|
Se todos desejarem ter o estilo de vida de
alto-consumo do Ocidente, o implacável crescimento no consumo,
no uso de energia, na produção de resíduos e emissão de gases
pode ser catastrófico. A natureza não agüentaria. Fazendo as
contas, seria preciso pelo menos mais 2 planetas Terra.
Para compreendermos melhor os conflitos no mundo onde vivemos é
interessante partirmos de premissas básicas, simples, insofismáveis
e que obedeçam as leis da física.
Uma delas afirma: tudo que temos ou que consumimos vem dos
recursos naturais do planeta Terra, os quais são finitos.
Exemplo simples: um automóvel é a mistura de bauxita (alumínio),
minério de ferro (chapas), areia (vidros) e petróleo (borrachas
e plásticos).
Para o homem
produzir riquezas, desde tijolos, tecidos, computadores, até aviões
e satélites, necessita de recursos naturais, somados à energia,
trabalho e tecnologia, que é sinônimo de conhecimento. Não há
alternativa, todo crescimento econômico agride a natureza porque
extrai os recursos naturais que serão transformados em riquezas.
Quando todos têm acesso ao consumo de riquezas comida,
medicamentos, eletrodomésticos, livros, moradia, automóveis
etc. acabam-se os chamados problemas sociais, os quais, na
realidade, são problemas econômicos e, por isso, não podem ser
erradicados com filantropia.
Naturalmente, o padrão de vida das sociedades fica limitado
pela disponibilidade desses recursos, pela capacidade de
transformá-los em riquezas e pelos custos dos impactos
ambientais.
Até a quantidade de fotossíntese, necessária à produção
de comida, é limitada pela densidade de potência de 1370 watts
por metro quadrado que o sol fornece ao planeta. Não adianta
querer mais energia, o sol não atende.
Sobre o assunto, é interessante reproduzirmos o que afirma a
prestigiosa Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos www.newdream.org:
"Existem boas razões para nos preocuparmos com os
impactos ambientais provocados por 5 bilhões de pessoas
consumindo ao nível dos países desenvolvidos da Europa e América
do Norte.Devido as altas taxas de crescimento econômico em
muitas partes do mundo, bem como a rápida propagação de meios
eletrônicos, publicidade e bens de consumo, nós devemos
questionar que espécie de consumo futuro podemos esperar em áreas
que agora estão restritas à pobreza e ao isolamento. Se todos
desejarem ter o estilo de vida de alto-consumo do Ocidente, o
implacável crescimento no consumo, no uso de energia, na produção
de resíduos e emissão de gases pode ser catastrófico."
Por que seria catastrófico?
Vejamos: os Estados Unidos, com 300 milhões de habitantes, 5%
da população mundial, consomem cerca de um terço dos recursos
naturais do planeta Terra, que tem 6,3 bilhões de pessoas.
Por isso os americanos são ricos, porque produzem ou importam
riquezas, as quais, naturalmente, têm origem na mamãe Terra;
nada vem da Lua ou de Marte.
Partindo desses dados concluímos matematicamente [*] algo
surrealista: caso quiséssemos que todo habitante do planeta
Terra passasse a ter o mesmo padrão de vida do homem americano,
deveríamos multiplicar o atual consumo de recursos naturais por
sete.
Isto é, em média, sete vezes mais petróleo, sete vezes mais
minérios, sete vezes mais energia, sete vezes mais comida, sete
vezes mais água limpa e, naturalmente, sete vezes mais lixo,
efeito estufa, poluição e outros impactos ambientais!
A pergunta é: a natureza agüenta?
Os ecologistas e estudiosos têm respondido com um sonoro não!
Precisaríamos de pelo menos dois planetas Terra.
Somando a tudo isso o egoísmo inerente aos humanos, concluímos
a receita elementar que rege as relações internacionais:
"farinha pouca, meu pirão primeiro!"
Ou seja, devido às limitações físicas do planeta nem todos
podem ser ricos. Por isso, é necessário manter o status quo
entre as nações, abortar as tentativas de crescimento dos países
pobres através de receituários recessivos, diminuir o padrão
de consumo dos remediados e, quando muito, manter os miseráveis
na linha mínima de sobrevivência.
Além disso, deve-se continuar as exportações para os países
desenvolvidos de riquezas e recursos naturais, incluindo a
energia.
"Exportar é o que importa!" Lembram-se? Agora fica
fácil compreender porque muitos brasileiros trabalham duro e não
têm acesso nem ao consumo básico.
A recessão, argentina ou brasileira, por exemplo, significa o
quê? Desemprego, é claro, porque o desempregado come menos,
consome menos.
Taxar aposentado também é condená-lo a consumir menos. Mas,
menos em favor de quem, cara pálida?
Bem-estar só para poucos, esta é a lógica da globalização,
da internacionalização das economias, das privatizações, do
enfraquecimento do estado, da criação de agências nacionais
que se curvam às concessionárias, das altas taxas de juros que
mantêm a recessão e o desemprego, do controle de 70% do nosso
PIB por estrangeiros e das chamadas reformas, inclusive a da
previdência.
Tudo se resume ao controle do consumo e à transferência
assimétrica de recursos. Não é à toa que o FMI tem elogiado
programas assistencialistas e governos que submetem o povo a
essas políticas das trevas.
Peço licença a Marx para enfatizar que a luta básica das
sociedades não é simplesmente a luta de classes, mas sim a luta
pelo acesso às riquezas, que agora está limitada por fatores
ecológicos.
É melhor falar assim, porque essa assertiva nos leva à busca
do conhecimento necessário à produção, ou seja, nos leva ao
desenvolvimento, enquanto o termo luta de classes pode nos
induzir apenas à expropriação. Mesmo assim, é difícil
convencer um rico a reduzir o seu alto padrão de consumo. É por
isso que os Estados Unidos recusaram-se a assinar o protocolo de
Quioto que limitava a emissão de poluentes causadores do efeito
estufa.
Na mesma linha, podemos compreender que a ocupação do Iraque
foi para ajudar a manter o elevado estilo de vida americano,
dependente do petróleo, e defender o padrão dólar que dá aos
Estados Unidos a primazia de trocar papel pintado (moeda) por
mercadorias.
O maior desafio de um governo responsável é encontrar os
caminhos do desenvolvimento sustentável, que faça a economia
crescer sem exaurir de forma irreversível os nossos recursos
naturais.
Junto a isso, é necessário romper com as amarras
internacionais que nos impõem o atraso e o subdesenvolvimento
como estilo de vida. O brasileiro não merece ficar toda uma
existência apertando o cinto. Nem precisamos esbanjar, mas seria
mais humano se a maioria vivesse melhor. A felicidade aumentaria
e até a criminalidade iria despencar.
[*] Demonstração matemática:
Seja R o consumo de recursos naturais no mundo atual
(grandezas não homogêneas). Os Estados Unidos consomem R/3.
Consumo per capita do homem do mundo: R/6,3bilhões;
Consumo per capita do homem americano: (R/3)/300milhões;
Seja M o número que devemos multiplicar o atual consumo per
capita do homem do mundo para que este se iguale ao do homem
americano.
M(R/6,3bilhões) = (R/3)/300milhões Simplificando R, obtemos
M=7.
* Weber Figueiredo, ex-presidente da Superintendência
Estadual de Rios e Lagoas-RJ (Serla), é professor de Engenharia
da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e do Centro
Federal de Educação Tecnológica (Cefet-RJ).
agência carta maior
|