Fala, Brasil! - Luiz Carlos Correia, Mizael Cabral e Natália Buso - O Natal do Imigrante Brasileiro
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Luiz Carlos Correia, Mizael Cabral e Natália Buso - O Natal do Imigrante Brasileiro PDF Imprimir E-mail
Escrito por Neusa Martinez   
Saturday, 11 December 2004

Como é bom fechar os olhos e lembrar a magia da maior festa religiosa do Brasil, o Natal. As cenas do passado aparecem em nossas mentes repletas de saudade, beleza e muita emoção.

Lembramos de toda a família reunida na casa dos avós; da tia que ficava vigiando a Árvore de Natal, onde ficavam os presentes; dos primos brincando com o presépio; da vovó na cozinha preparando quitutes deliciosos; do Natal que mamãe nos deu um irmãozinho; daquele tio brincalhão que falava alto à mesa; da madrinha que trazia vinte panetones, que ela mesma havia preparado, para presentear a todos; do inesquecível ano em que Papai Noel nos deu uma bicicleta; do momento em que todos oravam e agradeciam o nascimento do Menino Jesus; do brinde ao amor e sinceros votos de Feliz Natal e um Próspero Ano Novo...

Mas também lembramos dos tristes natais em que não pudemos ter uma ceia farta; dos anos sem a presença dos entes queridos, que nunca mais iríamos vê-los; das vezes que Papai Noel “esqueceu” de passar em nossa casa... Da dolorosa saudade de um filho, pai, mãe ou irmão, que se mudou para uma terra estrangeira e não pôde compartilhar conosco este momento tão precioso.

Separação, solidão e saudade são marcas na vida de todo imigrante e é no Natal que elas se tornam ainda mais visíveis. Na tentativa de amenizar a angústia e para sentir o aconchego do lar, alguns procuram passar as festas de fim de ano na casa de outras famílias brasileiras.

Outros planejam suas férias para esta data e vão para a “terrinha” dar aquele abraço gostoso em sua gente.

Querido imigrante brasileiro, esteja você onde estiver, nunca abandone suas raízes e muito menos os seus sonhos! Gostaria de oferecer-lhe uma música do compositor Edson Borges:

Quero ver você não chorar
Não olhar pra trás
Nem se arrepender do que faz

Quero ver o amor vencer
Mas se a dor nascer
Você resistir e sorrir

Se você pode ser assim
Tão enorme assim eu vou crer
Que o Natal existe
Que ninguém é triste
Que no mundo há sempre amor

Bom Natal um Feliz Natal
Muito amor e paz pra você
Pra você...

Para esta coluna especial de Natal, entrevistei três imigrantes brasileiros que estão no sul da Flórida. São eles: o presidente da Confiança Moving, Luiz Carlos Correia, que veio de uma família humilde e hoje emociona-se em poder ajudar as crianças do Brasil; Mizael Cabral um dos surfistas presos no aeroporto de Miami, por causa daquela história de bomba, e que aguarda deportação; e a nadadora Natália Buso, que depois de quase dois anos treinando nos EUA, poderá desfrutar o Natal com sua família no Brasil.

Luiz Carlos Correia

– O que significa o Natal para você?
Luiz Carlos Correia
– É uma data muito importante porque é o nascimento de Jesus. Fico triste em ver as pessoas pensarem só em festa, comida e presente e esquecerem do principal, que é o Cristo que existe no coração de cada um de nós.

– Como era a noite de Natal em sua infância?
Luiz Carlos
– A gente se preparava colocando meia na janela e ficava na expectativa. Lembro-me que, em várias noites de Natal, eu ia escondido abrir a porta de casa e até a janela, para que o Papai Noel pudesse entrar. Nós acreditávamos piamente que ele existia, que usava barba branca e que chegaria com uma sacola contendo presentes para nós.

Eu achava que só o Papai Noel poderia me dar um brinquedinho, porque o meu pai não tinha condição alguma.

No dia seguinte, a gente acordava e via que o Papai Noel não tinha passado por lá. Era frustrante... As crianças da rua tinham coisas que a gente desejava ter. A única coisa a fazer era esperar o próximo ano chegar.

– Como é para você, hoje em dia, poder presentear tantas crianças de sua terra?
Luiz Carlos
– Bate uma emoção muito forte em meu coração! Eu volto no tempo e lembro de toda a minha infância. Agora estou realizando um sonho de muitas crianças e podendo proporcionar um Natal feliz, cheio de paz, de graça e amor. Hoje eu posso transferir um pouco do que tenho, que Deus me dá, para aqueles que também merecem um Natal verdadeiro, cristão, humano, sincero e de paz.

Como eu fui uma criança pobre, do sertão do Ceará e não tive na minha infância presente de meu pai e hoje eu transfiro para os outros o que Deus me deu. Eu estou devolvendo ao meu semelhante o que Deus me deu com abundância.

Nós, da Confiança e a Brazilian Mission, distribuímos, neste ano, 13 mil presentes às crianças de minha região, no centro-sul do Ceará: Várzea Alegre, Cariús, Farias Brito e Orós.

– Quando morava no sertão do Ceará passava pela sua cabeça que poderia alcançar tudo o que alcançou?
Luiz Carlos
– A gente sempre tem um sonho na vida e fazemos de tudo para realizá-lo. O meu pai foi muito feliz em sair de Várzea Alegre e ir para Fortaleza tentar a sorte como retirante.

Ele não tinha nada que garantisse sua sobrevivência e nem de sua família.

Mas ele tinha fé e esperança que iria dar certo. Esta fé foi transferida para mim, aos outros filhos e netos. Trabalhamos duro e fizemos as coisas corretas, e com isso Deus nos beneficiou. A presença dele na minha vida é muito forte. Sou católico convicto e sei que Deus não vai me abandonar.

– Com quantos anos você começou a trabalhar?
Luiz Carlos
– Eu estava com seis anos quando saímos de Várzea Alegre para ir para a cidade grande. Isto foi em 1950. Passamos não só os natais, mas também o nosso dia-a-dia tinha muita dificuldade, por não ter condições de dormir numa cama ou para comer diariamente. Com 10 anos eu trabalhava entregando marmita, jornais, para poder ajudar na sobrevivência de minha família.

– O que você tem de mais valioso em sua vida?
Luiz Carlos
– Eu sou uma pessoa simples. Eu não almejo riquezas ou poder. Eu valorizo muito mais o “ser”: o ser amigo, ser companheiro, ser bom patrão, bom pai e avô. O que eu acho mais importante para as pessoas terem felicidade é procurar o “ser” e não o “ter”. Tudo na vida é passageiro.

A gente tem que realizar os sonhos com humildade, ter a sabedoria para aproveitar a oportunidade que Deus nos dá no dia-a-dia, porque ontem já passou e o amanhã é outro dia.


Mizael Cabral

– Como é o Natal em sua casa, lá na Paraíba?
Mizael
– É bem alegre. O nome da cidade que moro é Campina Grande, fica a duas horas de João Pessoa. O meu pai faz aniversário no dia de Natal, 25 de dezembro, então comemoramos as duas datas. A minha mãe gosta de cozinhar e preparar as comidas típicas de Natal. Passamos em família com mais dois irmãos que tenho. Quando eu era pequeno o meu pai nos levava para ver os enfeites de Natal na praça da cidade. Lembro disso até hoje...

Os meus pais sempre nos deram tudo o que eu e meus irmãos precisavam, nunca faltou nada, principalmente carinho e amor.

– Como foi para você ter passado os dois últimos natais aqui nos EUA?
Mizael
– Foi triste. Eu me reunia na casa de um amigo ou outro, mas o meu desejo era estar em casa com meus pais. Mesmo para eles foi muito difícil. Minha mãe até falava que não iria fazer festa, porque eu não estava lá. Eu dizia que tudo estava bem comigo e que era para ela fazer, por causa dos meus irmãos... Eu mandei dinheiro para a ceia e também presentes para toda família. Eu sinto muita falta de meus pais, de dar um abraço bem apertado neles, de comer a lasanha que minha mãe prepara...

– Como você acha que será o seu Natal desse ano?
Mizael
– Eu estou chocado com tudo o que aconteceu. Eu nunca estive em prisão alguma! Mas, eu tenho o Daniel aqui, nós somos muito amigos e a mãe dele, dona Hilda, tem me dado muita força. Quando estou triste ela me ajuda falando coisas positivas. Toda noite eu oro muito para Deus para que as autoridades americanas dêem uma solução e me deportem daqui o mais rápido possível. De preferência daqui uma semana para que eu possa passar o Natal junto de minha família.

Meu pai quer muito que o presente de seu aniversário seja a minha volta para casa. Seria maravilhoso se isto acontecesse. Este é o meu sonho. Eu seria a pessoa mais feliz do mundo só pelo fato de estar perto de minha família, poder chorar no ombro de meu pai e sentir o conforto de casa.

– Como você se sente em ter ficado um mês na prisão?
Mizael
– Toda esta coisa que aconteceu comigo ainda me assusta e tenho muito medo. Quando eu estava na prisão tive muita depressão, inclusive precisei de acompanhamento psicológico. Eu sinto que isto me deixou com seqüelas, às vezes eu choro, me dá medo, fico inseguro e o receio de ter que voltar para lá é enorme! Realmente foi um choque!

- Qual foi o pior momento que você passou lá dentro?
Mizael
– Foi desde a hora que me algemaram e durou até eu sair de lá. A única coisa boa foi que lá havia uma igreja, onde encontrei Deus e isto me deu força. Toda noite ia até a igreja, evangélica, e orava e cantava. Isto me ajudou muito e até mudou a minha vida. Deus estava comigo o tempo todo e ainda está. Ele me colocou em duas prisões que tinham os seus servos. Foi a melhor coisa de tudo isso.

– Como foi para você ter visto o Daniel sair e você ter ficado?
Mizael
– É difícil expressar o que senti naquele momento... O Daniel foi o meu braço direito, um sempre ajudava o outro. Quando eu o vi saindo da prisão de imigração, fiquei feliz por ele, mas, triste, por ter de ficar lá. Eu ficava me perguntando o porquê estávamos passando por tudo aquilo! Mas fiquei feliz que ele estava indo para casa e isso me deu esperanças que eu também conseguiria. Tinha lá uma Bíblia em espanhol e eu sempre ficava lendo.

– Como foi a tua sensação de ganhar liberdade?
Mizael
– Eu não consegui ficar feliz, porque saí da prisão, porém, ainda continuava aqui nos EUA. Minha vontade mesmo era sair dali e ir para a minha casa no Brasil. Minha felicidade só será completa quando conseguir chegar em meu país! É o que eu mais quero. Recomeçar a minha vida lá, de onde nunca deveria ter saído.

– É fácil imaginar o que gostaria de ganhar deste Natal...
Mizael
– ...Estar em minha casa, com meus pais e minha família! Eu posso começar tudo de novo, trabalhar, mas hoje em dia não faz diferença o que eu vou fazer. Minha família é o que mais quero e é isto que eu vou pedir ao Papai Noel... Tenho fé que estarei logo em casa e também que Deus vai me levar antes do Natal. Seria o melhor Natal de toda a minha vida!


Natália Buso

– Por que você veio para os EUA?
Natália Buso
– Eu faço natação e vim para cá treinar e competir tanto aqui quanto no Brasil. Nado pelo Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, e no ano passado recebi uma proposta do técnico do Coral Springs Swim Club, da Flórida.

Este técnico é o Michael Lohberg, ele é alemão, mas mora há 16 anos nos EUA. Ele já treinou o Alexandre Scherer, o “Xuxa”, e nesta última Olimpíada, treinou também dois medalhistas das provas de peito. Fico muito feliz em estar com ele também.

– Você está gostando de morar aqui na Flórida?
Natália
– Os primeiros seis meses foram maravilhosos. Morei na casa de uma americana e tinha amigos tanto americanos quanto brasileiros, que me levavam para passear. Depois voltei para o Brasil e fiquei quase dois meses competindo. Quando voltei para cá, as duas primeiras semanas foram um inferno. Eu sentia muita falta de meus pais e amigos do Brasil.

Aqui já não tinha nenhuma novidade, como da primeira vez, entende? Entrei em depressão e só pensava em arrumar as malas e voltar para o Brasil. Mas, resisti e comecei a me dedicar ainda mais à natação.

– Você tem alguma ajuda financeira para treinar aqui?
Natália
– O atleta aqui não recebe para nadar. Mas, eu ganho um salário mensal para competir pelo Esporte Clube Pinheiros e invisto tudo nas minhas despesas aqui nos EUA. É lógico que algum dinheiro tenho de pedir para os meus pais. Porém, o grosso de meu sustento vem do dinheiro que recebo do clube de São Paulo.

– Como era o Natal em sua infância?
Natália
– Na noite de Natal, a gente passava com a família de minha mãe. Quando dava meia noite, antes do Papai Noel chegar, todos iam para o quarto e quando voltávamos os presentes estavam embaixo da Árvore. Eu ficava intrigada porque eu nunca vi o Papai Noel! (Risos).

Eu me lembro, como se fosse hoje, o ano que desconfiei que ele não existia. Nós estávamos na casa de um tio e todos ganharam presentes, menos eu. Daí eu ouvi o meu pai falar para a minha mãe que ele havia esquecido o meu presente no porta-malas do carro! Daí, comecei a entender tudo.

– Você passou o Natal do ano passado com teus pais no Brasil?
Natália
– Não. Foi o primeiro ano que passei sem eles e foi muito triste. Eu cheguei em outubro e nem vi o tempo passar. Só fui me tocar perto do Natal, quando meus novos amigos já não estavam na cidade. Não havia planejado nada e comecei a me sentir sozinha. A minha sorte foi quando a família de uma amiga brasileira me chamou para passar na casa deles.

Neste ano, já estive duas vezes no Brasil participando de competições, mas, desta vez, vou só para passar o Natal com toda a minha família. Dou muito valor a ela, é a coisa mais importante que temos na vida. Estou contando os dias...

– O que você planeja para o seu futuro?
Natália
– Consegui uma bolsa de estudos, através da natação, numa universidade de Fort Pierce. No ano que vem, vou começar a estudar lá, fazer os quatro anos de universidade e treinar natação ao mesmo tempo.

Depois disso, vai depender de como as coisas continuarem. Seria muito legal se conseguisse pegar uma Seleção Brasileira, Olimpíada ou Campeonato Mundial. Por outro lado, penso que natação não é para sempre. É muito bom, mas dura poucos anos. Então, quero aproveitar esta bolsa e sair daqui com um bom diploma.

 

 

AcheiUSA

Comentarios (2)Add Comment
oi
escrito por Visitante, 2006-01-03 16:21:25
sera que somos parentes
ACREDITO TER PARENTES EM CAMPINA GRANDE
escrito por IZAIAS CABRAL DE LIMA, 2008-06-24 01:44:45
OLÁ
EU SOU IZAIAS CABRAL,GOSTARIA DE ENCONTRAR PARENTES EM CAMPINA GRANDE, MEU AVO JÁ FALECIDO CHAMA-SE LEONEL CABRAL DA SILVA,NASCIDO EM CAMPINA GRANDE , SEUS IRMÃO SEVERINO CABRAL DA SILVA, E OUTROS DE NÃO RECORDO O NOME, SOU FILHO DE LUZIA CABRAL DA SILVA ,NOME DE SOLTEIRA, QUANDO CASOU ,LEVOU O NOME DE LUZIA CABRAL DE LIMA, ELA ( MINHA MÃE ) GOSTARIA MUITO DE ENTRAR EM CONTATO COM SUA FAMILIA,ELA JÁ ESTA COM 87 ANOS, E ESTE É O SEU MAIOR DESEJO ANTES DE MORRER,SEU PAI LEONEL CABRAL DA SILVA, A DEIXOU COM 7 ANOS,QUANDO EM UMA MATA DO PARA SEU PERDEU, E NUNCA MAIS TEVE NOTICIA,SEU SONHO É ESCLARECER COM SEUS PARENTES O QUE DE FATO ACONTECEU,SE OS IRMÃO DE SEU PAI OBTEVE ALGUMA NOTICIA,OU SE A FAMILIA O PROCUROU NA EPOCA DE SEU DESAPARECIMENTO. FICAREMOS ETERNO GRATO SE PUDESSEMOS LOCALIZAR QUALQUER PARENTE EM CAMPINA GRANDE QUE SE LEMBRE DESTE CASO.

GRATO
IZAIAS CABRAL

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