Gaúcha de Santa Cruz do Sul, descendente de imigrantes alemães, Lya é uma das escritoras de maior sucesso do Brasil na atualidade.
"... acho que a vida é um processo... É como subir uma montanha. Mesmo que no fim não se esteja tão forte fisicamente, a paisagem visualizada é melhor".
"Defrontar-se com a gente mesma é um susto. Mas pode ser um momento de descoberta". As pessoas tendem a se valorizar muito pouco, sobretudo as mulheres.
Um pouco de Lya Luft
Livro de cabeceira.
Lya Luft: Não tenho um livro de cabeceira. Leio mais poesia do que ficção. Estou lendo ensaios sobre questões humanas e Psicologia. Mas desde menina leio Rainer Maria Rilke, talvez seja meu poeta de cabeceira.
Poeta preferido.
Lya Luft: Drummond, sonetos de Camões, Fernando Pessoa e Rilke. Sou muito eclética, muito variada.
Filme.
Lya Luft: Não tenho preferido. Gostei do que ví, por exemplo, no Advogado do Diabo. Um filme cheio de alusões mitológicas, religiosas, psicanalíticas. Não sei em que medida as pessoas se deram conta da riqueza de informações que tem nas entrelinhas. Não sou muito chegada em cinema. Vejo filmes como diversão.
Música.
Lya Luft: Posso escutar Chico Buarque, Bethânia e Nana Caymmi dias a fio, mas também posso ficar uma época repetitivamente ouvindo Mozart. Gosto de música um pouco melancólica. Não gosto do Mozart puladinho, alegrinho, mas quando ele é profundo, chega a ser sublime. Nos últimos dias, andei escutando dois Cds da Maria Callas, com árias lindíssimas.
Sonho.
Lya Luft: Entender melhor a vida. Curtir minhas amizades, minha família.
Vida.
Lya Luft: Vida é esse processo misterioso da gente estar jogado no mundo. Esse aprendizado maravilhoso. Desde muito criança tenho o desejo de entender um pouco esse mistério - as relações humanas, a natureza, o destino do homem. Sou muito tocada pela sensação do mistério, da transcendência da vida. Acho que a vida é mistério, transcendência e processo.
Morte.
Lya Luft: Não sei, saberemos depois de estarmos nela . Acho que ela é tão natural como a vida. Mas nunca estamos preparados. A grande fragilidade humana é exatamente esta. Estamos pouco preparados para as coisas naturais. A civilização nos tornou seres pouco naturais. A educação, a civilização são cortes da natureza. A gente está se afastando da natureza. Você deixa de ser um animal puro, quando se educa, se sofistica, se intelectualiza. E este afastamento da natureza traz aquilo que Freud chamou de mal-estar da civilização E nisso está inserido a questão da morte, que para nós é estranha porque não somos naturais.
Alegria.
Lya Luft: A família e amigos, sobretudo.
Viagem.
Lya Luft: Não gosto de viajar.
Sou preguiçosa. Acho que através dos livros, da televisão, da minha fantasia posso viajar muito mais do que ir para aeroportos. Eu tive uma vez uma estada com o Saramago e a mulher dele, umas duas ou três semanas em Londres, cidade que gostei muito. Gosto de Nova Iorque. Lá você pode fazer desde as coisas mais banais até as mais sofisticadas culturalmente. Gosto muito de ficar quieta em casa. A coisa que mais curto é meu veraneio em Torres. Desde que nasci passo as férias lá. Fico completamente descompromissada. Adoro praia, mar, caminhar e reencontrar os amigos, que só vejo uma vez por ano.
sinpro-rs
No seu livro de poesia "Para não dizer adeus" (2005), você conta que sempre retornou à poesia...
Lya Luft: Não há muita explicação, simplesmente a arte aparece do jeito que inventa, o vento sopra onde e quando quer, e eu respeito totalmente isso. Nada escrevo por encomenda, por projeto meu, mas o que deseja ser escrito.
O livro é um "Perdas & Ganhos" em versos?
Lya Luft: Temos sempre os mesmos temas, como a maioria dos escritores, ditos de diversas formas para quem trabalha com mais de um gênero. No fundo, desde os primeiros romances (As parceiras, Reunião de família), passando por ensaios (Perdas & Ganhos), crônicas (Pensar é transgredir) etc., eu falo sobre solidão e desencontro, amor e morte, mistério, responsabilidade, escolha e destino...
Como é a sua relação com a crítica?
Lya Luft: Dentro do que sinto e vejo de mim mesma, ela em nada me influencia a esta altura da vida. Depois de Perdas & Ganhos publiquei Pensar é transgredir e as Histórias de bruxa boa com sucessos diferentes. O novo livro pode não vender nada. Não importa. Não trabalho por dinheiro ou sucesso, apenas exerço minha arte, meu ofício, minha paixão por escrever. O resto vem ou não, independentemente de mim.
O lado sombrio e, às vezes, cruel da vida (as perdas) ensina mais que os ganhos?
Lya Luft: Não acho que Deus faz sofrer a quem ama, que o sofrimento nos torna melhores etc. A gente aprende sempre quando se abre para esses ensinamentos da vida, que vêm com dores, amores, alegrias etc.
Você acredita que existir nos dias de hoje é ainda mais difícil?
Lya Luft: Eu acho que viver sempre foi e será difícil, fascinante, duro, belo, estranho.
Lya Luft é uma mulher otimista?
Lya Luft: Se não formos otimistas sem sermos tolamente românticos, deveríamos nos matar.
Para viver por completo e com intensidade é preciso se dividir?
Lya Luft: Somos todos complexos, ambíguos e contraditórios, por isso somos interessantes e por isso escrevo.
Você precisa de silêncios de vez em quando para criar, para viver?
Lya Luft: Preciso muito de silêncio e quietude. Uma de minhas lutas no momento é para ter de novo mais tranqüilidade e mais silêncio... O chamado sucesso atrapalhou um bocado tudo isso.
Sente uma certa inquietação (saudável) contra o tédio, contra a mesmice?
Lya Luft: Com certeza. O tédio é meu grande inimigo.
O leitor pode contar — por muito tempo — com sua intensidade e inquietação?
Lya Luft: Enquanto tiver lucidez e capacidade mental, não vejo por que não, mas o tempo está nas mãos dos deuses....
Desses últimos meses de grande sucesso o que ficou de melhor?
Lya Luft: Contatos com pessoas, imaginar milhares e milhares refletindo comigo, partilhando comigo minhas inquietações, em tantos países do mundo... uma espécie de globalização de sentimentos.
E de pior?
Lya Luft: Menos privacidade, mais agitação e muitas fantasias das pessoas a respeito de quem eu sou. Ninguém acerta.
editorarecord
"A vida pode ser muito dura e, o que é pior, muitas vezes por responsabilidade nossa."
Uma afirmação dura, revista Veja, 28 de abril/2004.
"Por que as crianças hoje são tão malcriadas e os adolescentes tão agressivos? (...) Porque a gente deixa."
Sobre pais e filhos, revista Veja, 16 de Junho/2004.
"O bom de não sabermos todas as coisas é existir alguém que sabe. O bom de existir alguém que sabe é não sabermos quem ele é."
O menino que me olha, revista Veja, 30 de junho/2004.
BIOGRAFIA:
Lya Luft, consagrada escritora gaúcha nasceu em Santa Cruz do Sul. E morou lá até se casar, aos 24 anos, com o professor de Português e gramático Celso Luft. Eles tiveram três filhos - a médica Susana, o agrônomo André e o professor de filosofia na PUC, Eduardo.
Depois vieram três netos homens. Entre fins de agosto e início de setembro chega a primeira neta mulher, filha de Susana, que reside no andar de cima do sobrado onde vive Lya Luft. "Vai ter de novo uma criança nesta casa", revela com alegria.
Lya teve um longo convívio com Celso Luft, de quem é viúva. No intervalo de seis anos - que ficaram separados - viveu com o psicanalista Hélio Pelegrini, que também faleceu. "O casamento com o Celso foi o fundamento da minha vida. Ele foi meu professor na faculdade. Era quase 20 anos mais velho do que eu. Devo muito ao Celso intelectualmente e emocionalmente. Me ajudou a crescer como ser humano, o que é muito importante numa relação. E o casamento com o Hélio foi de dois anos e pouco. Acho que tenho uma visão positiva do masculino. Os dois companheiros me ensinaram questões de vida e sobre mim mesma".
Hoje, ela vive a fase da colheita. Costuma dizer que não precisa mais escolher marido, educar filhos pequenos, pagar prestação da casa própria. E, tampouco escolher uma profissão e combater no mercado de trabalho. Ultrapassou os percalços, que tornam a juventude tensa e compromissada.
"Esta prestação de serviços eu já fiz. De maneira que agora tenho mais possibilidade de olhar para dentro de mim. Tenho mais paciência e bom humor com os outros e comigo mesma". A maturidade, para ela, traz muitos ganhos.
"Ao invés de se afligir com o ninho vazio e com a aposentadoria, as pessoas deveriam se orientar para curtir esta etapa como um privilégio. Se pode ler, passear, fazer novas amizades e reatar as velhas".
O ingresso na vida literária foi lento. Lya não ambicionava ser escritora. Acha que a arte acontece na vida das pessoas. "Eu era uma aluna boa em redação e gostava muito de ler".
Desde pequena se deleitava com os livros de seu pai. E aproveitou para organizar sua própria biblioteca. "Minha cama de mocinha ficava entre prateleiras. Bastava estender a mão e os livros estavam ao meu alcance". Quando menina tinha um diário e adorava ouvir estórias infantis. Inventar personagens e brincar com as palavras a estimulavam.
Como a maioria dos interioranos, Lya veio estudar na capital. Cursou Pedagogia, depois se formou em Letras anglo-germânicas, fez mestrado em Lingüística, todos na PUC. Mais tarde, o mestrado em Literatura Brasileira e Portuguesa, na UFRGS.
Quando estava na faculdade lia poesias brasileira, alemã, portuguesa, inglesa e americana. Tomada pelo sabor desse gênero, começou a criar poemas. Ainda na academia, participou de um concurso de poemas, promovido pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), obtendo o primeiro lugar. Esta obra - já esgotada - se chama "Canções de Linear".
Por volta de 1964, Lya publicava, semanalmente, suas crônicas no antigo Correio do Povo. Em 1972, a coleção da Editora Sulina intitulada "Poetas hoje" publicou o segundo livro - "Flauta Doce". Na seqüência, uns seis anos após, vieram as crônicas - "Matéria do Cotidiano", também editadas pelo IEL.
Mas foi somente a partir do primeiro romance, em 1980 - quando estava com 40 anos - que passou a se considerar uma escritora.
E começou a escrever um livro atrás do outro. "As Parceiras", "Reunião de Família" (roteirizado por Caio Fernando Abreu e levado ao palco pelo diretor Luciano Alabarse), "Asa Esquerda", "Quarto Fechado", "Exílio", "A Sentinela", "Rio do Meio" (que ganhou prêmio de melhor obra de ficção no ano passado) e "Secreta Mirada".
Lya também é tradutora de inglês e alemão. "São mais de 30 anos de trabalho. Já perdi a conta de quantas obras traduzi. Acho que mais de 120 livros".