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Há uma nova configuração espacial no Brasil. O rural hoje está sendo invadido por urbanitas*. Longe de ser um universo à parte, o mundo rural é hoje cruzado pelos embates da sociedade brasileira contemporânea.
O envelhecimento da população brasileira impõe
novos desafios. Quais seriam os mais relevantes?
Elza Berquó Em primeiro lugar, o
envelhecimento é mais feminino. Porque são as mulheres que
vivem mais e, em geral, não estão na companhia de um marido ou
companheiro nessa fase mais adiantada da vida. Acredito que é
preciso levar em conta que o envelhecimento não tem conotações
e conseqüências iguais para homens e mulheres.
As mulheres devem ser levadas em conta inclusive em políticas
públicas, porque elas vão viver durante muitos e muitos anos. A
diferença da expectativa de vida hoje em dia é de sete anos.
Os homens, como reciclam as suas mulheres, estão na maioria das
vezes na companhia de mulheres, quando chegam à velhice; e essas
companheiras são mais jovens do que eles. Os homens, portanto,
terão, na velhice mais avançada, quem cuide deles, ao contrário
das mulheres.
Acho que esse é um elemento importante na visão do
envelhecimento. Quando falo em políticas públicas, não estou
me referindo apenas à saúde. Falo também na questão da habitação,
do aumento da renda, enfim, políticas sociais que levem em conta
que há uma vulnerabilidade própria da mulher ao envelhecer.
José
Marcos Pinto da Cunha São vários desafios, mas
antes gostaria de dar uma relativizada quando o demógrafo fala
em processo de envelhecimento. Isso não quer dizer que o Brasil
está ficando velho, mas sim que o país está deixando de ser
uma população de muitos jovens.
Nossa pirâmide está numa tendência de reduzir sua base,
formada por crianças e jovens até 14 anos, que está perdendo
peso. Com isso, o grupo mais velho ganha peso relativo. Na
verdade, a população está deixando de ser menos jovem. Mas,
hoje, a maioria da população brasileira está na faixa de
adultos jovens.
De qualquer forma, a população idosa no Brasil é a que mais
cresce. Sua taxa de crescimento está em cerca de 6% a 7% ao ano,
enquanto a população total cresce a 1,6%.
Acho que a questão do envelhecimento por si só deveria ser
colocada sempre. A atenção ao idoso não deveria ser uma
preocupação apenas porque a população agora está
envelhecendo.
Por outro lado, o aumento da longevidade e a redução da população
mais jovem acabam gerando um conjunto de desafios. Nós estamos
com aquilo que os demógrafos chamam de janela de oportunidades.
Uma delas é que se pode começar a pensar com mais força na
questão do idoso. Os desafios serão, sobretudo, em termos de médio
e longo prazos.
No longo prazo, a questão é reduzir muito a relação entre
a população ativa e inativa, que é o que acontece hoje nos países
europeus. Eles estão enfrentando um problema sério.
A Espanha e a Itália, por exemplo, estão com a pirâmide
praticamente invertida. Isso tem implicações seriíssimas no
mercado de trabalho.
A relação de dependência econômica está tomando números
complicados, o que já implica a crise da previdência, como se
discute, por exemplo, na França.
O país envelhecendo no longo prazo significa que vamos ter
problemas graves, como a Previdência, a questão do mercado de
trabalho e uma terceira questão, que considero a mais
importante, que é a atenção à saúde do idoso, que é muito
mais complexa e muito mais cara.
É muito mais difícil você trabalhar com a saúde do idoso
do que você controlar uma doença infecciosa. Isso vai exigir um
grau de investimento muito mais forte, e não sei se o Brasil está
preparado.
Sem contar os desafios sociais. Não sei se o Brasil está
preparado para acolher o idoso da maneira que precisa ser
acolhida.
Não só em termos da aposentadoria, mas também no que diz
respeito a espaços possíveis para que ele continue se
integrando, inclusive no mercado de trabalho.
Há, sim, desafios, mas não mais importantes daqueles que tínhamos
no passado. Os focos é que são diferentes. Nossas preocupações
de hoje não serão a do futuro.
Espera-se, por exemplo, que, em 2025, a população idosa vá
responder por 15% da população brasileira, que deverá ser de
250 milhões. Trata-se de um número importante. Devemos ficar
atentos para as experiências dos países europeus, que estão
entrando em crise.
Hoje, eles precisam fazer o que Elza Berquó chama de transfusão
demográfica, por conta do déficit de mão-de-obra.
Eles estão desesperados, já que as mulheres não querem mais
ter filhos. Isso significa que a base da pirâmide deixa de ser
preenchida.
Nos anos 70, o êxodo rural ganhou destaque e,
hoje, o tema está na berlinda com novos contornos.A dicotomia
urbano/rural passou a ser objeto de estudo em diversas áreas. Dá
para dimensionar a importância do tema, dizer quais são as
novas características das relações entre o urbano e o rural e
no que elas colaboram para o desenvolvimento do país?
Elza Berquó Sinceramente, acredito que
houve uma melhoria das condições de vida da população idosa
que vive na área rural. Hoje em dia eles têm um salário, que
serve de elemento inclusive para nuclear a família em torno
dessa pessoa idosa que tem esse salário todo mês.
Este é um elemento que faz com que você mantenha na área
rural uma população também envelhecida.
Agora, quando a gente pensa na questão da fecundidade, temos
uma fecundidade bastante diferencial na área rural. Está
diminuindo, mas ainda é elevada. Essa também é uma questão
que não se pode deixar de levar em conta.
Não há dúvida de que esse movimento campo-cidade foi se
acentuando com a falta de opções. Entretanto, acredito que, com
a produção familiar, com o agronegócio, o rural continuará
tendo o seu papel e merece realmente a atenção do governo.
Por outro lado, o rural que se tem hoje não é a mesma coisa
do rural de antigamente. São muitas as atividades que acontecem
no rural, mas que não são rurais.
Até para efeitos comparativos, é preciso interpretar o
significado desse corte, que vem mudando.
José Eli da Veiga A primeira coisa que a
gente precisa discutir é a própria expressão êxodo rural. Na
verdade, o que houve nos anos 70 foi um êxodo agrícola.
Muita gente saiu da agricultura e, portanto, migrou. Mas é
discutível a maneira como se entende a migração rural urbana,
porque no Brasil existe uma maneira de classificar o que é rural
e urbano que é a única no mundo e é absurda.
Por exemplo: a migração para regiões metropolitanas ou até
para aglomerações não-metropolitanas, ou para centros urbanos
(como é o caso de Piracicaba, que é uma cidade que se urbanizou
sozinha e está cercada de rural), pode ser vista como êxodo
rural.
Agora, se contabilizou muito também quem, por exemplo, saiu
do sítio e foi morar na sede de um município com 10 mil
habitantes. Isso foi contado como êxodo rural. Isso simplesmente
é um despautério. Essa é a questão central. Portanto, não se
trata tanto de se discutir as relações urbano-rural de outra
forma.
Significa, sobretudo, esclarecer a população brasileira,
particularmente o pessoal mais informado, de que há uma deformação
na maneira como se contabiliza o urbano e o rural no Brasil. Não
vejo como você pode planificar o desenvolvimento tendo uma idéia
falsa sobre o país.
A maneira de se calcular o grau de urbanização originou-se numa
norma legal de um decreto lei de Getúlio Vargas, de 1938. Ele já
era obsoleto quando foi criado. Só que o equívoco, na época,
era compreensível. Por quê? No Brasil, até a república, tinha
uma regra muito clara do que era a cidade, do era a vila, etc.
Era uma regra semelhante à de Portugal, por causa do império.
Com a república, houve uma espécie de liberdade. Cada estado
começou a ter uma regra, começou a ficar meio confuso.
Nada melhor para pôr essas coisas em ordem do que uma boa
ditadura... Não tem discussão, o sujeito baixa um decreto-lei,
define, pronto e acabou. Na ocasião, era necessária uma regra
geral para o país todo, até porque, inclusive, havia sido na época
criado o IBGE.
O censo demográfico de 1940 estava para ser feito; ou se
tinha uma coisa bem clara ou ia dar confusão. Dá até para
entender.
Por que a regra foi tão simplista? Eles imaginaram que, em
todos os municípios que existiam na época, as sedes seriam
cidades. É um equívoco natural. Agora, depois disso, em 1950,
em 1960, esse negócio começou a ficar absurdo.
E, mais recentemente, ficou mais ainda com a criação de um número
imenso de municípios o Brasil tem 5.562. Se você
considerar que a sede de todos esses municípios são cidades, e
que as sedes dos distritos desses municípios são vilas, é uma
negócio completamente maluco.
Acho então que essa é uma questão central. Não vejo como nós
podemos planejar o desenvolvimento e, sobretudo, formular boas
políticas públicas, em geral, com uma visão tão deformada do
Brasil.
O que mais se repete, quase todo o dia ouço alguém falar ou
escrever isso, é que o Brasil seria 82% urbano. Esse cálculo é
maluco.
José Marcos Pinto da Cunha Há quase um
consenso de que a dicotomia urbano/rural tenha se esgotado. Ela não
dá mais conta de você captar todas as especificidades em termos
de assentamentos humanos.
No caso do Brasil, é muito difícil você falar num único
urbano e num único rural. Se for pensar do ponto de vista de
forma de reprodução social, a gente sabe que são diferentes
nesses contextos, seja lá como chamemos de urbano, rural,
semi-urbano, suburbano, rural de extensão, etc.
Sabemos que há significativas diferenças e nesse sentido é
importante que a gente discuta os assentamentos humanos até para
pensar em políticas de desenvolvimento e em ações de políticas
públicas, sem desprezar as vocações regionais.
Pensar e discutir isso vai muito além do que uma simples
discussão acadêmica. Dentro desse contínuo entre o rural e o
urbano, existem várias situações.
Mesmo para categorias parecidas, encontraremos uma diversidade
enorme. O urbano rural paulista certamente é muito diferente do
rural do Mato Grosso ou da Amazônia.
O importante é entender um pouco melhor o que a dicotomia não
ajuda a perceber, sobretudo porque vemos esses dois espaços se
inter-relacionando e, digamos, entrando um no outro.
Há trabalhos, por exemplo, que mostram que atividades não-agrícolas
estão sendo desenvolvidas no rural, porque novas preferências vão
surgindo.
Os urbanitas começam a buscar as zonas rurais para morar.
Observamos o mesmo fenômeno do ponto de vista do rural. As condições
para a agricultura familiar do pequeno proprietário não são
nada satisfatórias para poder dar condições para a pessoa
permanecer lá.
Acabamos encontrando então um movimento pendular, de pessoas que
têm a terra, mas que precisam ficar na cidade uma parte do tempo
para poder conseguir algum tipo de subsistência. Essas duas
realidades estão cada vez mais interligadas.
Acho que isso abre espaço para muitas discussões. Esse foi
inclusive um dos objetivos do seminário [Transdisciplinar
Espaço e População].
Há uma nova configuração espacial no Brasil. O rural hoje está
sendo invadido por urbanitas. Entretanto, há uma discussão que
é de caráter mais estatístico-administrativo que é o fato de
todo município, toda unidade administrativa precisar ter uma
população urbana, por menor que seja. Alguns defendem que as
configurações precisam ser redefinidas, até porque acreditam
que há uma sobreaglomeração do urbano no Brasil.
Concordo em certo sentido com essa visão, mas também há que se
pensar que, para definir o urbano/rural, não basta pensar apenas
em critérios estatísticos, de volumes ou de densidade. Há que
se pensar também em funções. Acho que num lugar longínquo da
Amazônia pode haver centros urbanos pequenos, mas que de fato
exercem funções urbanas.
No Brasil, a classificação estatística do urbano/rural é
administrativa. É o prefeito que determina qual o perímetro
urbano. Você tem cidades que não mudam seu perímetro urbano
durante anos. Isso pode gerar falácias estatísticas.
Você pode achar que está crescendo o rural, mas é
simplesmente uma expansão urbana. Isso acontece muito claramente
no estado de São Paulo, nas regiões metropolitanas de Campinas
e São Paulo, por exemplo. O rural cresce nessas regiões, mas é
um rural falso. Trata-se de uma expansão urbana e, por
algum motivo, essa área não foi reclassificada.
Essa informação pode ser falaciosa e pode levar a conclusões
errôneas. Da mesma forma, pode levar a equívocos o fato de se
pensar soluções únicas para um rural que é essencialmente
heterogêneo. Estou convencido que a agricultura familiar é uma
saída importante para milhões de brasileiros. É a forma como
eles podem se manter.
A gente vê que a agricultura familiar está cada dia mais se
esvaindo, diminuindo. O Mato Grosso, que é uma área que foi
colonizada nesses termos, hoje é uma das regiões que menos têm
agricultura familiar no Brasil.
As implicações são claras em virtude do volume migratório,
que chamo de sustentabilidade demográfica. No MT, o poder de
incorporação das pessoas que vêm do rural é muita pequena. A
atividade agrária exige cada vez mais espaço.
A concentração da terra no Brasil também é algo
impressionante. Acho que são elementos que, quando enfocada a
questão do rural e do urbano, mostram o quanto é importante
pensar em estratégias de desenvolvimento e de inclusão. É
preciso que seja mais bem definido do ponto de vista demográfico
o tamanho do problema. A compreensão precisa ser clara e
fidedigna.
Acho que o IBGE avançou nos últimos censos ao desagregar um
pouco melhor a questão do rural. Há uma categoria, por exemplo,
que se chama rural de expansão urbana. É claramente
uma ocupação de tipo urbana. Trata-se de uma discussão ampla e
que permite várias leituras. Está em pauta não só no Brasil,
como também na comunidade acadêmica internacional.
Nazareth Wanderley O ponto de partida
parece evidente: a referência ao mundo rural é pertinente para
a apreensão das dimensões significativas da sociedade
brasileira na medida em que ele é percebido em suas
particularidades e através de diversos laços de integração
com a sociedade desenvolvida.
Questões centrais em debate hoje na sociedade brasileira, tais
como a pobreza, a cidadania, os direitos, a segurança alimentar,
a propriedade, as novas faces do trabalho, perpassam de alguma
forma o mundo rural.
Longe de ser um universo à parte, o mundo rural é hoje
cruzado pelos embates da sociedade brasileira contemporânea e
constantemente atualizado a partir da presença de redes, de
movimentos e organizações sociais, locais, nacionais e
internacionais, que estimulam a circulação em mão dupla dos
temas globais ao plano local.
Defendo, e não estou sozinha nessa posição, que o mundo rural
é uma qualidade para a sociedade. Desenvolver o rural é a
preservação dessa qualidade. Esse debate não está apenas no
Brasil, é fortíssimo no mundo todo. No Brasil, aliás, é uma
discussão bem diluída. Justamente porque há uma visão do meio
rural como um espaço da grande máquina, dos 100 milhões de
toneladas.
Em grandes extensões, você só vê o dono das máquinas é o
veterinário. Não tem gente naquele lugar, então não tem
problema ambiental, não tem problema social, não tem problema
da terra. É uma falsa imagem.
Ao contrário do verificado no Brasil, a
demografia ocupa um papel central nos países desenvolvidos. Por
que isso não ocorre no país e em que áreas os estudos demográficos
poderiam servir ou servem de ferramenta no que diz
respeito às políticas públicas?
Elza Berquó Depois da Conferência do
Cairo, que aconteceu em 1994, o governo FHC criou a Comissão
Nacional de População e Desenvolvimento, que hoje em dia é um
órgão colegiado do Ministério do Planejamento. É formada por
dez integrantes de ministérios e por oito membros da sociedade
civil.
Qual é a finalidade dessa comissão, que presido há nove
anos? É exatamente ser um elemento para trazer ou levar, para os
ministérios, através do debate e do levantamento de questões e
metas, a importância que representa o binômio população e
desenvolvimento na formulação, no monitoramento e na avaliação
de políticas públicas.
Isso existe no Brasil. Essa comissão é também um órgão
importante na relação do Itamaraty com os outros países.
Quando chega uma solicitação das Nações Unidas, essa comissão
é ouvida, esses 18 membros opinam, e o Itamaraty dá o
encaminhamento de acordo com essas opiniões.
Por outro lado, o desenvolvimento da demografia no Brasil é
muito mais recente do que a registrada em outros países.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a demografia no século 20 se
desenvolveu muito, mas atrelada aos recursos que foram colocados
nas melhores universidades americanas, que por sua vez,
promoveram estudos nos países em desenvolvimento. O objetivo era
o controle da natalidade.
Esse papel foi muito criticado na América Latina, inclusive
temos trabalhos sobre isso. Essas coisas macularam um pouco a
imagem da demografia.
O demógrafo caminha sobre o fio da navalha, já que todos os
conhecimentos, decisões e atividades são políticos. Tudo tem
conseqüências políticas. Além disso, a demografia tem uma
herança perversa.
Por quê? Sua herança é puritana, controlista e eugênica.
Levou muito tempo para que se pudesse dar a volta por cima.
Demorou, como costumo dizer, para que deixasse cair os véus e
para que realmente a parte importante da demografia viesse à
tona e pudesse ser utilizada da melhor maneira possível.
Os programas de pós-graduação são recentes. Tivemos no Brasil
um período de silêncio de informação demográfica, que foi de
1960 a 1980.
Quando o governo militar assumiu, esse censo de 1960 só foi
divulgado em 1978 e, assim mesmo, incompleto, como o é até
hoje. Ficamos quase 20 anos sem informações sobre a situação
do Brasil. Isso fez com quem trabalhava nessa área ficasse sem
matéria-prima para fazer estudos e análises.
O caso da população negra no Brasil é emblemático. O censo de
1970 foi realizado, mas também só foi publicado lá para
frente. O governo militar eliminou a informação sobre cor, sob
a alegação de que isso era preconceituoso. Nós ficamos 20 anos
sem informação sobre a população negra no Brasil.
Fomos dar conta, em 1980, que 45% da população do Brasil era
auto-declarada negra. Portanto, ela tem um poder de luta política
que nem ela sabia que tinha. Isso veio de análise demográfica.
O reconhecimento foi tardio porque a disciplina só se
desenvolveu no Brasil muito mais tarde. Tudo foi desmantelado na
ditadura militar. O surgimento do Nepo, que tenho a honra de ter
criado, ocorreu em 1982.
A Unicamp abrigou-o depois de a USP ter perdido a oportunidade
de ter um curso de pós-graduação em demografia. E continua até
hoje sem ter o curso.
Os centros de demografia foram criados nesses períodos. O
Cedeplar (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional/UFMG)
surgiu um pouco antes. Um outro fato que acho diferente é que
cada grupo que se forma tem a marca do grupo que o criou. No
Cedeplar, o foco sempre foi a economia.
O nosso grupo do Nepo tem um peso grande na área de matemática,
estatística e sociologia. E a Ence (Escola Nacional de Ciências
Estatísticas/RJ), que é uma pós-graduação ligada ao IBGE, e
é de um certa forma uma escola de governo, nasceu com essa vocação.
Acho superinteressante que nós tenhamos essa diversidade.
Acho que há mercado para demógrafos, tanto que a procura é
grande para a pós-graduação.
José Eli da Veiga A pergunta está
totalmente certa. Quando a gente vê o grau de detalhes que os
estudos demográficos têm por exemplo na França, na Inglaterra
e nos Estados Unidos, é de impressionar como se despreza o
assunto aqui.
Nós temos bons demógrafos e bons bancos de dados. No caso do
Estado de São Paulo, por exemplo, é impressionante o que se tem
de dados bons, precisos e completos.
A demografia poderia servir de ferramenta, sim. Vou dar um
exemplo bem claro. Hoje existe uma grande discussão no país
sobre se faz sentido que esses municípios pequenos tenham câmaras
municipais, que ficam hoje com 6% do orçamento do município.
De tudo que o governo federal transfere para os municípios
6% vai para a câmara. Tem gente que diz que esse é um
dos principais mecanismos de concentração de renda no Brasil.
Tem um monte de gente que vive nesses municípios, que fica
escandalizada com os salários dos vereadores, e assim por
diante.
No fundo, trata-se da grande questão da relação dos três níveis
da Federação. Como a Constituição não foi regulamentada e o
Brasil é sui generis nesse sentido, de ter uma federação
tripartite, há todo um leque de discussões sobre como é que se
dá a relação entre municípios, estado e governo federal.
Trata-se de uma questão muito complicada. Os municípios
vivem normalmente de transferências através dos fundos de
participação, do Fundef, e de outros mecanismos.
Muitos desses municípios, e aí não importa se eles foram
criados recentemente ou não, estão perdendo população. É
discutível que eles devam continuar existindo.
Deveria ter alguma fórmula que permitisse a fusão de municípios,
por exemplo. Toda a discussão sobre federalismo implica um bom
conhecimento das migrações, etc, até para que se possa
formular alguma regra em relação a isso.
Estive recentemente no México, por exemplo, e a maneira como
eles lidam com essas estatísticas demográficas é muito
diferente. Especialistas fizeram um cálculo que, por exemplo, não
existe no Brasil. Calcularam todas as transferências de recursos
destinados ao rural. Depois, fizeram um cálculo inteligente da
população rural, baseado em critérios modernos.
A partir daí, foi feita uma comparação para ver se era
equivalente o conjunto que as políticas governamentais
transferiam para o México rural e qual era o peso demográfico
do México rural. No Brasil, não dá para fazer isso. Nem sequer
sabemos o que é rural ou não.
José Marcos Pinto da Cunha De fato, é
essa a leitura. A demografia em outros países tem um papel
importante, até porque muita gente sabe o que significa o ser
demógrafo. Nos Estados Unidos, a quantidade de universidades que
têm curso de demografia é impressionante.
No Brasil, temos apenas três grupos de programas de
demografia, que sempre foi um recorte de pós-graduação, já
que não é uma disciplina de graduação em nenhum lugar do
mundo.
Nos últimos cinco anos, entretanto, a demografia tem ganhado um
peso importante. Sinto que tem sido reconhecida como uma
disciplina importante, tanto que projetos de EIA-Rima têm
explicitadas as participações dos demógrafos. Esse crescimento
é uma coisa de retroalimentação.
A comunidade demógrafa foi crescendo, e a possibilidade e a
capacidade de trabalho também.
Como o demógrafo trabalha com um objeto que é nitidamente
social, sua capacidade de agregar várias disciplinas é grande.
Então são médicos-demógrafos, economistas-demógrafos, sociólogos-demógrafos,
e assim por diante.
Existe uma preocupação de entender os fenômenos e de
devolver à academia e ao poder público suas interpretações.
Estamos crescendo muito nesse sentido.
Sinto que os planejadores, em particular a administração pública,
vêem que o demógrafo trabalha de uma forma que eles precisam.
Quando se fala em população, em crescimento demográfico,
estamos falando de demandas. Sou otimista com relação ao futuro
da demografia. Por outro lado, o demógrafo ainda está acomodado
na coisa pública.
São poucos os casos de profissionais atuando na área
privada. Isso preocupa um pouco porque diminui o campo de atuação.
A função do demógrafo vai muito mais além do que falar qual
é a população brasileira. Isso precisa ser entendido. A
demografia avançou muito em várias áreas, dialoga com a
antropologia, a medicina, a economia, etc.
Sua abrangência está crescendo.
Nazareth Wanderley Não me parece
evidente que os estudos demográficos no Brasil sejam tão
relegados. Tenho impressão que há um crescente interesse pelos
estudos populacionais.
A demógrafa Elza Berquó é
fundadora do Núcleo de Estudos da População (Nepo) da
Unicamp, onde coordena o Programa de Saúde Reprodutiva e
Sexualidade. Coordena a Área de População e Sociedade
do Cebrap e é presidente da Comissão Nacional de População
e Desenvolvimento (CNPD).

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José Eli da Veiga
é professor titular da Faculdade de Economia e
Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP).
É autor dos livros Cidades Imaginárias ( Editora
Autores Associados, 2002) e A Face Rural do
Desenvolvimento (Editora da Universidade, 2002)

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José Marcos Pinto da Cunha
é coordenador e pesquisador do Núcleo de Estudos da
População (Nepo) da Unicamp. É docente dos cursos de
graduação e pós-graduação
do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da
Unicamp. Desenvolve pesquisas sobre migração e
redistribuição espacial
da população.

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Nazareth Wanderley
é doutora em sociologia pela Universidade de Paris X.
Foi professora de sociologia rural durante 20 anos no
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da
Unicamp. É professora colaboradora do programa de pós-graduação
em sociologia da Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE). Desenvolve pesquisas sobre o mundo rural e
agricultura familiar.

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jn unicamp
(*) Link: Os Urbanitas
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porque isso iria ajudar muito.