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A nacionalidade brasileira terá sempre uma enorme falha enquanto não oferecer à população a possibilidade de se bastar a si própria e enquanto a vida brasileira estiver pautada nos ditames exteriores, clamando pela migalha de reconhecimento.
O que faz dos ibero-americanos, subdesenvolvidos?
Algumas reflexões podem ser feitas diante dessa pergunta,
muitas das quais poderiam ser observadas na maioria dos povos
considerados subdesenvolvidos.
Mas, devido ao fato de que as represálias são menores quando
se fala unicamente sobre si próprio ou sobre o próprio meio,
convém tratar, em específico, da questão brasileira. Sobre um
habitante de determinado meio não recai grande atenção de
habitantes de outros meios quanto estão expostos à sua crítica.
Mas a falta de nacionalismo de um filho do mesmo solo, quando
observada através de colocações impopulares e realistas em
detrimento da quimérica criada para a exaltação popular,
torna-se um tiro no ego, no ego social.
O que o brasileiro espera?
O brasileiro aguarda o momento do não-ser brasileiro. Em
outras palavras, o brasileiro almeja se colocar no patamar
daqueles que ele admira: de um lado, o europeu; de outro, o
anglo-saxão americano.
E como o brasileiro busca essa classificação?
Através das sintonias culturais, através da imagem do
brasileiro como sendo a figura de confluência das culturas européias
e podendo, assim, se arrogar de parte delas como parte
constituinte dessas.
Desta forma, o brasileiro permanece eternamente de braços
abertos ao império, ávido para ser engolido pelo sistema
opressor que oprime os seus deuses terrenos.
Esses braços recebem algo, mas não necessariamente aquilo
que desejavam, mas sim, a prova de sua desqualificação.
Prova demonstrada por estudos eugenistas, evolucionistas e
positivistas que colocam os brasileiros em seus devidos lugares
dentro da ordem social mundial hierarquicamente organizada.
A resposta brasileira não é das mais lisonjeiras para qualquer
nacionalismo: ele se rasteja e se humilha visando ao título de
verdadeiro cidadão do mundo burguês, homem do escalão mais
elevado.
Nas academias, boa parte das análises sobre o preconceito
constitui uma tentativa de colocá-lo por terra a fim de tornar
possível ultrapassar a barreira protetora do primeiro mundo.
Mas por que o brasileiro tenta com todas as suas forças entrar
em um meio que lhe é hostil?
Apesar da hostilidade, o homem subdesenvolvido é um homem que
acata, reproduz e aguarda a aprovação. Se a aprovação não
vier, passa a considerar tudo aquilo que foi feito como inválido,
descartá-o, e começa do zero tentando se adequar às regras
para obter sucesso. Tudo o que é feito precisa passar pelo crivo
da autoridade mundial.
Ao invés de virar as costas àqueles que o tratam como
sub-humano, o brasileiro tenta entrar no círculo das plumas
briosas, briosas devido à mera geograficidade do nascimento.
Virar as coisas seria o mais superficial dos radicalismos contra
quem oprime dessa forma; se levarmos às últimas conseqüências
(e aí deveríamos nos referir aos índios), poderia ser sugerida
a negligência com todos os aspectos europeus e estadunidenses,
uma busca pela própria identidade não só cultural, mas de
estilo de vida e de produção. Mas o caminho é o inverso.
Os índios se adequam ao estilo do branco que está, por sua
vez, adequado ao estilo europeu. Talvez isso ocorra graças ao
problema exposto por Lévi-Strauss da ocidentalização se
apresentando quase como uma regra quando o ocidente entra em
contato com outras culturas.
Pois bem, nem uma afirmação dos próprios meios de vida e de
produção local é feita, nem é negligenciada a desaprovação
dos mais evoluídos quando a vida é produzida de
acordo com o seu estilo europeu.
Além de não negligenciar aquele que não dá o valor
desejado graças a um preconceito, a produção, já pautada no
estilo daquele, é realizada de forma a tentar tornar o homem
brasileiro parecido com o homem europeu ou estadunidense.
Porém, adaptar-se ao estilo de vida do outro é pouco, é necessário
também ser o outro. E é nesse ponto em que falha a
possibilidade de um nacionalismo brasileiro ao estilo dos
nacionalismos ocidentais: os outros nacionalismos são o orgulho
dos indivíduos por se sentirem parte de um povo único, ser uma
unidade que forma um corpo social independentemente de manifestações
externas de aprovação ou desaprovação.
O nacionalismo
se constitui no vácuo existente entre os indivíduos e o Estado.
O problema do nacionalismo brasileiro consiste no fato de
apontar a outras comunidades social e politicamente constituídas.
O nacionalismo brasileiro depende dessas outras comunidades
para assegurar o certo e o errado, o bom e o ruim, quando, na
realidade, o papel do nacionalismo é dar ao corpo político o
estatuto de entidade autosuficiente, como escreve José Gil.
Na verdade não há grandes diferenças no que diz respeito aos
motivos da criação de uma identidade nacional européia ou a
criação da nacionalidade brasileira, ambas são criações de
classes que visam ao poder e necessitam de uma massa de indivíduos
vestidos com os valores dessa classe escondidos sob os símbolos
nacionais.
Porém, a nacionalidade brasileira terá sempre uma enorme
falha enquanto não oferecer à população a possibilidade de se
bastar a si própria e enquanto a vida brasileira estiver pautada
nos ditames exteriores, clamando pela migalha de reconhecimento,
nem que seja o reconhecimento do suinocultor ao perceber que a
carne dos porcos está boa para o consumo e os abate.
Mas se, por um lado, nega-se a individualidade para tentar ser o
outro, o próprio nacionalismo é também uma forma de negação
da individualidade, mas nesse caso, para o indivíduo se tornar
parte de um corpo social útil.
A questão é que dentro de um contexto de nacionalismos, o
nacionalismo brasileiro deixa a desejar, mas não é a criação
de um nacionalismo forte o intuito deste texto.
Existem três etapas:
- a valorização do império que tenta engolir a nação,
- a valorização da nação ou, em terceiro,
- a valorização do indivíduo.
Estávamos entre a etapa um e dois, analisando este vácuo sem
juízos de valor. Mas não se pretende parar em determinado ponto
da busca pela liberdade, mas sim, extrapolar os limites impostos
pela história.
Os Estados europeus e a União dos Estados Unidos construíram
Welfare States perigosos àqueles que lêem além do discurso
explícito, e invejáveis aos covardes estrangeiros que buscam o
zelo de alguma entidade que possa contrabalançar o seu medo e
indisposição diante da vida.
Em um país onde, assim se acredita, o governo supre todas as
necessidades individuais (as que ele não pode suprimir são
consideradas falsas ou abstrações), a possibilidade de crítica
ao sistema é mais difícil. Sem cair em determinismos sociais,
é mais difícil, pois a emergência da circunstância é um
fator decisivo para qualquer atividade.
Logo, em um país onde a necessidade de crítica ao sistema não
é vista como uma importância de primeira ordem, o surgimento de
núcleos críticos fica dificultado, pois para se chegar às
conclusões de que o Estado é uma autoridade opressora é necessário
um esforço de compreensão além daquele que geralmente é
feito.
Afinal, a opressão do Estado não é imediatamente vista, ela
só pode ser apreendida quando se observa através dos fatos
expostos, chegando, assim, à verdade que pode estar totalmente
distorcida em relação ao que foi exposto.
Mesmo com a construção de Welfare States como o
estadunidense ou o francês, como exemplos, as amarras da
autoridade ainda castram os indivíduos e os privam dos privilégios
que a classe dominante detém, afinal, discrepâncias há em
todas as sociedades, mesmo naquelas cuja justiça social é
preocupação preeminente.
Ao contrário, pensando na questão brasileira, o Estado
apresenta-se de forma muito mais clara como órgão que mantém
amenizadas as animosidades sociais a fim de manter a ordem.
O papel do Estado é o assistencialismo institucionalizado, a
forma mais civilizada e inteligente de impedir a subversão da
ordem pela corrosão social. Manutenção feita a partir das
migalhas de pão que, misturadas ao incentivo à covardia,
cristalizam uma ordem em que os capitães (sejam eles financeiros
ou políticos) são sustentados pelos covardes em grau maior.
Porém, como já dito, ao contrário, essa dinâmica não está
camuflada sob inúmeros confortos que a autoridade mentirosa
possibilita como no caso dos países de primeiro-mundo. Ela está
exposta, feri os olhos daqueles que se esforçam para não ter de
encarar a realidade pungente de frente e, assim, poder aceitar o
pão que lhe é entregue para aliviar a sua dor e completar a sua
apatia social.
Mas esse é o caso das classes mais baixas. E qual é o papel das
classes mais abastadas nesse contexto?
Pode-se dizer que o mesmo mecanismo também acontece,
guardadas as devidas proporções, nas classes mais altas.
No primeiro caso, dos mais miseráveis, é oferecido o mínimo
para que sua vida possa ser preservada; no segundo caso, das
classes mais abastadas, já é oferecido um pouco mais para que o
seu patrimônio não corra riscos.
Mas, além disso, no segundo caso, há a necessidade do não-ser
brasileiro, e para isso, o brasileiro tenta se classificar como
europeu, o europeu voltado aos bons costumes, à ordem e
conivente com a autoridade.
O sentimento de inferioridade brasileiro é um dos pré-requisitos
para que a ordem castradora possa ser mantida, afinal, o objeto
de louvor, o cidadão burguês europeu, não está em oposição
ao Estado, está, ao contrário, do mesmo lado, trabalhando
conjuntamente.
O povo brasileiro é um povo covarde. Um povo covarde como a
maioria dos outros povos subdesenvolvidos porque não tem coragem
de agir contra ou de costas para a autoridade.
Mas o que salta aos olhos é o costume de rogar por ser
considerado tão humano quanto o europeu pelo próprio europeu.
E para isso, o brasileiro precisa imitar todos os seus
comportamentos, inclusive a conivência diante da opressão, que
se faz sentir menos no burguês europeu, mas que assume uma
qualidade infinitamente burlesca e lamentável no caso
brasileiro, pois as condições brasileiras não são condições
minimamente justificáveis para se prostituir ao soberano que
cuida, como no caso do europeu.
Logo, o brasileiro se prostitui em dobro: em primeiro lugar
tendo a necessidade de negar uma realidade mais do que latente e,
em segundo lugar, o seu motivo que é adaptar-se às regras de
quem se mantém num patamar acima devido a motivos ainda mais
torpes do que aquele que faz o brasileiro se manter inerte.
Pedindo licença à rigidez argumentativa, digo que muito me
satisfaria se fôssemos a comprovação das teorias eugenistas
que tentam provar que somos seres não-adaptados ao estilo de
vida europeu.
Por que isso incomoda tanto aos brasileiros?
Se o país fosse um local em que os indivíduos são
totalmente avessos às necessidades do trabalho, dos mecanismos
governamentais e do estilo de vida aprisionador europeu, eu
louvaria esse determinismo natural para que pudéssemos, de fato,
desfrutar do clima que impede os indivíduos de trabalharem ou se
adaptarem a regras autoritárias devido ao calor e ao clima
tropical que invade o ânimo dos homens e imprimi o asco à
opressão e ao trabalho desnecessário!
Mas não! O brasileiro se sente com o ego ferido quando o
pretenso superior na escala da evolução lhe diz que o
brasileiro não pode se comparar à sua altiva imagem.
E, assim, esse luta bravamente para conseguir reproduzir os
aspectos da sociedade vislumbrada, mesmo aqueles mais sórdidos
ou os incompatíveis.
Em breve, não consegue mais compreender a sua própria condição,
pois, na hora da total negação, não conseguiu levar em conta
as diferenças entre os povos e incutiu, por assim dizer, todo o
vilipêndio dos mecanismos de opressão, controle e abjuração
das relações sociais diretas impondo os mesmos problemas aos
quais o europeu e o anglo-saxão americano estão submetidos.
O espírito do terceiro-mundo é uma tentativa de se fazer
respeitar por uma questão de igualdade, mas o terceiro-mundo não
pode ser o primeiro-mundo e muito menos deveria querer ser o
primeiro ou, até, se preocupar com isso.
Todo um potencial de real galvanização da ordem social
presente naqueles que são os que mais sofrem pela autoridade
dilacerante às relações sociais, que delimita as suas linhas
de ação, castra a sua criatividade, impõe valores, é engolido
a seco em nome da vontade de ser outro, de não se bastar a si
mesmo, não enquanto nação ou comunidade, mas enquanto indivíduo
autônomo que não aceita nem os ditames da nação e muito menos
do império.
O terceiro-mundo poderia ser o que levaria a contradição do
primeiro e toda a sua porcaria burocrática e mercadológica às
últimas conseqüências e às favas.
Mas a covardia do povo o força a olhar para o espelho senão
pelas lentes da nação ou da comunidade da qual ele é um
escravo tentando provar obediência para, enfim, poder ser
adestrado e integralmente consumido.
O que se pode esperar de um povo como esse?
Ou ele se tornará definitivamente uma coletividade de indivíduos
autônomos (o que não é uma tarefa fácil) e, conseqüentemente,
questionador da autoridade que repousa sobre a sua cabeça, ou
permanecerá no buraco escuro em que se encontra e, se lhe restar
uma porção ínfima de dignidade, não irá reclamar de nada.
Rafael mantovani, é autor e músico
verbonauta
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Você teria algo mais específico sobre o determinismo do homem brasileiro. Agradeço se me enviar: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso