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Escrito por Filipe Ceppas*   
Monday, 10 January 2005

 

A metafísica ingênua da imagem e os chavões da decadência na crítica ao fenômeno reality show.

"O que parece ser a decadência da cultura é o seu puro caminhar em direção a si mesma" — T.W. Adorno

Sartre assim inicia o seu clássico ensaio A Imaginação: "Olho esta folha branca posta sobre minha mesa: percebo sua forma, sua cor, sua posição.

(...) De nada serve discutir se esta folha se reduz a um conjunto de representações ou se é ou deve ser mais do que isso. O certo é que o branco que constato não pode ser produzido por minha espontaneidade".[2]

Para tentar entender os reality shows, se poderia iniciar seguindo os passos preliminares da análise sartreana. Você olha para a tela escura da TV, aperta o power e lá estão eles, os participantes dos reality shows.

Você não sabe se eles se reduzem a um mero conjunto de representações ou se devem ser mais do que isso.

Tal como os personagens das novelas, eles têm seu comportamento mediado por uma dinâmica que obedece aos índices, espontâneos ou não, de audiência, o que não quer dizer que sejam sempre previsíveis.

Mas, sobre aquilo que podemos prever, claro está que, entre quatro paredes ou em acampamentos "no limite", quanto mais o tempo passa, mais e mais cada participante constata na pele que o inferno são os outros.

Muitos críticos, por sua vez, acham que o inferno é a fonte de mediocridade que alimenta esse laboratório pseudo-existencialista. O que essa condenação superficial deixa de lado é a simples compreensão do caráter aparentemente supérfluo do acontecimento, enquanto epifenômeno da geração autônoma de novas formas de legitimação de uma ordem social que, paradoxalmente, há muito sequer parece ter, verdadeiramente, necessidade de ser legitimada.

Em comparação com a folha em branco que Sartre observa, a inércia do reality show, sua dinâmica autônoma e chinfrim, escapa a uma consciência que pretende reconhecer nela apenas a crise pressuposta em tudo o que vê.

Sobre a folha já em parte preenchida, Sartre continua a escrever: "é, com efeito, na medida em que são inertes que as coisas escapam ao domínio da consciência; é sua inércia que as salvaguarda e que conserva sua autonomia".

O reality show é um experimento humano onde nos deparamos com muita banalidade e mediocridade, é verdade, mas seu sentido inercial global é um pouco mais complexo do que o da folha de papel onde o crítico midiático transforma tudo em uma crise que já conhecemos de cor.

Para começar, seria preciso desconfiar das reações indignadas às mais badaladas versões do reality show entre nós, Casa dos Artistas e Big Brother Brasil (BBB), e suas intermináveis versões, programas incomensuravelmente menos agressivos e estúpidos do que aqueles onde pululam pegadinhas e humilhações consentidas, como os de João Kleber (Rede TV) e aquele que o Sérgio Malandro fazia (Gazeta), ou mesmo tão estúpidos quanto os mais conhecidos, Faustão e Domingo Legal, e o extinto Xou da Xuxa. Essa desproporção da crítica fortalece a desconfiança de que a indignação bem pensante faz parte do jogo.

Diversos críticos chamaram a atenção para o fato de que todos os participantes do primeiro BBB, de um modo ou de outro, tenham sido profissionais da imagem, como se a homogeneidade "artística" e corpulenta imposta pela produção do programa reduzisse tudo a uma busca por audiência, o que seria ao menos explícito na Casa dos Artistas do SBT —e como se não o fosse, desde sempre, também na Globo—.

  • Qual a novidade?
  • Por que preocupar-se tanto com a seleção do cast promovida pela Globo, que anunciava a participação de gente comum?
  • Qual propaganda não é, em certa medida, sempre enganosa?

Que não se cometa, aqui, o erro oposto de condenar aqueles que se servem do aparecimento dos reality shows para pensar sobre os podres da televisão e da sociedade, mas cabe pôr em questão o que se esconde sob a indignação semi-elaborada desses críticos frente a toda forma de simulacro.

Vale citar Sartre, mais uma vez: "uma coisa (...) é apreender imediatamente uma imagem como imagem, outra formar pensamentos sobre a natureza das imagens em geral".

Para formá-los, e elaborar uma crítica à imagética global, "...é preciso sobretudo que nos desembaracemos do hábito quase invencível de constituir todos os modos de existência segundo o tipo da existência física".

A ausência de premissas mais interessantes a este respeito ajuda a explicar porque os críticos insistem em identificar obsessivamente a mediocridade da cultura do simulacro.

Ok, nós já sabemos que o esforço de bambans e pedritas reais por se apresentarem ao mundo de modo infantil e iletrado como imagens à venda, em troca de 500 mil, em 2005, o prêmio passa para 1000 mil, no BBB nº5 e outros ganhos laterais no universo trash da fama, faz parte da decadência generalizada.

Mas, além da justificação dos meios pelo prêmio e do próprio prêmio (afinal, alguns críticos-intelectuais não hesitam em submeter-se a condições mercantis tão degradantes quanto...), o que está em questão é precisamente a estrutura da percepção da imagem como cópia da coisa, ponto de partida para o crítico só enxergar naquilo que critica derivações de um culto à imagem que degenera a sociedade.

A metafísica ingênua da imagem consiste, como bem a definiu Sartre, em "fazer da imagem uma cópia da coisa, existindo ela mesmo como uma coisa".

Ao fazê-lo, logo se lhe acrescenta um estatuto de inferioridade: "...pelo fato de ser imagem, recebe uma espécie de inferioridade metafísica com relação à coisa que representa.

Em uma palavra, a imagem é uma coisa menor".

A armadilha de, seguindo os passos de Sartre, criticar a metafísica ingênua da imagem usualmente pressuposta pela crítica cultural está em que é impossível deixar de reconhecer, no mercado, a real manutenção da estrutura criticada pelo filósofo francês.

Apenas os termos, aqui, se invertem: nele, a imagem-cópia vale mais do que a coisa representada —assim, pouco importa qualquer parâmetro de civilidade que, eventualmente, uma Xaiane ou uma Leka possam exibir para milhões de telespectadores, elas garantiram o seu cachê na Playboy—.

Matizar a condenação da imagem-cópia na sociedade do espetáculo parece significar, portanto, uma grave condescendência para com a insistente transformação consentida dos seres humanos em imagem-mercadoria.

Mas a crítica cultural não costuma sequer aproximar-se da superfície do problema e, ao insistir na metafísica ingênua da imagem-cópia, como usualmente o faz, o que não pode deixar de escapar a ela é o que explicaria a total inversão de perspectiva, que o investimento na imagem ajuda a modelar e a esconder: precisamente a determinação de seu reinado desejante como modelo do suposto real.

É sintomático que, após meio século de subversão do estatuto epistemológico da imagem, de nossa compreensão de sua ontologia (onde Sartre, Deleuze e Virilio, por exemplo, se destacam), a crítica midiática, na qual se incluem alguns intelectuais habitués da imprensa, continue, em grande medida, cultuando essa metafísica ingênua, a despeito de seu fracasso explicativo.

  • Primeiro sintoma, o da impotência: discurso que pouco esclarece e irrelevante para as decisões das empresas e o gosto do público.
  • Segundo sintoma, o da prepotência: ensaística que se traveste de fala autorizada, mas faz pouco da teoria, em nome do bom entendimento do público, é claro.
  • Terceiro sintoma, o da sujeição, que já Adorno havia muito bem caracterizado em 1949, ao tratar da crítica cultural: "a insuficiência do sujeito que pretende, em sua contingência e limitação, julgar a violência do existente" e que "...torna-se insuportável quando o próprio sujeito é mediado até a sua composição mais íntima pelo conceito ao qual se contrapõe como se fosse independente e soberano."[3]

— II —

Não resta dúvida de que o surgimento da febre do reality show em todo o mundo traduz um esgotamento das fórmulas televisivas tradicionais na busca por audiência, mesmo aquelas que, segundo critérios cultos ou pseudo-acadêmicos, cairiam sob a qualificação de "baixo nível".

É grande a tendência a aceitar explicações psicológicas secundárias para tanto.

Mas assim como estas não dão conta do estatuto sempre problemático da ficção, elas têm igualmente limites no que se refere ao consumo de massa das narrativas e interações midiáticas.

Constata-se, por exemplo, que o desejo de ver as coisas levadas ao extremo, em contexto onde, supostamente, a intimidade dos outros está em questão, deve se contentar com muito menos.

Ora, a descrição-explicação desse desejo, de sua realização e suas frustrações, no consumo pseudo-interativo do show midiático, será forçosamente uma parte menos escandalosa da explicação para o porque da mesma tendência se impor em todo lugar.

Seja no esporte ou na política, a pureza na liberação da adrenalina é a simulação do irremediável: quando, no bungee jump, o corpo encena seu esborrachamento final, ou quando, na política, a explicitação da violência vem bagunçar nossa percepção distanciada e conformista.

Assim, a potência da explicação psicossocial do reality show está na sua impotência, isto é, ao revelar o que resta para ser explicado.

Com relação à expectativa do confronto, podemos entender porque, seja o que for que tenha a ver com tipos psicológicos de um contexto cultural qualquer, nada de importante aí apareça.

Que o "barraco" nos programas brasileiros, por exemplo, não chegue aos níveis aparentemente supreendentes e inusitados de seus congêneres internacionais (nudez, sexo, brigas e escândalos ostensivos), tal como a propaganda alardeou para atrair a atenção do público, que ele antes desmorone em meio a uma tempestade de banalidades, isto significa simplesmente que numa cultura plural e conflitante, mas em grande medida bastante conservadora, como a brasileira, os produtores armam, de antemão, uma míriade de pequenas regras para evitar o pior, que os participantes já as têm introjetadas, ou ambos.

Por outro lado, a aceitação por parte do público da banalidade e da monotonia imperante nesses programas pode ser parcialmente explicada por um mecanismo de reforçamento da ideologia do brasileiro no fundo sempre boa praça, cuja negação evidente é reforçada pelo sadismo da própria expectativa dos telespectadores, satisfeita quando vêem os participantes em situações constrangedoras e humilhantes —realidade dolorosa que estes mal conseguem disfarçar: a consciência contratual estampada na conduta profissional que a artificialidade do comportamento aparentemente despojado revela—.

Ao enfatizar a mentalidade empobrecida de participantes e público para enfrentar tal situação, ao invés de procurar elucidar os porquês do fenômeno, o crítico, com seus chavões da decadência, apenas reproduz, em nível superior, a cultura do "sadismo-cordial".

Prato cheio para análises psicológicas de segunda categoria sobre o suposto voyerismo amador, a monotonia do reality show é uma oportunidade única para a crítica cultural poder justificar seu voyerismo profissional, i.é, seu olhar distanciado, bem comportado, mas voraz, sobre tudo que seja "de baixo nível".

Se a crítica quer, muito sinceramente, elucidar e ajudar a superar o parasitismo cultural daquilo que alimenta a mediocridade e dela sobrevive, poderia começar por desarmar as falsas polêmicas, que são a condição necessária desses programas "de realidade".

Enquanto crítica não-dialética, permanece presa aos limites que Adorno já havia denunciado. Seria preciso começar por reconhecer que os vários formatos de reality show são uma evolução previsível, banal mesmo, das possibilidades técnicas e dinâmicas da indústria do entretenimento.

Seria preciso reconhecer a veleidade da se tentar resguardar qualquer reinado cultural mais puro da lógica dessa indústria; reconhecendo que todos nós, produtores, comentaristas ou meros consumidores culturais, somos coadjuvantes, ainda que residuais, críticos e de elite, do reality show midiático total.

Melhor faria uma análise pós-moderna, que tentasse identificar virtudes insuspeitas no aparecimento dessas gaiolas humanas televisionadas, do que a crítica ranzinza tradicional, que não consegue reconhecer a precariedade de sua sempre idêntica identificação do mesmo.

Outros lugares comuns da crítica aos reality shows ajudam a demonstrá-lo, como a indignação unânime perante a suposta decadência cultural que representaria o voyerismo institucionalizado por esses programas.

Como disse um psicanalista, no programa da Rede Brasil, Observatório da Imprensa, dedicado ao tema, em fevereiro de 2002, a primeira coisa importante acerca dos reality shows é que neles não existe rigorosamente voyerismo.

O voyerismo pressupõe, como sua condição fundamental, bem mais do que "ver sem ser visto": pressupõe que a pessoa que está sendo observada não saiba disso, sendo o olhar ignorado e não consentido parte essencial do prazer perverso daquele que o cultiva. Isto não quer dizer que esses programas nada tenham a ver com o voyerismo.

Ao contrário, os reality shows vendem, precisamente, o seu simulacro e a sua impossibilidade; vendem, por assim dizer, uma perversão de segundo grau: a impossibilidade da perversão como perversão; e o que é importante notar é que a consciência mais ou menos difusa desta impossibilidade faz parte do jogo.

É ingênuo não levar em conta, como sói acontecer em diversas "análises" do fenômeno, que o comportamento dos participantes e a percepção dos telespectadores estão sempre mediados por uma forte consciência do "jogo"; e não poderia ser diferente, com dezenas de câmeras apontadas para os engaiolados, como eles mesmos não deixam de verbalizar o tempo todo.

Destaque-se, por fim, mais um aspecto da ingenuidade do jargão da decadência: em praticamente todas as abordagens jornalísticas sobre os reality shows, mal se disfarça o pressuposto de que haveria um modo "correto" de realizá-los.[4]

Aqui, a óbvia inadequação da premissa grita histericamente diante do nariz, mas o comentarista prefere arrancar seus próprios olhos para expiar a quase-cópula pecaminosa transmitida ao vivo entre um bambam e uma pedrita quaisquer.

  • Onde, afinal, os comentaristas encontram evidências para supor que um programa da televisão brasileira possa ser realmente desafiador, com pessoas heterogêneas e críticas podendo falar e fazer o que bem quiserem, diante das câmeras, sem censura, 24 horas por dia?

  • De onde vem a idéia de que, ao entrar em um reality show, alguém pode permanecer sendo uma "pessoa comum", sem tornar-se, imediatamente, profissional da imagem, sob o risco de romper com a própria lógica do entretenimento?

  • É certo que a lógica da híper-exposição midiática tende a ser medíocre, mas o furor crítico que ela gera se explicaria apenas pela novidade do formato e os altos índices de audiência?

  • Ou será que os "críticos da decadência" dependem cada vez mais de uma vitrine mais ostensiva para a pobreza cultural de nossa época, tal como os reality shows, para continuarem com seus discursos moralizantes, ao invés de refletirem mais profundamente sobre sua própria impotência diante da tal "baixaria generalizada"?

— III —

A crítica parece recobrar mais a razão quando, ao invés de reconhecer a mediocridade global às custas das limitações daqueles que se dispuseram a participar de uma tal experiência humana, se debruça sobre o show de deselegância e cafajestagem dos produtores e apresentadores, na exploração dos momentos de tensão "espontânea" na intimidade dos participantes; exploração sexual em primeiro lugar, mas também da pieguisse (os "bons sentimentos") e de tudo que tem a ver com a auto-estima e com o questionamento do caráter.

Diante dos riscos de rápida queda de audiência (que se dá inexoravelmente nas segundas edições desses programas, indicando que o público é menos imbecil do que a crítica gosta de alardear), a Globo e seu apresentador-poeta-cineasta-intelectual não sabem impor senão uma patética e desesperada exploração da possível vulgaridade alheia, produzindo-a quando ela não existe, criando constrangimento aos participantes do BBB, e sendo com isso humilhados pela elegância e o bom humor do ex-camelô Silvio Santos e sua rede de televisão na produção da Casa dos Artistas, onde, supostamente, tudo seria de menos "bom gosto".

No BBB, a linguagem, os gestos e sentimentos diluem-se na banalidade das idiossincrasias, alegrias e desentendimentos dos participantes, sem qualquer ressonância significativa, real ou imaginária.

Tudo está submetido a um grande jogo de compensações, tudo "faz parte", assim como pode não fazer. Não podendo contar com o profissionalismo de artistas acostumados com as câmeras, e com o vínculo pré-existente entre o público e o "charme" do exibicionismo das miudezas de uma Tiazinha ou de uma Feiticeira, a produção da Rede Globo é obrigada a apelar, de todas as formas, para manter a atenção da audiência.

Vale notar, assim, que a crítica da decadência, ao reduzir tudo a uma selvagem luta pelos índices de audiência que explora a tendência à mediocridade de consumidores incultos, inverte os papéis do explicans e do explicandum.

Ao contrário, a luta pela audiência esconde diferenças qualitativas importantes, que correspondem a dimensões significativas da dinâmica do consumo da cultura de massa. Seria fundamental que a crítica se detivesse nas óbvias diferenças entre o formato dos programas do Rio e de São Paulo, nos tipos de conflitos e variáveis culturais-regionais em jogo, nas mensagens ideológicas diferenciadas que acabam sendo geradas nas mais banais das cenas, entretanto editadas "a dedo", etc.

Mas este é um trabalho para os quais os críticos da decadência não estão preparados e nem pretendem estar, conivente que são com o jogo da polêmica inútil.

A meu ver, a estrutura dos programas tipo BBB se baseia em um jogo de esconde-esconde (aproximando-se, neste sentido, da estrutura do voyerismo) que ajuda a explicar o hipnotismo capaz de manter os telespectadores atentos a cenas entretanto tão banais.

A promessa e simultânea negação do surgimento do inesperado parece ser a chave do atrativo que exercem os reality shows. Nos fixamos na vaga esperança de ver um real desvio do esperado, como se, em algum momento, aqueles seres humanos pudessem de fato nos surpreender, dizendo coisas ou agindo de modo verdadeiramente inesperado, interessante, desafiador, o que mexe com (ou mesmo, no limite, explicita, tematiza) dimensões psíquicas universais e bastante interessantes, inerentes às interações humanas e sociais:

  • O que eu faria se estivesse nessa situação?

  • Como as pessoas me vêem?

  • O quão falsas elas podem ser?

  • O quão verdadeiras?... Etc...

Não parece ser à toa que os aparentemente mais simplórios e menos "estruturados" dos participantes do primeiro BBB e da Casa dos Artistas 1 e 2 tenham saído vitoriosos, isto é, que os participantes menos "profissionais", mais espontâneos e indeterminados, tenham gerado mais atenção-identificação por parte dos telespectadores (a importância dada ao inesperado teria ao menos o mérito de questionar a explicação mais simplista e mistificadora da identificação do público com os mais "simples", "bons" e "verdadeiros").

Mas essa seria apenas a superfície do fenômeno, hipótese que, se melhor explorada, quem sabe poderia traduzir aspectos mais significativos de nossa realidade social. Isto é, haveria que explicar essa "isca" em grande medida falsa, precária, do apelo ao inesperado, referindo-a à precariedade do sujeito e da experiência na vida cotidiana e à questão da indistinção entre o público e o privado que a televisão ajuda a promover e que tanto favorece o (des)controle social e político.

Por fim, haveria que se falar ainda mais, sem dúvida, sobre o culto à imagem, mas para além da óbvia constatação do padrão que as emissoras tendem a impor na escolha dos participantes. Não é irrelevante que, no primeiro BBB, os representantes mais banais do modelo "culto à imagem" tenham sido eliminados um a um, com a exceção do "Kléber bambam".

Se o fato não deve levar a qualquer conclusão apressada sobre atributos intelectuais e afetivos dos cultuadores da imagem e a uma suposta e intuitiva maturidade dos telespectadores-eleitores (eliminando participantes com menos maturidade e coisas a dizer), serve ao menos para demonstrar a precariedade da crítica genérica da degeneração.

Para não dever nada a uma metafísica ingênua da imagem —e terminar este texto com um dado bastante significativo, raramente abordado pela crítica da decadência—, mais valeria reconhecer que a imagem que de fato vale é a da propaganda: centenas de milhões de reais de faturamente com os reality shows no Brasil, o que, em fevereiro de 2002, por exemplo, somava "o suficiente para a construção de 200 escolas, 20 hospitais de 150 leitos ou 250 creches...", segundo os cálculos de Luiz Costa Pereira Júnior, da Folha de São Paulo (16/02/02).

Para os patrocinadores, que um comentarista ignore o fato e gaste, sem investimento adicional, meia página de um jornal para criticar o caráter regressivo dos participantes, ou mesmo o formato global do show, é, no dialeto dos big brothers, tudo de bom.

* Filipe Ceppas de Carvalho e Faria, é Professor de filosofia, lecionando atualmente no departamento de didática da UFRJ e na Universidade Gama Filho, mestre em filosofia e doutorando em educação pela PUC-Rio. E-mail: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

[2] A imaginação, trad. L.R.S.Fortes, São Paulo: Abril Cultural, Col. Os pensadores, 1987.

[3] "Crítica cultural e sociedade" in: Prismas: crítica cultural e sociedade, trad. A.Wernet e J.M.B.Almeida, São Paulo: Ática, 1998.

[4] No limite, poderíamos imaginar uma "casa dos políticos", com FHC, Lula, Jáder, ACM, Marta Suplicy, Roseana, Benedita, brigando pelo poder de decidir sobre a ordem da casa. E precisa? Não é a esse reality show precário que grande parte do jornalismo impresso e televisivo, se não a própria postura de grande parte dos políticos, dia após dia, procura reduzir a vida pública nacional?

 

r.e. outraspalavras

 

Comentarios (7)Add Comment
...
escrito por Visitante, 2005-03-02 09:38:02
Eu estou fazendo uma monografia sobre Direitos da Personalidade e os Reality Shows, ser que vocs t᪪m mais algum material sobre os reality shows, como um histrico, por exemplo, ou ento o contrato do Big Brother?
Retorno
escrito por Brazil-Brasil, 2005-03-03 13:19:56
Olá,

Esperamos que possa aproveitar algo nos links:
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui.

E, quanto à contrato de participação em reality shows tipo Big Brother, ou similares, dentro ou fora do país, desconhecemos localização de originais e cópias ou de seu conteúdo (claúsulas).

Boa Monografia!

Abraços,
Ribamar Amorim
escrito por Visitante, 2005-08-13 18:51:38
Ribamar Amorim
escrito por Visitante, 2005-08-13 19:01:06
Sou estudante do curso de Direito da Faculcade do Vale do Itapecuru, em Caxias-MA, e também tenho um trabalho em que me foi pedido, sobre o Direito Personalissimo. Entre ele, o que trata dos Reality Show como os BBB, Casa dos Artista, No Limite e outros. E, também me foi pedido algo sobre ou o que trata os contratos, que supostamente devem ser feitos entre os participantes e as emissoras promotoras destes shows. O que me pode ser dado como fomte para pesquisa sobre o assunto? O meu E-mail é: Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso ou Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso . Agradeço qualquer ajuda.
REALITY SHOW
escrito por RANA CANDEIA, 2008-02-17 00:31:57
SOU ESTUDANTE DE DIREITO DA FACULDADE FABAVI EM VITÓRIA NO ES. VOU APRESENTAR UM TRABALHO SOBRE O TEMA REALITY SHOM E ESTOU PRECISANDO DE MATERIAL QUE FALE DESSE TEMA. COMO SE DÃO OS CONTRATOS, AS CLAUSULAS, ETC.
MEU E-MAIL É Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

DESDE JÁ AGRADEÇO,

RANA
mulher que gosta de sexo com jovens de 16 anos só mulher ou meninas
escrito por alexandre, 2008-04-25 09:40:11
mulher que gosta de sexo com jovens de 16 anos só mulher ou meninas se kiser pode chama eu para faser porno com meninas da minha idade ou mais
mulher que gosta de sexo com jovens de 16 anos só mulher ou meninas
escrito por alexandre, 2008-04-25 09:41:11
mulher que gosta de sexo com jovens de 16 anos só mulher ou meninas se kiser pode chama eu para faser porno com meninas da minha idade ou mais msn; Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

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