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No Brasil, quando você topa uma discussão franca e
prova o seu ponto de vista honestamente, com fatos e lógica, o
resultado é invariável: a parte derrotada chama você de
intolerante.
Tolerância, no entender desse povo, não é abdicar da força
em favor da razão.
É abdicar da razão para não ferir o apego sentimental que o
interlocutor tem a opiniões insustentáveis. Mas, com toda a
evidência, o amor às próprias opiniões, a recusa de
submetê-las ao teste da lógica, é a definição mesma da
intolerância.
O que os brasileiros chamam de tolerância é a intolerância
imposta por meio da chantagem emocional que faz beicinho quando
contrariada por argumentos.
Só o que a distingue da intolerância totalitária são os
meios que emprega. Entre o beicinho e a guilhotina, a diferença
é de grau, não de substância. Tanto que do beicinho se passa,
com a maior facilidade, aos insultos e às ameaças de morte -
morte ao "intolerante".
Opiniões, neste país, não são hipóteses concebidas para
tentar descrever a realidade. São símbolos de uma personalidade
ideal, próteses psíquicas em que se amparam as identidades
pessoais vacilantes. São amuletos.
Desativar um deles pelo exame racional não é trocar uma
visão tosca da realidade por uma visão mais aprimorada: é
desfazer um encantamento protetor, é colocar uma alma em risco,
demolindo seus pilares de papelão. É, mais que um insulto, uma
agressão, um crime.
A resposta ao crime é a violência legítima: já houve quem
propusesse, em nome da tolerância, cortar minhas mãos, para que
não pudesse escrever, e minha língua, para que não pudesse
falar. E alardeava isso com a consciência limpa de quem, acuado
por perigo iminente, agisse em defesa própria.
Circulam pela internet inumeráveis mensagens, e não de braçais
semi-analfabetos, mas de estudantes e professores, que, tendo
lido meus artigos, perguntam aterrorizados: "Que faremos se
um dia ele chegar ao poder?"
Acreditam piamente que não sou um simples cidadão privado,
um estudioso sem ligações políticas empenhado em analisar e
compreender os fatos: sou um elemento - um "quadro",
como se dizia no velho Partidão - de um vasto esquema golpista,
fortemente subsidiado por grandes empresas, às vezes com algum
envolvimento direto da CIA e do Mossad, empenhado em trazer de
volta o regime militar ou mais provavelmente a teocracia
medieval, tão propícia, como se sabe, ao capitalismo moderno e
mais ainda aos judeus. Dito isso, acusam-me de disseminar teorias
conspiratórias.
Juntam-se às centenas para discutir os meios de me tirar de
circulação e se regozijam com o benefício que assim trariam à
democracia e à liberdade de pensamento. Fazem isso com a maior
seriedade.
Depois empilham sobre a minha pessoa densas camadas de
vitupérios - canalha, verme, fascista, porco, safado - e, com
idêntica convicção subjetiva, asseguram que não vai nisso
nenhuma hostilidade, apenas uma crítica serena às minhas
idéias.
Estaria eu exagerando ao ver nessa amostragem um sinal do estado
de enervamento psicótico e inconsciência febril em que se
encontram as classes alfabetizadas deste país, depois de
nutridas durante décadas com a ração da mais pura paranóia
comunista, terceiro-mundista e antiamericana?
* * *
Talvez tenhamos mesmo herdado dos portugueses aquela propensão,
assinalada neles pelo conde Keyserling, de tentar conciliar o
inconciliável e, evidentemente, dar sempre com os burros n'água
por isso mesmo.
Lula se acha apto para atuar de mediador entre Chávez e Uribe
porque está persuadido de que é os dois ao mesmo tempo. Não
deixa de ter razão.
Seu partido é leal às Farc e sua política econômica é
leal aos EUA. Seu governo se alimenta do agronegócio e o declara
o principal inimigo. Estufa as empresas com subsídios e as
esvazia por meio do fisco. Cospe nas Forças Armadas e tenta
seduzi-las para a estratégia continental da esquerda.
Getúlio Vargas também, segundo observou José Ortega y
Gasset, fazia política de esquerda com a mão direita e de
direita com a mão esquerda. Terminou, mui coerentemente, usando
a mão direita para dar um tiro no lado esquerdo do peito.
* Olavo de Carvalho, é Filósofo, Professor e
Jornalista, nascido em Campinas, Estado de São Paulo, em 29 de
abril de 1947. Tem sido saudado pela crítica como um dos mais
originais e audaciosos pensadores brasileiros. Professor de
filosofia e diretor do Seminário de Filosofia do Centro
Universitário da Cidade (RJ). Autor das obras "O Jardim das
Aflições" e "O Imbecil Coletivo: Atualidades
Inculturais Brasileiras". Editor do site Mídia Sem
Máscara.
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