Fala, Brasil! - A Questão Brasileira
  Página Inicial arrow Artigos arrow A Questão Brasileira Monday, 08 September 2008 
Fala, Brasil !
Página Inicial
Fórum
Artigos
Forum Fala, Brasil!
Colunistas
Notícias
Mapa do Site
Dê um toque
Add to Technorati Favorites
Login (gratuíto)





Esqueceu sua senha?
Ainda não tem uma conta de acesso? Registre-se
Itens Relacionados
Estatísticas
Brazil / Organic personal skin care wholesale
A Questão Brasileira PDF Imprimir E-mail
Escrito por Rafael Mantovani*   
Tuesday, 11 January 2005

A nacionalidade brasileira terá sempre uma enorme falha enquanto não oferecer à população a possibilidade de se bastar a si própria e enquanto a vida brasileira estiver pautada nos ditames exteriores, clamando pela migalha de reconhecimento.

O que faz dos ibero-americanos, subdesenvolvidos?

Algumas reflexões podem ser feitas diante dessa pergunta, muitas das quais poderiam ser observadas na maioria dos povos considerados subdesenvolvidos.

Mas, devido ao fato de que as represálias são menores quando se fala unicamente sobre si próprio ou sobre o próprio meio, convém tratar, em específico, da questão brasileira. Sobre um habitante de determinado meio não recai grande atenção de habitantes de outros meios quanto estão expostos à sua crítica.

Mas a falta de nacionalismo de um filho do mesmo solo, quando observada através de colocações impopulares e realistas em detrimento da quimérica criada para a exaltação popular, torna-se um tiro no ego, no ego social.

O que o brasileiro espera?

O brasileiro aguarda o momento do não-ser brasileiro. Em outras palavras, o brasileiro almeja se colocar no patamar daqueles que ele admira: de um lado, o europeu; de outro, o anglo-saxão americano.

E como o brasileiro busca essa classificação?

Através das sintonias culturais, através da imagem do brasileiro como sendo a figura de confluência das culturas européias e podendo, assim, se arrogar de parte delas como parte constituinte dessas.

Desta forma, o brasileiro permanece eternamente de braços abertos ao império, ávido para ser engolido pelo sistema opressor que oprime os seus deuses terrenos.

Esses braços recebem algo, mas não necessariamente aquilo que desejavam, mas sim, a prova de sua desqualificação.

Prova demonstrada por estudos eugenistas, evolucionistas e positivistas que colocam os brasileiros em seus devidos lugares dentro da ordem social mundial hierarquicamente organizada.

A resposta brasileira não é das mais lisonjeiras para qualquer nacionalismo: ele se rasteja e se humilha visando ao título de verdadeiro cidadão do mundo burguês, homem do escalão mais elevado.

Nas academias, boa parte das análises sobre o preconceito constitui uma tentativa de colocá-lo por terra a fim de tornar possível ultrapassar a barreira protetora do primeiro mundo.

Mas por que o brasileiro tenta com todas as suas forças entrar em um meio que lhe é hostil?

Apesar da hostilidade, o homem subdesenvolvido é um homem que acata, reproduz e aguarda a aprovação. Se a aprovação não vier, passa a considerar tudo aquilo que foi feito como inválido, descartá-o, e começa do zero tentando se adequar às regras para obter sucesso. Tudo o que é feito precisa passar pelo crivo da autoridade mundial.

Ao invés de virar as costas àqueles que o tratam como sub-humano, o brasileiro tenta entrar no círculo das plumas briosas, briosas devido à mera geograficidade do nascimento.

Virar as coisas seria o mais superficial dos radicalismos contra quem oprime dessa forma; se levarmos às últimas conseqüências (e aí deveríamos nos referir aos índios), poderia ser sugerida a negligência com todos os aspectos europeus e estadunidenses, uma busca pela própria identidade não só cultural, mas de estilo de vida e de produção. Mas o caminho é o inverso.

Os índios se adequam ao estilo do branco que está, por sua vez, adequado ao estilo europeu. Talvez isso ocorra graças ao problema exposto por Lévi-Strauss da ocidentalização se apresentando quase como uma regra quando o ocidente entra em contato com outras culturas.

Pois bem, nem uma afirmação dos próprios meios de vida e de produção local é feita, nem é negligenciada a desaprovação dos “mais evoluídos” quando a vida é produzida de acordo com o seu estilo europeu.

Além de não negligenciar aquele que não dá o valor desejado graças a um preconceito, a produção, já pautada no estilo daquele, é realizada de forma a tentar tornar o homem brasileiro parecido com o homem europeu ou estadunidense.

Porém, adaptar-se ao estilo de vida do outro é pouco, é necessário também ser o outro. E é nesse ponto em que falha a possibilidade de um nacionalismo brasileiro ao estilo dos nacionalismos ocidentais: os outros nacionalismos são o orgulho dos indivíduos por se sentirem parte de um povo único, ser uma unidade que forma um corpo social independentemente de manifestações externas de aprovação ou desaprovação.

O nacionalismo se constitui no vácuo existente entre os indivíduos e o Estado.

O problema do nacionalismo brasileiro consiste no fato de apontar a outras comunidades social e politicamente constituídas.

O nacionalismo brasileiro depende dessas outras comunidades para assegurar o certo e o errado, o bom e o ruim, quando, na realidade, o papel do nacionalismo é dar ao corpo político o estatuto de entidade autosuficiente, como escreve José Gil.

Na verdade não há grandes diferenças no que diz respeito aos motivos da criação de uma identidade nacional européia ou a criação da nacionalidade brasileira, ambas são criações de classes que visam ao poder e necessitam de uma massa de indivíduos vestidos com os valores dessa classe escondidos sob os símbolos nacionais.

Porém, a nacionalidade brasileira terá sempre uma enorme falha enquanto não oferecer à população a possibilidade de se bastar a si própria e enquanto a vida brasileira estiver pautada nos ditames exteriores, clamando pela migalha de reconhecimento, nem que seja o reconhecimento do suinocultor ao perceber que a carne dos porcos está boa para o consumo e os abate.

Mas se, por um lado, nega-se a individualidade para tentar ser o outro, o próprio nacionalismo é também uma forma de negação da individualidade, mas nesse caso, para o indivíduo se tornar parte de um corpo social útil.

A questão é que dentro de um contexto de nacionalismos, o nacionalismo brasileiro deixa a desejar, mas não é a criação de um nacionalismo forte o intuito deste texto.

Existem três etapas:

  • a valorização do império que tenta engolir a nação,
  • a valorização da nação ou, em terceiro,
  • a valorização do indivíduo.

Estávamos entre a etapa um e dois, analisando este vácuo sem juízos de valor. Mas não se pretende parar em determinado ponto da busca pela liberdade, mas sim, extrapolar os limites impostos pela história.

Os Estados europeus e a União dos Estados Unidos construíram Welfare States perigosos àqueles que lêem além do discurso explícito, e invejáveis aos covardes estrangeiros que buscam o zelo de alguma entidade que possa contrabalançar o seu medo e indisposição diante da vida.

Em um país onde, assim se acredita, o governo supre todas as necessidades individuais (as que ele não pode suprimir são consideradas falsas ou abstrações), a possibilidade de crítica ao sistema é mais difícil. Sem cair em determinismos sociais, é mais difícil, pois a emergência da circunstância é um fator decisivo para qualquer atividade.

Logo, em um país onde a necessidade de crítica ao sistema não é vista como uma importância de primeira ordem, o surgimento de núcleos críticos fica dificultado, pois para se chegar às conclusões de que o Estado é uma autoridade opressora é necessário um esforço de compreensão além daquele que geralmente é feito.

Afinal, a opressão do Estado não é imediatamente vista, ela só pode ser apreendida quando se observa através dos fatos expostos, chegando, assim, à verdade que pode estar totalmente distorcida em relação ao que foi exposto.

Mesmo com a construção de Welfare States como o estadunidense ou o francês, como exemplos, as amarras da autoridade ainda castram os indivíduos e os privam dos privilégios que a classe dominante detém, afinal, discrepâncias há em todas as sociedades, mesmo naquelas cuja justiça social é preocupação preeminente.

Ao contrário, pensando na questão brasileira, o Estado apresenta-se de forma muito mais clara como órgão que mantém amenizadas as animosidades sociais a fim de manter a ordem.

O papel do Estado é o assistencialismo institucionalizado, a forma mais civilizada e inteligente de impedir a subversão da ordem pela corrosão social. Manutenção feita a partir das migalhas de pão que, misturadas ao incentivo à covardia, cristalizam uma ordem em que os capitães (sejam eles financeiros ou políticos) são sustentados pelos covardes em grau maior.

Porém, como já dito, ao contrário, essa dinâmica não está camuflada sob inúmeros confortos que a autoridade mentirosa possibilita como no caso dos países de primeiro-mundo. Ela está exposta, feri os olhos daqueles que se esforçam para não ter de encarar a realidade pungente de frente e, assim, poder aceitar o pão que lhe é entregue para aliviar a sua dor e completar a sua apatia social.

Mas esse é o caso das classes mais baixas. E qual é o papel das classes mais abastadas nesse contexto?

Pode-se dizer que o mesmo mecanismo também acontece, guardadas as devidas proporções, nas classes mais altas.

No primeiro caso, dos mais miseráveis, é oferecido o mínimo para que sua vida possa ser preservada; no segundo caso, das classes mais abastadas, já é oferecido um pouco mais para que o seu patrimônio não corra riscos.

Mas, além disso, no segundo caso, há a necessidade do não-ser brasileiro, e para isso, o brasileiro tenta se classificar como europeu, o europeu voltado aos bons costumes, à ordem e conivente com a autoridade.

O sentimento de inferioridade brasileiro é um dos pré-requisitos para que a ordem castradora possa ser mantida, afinal, o objeto de louvor, o cidadão burguês europeu, não está em oposição ao Estado, está, ao contrário, do mesmo lado, trabalhando conjuntamente.

O povo brasileiro é um povo covarde. Um povo covarde como a maioria dos outros povos subdesenvolvidos porque não tem coragem de agir contra ou de costas para a autoridade.

Mas o que salta aos olhos é o costume de rogar por ser considerado tão humano quanto o europeu pelo próprio europeu.

E para isso, o brasileiro precisa imitar todos os seus comportamentos, inclusive a conivência diante da opressão, que se faz sentir menos no burguês europeu, mas que assume uma qualidade infinitamente burlesca e lamentável no caso brasileiro, pois as condições brasileiras não são condições minimamente justificáveis para se prostituir ao soberano que cuida, como no caso do europeu.

Logo, o brasileiro se prostitui em dobro: em primeiro lugar tendo a necessidade de negar uma realidade mais do que latente e, em segundo lugar, o seu motivo que é adaptar-se às regras de quem se mantém num patamar acima devido a motivos ainda mais torpes do que aquele que faz o brasileiro se manter inerte.

Pedindo licença à rigidez argumentativa, digo que muito me satisfaria se fôssemos a comprovação das teorias eugenistas que tentam provar que somos seres não-adaptados ao estilo de vida europeu.

Por que isso incomoda tanto aos brasileiros?

Se o país fosse um local em que os indivíduos são totalmente avessos às necessidades do trabalho, dos mecanismos governamentais e do estilo de vida aprisionador europeu, eu louvaria esse determinismo natural para que pudéssemos, de fato, desfrutar do clima que impede os indivíduos de trabalharem ou se adaptarem a regras autoritárias devido ao calor e ao clima tropical que invade o ânimo dos homens e imprimi o asco à opressão e ao trabalho desnecessário!

Mas não! O brasileiro se sente com o ego ferido quando o pretenso superior na escala da evolução lhe diz que o brasileiro não pode se comparar à sua altiva imagem.

E, assim, esse luta bravamente para conseguir reproduzir os aspectos da sociedade vislumbrada, mesmo aqueles mais sórdidos ou os incompatíveis.

Em breve, não consegue mais compreender a sua própria condição, pois, na hora da total negação, não conseguiu levar em conta as diferenças entre os povos e incutiu, por assim dizer, todo o vilipêndio dos mecanismos de opressão, controle e abjuração das relações sociais diretas impondo os mesmos problemas aos quais o europeu e o anglo-saxão americano estão submetidos.

O espírito do terceiro-mundo é uma tentativa de se fazer respeitar por uma questão de igualdade, mas o terceiro-mundo não pode ser o primeiro-mundo e muito menos deveria querer ser o primeiro ou, até, se preocupar com isso.

Todo um potencial de real galvanização da ordem social presente naqueles que são os que mais sofrem pela autoridade dilacerante às relações sociais, que delimita as suas linhas de ação, castra a sua criatividade, impõe valores, é engolido a seco em nome da vontade de ser outro, de não se bastar a si mesmo, não enquanto nação ou comunidade, mas enquanto indivíduo autônomo que não aceita nem os ditames da nação e muito menos do império.

O terceiro-mundo poderia ser o que levaria a contradição do primeiro e toda a sua porcaria burocrática e mercadológica às últimas conseqüências e às favas.

Mas a covardia do povo o força a olhar para o espelho senão pelas lentes da nação ou da comunidade da qual ele é um escravo tentando provar obediência para, enfim, poder ser adestrado e integralmente consumido.

O que se pode esperar de um povo como esse?

Ou ele se tornará definitivamente uma coletividade de indivíduos autônomos (o que não é uma tarefa fácil) e, conseqüentemente, questionador da autoridade que repousa sobre a sua cabeça, ou permanecerá no buraco escuro em que se encontra e, se lhe restar uma porção ínfima de dignidade, não irá reclamar de nada.

Rafael mantovani, é autor e músico

verbonauta

Comentarios (2)Add Comment
...
escrito por Visitante, 2005-04-17 14:23:27
Lilian aluna do curso de pós-graduação em Língua Inglesa na UNIP-SP.
Você teria algo mais específico sobre o determinismo do homem brasileiro. Agradeço se me enviar: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso
naum entendi nada
escrito por Visitante, 2005-06-05 07:26:33
Porra

Escreva seu Comentario
quote
bold
italicize
underline
strike
url
image
quote
quote
smile
wink
laugh
grin
angry
sad
shocked
cool
tongue
kiss
cry
smaller | bigger

busy
 
< Anterior   Próximo >
FeedBurner


Receba conteúdo grátis

Nosso Feed
Humor Brasileiro
  Kibe Loco
Folha de S. Paulo
powered by joomla open source designed by joomla-templates.com