A mensagem de paz para este ano de 2005 chega com uma sábia recomendação de S.Paulo, em sua carta aos Romanos: “Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem” (Rom 12,12).
Olhada como recomendação, a mensagem é clara, e de fácil aceitação. Diante do mal, que pode assumir inúmeras formas, nada melhor do que multiplicar o bem, e anular os efeitos do mal com uma superabundância de bem.
A inesperada situação do maremoto na Ásia, com suas terríveis conseqüências, parece trazer uma comprovação do teor desta mensagem. As gigantescas ondas que provocaram tantos desastres, suscitaram no mundo inteiro uma onda ainda maior de solidariedade. A maneira positiva de reagir diante do mal é fortalecer ainda mais o bem.
Mas a mensagem traz igualmente uma advertência, mais difícil de ser percebida. Diante da espontânea correlação que todos fazemos entre o bem e o mal, caímos facilmente na tentação de achar-nos plenamente identificados com o bem, e em contrapartida, achar que os outros, sobretudo os nossos desafetos, estão completamente do lado do mal. Assim, acabamos pensando que os bons somos nós, e os maus são os outros.
Esta presunção atinge sua dimensão trágica quando alguém, sobretudo se revestido de poder político e militar, se acha incumbido por Deus de combater o mal, que ele identifica com todos os que obstaculizam seus interesses e suas pretensões de dominação.
Assim acontecem trágicos equívocos, que a história de nosso tempo continua atestando.
Guerras iníquas, onde milhares de mortes ocorrem não por causas naturais, mas em conseqüência de decisões humanas comandadas pela ambição do lucro, pela vingança e pelo orgulho do poder.
Quanto mais perversos os objetivos, tanto maior a necessidade de justificá-los com alegadas motivações de aparente bondade. Chega-se a destruir um país, com a cândida alegação de torná-lo, finalmente, uma perfeita democracia.
Assim é que esta questão do bem e do mal exige uma reflexão mais em profundidade, para impedir que continue produzindo equívocos perversos.
Diz o Evangelho que um homem rico procurou Jesus, para lhe perguntar: “Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?”. Ao que Jesus logo lhe retrucou: “Por que me chamas bom? Só Deus é bom.” (Lc 18,18-19).
Esta afirmação de Cristo nos oferece uma baliza segura para situarmos adequadamente toda a complexa questão do bem e do mal. Esta sentença se constitui em verdadeira encruzilhada, onde se encontram e se conciliam tanto a dimensão ética, como a filosófica e a teológica do problema do bem e do mal.
A boa filosofia, e a boa teologia, concordam plenamente com esta verdade afirmada por Cristo. “Só Deus é bom”. Deus é o “sumo bem”, o “bem subsistente”, o “bem necessário”, o “bem indispensável”. Só Deus é a identificação plena do bem.
Deus é o bem pleno, eterno, completo. As criaturas participam, proporcionalmente à sua realidade, da bondade de Deus. Todo existente carrega um pouco de bondade.
E com isto, no rigor da lógica, excluímos que alguém seja totalmente mau, pois o mal não pode ser subsistente. Pois se assim o fosse, haveria dois subsistentes, dois eternos, dois imensos, o que resultaria absurdo.
Nem o “demônio”, que no imaginário popular é a expressão mais acabada do mal, pode ser entendido como pura essência do mal.
O bem é subsistente, o mal não. O bem tem direito de "cidadania ontológica". O mal não tem este direito, ele é só adveniente, ele precisa se alojar em quem lhe empresta abrigo ontológico, ele “in existe” nas criaturas que têm a capacidade de definir sua relação com o sumo bem, e precisam fazê-lo em sintonia com Deus, e não em contraposição ou em concorrência com ele. E este é o nosso desafio humano.
Se alguém se julga plenamente bom, usurpa a condição divina, e acaba se assemelhando a Lúcifer, o anjo que se tornou demônio porque pretendeu ser igual a Deus, como nos ensina a compreensão bíblica do bem e do mal.
E se alguém quer se encher de bens limitados, acaba fazendo deles uma concorrência com Deus. Somos feitos para abrigar a Deus, e não para locupletar nossa limitada existência com bugigangas que desfiguram nossa semelhança com Deus.
Ao homem rico que ainda queria a vida eterna, Jesus exatamente recomendou que distribuísse seus “bens” aos pobres.
Somos bons na medida que deixamos espaço para Deus, e fazemos dos bens que estão ao nosso alcance um gesto de bondade que nos assemelha à pura bondade que Deus teve em nos criar.
Se assim todos fizessem, haveria plena sintonia com Deus, e acabariam as guerras, que sempre são feitas para disputar a posse dos bens terrenos.
Dom Luiz Demétrio Valentini, é bispo Diocesano de Jales/SP. Natural de S.Valentim, Rio Grande do Sul. Foi membro da Comissão Episcopal de Pastoral da Conferência Nacional de Bispos Brasileiros (CNBB), responsável pelo Setor Pastoral Social. Foi Presidente da Cáritas Brasileira, e membro do Depto. de Pastoral Social do CELAM (1991-99). Como coordenador da Comissão de Ecologia participou da 4ª Conferência Episcopal Latino Americana, de Sto Domingos (1992). É membro da Comissão Permanente do Sínodo Especial da América, onde foi eleito membro permanente (1997). Você se comunica com ele pelo email:
Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso
|
A China invadiu e destruiu o Tibet para disputar bens terrenos?