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Este é um país de gente que está no caminho
errado, fazendo o que não quer, buscando alívio em
entrenenimentos pueris e desprezíveis, quando não francamente
deprimentes, Olavo de Carvalho.
Se você escreve, ou pinta, ou faz sermões na igreja, ou toca
música, ou monta a cavalo, ou tira fotos, ou faz qualquer outra
coisa que pareça interessante, já deve ter ouvido mil vezes a
pergunta:
- "Você faz isso por dinheiro ou por prazer?"
Tão infinitamente repetível é essa fórmula, que ela deve
revelar algum traço profundo e permanente do modo brasileiro de
ver as coisas um lugar-comum ou topos da nossa retórica
diária.
Ora, todo lugar-comum é um recorte que enfatiza certos aspectos
da realidade para momentaneamente dar a impressão de que os
outros não existem.
Logo, para compreendê-lo é preciso perguntar, antes de tudo,
o que é que ele omite.
O que está omitido na pergunta acima é a possibilidade de que
alguém se dedique de todo o coração a alguma coisa sem ser por
necessidade econômica nem por prazer ou, pior ainda, que
continue se dedicando a ela como se fosse a coisa mais importante
do mundo mesmo quando ela só dá prejuízo e dor de cabeça.
O que está omitido nessa pergunta e no modo brasileiro
de ver as coisas é aquilo que se chama vocação.
Vocação vem do verbo latino voco, vocare, que quer dizer
"chamar". Quem faz algo por vocação sente que é
chamado a isso pela voz de uma entidade superior Deus, a
humanidade, a História, ou, como diria Viktor Frankl, o sentido
da vida.
Considerações de lucro ou prazer ficam fora ou só entram como
elementos subordinados, que por si não determinam decisões nem
fundamentam avaliações.
No mundo protestante, germânico, há toda uma cultura e uma
mística da vocação, e a busca da vocação autêntica é mesmo
o tema do principal romance alemão, o Wilhelm Meister de Goethe.
Nos países católicos a importância religiosa da vocação,
consolidada na ética escolástica do "dever de estado"
(por exemplo, o dever dos pais de família, dos comerciantes, dos
militares etc.), foi perdendo relevo depois do Renascimento,
cavando-se um abismo cada vez mais fundo entre o sacerdócio e as
atividades "mundanas", esvaziadas de sentido na medida
em que só o primeiro é considerado vocacional em sentido
eminente.
No Brasil, para agravar as coisas, a população foi
constituída sobretudo de três espécies de pessoas: portugueses
que vinham na esperança de enriquecer e não conseguiam voltar,
negros apanhados à força e índios que não tinham nada a ver
com a história e de repente se viam mal integrados numa
sociedade que não compreendiam.
É fácil perceber daí o imediatismo materialista dos
primeiros (o qual, quando frustrado, se transforma em inveja e
azedume que tudo deprecia, e que com tanta facilidade se
disfarça em indignação moralista contra a corrupção e as
"injustiças sociais"), e mais ainda a total
desorientação vocacional do segundo e do terceiro grupos,
brutalmente amputados do sentido da vida e por isto mesmo
facilmente inclinados a sentir-se marginalizados mesmo quando já
não o são mais.
Um pouco da ética da vocação existe ainda entre nós graças
à influência dos imigrantes, especialmente alemães, árabes e
judeus, mas existe de modo tácito, implícito, jamais consagrado
como valor consciente da nossa cultura e muito menos valorizado
pelas escolas e pelos governos.
A realização superior do homem na vocação é então
substituída pela mera busca do emprego, visto apenas como meio
de subsistência e sem nenhuma importância própria no que diz
respeito ao conteúdo.
A adaptação conformista a um emprego medíocre e sem futuro
é considerado o máximo do realismo, a perfeição da maturidade
humana. Tudo o mais é depreciado (e por isto mesmo
hipervalorizado e ansiosamente desejado) como
"diversão".
Assim, entre o trabalho forçado e a diversão obsessiva (da
qual o Carnaval é a amostra mais significativa), acumula-se na
alma do brasileiro a inveja e uma surda revolta contra todos os
que levem uma vida grande, brilhante e significativa, sobre os
quais, mesmo quando são pobres, paira a suspeita de serem
usurpadores e ladrões, pelo menos ladrões da sorte.
Daí a famosa observação de Tom Jobim: "No Brasil, o
sucesso é um insulto pessoal."
Sim, nesse meio não se compreende outra lealdade senão o
companheirismo dos fracassados, em torno de uma mesa de bar,
despejando cerveja na goela e maledicência no mundo.
Este é um país de gente que está no caminho errado, fazendo
o que não quer, buscando alívio em entrenenimentos pueris e
desprezíveis, quando não francamente deprimentes.
Nossa ciência social, atada com cabresto maxista e cega às
realidades psicológicas mais óbvias da nossa vida diária,
jamais se deu conta da imensa tragédia vocacional brasileira que
condena milhões de pessoas a viver presas como animaizinhos,
entre a dor inevitável e o prazer impossível.
É que a explosiva acumulação de paixões infames, inevitável
nessa situação, é o caldo de cultura ideal para a germinação
dos ressentimentos políticos.
E uma ciência social rebaixada a instrumento auxiliar da
demagogia não há de querer lançar luz justamente sobre aquela
treva confusa da qual a demagogia se alimenta.
* Olavo de Carvalho, é Filósofo, Professor e
Jornalista, nascido em Campinas, Estado de São Paulo, em 29 de
abril de 1947. Tem sido saudado pela crítica como um dos mais
originais e audaciosos pensadores brasileiros. Professor de
filosofia e diretor do Seminário de Filosofia do Centro
Universitário da Cidade (RJ). Autor das obras "O Jardim das
Aflições" e "O Imbecil Coletivo: Atualidades
Inculturais Brasileiras". Editor do site Mídia Sem
Máscara.
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