Em debates na Internet, tenho recebido mensagens de jovens que se orgulham de seu domínio precário do português e me picham como elitista. Dadas minhas considerações sobre o Supremo Apedeuta, acham que dele tenho inveja. Afinal, mesmo analfabeto, ele tem mais prestígio que eu.
Tais reações provam, definitivamente, que o efeito Lula está se propagando celeremente. Certamente não chegaremos a um regime tipo Pol Pot, onde até mesmo quem portava óculos era fuzilado, pois era suspeito de ler.
Mas o homem culto está em baixa e já é visto como uma ofensa a este governo.
Prova disto são as barbaridades proferidas durante o Fórum Social MUndial, reproduzidas pela imprensa como se fossem a mais pura expressão da verdade.
Abrindo o Fórum, disse o Supremo Apedeuta: "Alguns companheiros que nunca tiveram problema na vida e já têm sua vaga garantida nas boas universidades públicas federais são contra as bolsas do Prouni porque na verdade eles são contra pobre estudar, contra que pobre tenha acesso à universidade".
É a técnica clássica stalinista de argumentar, tão apreciada pelo PT, a de colocar argumentos fictícios na boca do adversário para melhor rebatê-los.
Quem neste Brasil é contra o acesso de pobres à universidade? Não conheço ninguém e duvido que o leitor conheça. Pior ainda: em sua dificuldade espantosa de raciocinar com lógica, Lula atribui esta vontade a "alguns companheiros".
Que companheiros? Supõe-se que os de seu partido, ou não seriam companheiros. Ora, duvido que algum petista, por mais polpotista que seja, seja contra o acesso dos pobres à universidade.
Logo adiante, garante: "Quando eu terminar o meu mandato, eu não vou para a França nem para os Estados Unidos fazer pós-graduação. Vou voltar para São Bernardo do Campo para conviver com meus companheiros metalúrgicos".
Não existirá nenhum assessor caridoso que explique ao bronco que sem graduação não se faz pós-graduação? Nenhum jornalista que denuncie este despautério?
Pelo contrário, já surgiu até uma tese para explicar a estrutura de raciocínio que sustenta os improvisos do Supremo. A este processo de argumentação, a professora Luciana Veiga, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, chama de "quase-lógica", como se lógica admitisse gradações.
Para a pesquisadora, "Lula consegue estabelecer acordos tácitos com o público sobre as premissas e pressupostos do discurso porque comunga com as crenças e valores de seus interlocutores".
Traduzindo em miúdos: a parolagem presidencial se justifica por ser de um nível de analfabetismo similar ao de seus interlocutores. Por ser analfabeto, Lula é genial.
Não sei se o leitor notou, mas estamos chegando àquela sociedade prevista por Orwell, em 1984, onde ignorância é sabedoria.
"Quando improvisa - prossegue a encomiasta de plantão - Lula não tem a pretensão de ser preciso, busca apenas chegar à consonância com o público, assim como se comporta o seu João na conversa corriqueira no balcão do bar ou a dona Maria no portão com a vizinha".
Ou seja, como o presidente da República não consegue ir além da prosódia do seu João ou da dona Maria, isto significa que não tem a pretensão de ser preciso.
Em seu socorro, a professora cita um estudioso inglês, Stephen Toulmin, para quem a linguagem comum não obedece aos ditames da lógica formal.
A quase-lógica do cotidiano da grande maioria seria sustentada em inferências e deduções similares a operações lógicas, mas sem valor formal, porque sua lógica não parte de premissas estabelecidas, "mas de raciocínios particulares elevados à condição de premissa". É o que nos conta a jornalista Dora Kramer, em sua coluna no Estado de São Paulo.
As palavras operam milagres. O que antes chamávamos sofisma, passou agora a ser quase-lógica. O que lembra um pouco a expressão quase-grávida, como se gravidez comportasse quases.
Em verdade, sem sequer saber o que é sofisma, o quase-lógico sofisma continuamente, por intuição. Seus "raciocínios particulares elevados à condição de premissa" muitas vezes sequer são sofismas, mas mentiras deslavadas, como os dados que avançou para gabar-se de sua gestão no Fórum Social Mundial.
Quando uma pesquisadora universitária se rebaixa a dourar a pílula para defender a estultice, temos de constatar que até mesmo a intelligentsia do país - melhor talvez dizer a burritsia acadêmica - se rendeu definitivamente ao poder do bronco.
Como a imprensa se rendeu ao poder de um outro quase-lógico congênere, que compareceu ao tal de Fórum para enriquecer o bestialógico já farto do rebotalho das esquerdas reunido em Porto Alegre, o coronel venezuelano Hugo Chávez. "Não há solução para a pobreza e a miséria no mundo do capitalismo, porque é o capitalismo que causa a miséria".
Aplausos de uma platéia juvenil, estúpida como todos os jovens que adoram embriagar-se de inverdades. Até parece que este senhor não leu os jornais da última década.
Talvez não tenha ouvido falar da queda do Muro de Berlim, que desnudou definitivamente a miséria - aliás, já conhecida - do mundo socialista e provocou a debandada em massa dos habitantes do paraíso socialista para o inferno capitalista tão abominado por Chávez.
Se o coronel olhasse para o norte, veria os felizes habitantes do paraíso cubano, arriscando a vida em balsas ou qualquer coisa que flutue, rumo ao inferno ianque. Espichasse o olhar mais um pouco ao norte ainda, e veria mexicanos e latinos e até mesmo brasileiros, arriscando morrer afogados em rios ou de sede no deserto, tentando também alcançar o inferno capitalista.
E se conseguisse enxergar um pouco mais longe, veria árabes, africanos, chineses, romenos e albaneses, morrendo de fome e sede em barcaças precárias ou morrendo sufocados em containeres, tentando encontrar um lugar ao sol no inferno capitalista europeu.
Que um insano profira insanidades é normal, isto faz parte de sua natureza. O que não é normal - e sim preocupante - é que uma juventude fanatizada o aplauda e o entronize como ícone a ser cultuado.
Mais preocupante ainda é ver uma imprensa que, com medo de ser estigmatizada pelas esquerdas, reproduz sem qualquer comentário tais premissas "quase-lógicas".
Mas o troféu maior deste campeonato de pérolas ao estilo do Enem não foi conquistado nem pelo Supremo Apedeuta nem pelo coronel de fancaria, e sim por um acadêmico, o professor Emir Sader.
O que pelo menos demonstra o que há muito já sabemos: a estupidez é universal e não respeita os limites dos campi. "Estamos na quinta edição do evento e não conseguimos impedir a guerra do Iraque" - disse o quase-lógico universitário.
Quer dizer então que o Fórum Social Mundial, este jamboree de maconheiros e utopistas desvairados, pretendia nada menos que impedir a guerra do Iraque?
Parece que esqueceram de enviar um comunicado oficial ao Bush. Mas como acontece com todo insano, Sader tem súbitos flashs de lucidez: "parece que nem existimos".
Enfim, um pingo de boa lógica.
Cristaldo é jornalista, escritor e tradutor e vive em São Paulo
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Sou americano, dos Estados Unidos da América. Comecei a estudar a língua portuguesa aos 18 anos, só 17 anos atrás. Apesar de passar pouco tempo na sala de aula aprendendo cheguei a ser totalmente fluente na fala e no escrito. Ninguém me tacha de ignorante. Aqueles que se orgulham de ter um domínio precário da língua portuguesa devem ser elogiados e não insultados pelo senhor. Por quê? Porque, pelo menos aqui nos EUA, muito poucas pessoas, relativamente, se interessam em estudar esta língua maravilhosa. As raras pessoas que tentam aprender português, uma língua muitos consideram difícil de aprender, precisam ser incentivadas e não desanimadas.
Agora, com relação aos seus comentários sobre o Lula, tenho muito a dizer. A grande maioria dos brasileiros é pobre, isto é um fato. Os pobres do Brasil, geralmente, também têm pouca escolarização. O Lula, quando dá palestras ao país todo, pode ser entendido bem pela maioria das pessoas justamente por causa da maneira em que ele se exprime. Assim, o povo se sente conectado a ele porque ele não está alienando o povo com "português difícil". O Lula, como a maioria dos brasileiros, já sofreu muito ao longo da sua vida. Agora na qualidade de presidente de um país de tantos pobres, ele está tentando ajudar a eles. Ser presidente de qualquer país não deve ser nada fácil. Apesar das boas intenções e corajosas tentativas de ajudar aos pobres, nem tudo que o Lula fizer surtirá o efeito desejado por ele. Portanto, como a maioria dos seus conterrâneos é pobre e o Lula está tentando ajudar aos pobres, acho que o senhor deveria dar apoio em vez de xingar. Xingar o presidente, mesmo que ele não tenha muita experiência política nem escolarização, não ajuda em nada. E, em comparação com outros presidentes do Brasil dos últimos 42 anos, o Lula tem um interêsse verdadeiro em ajudar aos pobres (devo repetir que os pobres são a maioria da população do país). Os presidentes durante a ditadura militar não se preocupavam tanto, muito menos Sarney, Collor, e FHC. O FHC, por sinal, era socialista e professor universitário de sociologia em vários países. Quando ele assumiu a presidência ele era bem capacitado para ajudar aos pobres. Em vez disso ele virou as costas no pobres, a maioria da população do país, e virou um safado capitalista. Graças a Deus o Brasil agora promoveu à presidência alguém que realmente quer aliviar um pouco da miséria dos seus conterrâneos. Então quando o senhor xinga os estrangeiros que estão tentando aprender uma língua difícil e quando o senhor xinga o seu próprio presidente, um homem que já passou por muita privação e dificultade e agora está tentando melhorar a situação nacional, o senhor mostra só a sua própria ignorância. Se quiser comentar, meu e-mail:
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