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" Sou surfista de onda grande.
Assim o jornalista, apresentador de TV, poeta e cineasta Pedro
Bial, 46 anos, explica por que não hesitou um minuto antes de
aceitar a incumbência de escrever o perfil biográfico de um dos
maiores empresários da história do Brasil, Roberto Marinho.
E por que hesitaria? Bom, talvez porque outros incautos
escalados no papel de biógrafo do homem ao longo do tempo
Otto Lara Resende, Cláudio Mello e Souza, Evandro Carlos de
Andrade tenham, todos, dado um jeito de pular fora. Eles
saíram de fininho e a roubada sobrou para mim, admite
Bial.
Talvez, ainda, pelo fato de a encomenda ter partido da própria
família Marinho, que dificilmente se satisfaria com menos que um
livro simpático ao patriarca. O resultado é Roberto
Marinho (Ed. Zahar), que comemora o centenário de
nascimento do homem que gostava de ser chamado de nosso
companheiro.
O volume, cheio de histórias saborosas escritas em tom de
conversa, tem o potencial de dar mais dor de cabeça ao autor do
que seu mergulho anual nas profundezas da televisão popular,
como apresentador do Big Brother Brasil. Não há como negar
coragem a Bial.
O livro não tem traço do personagem em que a esquerda
brasileira se habituou a projetar todos os males nacionais.
Funcionário da Rede Globo há 24 anos, Pedro Bial assume que
escreveu sobre o patrão como um apaixonado. Literalmente.
Eu procurei o demônio e não o encontrei,
garantiu em entrevista de duas horas a um batalhão de
jornalistas: Guilherme Fiuza, Pedro Doria, Sérgio Rodrigues,
Tutty Vasques, Xico Vargas e Zuenir Ventura.
A conversa foi cordial, espirituosa, mas com momentos de
nervosismo: por três vezes, Bial queixou-se de ter esquecido o
Rivotril, um tranqüilizante.
Agora que está destruído o mito de que Roberto Marinho
não iria morrer, ele está morto, você não acha que está
criando um outro mito, o do homem sem defeitos?
Bial: Não tem defeitos no livro? Caramba, isso é uma
crítica séria... Eu procurei apontar, mas então eu acho que não
fui bem sucedido. Tem a ganância, não é? Mais que defeito, é
considerado até um pecado, e está dito lá com todas as letras
que ele era um homem ganancioso, que em primeiro lugar só
pensava nas suas empresas... Bom, talvez isso não seja um
defeito para um empresário.
Falo também da teimosia, que ele foi um pai ausente. Era um
homem que demitia fácil, eu acho que isso fica claro no livro,
tinha um coração duro.
Também tinha afetos arrebatados e um dia se cansava, pessoas
de quem ele não desgrudava eram chutadas de repente para
escanteio. Talvez isso eu pudesse ter explicitado mais, mas era
uma característica dele.
Você é de uma geração que cresceu ouvindo a esquerda
dizer que Roberto Marinho era o demônio. E se você encontrasse
o demônio em suas pesquisas, o que diria para a família?
Bial: Eu procurei o demônio e não encontrei. Num balanço,
eu acho que ele fez mais bem do que mal, gerou muita
prosperidade. Se for para botar na mesa visões de mundo antagônicas
à dele, como a do Brizola ou a da esquerda brasileira que
acreditava que o Estado seria a solução de todos os problemas,
eu estou muito mais afinado com ele mesmo.
E acho que esse papo de demônio é um vício renitente no
jornalismo, essa coisa de sair para fazer uma matéria pensando:
contra ou a favor? Esse tipo de pensamento está morto e
enterrado, chega disso.
Estou cansado de ver jornalista indo pra rua já sabendo quem
é o vilão. Eu quero mais é ouvir a versão do Silveirinha e não
sair dizendo que o Silveirinha já é culpado antes dele falar.
Esse maniqueísmo é do século 20, e a gente está no 21. Eu no
livro não sou contra nem a favor.
Só agora, pelo que vocês estão me dizendo, estou pegando as
primeiras reações dos leitores e percebendo que talvez o livro
tenha ficado mais para o favorável, digamos assim.
Mas quer ver um exemplo brilhante de biografia? O Cobras
criadas, do (Luís) Maklouf. É brilhante porque ele
descreve o David Nasser de um jeito que o título poderia ser
Perfil de um crápula, e no entanto não faz um juízo
de valor durante o livro inteiro, não usa adjetivo.
É claro que alguma coisa excepcional a figura de Roberto
Marinho tinha, ou não teria começado a fazer uma televisão aos
60 anos, quando 95% das pessoas se aposentam.
Bial: É como eu disse, eu não queria que o livro fosse
uma hagiografia de Roberto Marinho, mas eu fui o tempo todo
deixando bem claro que eu estava me apaixonando pelo personagem.
Eu fui escrevendo enquanto fazia a pesquisa, descobrindo como era
o sujeito junto com o leitor.
Quando percebi que estava apaixonado, já tinha acontecido, não
foi algo pensado. Fui fazendo e ele foi me ganhando.
Você está traçando um perfil de um sujeito que foi um
grande comedor de gente. Por que não entregar mais coisas, dar
uma lista de mulheres?
Bial: Eu usei o que era pertinente para compor o perfil
biográfico dele. Eu não estava fazendo a revista Caras,
teria material para fazer, mas achei que seria impertinente e
deselegante.
Eu me orgulho do que consegui fazer, foi uma façanha. Acho
que teve esse defeito do autor ter se apaixonado pelo personagem,
mas isso é bastante comum, não fui o primeiro. O livro é
digno.
Não faz falta uma investigação melhor sobre aquilo que
o Chatô aborda, a negritude do Dr. Roberto?
Bial: O Irineu (pai de Roberto e fundador de "O
Globo") era evidentemente mais mulato, eu acho que isso era
da mãe do Irineu. Inclusive o Irineu, junto com outros poucos
empresários e membros da elite, bancou a ida dos Oito Batutas
(grupo de Pixinguinha) para Paris em 22, quando o Epitácio
Pessoa proibia negros na seleção brasileira de futebol. Eu não
consegui identificar quem era o negro da família.
Os filhos também não sabem, embora o João diga com todas as
letras que tem sangue negro. Mas eu não fiz genealogia, não.
Tinha até uma que o Ricardo Marinho (irmão de Roberto) tinha
feito, mas eu não usei.
Era uma coisa mais de buscar as origens nobres da família
Marinho na Península Ibérica. Agora, tem certas coisas no livro
que eu achei que iam chamar mais a atenção...
Quais?
Bial: Por exemplo, a primeira doença venérea, aos 16
anos. E a música sobre a cocaína que o Donga dedicou a ele.
Isso era uma coisa que se cochichava nos corredores, e o Sérgio
Cabral me socorreu ali, contando a briga entre Donga e a turma de
Pixinguinha e Sinhô, que era a turma do Roberto também. Quer
dizer, a música pode ter sido uma provocação.
Quais foram os limites que a família traçou?
Bial: Eu adorei um conselho que o João Roberto me deu
quando fui entrevistá-lo. Eu falei: Vou fazer uma
reportagem com vocês como sempre fiz na Rede Globo, porque vocês
sabem que eu sou um ser global, comecei a trabalhar na Globo e
nunca mais saí, vou fazer 25 anos de TV Globo.
E falei que lá eu nunca fui aporrinhado, nunca me disseram
como contar, o que fazer, nunca fui incomodado. O conselho do João:
Você pode tratar de todos os assuntos, contanto que seja
com naturalidade.
Eu adorei esse conceito de naturalidade porque é subjetivo
pra chuchu e ao mesmo tempo me ajudou a entender o Roberto
Marinho, como ele lidava com as situações mais embaraçosas e
potencialmente explosivas. Ele utilizava a arma da naturalidade.
Tem aquele episódio logo depois da porradaria da Time-Life, a
briga violenta com os Diários Associados.
O João Calmão, como ele chamava, o convida para
uma reunião no Cruzeiro e ele, para surpresa de
todos, vai. Entra no Cruzeiro na maior naturalidade.
Todo mundo sai correndo quando o vê. Percebi que o João estava
me dando aquela orientação porque aquilo ele ouviu do pai, era
parte da munheca política dele.
Todos os filhos foram fontes?
Bial: O Roberto Irineu foi, o Zé Roberto foi um pouco
menos, o João foi. Todos foram fontes porque deram entrevistas
generosas, abertas e francas. O Roberto Irineu, por exemplo,
descolou um grampo de 1940 do DIP.
O João sabe muito da história do jornal. E o Zé contou histórias
muito bacanas, como a do pai lhe dizer que era simpático à
revolução sexual, ao amor livre da década de 60, e explicar:
Na minha época, as meninas iam na minha casa na Urca,
faziam de tudo e depois casavam virgens.
Você ouviu conselhos de amigos dizendo para não entrar
nessa de biografar Roberto Marinho, que era uma roubada? O seu
psicanalista não achou que você estava maluco?
Bial: Eu ouvi o seguinte do meu editor, Bob Feith, da
Objetiva, e interpretei um pouco como despeito dele: Estou
procurando ver as vantagens, mas só vi as desvantagens. Eu
sempre gostei de onda grande, sou surfista de onda grande.
Recebi o convite nas condições mais engraçadas, eu estava
em Berlim fazendo umas matérias para o Fantástico e
me ligou o (Luís) Erlanger (diretor da Central Globo de Comunicação),
que é o autor da idéia do meu nome. Três horas da manhã, eu
dormindo, toca o telefone: Vem cá, você não quer
escrever um perfil biográfico do Roberto Marinho?. Ele me
consultou antes de apresentar a idéia aos filhos, foi meio de
supetão. Aceitei na hora porque eu queria escrever.
Já o meu psicanalista achou uma boa oportunidade de enfrentar
o nosso inimigo declarado, que é o senso comum. Nós, do
jornalismo, somos muito pautados pelo senso comum. Nesse sentido,
eu aproveitei a chance de humanizar um sujeito sobre quem todo
mundo já tinha idéias solidificadas e ninguém sabia nada.
Eu sou meio papagaio das idéias do meu psicanalista, tenho
que confessar. Admiro muito o Francisco Daudt da Veiga, não só
por ser o sujeito que mantém minha precária saúde mental, mas
pelos livros que ele escreve.
Em nenhum momento você se arrependeu?
Bial: Não, me arrepender, não. Eu fiquei foi muito
estressado com o negócio do tempo, do prazo. Quando escrevi
metade do livro, achei que era melhor mandar para os filhos
lerem, e eles gostaram tanto que a idéia de ter tudo pronto até
o dia do centenário do nascimento (no último dia 3) foi
abandonada.
Vai escrevendo, quando terminar terminou, me
disseram. Mas o deadline já estava introjetado e eu não
conseguia pensar em outra coisa. Eu estava possuído por esse
senhor aí, não conseguia dormir, para dormir tinha de tomar pílula.
E sonhava com ele, acordava pensando nisso.
Andava pelo Jardim Botânico com a última linha do livro na
cabeça e chorava: quando é que vou conseguir chegar lá? É difícil
escrever, pôr uma palavra atrás de outra, uma frase atrás da
outra. Na televisão, a gente tem os artifícios de edição, mas
escrever é muito chato. Literalmente, é catar milho, e no começo
eu catava milho até oito horas, dez horas por dia.
Aí percebi que o trabalho das últimas duas, quatro horas, eu
tinha de reescrever no dia seguinte.
Quanto tempo levou esse mergulho?
Bial: Eu comecei a trabalhar no livro em novembro de
2003. Em janeiro, fevereiro, março e início de abril fiquei
fazendo entrevista e pesquisa, acumulando com o Big Brother
Brasil, e era aquela esquizofrenia, dois universos
completamente opostos: de manhã eu estava fazendo uma entrevista
de quatro horas com o Jorge Serpa, ali na Rua São Bento, à
noite tinha paredão.
E eu não podia confundir uma coisa com a outra. Só comecei a
escrever mesmo em meados de abril. Foram menos de três meses
escrevendo, mas literalmente enclausurado.
Você tinha uma equipe trabalhando com você?
Bial: Tinha o Projeto Memória, que já tinha começado
um trabalho de organização e levantamento da memória das
Organizações Globo, isso desde 99. Mas era um trabalho mais
geral e não específico sobre o dr. Roberto.
Há duas fontes raríssimas no livro, o Jorge Serpa e o José Luís
Magalhães Lins...
Bial: O Jorge Serpa, que é genial, topou falar depois
de muita cantada. O José Luis até que foi mais receptivo porque
era muito amigo e tal. Muitas entrevistas eu tive que refazer
depois que o dr. Roberto morreu, porque uma coisa é falar do
homem vivo... Depois da morte as pessoas ficavam mais à vontade,
antes tinha uma cerimônia muito grande, tinha certos assuntos
tabus.
O principal, que eu coloco logo no início do livro, para
chutar o pau da barraca, é a coisa da senilidade. Ninguém
falava, não se podia falar nisso, e resolvi abrir assim.
Tem a ver com você mostrar logo de cara que tem uma
liberdade de trabalho?
Bial: Eu acho que tem mais a coisa de pegar o leitor
logo nas três primeiras páginas, com uma imagem surpreendente
que ninguém sabia, e ao mesmo tempo que todo mundo se
identifica, que é esse inconformismo com a idade. Eu acho que
todo mundo se olha no espelho e fica muito bravo.
Eu, por exemplo, não estou com 46 anos e sim com meus 25
anos, e acho que todo mundo tem esse inconformismo com o tempo
que Roberto Marinho tinha. É mais uma isca mesmo, para pescar a
atenção do leitor.
O que você deixou fora do livro?
Bial: Do que eu achei mais pertinente para traçar o
perfil, não deixei muita coisa fora. Só certas intimidades e
coisas que eu não podia comprovar 100%, que não tinha como
bancar. Uma coisa que eu não falei é que, tanto no jornal
quanto na televisão, muito do sucesso do Roberto Marinho se deve
à incompetência da concorrência também.
Teve vários momentos em que ele ousava começar uma coisa e a
concorrência só ficava torcendo para dar errado, como no episódio
em que o Boni junta o João Saad (da Bandeirantes) e o dr.
Roberto Marinho na casa do Cosme Velho e propõe uma rede, a
primeira rede do Brasil. E o João disse que era muito dinheiro,
que não ia entrar nisso.
Essas pesquisas mudaram de alguma forma sua visão sobre
o golpe de 64?
Bial: Não mudou muito. É até ridículo dizer que sou
um castellista porque eu tinha uns 6 anos quando se deu o golpe,
só me lembro que eu fiquei feliz porque não teria aula no dia
seguinte no Chapeuzinho Vermelho, mas historicamente eu sou simpático
ao Castello.
Familiarmente, também: o meu pai estava meio que fazendo as
malas depois do comício da Central. Ele era um judeu fugido do
nazismo, tinha tido experiência com os comunistas também, ficou
apavorado com o que ia acontecer no Brasil.
Odiava o comunismo, embora tivesse grandes amigos comunistas,
como o Vianinha. Mas eu acho que a ditadura mesmo começa em 68.
O Castello era um legalista, o grande erro dele foi prorrogar por
um ano o seu mandato. Aí toma aquele pau nas eleições
estaduais e pronto, a história fica cada vez mais triste...
Qual é o papel dos filhos de Roberto Marinho na
modernização e na abertura, digamos, democrática pela qual
passaram tanto o jornal quanto a TV?
Bial: O envolvimento cada vez maior dos filhos foi um
processo. Nunca poderia haver uma ruptura porque ele não
suportava a idéia de sucessão. No caso do Globo, o
João tinha uma interlocução com o pai que nenhum dos outros
filhos teve, eles passavam as manhãs conversando e, segundo me
disse o João, entravam em desacordo, discutiam, esgrimiam.
O João teve a habilidade de, através de longas conversas, ir
abrindo o jornal. Mas, como o Roberto andou muito obcecado na década
de 60 em colocar a Rede Globo de pé, ele tinha meio que deixado
de mão o jornal.
Acho que é até o (Henrique) Kaban (ex-executivo do Globo)
que fala isso no livro: houve um momento em que o jornal estava
à direita do dono, já não representava mais o tipo de jornal
que ele gostaria de fazer.
Você diz no livro que, quando Roberto Marinho volta a se
encontrar com a família Collor de Mello, ele tinha reservas em
relação ao candidato porque nunca se esqueceu da traição
da mãe. Mas Collor era sócio dele na TV Gazeta de
Alagoas, uma das mais antigas afiliadas da Globo, desde 75.
Estava longe de ser um estranho...
Bial: Uma coisa é você ter uma afiliada, ter um sócio
numa afiliada, e outra coisa é decidir quem vai apoiar para
presidente. Ele de fato tentou apoiar o Covas, isso aí é
documentado, mas os dois não se suportavam.
O Fernando Henrique e o Serra tentaram vender para o Covas o
discurso do choque do capitalismo, mas o Covas e a esquerda do
PSDB fugiram disso. Sobrou uma campanha ultrapolarizada entre o
Collor e o Lula, que vinha dizendo que ia acabar com a Rede
Globo.
Você já foi jogador de basquete, poeta militante com o
grupo Os Camaleões, correspondente da TV Globo, dirigiu um filme
(Outras Estórias, baseado em Guimarães Rosa),
apresenta o Big Brother. O que gosta mais de fazer?
Bial: De escrever, por mais chato que seja. O cinema foi
minha experiência mais traumática porque eu perdi tudo, todas
as economias que tinha feito durante a vida inteira. Ao mesmo
tempo, o que o trabalho tinha de criação, esse lado autoral da
direção, ficou na minha vida como uma redoma de encantamento.
O que quero fazer agora é ficção. Estou com um projetinho
meio encaminhado que é baseado em fatos reais mas é ficção
também, e que trata de uma obsessão minha: falar sobre o meu
pai, pesquisar a vida dele.
Estou pensando em ir à cidade em que ele nasceu na Polônia,
apurar para ver se tem algum caldinho ali. Essa idéia está
forte agora porque vi outro dia em Londres uma encenação do
Hamlet pela Royal Shakespeare Company. Essa foi a peça
que fez com que meu pai fosse um dos fundadores do TBC.
Um dia, ele começou a ver os ensaios com dois jovens atores,
Sérgio Britto e Sérgio Cardoso, no teatro dos estudantes. Ficou
alucinado, via todos os ensaios, e no dia da estréia, quando deu
uma paúra no diretor de cena, que é um nome mais pomposo para
contra-regra, ele se ofereceu: Eu sei de cor, eu faço.
Foi assim que começou a carreira do meu pai no teatro.
Você ainda escreve poesia?
Bial: Escrevo, mas é impublicável. Não tem qualidade
para ser lançado, segundo o meu crivo. Lança-se demais,
publica-se poesia demais e eu fico com uma dó ecológica das árvores
que se sacrificam para publicar tanta porcaria. Nós temos belos
poetas, mas é aquilo que o João Cabral falava: qualquer um que
toma um pé na bunda da namorada acha que é poeta.
Você pode gostar mais de escrever do que de suas outras
atividades, mas para o grande público é principalmente o Pedro
Bial do Big Brother, não?
Bial: Exatamente. Mudou minha qualidade de vida para
pior. Eu virei o Chacrinha, ninguém tem a menor cerimônia
comigo.
Às vezes é chato pra caramba, tenho que ser agressivo. Se
for à praia com meus filhos e não der um chega-pra-lá no
primeiro, junta um bolinho e acabou a minha praia. É um tipo de
popularidade muito chata.
O programa virou uma instituição nacional de início de ano.
Estou com medo, no quarto ano eu já estava com medo e no quinto,
agora, mais ainda, porque em algum momento vai cansar. O que eu
acho mais interessante no Big Brother é a versão brasileira.
Ele é um programa de conteúdo adulto feito pela Endemol para
vender sempre para a segunda emissora de cada país, para que ela
pela primeira vez chegue à liderança.
Aconteceu isso em todos os países, menos no Brasil porque o
SBT roeu a corda na última hora. E no Brasil o BBB virou um
programa da família, tem público infantil, faz muito sucesso
entre crianças e pré-adolescentes. Outra coisa que é
absolutamente ausente nas edições internacionais é o humor. No
Big Brother Brasil a edição deu um grande toque de humor, isso
depõe favoravelmente ao país.
Você acha que ficaria menos popular se pusessem lá
dentro uns intelectuais?
Bial: Eu acho que em dois dias os intelectuais mais
brilhantes do Brasil estariam falando de xixi, cocô e sexo.
Ninguém ia ficar discutindo a Crítica da Razão Pura.
Na França fizeram isso, colocaram escritores, e ficou insuportável.
O que eu acho que falta mesmo ali é velho, e mais de 40 já é
velho para o BBB. É uma coisa maluca, mas bem típica do Brasil.
O Nélson Rodrigues já falava que, para nós, a juventude
é uma qualidade em si.
Você foi muito patrulhado por participar desse jogo?
Bial: Fui. Chegou um momento em que eu achei que não ia
mais conseguir ler porra nenhuma. Mas aprendi a relativizar o que
vem de determinados veículos porque existe uma guerra comercial:
é fato que a TV Globo detém 70% do faturamento publicitário do
Brasil, então é legítimo que os outros veículos comprem essa
briga.
Uma vez eu vi o Otávio Frias Filho (da Folha de S.
Paulo) falando no Observatório da Imprensa:
Realmente, fazemos uma campanha contra a TV Globo.
Ele assume, o que eu acho maravilhoso, legítimo, embora isso
vá criando um hiato cada vez maior entre Rio e São Paulo, que não
é bom para ninguém. Mas isso me desobriga também de achar que
é idônea qualquer crítica à TV Globo feita nesse jornal.
Como é o seu contrato com a Globo? Depois desse livro, a
próxima renovação terá um teto alto, não?
Bial: O último contrato que eu fiz foi de cinco anos,
em 2001. Ano que vem é o último ano, em 2006 tem a renovação.
Mas não sei se essas coisas se transferem, não. Pode ser até o
contrário, pode ser um ônus.
O livro foi um acerto entre o Pedro Bial e os filhos do
Roberto Marinho, não tem nada a ver com o funcionário da Rede
Globo.
O cacife que eu tenho é do Big Brother, porque hoje eles têm
um apresentador muito mais versátil e que pode fazer várias
coisas. O livro pode ser um ônus por ciumeiras políticas,
porque supostamente eu teria tido intimidade com os acionistas.
Gostei de lidar com eles, mas acabou. Agora, eles lá no Olimpo e
eu na minha vidinha.
Quem é mais símbolo sexual: você ou o Jabor?
Bial: O Jabor, com vários corpos de vantagem. Eu estou
cada vez mais caseiro nos últimos anos, avesso à badalação. Não
que eu tenha parado de beber, mas bebo em casa. Não tenho muito
traquejo social. Como dizia o Paulo Francis, eu tinha que beber
muito para tornar as outras pessoas interessantes e acabava
pagando mico, fazendo vexame.
As apresentações dos Camaleões eram porres públicos. Nos
últimos tempos meus valores passaram a ser family values. Gosto
de ficar com minhas crianças, eu tenho um filho pequeno que é
uma viagem. Não tem nada melhor que isso.
Você tem saudade da época de correspondente?
Bial: Eu tenho saudade no sentido de que foi meu período
áureo, a minha melhor época como profissional. Por coincidência,
foram os anos que determinaram o fim do século 20, com o fim da
Guerra Fria, tudo aconteceu quando eu estava lá, dei sorte.
Logo depois a cobertura internacional diminuiu muito porque o
fim da Guerra Fria deixou muito complexa a história, e esse
danado do relógio da audiência lá na Globo indicava também
que o público não se ligava em assuntos internacionais.
O Brasil é muito insular. Eu tive uma experiência
interessante com os chineses, que são danados. Fui para a China
semanas depois do 11 de setembro, quando aqui não se falava de
outra coisa, era como se tivessem jogado os aviões aqui em São
Paulo.
Na China eles, estavam com uma postura de olha só o que
os americanos arranjaram para eles, vamos ver quais são as
nossas oportunidades dentro da crise deles.
No Brasil, a atitude era de importar os problemas americanos
para nós.
Você também está no site euodeiodiogomainardi?
Bial: Eu não. Ele erra muito mas acerta às vezes, é
provocador. Eu acho que tive uma grande contribuição na
carreira dele. Ele era crítico literário da Veja e
eu o entrevistei ele por causa do livro Contra o Brasil,
que é muito engraçado, no Espaço Aberto da
Globonews.
E ele, no ar, me falou que nunca tinha lido Rachel de Queiroz,
Graciliano Ramos, coisas meio básicas para qualquer crítico
literário. Não sei se houve relação de causa e efeito, mas um
mês depois ele passou a ter uma coluna, deixou de ser crítico
literário.
Eu gosto de algumas pessoas que até tenho medo de dizer e ser
apedrejado... Por exemplo, acho o Olavo de Carvalho da maior
importância, ele às vezes diz coisas que têm de ser ditas.
Sou fã do Ali Kamel e seus artigos, acho um primor de
pensamento. É importante o Ali falar que a população média de
emagrecidos nos países desenvolvidos é de 2% e no Brasil parece
que é algo em torno de 4 a 4,5%, ou seja, não são 52 milhões
de famintos, como dizem as estatísticas.
Quando você fala em 52 milhões, a reação do leitor é de
paralisia, de impotência, como se não houvesse nada a fazer.
O Diogo Mainardi não acredita que o Brasil tenha jeito, mas
eu acredito que o Brasil não é um fato consumado. Se não
acreditar, vou mudar de país ou dar um tiro na cabeça.
nominimo
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