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Nos anos 70 e 80, poucos escutavam os que afirmavam que países como Irlanda, Coréia e Espanha deixariam o Brasil para trás, por causa dos seus investimentos em educação.
No Brasil, sucessivos governos mantiveram a velha crença de que a porta de entrada para a modernidade era a fábrica e a industrialização, e não a escola e a educação.
Aqueles países investiam nas duas coisas, mas enfatizando a educação, o Brasil também, mas favorecendo a indústria e a infra-estrutura.
Trinta anos depois, a infra-estrutura brasileira era superior à daqueles países, e sua educação vergonhosamente inferior. Agora eles já têm uma infra-estrutura melhor, mas com um povo educado, capaz de levar adiante seu projeto de modernização.
O Brasil perdeu a corrida para uma dezena de países que não estavam à nossa frente no começo dos anos 70. E está perdendo para um muito próximo.
O México, em dez anos, terá nos deixado para trás na corrida pela modernidade. E exibirá indicadores de educação e, conseqüentemente os demais, muito superiores aos brasileiros.
Isso é o resultado de um movimento nacional pela educação, que vem passando de um governo para outro, independentemente do partido dominante. Desde os governos anteriores ao presidente Vicente Fox, a educação vem sendo tratada como assunto federal.
O piso salarial dos professores, por exemplo, é pago pelo governo federal. Daí a força do sindicato nacional de professores, que têm um só patrão. Governos locais podem complementar os salários de seus professores, dependendo das finanças dos Estados ou municípios, mas a base maior dos salários é federal. Nenhum governo quis mudar essa política.
Em 1997, inspirado no programa do Distrito Federal e de em algumas cidades brasileiras, o presidente Zedillo adotou a bolsa-escola, pagando um valor decente às famílias, cerca de US$ 20 por criança, com um rigoroso controle da freqüência às aulas. Ao assumir o governo, o presidente Fox, que era de oposição, manteve o programa intacto.
Criou ainda um programa nos moldes do Poupança Escola, implantado no Distrito Federal na gestão de 95 a 98, que prevê um depósito anual em caderneta de poupança para a criança que for aprovada e se matricular na série seguinte, sendo o saldo retirado após a conclusão do ensino médio.
No dia 4 de janeiro, o presidente Fox sancionou uma lei que obriga o setor público mexicano a gastar no mínimo 8% do PIB com educação, quase o dobro do que o Brasil vai gastar este ano, 4,5%. Essa lei recebeu, na Câmara de Deputados, 373 votos a favor, um contra e uma abstenção.
É essa disposição de todos que coloca esses países à frente do Brasil. É a nossa falta de disposição para fazer da educação um vetor do nosso desenvolvimento e da qualidade de vida do nosso povo que nos deixa para trás. Com respeito a alguns países que eram iguais a nós, esse atraso já é definitivo.
Isso não se dá por falta de quem defenda a educação. Não se explica que o país de Paulo Freire, símbolo mundial da luta contra o analfabetismo, apresente um dos maiores índices de analfabetismo do mundo, ou que a escola básica do país de Anísio Teixeira enfrente situação tão vergonhosa, ou que a universidade do país de Darcy Ribeiro seja tão descomprometida com a causa da educação.
E ninguém entende porque um país que fez tamanha virada eleitoral à esquerda mantenha o rumo e a lentidão que vêm desde os anos 60, atrás do resto do mundo, aumentando essa brecha educacional e, conseqüentemente, perdendo a corrida para o futuro.
Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT com a maior votação dada a um político no Distrito Federal. Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de Educação da Unesco. Autor do livro "Admirável Mundo Atual". Você pode visitar sua homepage - http://www.cristovam.com.br e escrever-lhe em
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Oscar Araripe