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A cientista social Angelita Matos Souza: No
Brasil, não vemos a fusão do capital financeiro com o capital
produtivo . Como se fosse filme, pesquisadora conta porque
o Brasil brilha pouco no cenário capitalista mundial.
Deus e o diabo na terra do sol
Brasil montou o parque industrial mais integrado da América
Latina, mas não conquistou melhor inserção na estrutura
capitalista mundial, como fizeram outros países de capitalismo
tardio, caso da Coréia do Sul.
Por que?
Angelita Matos Souza, cientista social e cinéfila,
apresenta respostas em sua tese de doutorado em Economia
Aplicada, sob o sugestivo título de Deus e o diabo na terra do
sol (leitura política de um capitalismo tardio).
A paixão pelo cinema levou a autora a atenuar o tom
obrigatoriamente acadêmico também no decorrer dos capítulos,
relacionando episódios do processo de desenvolvimento do país
com filmes de sucesso, como será visto a seguir.
Para compreender porque o processo de industrialização
brasileiro não tirou o país da lista das nações periféricas
e dependentes, Angelita Souza voltou a fita até o início do
processo de industrialização com Getúlio Vargas, nos anos
1930, revendo-a até a parte protagonizada pelos presidentes
militares, com ênfase no governo Geisel.
Em foco, o Estado e seu papel no sonho da modernização,
completando-se o tripé com o capital nacional e o capital
estrangeiro.
O Estado brasileiro foi ao mesmo tempo deus e diabo.
Deus, porque sempre foi visto como onipotente, dotado de força
transformadora, capaz de induzir e conduzir o processo de
desenvolvimento. Diabo, porque sua presença acentuada na
economia bloqueou a formação de uma burguesia empreendedora,
dando lugar a um empresariado avesso ao risco e dependente dos
governos, afirma.
Angelita Souza observa que esse Estado forte,
contraditoriamente, mostrou-se fraco no enfrentamento dos
interesses das forças economicamente dominantes (atrasadas ou
modernas), sendo incapaz de cobrar resultados e impor perdas ao
grande capital privado, nacional ou estrangeiro.
O caráter conservador da transição, optando-se sempre
pelos caminhos de menor resistência, levou ao desperdício de
oportunidades para a efetivação de reformas necessárias à
democratização do capitalismo brasileiro, condição básica
para o progresso social, critica.
Esse obscuro objeto do desejo
A pesquisadora vê o Estado capitalista como um obscuro objeto do
desejo. Segundo ela, as análises sobre o Estado no capitalismo
ainda são obscuras, não resultando em consenso dentro das ciências
sociais, sobretudo em se tratando do capitalismo tardio.
Este capítulo traz também uma reflexão sobre a
globalização e o futuro dos Estados nacionais. Minha tese é de
que estes continuam sendo muito importantes. É difícil imaginar
uma estrutura capitalista mundial sem Estados nacionais como
centros decisórios, opina.
Sem destino
Quando avalia o papel do Estado nos processos de industrialização
latino-americanos, Angelita Souza detecta como principal deficiência
no capitalismo do continente a não conformação de um capital
nacional capaz ou disposto a financiar o desenvolvimento interno.
No Brasil, não se viu a fusão do capital financeiro
com o capital produtivo, que no primeiro mundo permitiu formar as
grandes corporações, observa a pesquisadora.
Tomando a era Vagas, o governo JK e o governo Geisel como três
momentos privilegiados da história econômica brasileira, a
autora procura identificar os limites políticos (conferidos pela
luta política no interior da formação social do país) com o
processo de industrialização nacional.
Ela se atém especialmente nos entraves políticos para a
concretização do sonho de Brasil-potência
idealizado pelos governos militares, fundamentalmente pelo
governo Geisel.
Os melhores anos de nossas vidas
Dos anos 1930 até a década de 1970, o Brasil cresceu de forma
extraordinária, mas perdeu uma oportunidade histórica de
desenvolver um capitalismo voltado para o fortalecimento da
estrutura produtiva nacional, articulado ao capital estrangeiro
de forma realmente associada.
Angelita Souza recorda que, no pós-guerra, a conjuntura
externa era altamente favorável, em função da concorrência
intercapitalista, com europeus e asiáticos tentando ganhar
mercado na periferia dominada pelos Estados Unidos.
Podíamos ter jogado melhor e perdemos, lamenta.
Juscelino Kubitschek até que se esforçou em campo. Sem
recursos internos para seu projeto de progresso acelerado, ele
atraiu primeiramente empresas européias, obrigando os
norte-americanos a também virem, e instalou uma indústria de
bens duráveis sem endividamento externo.
Mas JK sustentou seu projeto com emissão de moeda, o que
levou ao descontrole total da economia mais à frente, vitimando
João Goulart.
Áta-me
Os militares saíram da caserna para acabar com os movimentos
populares e também para resolver a pendenga em torno do modelo
de desenvolvimento, em favor do grande capital monopolista,
nacional e transnacional. Roberto Campos e Octávio Bulhões,
ministros do primeiro governo militar, instituíram os mecanismos
de articulação dependente com o mercado internacional.
Em seguida, Delfim Netto, identificando na fraqueza do sistema
financeiro nacional o maior problema do processo de industrialização,
incentivou o fortalecimento e centralização do capital bancário.
O sistema bancário cresceu e floresceu graças a esta
política de apoio, mas sobretudo com a intermediação da
entrada de recursos externos, diz Angelita Souza.
O governo Geisel compõe a tese central do estudo, por
representar um divisor de águas na história do capitalismo
brasileiro. Naquele momento, nossa economia foi definitivamente
atrelada ao mercado financeiro internacional, tendo como
contra-face interna a especulação financeira.
Era muito atrativa a abundância de dinheiro no mercado, a
juros baixíssimos, e o Brasil viu-se atado por uma costura feita
aqui dentro, combinando os interesses dos bancos, que lucravam
com a intermediação, e dos empresários produtivos, que
precisavam de capital de giro.
A ciranda financeira abriria caminho para a
implosão do famoso tripé da economia brasileira desde o governo
JK empresas estatais, capital estrangeiro e capital
nacional , com posterior desmonte da pata forte
do tripé, as estatais, e a redução ainda maior do espaço econômico
para a pata fraca, o capital nacional. Ironicamente,
era o capital nacional que o governo Geisel, com o II PND,
propunha fortalecer, aponta a professora.
A regra do jogo
O que aconteceu depois, em 1979, é que os EUA dobraram a taxa de
juros interna e o dólar foi supervalorizado, levando à
bancarrota os países que pagavam seus compromissos externos
nesta moeda.
Especialistas alertaram exaustivamente os condutores da política
econômica de que qualquer inversão dos rumos da política
mundial levaria à quebra da periferia capitalista.
A inversão aconteceu e a década de 1980 foi perdida.
Geisel, tido como o presidente de melhor índole
entre os generais, abriria mão do discurso nacionalista, sem
poder conter a articulação dos que lucravam com o
endividamento. Não discuto se ele tinha ou não boa
vontade. O fato é que não havia como mudar a regra do jogo.
O II PND, que vislumbrara o sonho de Brasil-potência,
não deu certo porque o jogo era ditado por esta articulação
entre capital bancário nacional e internacional, afirma.
Os deuses vencidos
Para Angelita Souza, razões políticas levaram o governo Geisel
a apostar numa política desenvolvimentista: queria manter o
crescimento elevado, a fim de não perder as eleições e evitar
que os militares saíssem como fracassados.
Porém, o primeiro setor a abandonar o barco foi o
empresariado produtivo nacional, contrariado com os rumos
assumidos pela política econômica de incentivo ao endividamento
externo que, entre outras coisas, obrigava à importação de
equipamentos, em prejuízo da nossa indústria.
A iniciativa privada, cujo lucro e evolução foram sustentados
com recursos públicos, começou a criticar duramente o regime
militar, aderindo a campanhas anti-estatização e pela re-democratização.
A partir daí, assistimos à falência do Estado
desenvolvimentista.
Deus deixou de existir.
Não apenas no Brasil, mas nos países latino-americanos em
geral, os deuses acabaram vencidos pelos rumos da economia
internacional, avalia a pesquisadora.
A comilança
No grande banquete, as forças dominantes comeram até a
morte do cozinheiro, ironiza Angelita Souza. Em A Comilança,
último capítulo da tese, a professora faz um paralelo entre o
governo Geisel e o governo Lula, verificando que as propostas são
as mesmas:
- fortalecimento da estrutura produtiva nacional,
- incentivo à exportação,
- combate às desigualdades sociais e regionais.
Ocorre que a situação externa, hoje, é enormemente
mais desfavorável do que nos melhores anos. Se
naquele bom momento não foi possível, seria agora? Lula aposta
em sua figura para garantir apoio político, mas o carisma, sem ações
que agraciem as massas com ganhos materiais, dissolve-se
rapidamente, alerta.
Se não houver pulso na direção do capítulo que começou há dois anos, a professora antevê um título: Amargo regresso.
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Tese: Deus e o diabo na terra do sol (leitura
política de um capitalismo tardio)
Bolsista: Angelita Matos Souza
Unidade : Instituto de Economia
Orientador: José Ricardo Barbosa Gonçalves
(IE/Unicamp)
Agência: Fecamp (financiamento inicial do
projeto)
unicamp
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Onde vistes as minas douradas?
Não se vê nada senão as estradas,
onde o verde antes imperava.
Hoje vazias, desgastadas.
Lugar sem semelhanças,
ficam somentes as lembranças
de um Brasil com cor.
Em páginas preto e branco se aguarda
o toque de nova pena,
novas mãos escrevam,
sejam escritos novos versos,
nova fase, nova vida.
Em silencio esperamos,
nosso alimento, esperança.