedade brasileira e o agravamento dos processos de concentração de renda demonstram como as questões postas pelo filme de Woods continuam amargamente atuais. Uma certa eleição no município de São Paulo nos mostrou que ricos e pobres continuam não votando da mesma maneira.

Filmes tentam fornecer o imaginário de experiências políticas cruciais no continente neste século

2004 talvez entre para a história como o ano em que a esquerda latino-americana começou a se transformar em imagem de cinema.

Filmes como “Diários de motocicleta”, de Walter Salles Júnior, “Machuca”, do chileno Andrés Wood, assim como a dupla “Peões”, de Eduardo Coutinho, e “Entreatos”, de João Moreira Salles, têm em comum a vontade em dar conta, cada um à sua maneira, de momentos centrais da esquerda latino-americana e da constituição de seu imaginário.

De fato, era de se esperar que, mais dia, menos dia, o cinema da região resolvesse assumir sua função formadora e entrasse na delicada tarefa de fornecer o imaginário destes capítulos tão complexos da história como foram a aventura guerrilheira de Che Guevara, a experiência popular de Salvador Allende e as grandes greves no ABC.

No entanto, uma análise comparativa nos coloca diante de estratégias narrativas e abordagens do projeto político da esquerda que são muitas vezes antagônicas.

Cada um destes filmes responde, muitas vezes de maneira involuntária, à questão sobre o que é fazer cinema político hoje. Cada um deles acaba também nos dizendo o que é, na atualidade, uma ação política possível.

Questão que ganha contornos mais complexos em um momento no qual, a princípio, todos os países mais importantes da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Venezuela, além do Uruguai e do Equador) são governados pela esquerda e, no entanto, não sabemos ainda como avaliar tal situação.

Cena do filme "Machuca", de Andrés Wood
Divulgação

Luta de classes aos pés dos Andes

De todos estes filmes, “Machuca” talvez seja o que tinha diante de si a tarefa mais delicada: dar conta dos turbulentos anos de Salvador Allende. Tarefa delicada porque, até hoje, a sociedade chilena divide-se em relação à avaliação deste momento.

Contrariamente a países como a Argentina e o Uruguai, que, de uma forma ou de outra, definiram uma versão da sua história recente tacitamente aceita pela sociedade civil, o Chile continua profundamente marcado pela divisão a respeito do que significou seu passado.

Em nenhum destes países o dever de memória foi uma exigência tão problemática. Em nenhum destes países a direita continuou tão vinculada à "lembrança gloriosa" do regime militar e as livrarias continuaram tão cheias de livros exaltando as conquistas modernizadoras do regime e de sua figura máxima. Comportamento inimaginável em países como o Brasil, onde a direita é astuta o suficiente para não se ligar às ruínas de um passado que ela mesma produziu.

Mas esta exceção chilena pode ser explicada. Nenhum país latino-americano teve uma experiência política da magnitude daquela posta em circulação por Salvador Allende.

Ancorado em um amplo processo de mobilização popular articulado durante décadas, a eleição de Salvador Allende representou a única tentativa efetiva no século XX de implantação do socialismo sem mudar as regras do jogo da democracia parlamentar.

Caso fosse bem sucedida, ela forneceria um paradigma renovado para a atuação mundial da esquerda através da incorporação real da democracia parlamentar e da superação da antiga dicotomia entre reformismo e revolução.

Pela sua importância, a experiência chilena deveria ser pois radicalmente apagada. E ela quase o foi, não apenas pela violência sem par do golpe militar e da sua gestão cotidiana "law and order", mas também pelo enorme investimento norte-americano na economia do país durante as décadas do regime.

Como é comum no Chile desde que as tropas do argentino San Martí entregaram a independência ao chileno Bernardo O´Higgins, foi graças a uma intervenção externa (no caso, a prisão de Pinochet pela justiça inglesa), que os chilenos começaram a tentar recuperar sua história.

Neste sentido, o filme de Woods tem o mérito de encontrar a melhor perspectiva para dar conta da experiência de Salvador Allende: a luta de classes.

Lembremos que seria fácil fazer um filme à brasileira, em que os excessos dos dois lados seriam mostrados, e o resultado final seria algo como: "Vejam, os dois lados estavam errados em seus radicalismos, houve muita incompreensão de ambas as partes, por isto, não faz muito sentido ficar culpabilizando um ou outro.

O importante é olhar para frente, até porque, a vida continua". De fato, isto seria fácil, mas Woods, ao centrar sua história na relação de amizade entre um estudante pobre que recebe bolsa para estudar em uma escola de elite e um estudante rico, nos remete de volta à lógica insistente dos conflitos de classes.

É verdade que falar em conflitos de classes hoje em dia poderia parecer o mais completo arcaísmo. Afinal, o próprio conceito de classe social não seria herança de um tempo revoluto onde ainda podíamos apelar à consciência de classe do proletariado e à culpabilização da intelectualidade classe média?

De fato, trata-se de um "arcaísmo", mas só há uma coisa mais arcaica do que conflitos de classes: a dinâmica social das sociedades latino-americanas e a lógica concentracionária de suas elites.

Estudos recentes que cruzam o aumento do consumo de luxo na sociedade brasileira e o agravamento dos processos de concentração de renda demonstram como as questões postas pelo filme de Woods continuam amargamente atuais. Uma certa eleição no município de São Paulo nos mostrou que ricos e pobres continuam não votando da mesma maneira.

Tudo isto nos lembra que a luta de classes deve estar vinculada à dinâmica de circulação das riquezas e à sua crítica, e não mais à formação reflexiva de uma consciência social com suas noções problemáticas de identidade.

“Machuca” serve assim para nos lembrar que a verdadeira ação política não apaga tais conflitos, mas os politiza e os acirra, instaurando uma dinâmica republicana de reivindicações de igualdade que nossas sociedades latino-americanas ainda desconhecem.

Neste sentido, talvez uma das poucas contribuições realmente relevantes da experiência de Hugo Chavez (que, em larga medida, é um exemplo clássico de caudilhismo de esquerda) seja a demonstração da atualidade das dinâmicas de classes no cerne dos conflitos políticos latino-americanos.

Os limites da etificação da política

De uma certa forma, estas questões também aparecem em “Diários de motocicleta”, de Walter Salles, mas seus resultados são outros. Decidido a fazer um filme sobre o processo de formação da consciência revolucionária de Che Guevara, Salles mobilizou toda sua estética construída em anos de direção de comerciais publicitários para filmar a viagem feita por Guevara e um amigo em direção à miséria da América do Sul profunda.

Deste contato com a miséria e com a exploração, aliado a um senso de integridade ética vindo do berço, teria nascido a solidariedade que fez Guevara dedicar sua vida à causa revolucionária.

Neste sentido, Salles não teme nem sequer nos fornecer uma metáfora "cristã" desta passagem através da imagem de um asmático Che Guevara, que, durante a sua festa de aniversário, atravessa um rio a nado a fim de festejar seu renascimento na outra margem, juntamente com uma legião de pobres leprosos.

No entanto, ao menos enquanto história de um processo de formação de alguém que sai da classe média alta para abraçar a causa revolucionária, o filme de Salles é absolutamente problemático.

Ao final, simplesmente ficamos sem entender por que Che Guevara virou um revolucionário, e não um médico-voluntário dos Médecins sans frontières ou alguém que se junta a Bono Vox e Sharon Stone à cata de doações de milionários para os famintos da Somália.

Vincular o ato revolucionário à solidariedade com a pobreza é um erro tão grande quanto colocar no mesmo nível o engajamento em um grupo guerrilheiro e o alistamento como voluntário em uma ONG de ajuda aos carentes.

Vale sempre a pena lembrar que todos nós somos "solidários" com a miséria e nem por isto resolvemos abraçar a luta revolucionária com todas as suas conseqüências.

O filme de Salles, ao "humanizar" Guevara, acaba por circunscrever o ato revolucionário aos domínios do julgamento ético. No entanto, talvez o ato revolucionário esteja mais perto do ato religioso, tal como Kierkegaard o concebe.

Kierkegaard nos lembra que, para compreender o que está em jogo no ato religioso, devemos contrapô-lo às dimensões do ético e do estético. Ele toma como exemplo paradigmático o ato de Abraão prestes a sacrificar seu filho em nome da fé.

Tal ato demonstra como o religioso está para além do ético; já que, do ponto de vista ético, o ato de Abraão (matar seu próprio filho por uma fé) é uma aberração violenta e aterradora. No entanto, é neste ponto no qual os julgamentos éticos intersubjetivamente partilhados devem ser suspensos que nos deparamos com o domínio do religioso.

O mesmo vale para o ato revolucionário, que sempre traz consigo o problema da legitimidade da violência que suspende os ordenamentos jurídicos com suas aspirações de fundamentar julgamentos éticos.

Neste sentido, poderíamos mesmo dizer que a passagem para o ato revolucionário pressupõe, ao contrário, uma certa anulação dos vínculos sustentados pela solidariedade em prol de uma certa indiferença em relação ao sofrimento e ao ético. Talvez seja por isto que, para nós, o ato revolucionário aparece como algo tão distante e difícil de compreender.

Neste sentido, “Diários de motocicleta” parece o sintoma de uma certa esquerda latino-americana que procura conciliar suas antigas admirações por figuras como Guevara com a crença de que uma certa solidariedade difusa com a pobreza, solidariedade preferencialmente patrocinada por empresas privadas, pode resolver nossa má-consciência.

Como se a dinâmica política do conflito de classe devesse ser substituída pela vitimização dos excluídos à espera de solidariedade. Ou seja, da política revolucionária à política da vitimização.

Mensagens em uma garrafa

Tanto “Machuca” quanto “Diários de motocicleta” nos colocam diante da maneira com que queremos avaliar o legado de experiências centrais da esquerda latino-americana.

O primeiro insiste na perenidade das divisões nas sociedades do nosso continente, o segundo acaba involuntariamente pregando o evangelho da solidariedade entre as classes e da política de vitimização. Já “Peões”, de Eduardo Coutinho é sobretudo um raro filme sobre mobilização popular e suas conseqüências.

Seu foco principal é o destino de alguns protagonistas anônimos das grandes greves do ABC. Evento histórico singular porque, do ponto de vista de suas reivindicações, a greve foi um fracasso. Quase nada foi atendido e boa parte de seus organizadores foi demitida.

Seus empregos posteriores foram piores: taxistas, cobradores de ônibus, microempresários falidos. Quase todos falam com nostalgia do tempo da fábrica.

No entanto, deveríamos nos perguntar: o que faz um evento fracassado se transformar em um momento histórico maior da sociedade brasileira, com conseqüências atualmente decisivas?

De uma certa forma, Eduardo Coutinho colocou esta pergunta e permitiu que seus entrevistados a respondessem. O orgulho que todos ostentam, 25 anos depois, por terem participado das greves é expressão da perenidade das mudanças implicadas por um processo orgânico de mobilização popular.

O sentimento indestrutível de que pessoas sem nome e importância podem se transformar em legatários de uma aspiração de emancipação foi o que fez deste fracasso um sucesso do ponto de vista de suas conseqüências históricas.

Ilustrativo aqui é o depoimento de uma mãe que se diz triste por ter dedicado mais atenção ao sindicato do que aos filhos, mas que, ao final, afirma: "Eles entenderão".

Ou seja, eles entenderão que a educação mais valiosa foi dada. Pois ela diz respeito ao aprendizado de que os filhos daqueles que um dia foram sem nome são portadores de exigências republicanas.

Este legado da mobilização popular costuma ser como a razão, segundo Freud: uma voz que fala baixo, mas que nunca se cala.

Vladimir Safatle, é professor do departamento de filosofia da USP e encarregado de cursos no Colégio Internacional de Filosofia – Paris.

Trópico

Comentarios (2)Add Comment
DI Judith Wirthensohn
escrito por Visitante, 2005-03-26 00:22:49
Bonjour Vladimir,

depuis longtemps j'ai pas entendue quelque chose de toi. En 1998 (?) j'ai habit avec toi Sao Paulo, ce temps l頠 j'ai travaill chez l'architecte Bruno Padovano.Tu te souviens?

Ca va bien? Est-ce que tu es encore Paris? Une fois, j'ai essay頩 de te tlphoner, mais ca n'驩tais pas possible.

J'spre que tu vas bien et que tu peux me donner juste une reponse!


Salut Judith (+43 699 178888 43)
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o cu fede
escrito por justin tymberleyke, 2008-08-13 15:46:35
smilies/grin.gif smilies/cool.gif O cu fede principalmente quandu vc caga e naum limpa!!!!!!!! smilies/grin.gif smilies/cool.gif smilies/cool.gif

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