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O ativista negro Abdias do Nascimento, de 90 anos,
premiado pela sua luta contra o racismo, disse que os negros no
Haiti estão numa situação melhor do que no Brasil.
"No sentido material, o negro haitiano está pior, mas,
no sentido de sua soberania, de sua liberdade total, ele está
melhor do que nós", disse o fundador do Teatro Experimental
do Negro.
"Lá eles têm um país deles. E nós vivemos um país para
os outros. Até hoje estamos sendo colonizados, dirigidos. Nós não
temos autodeterminação, não temos nada."
O ativista recebeu o Toussaint Louverture Prize, que celebra as
contribuições realizadas na luta contra a dominação, o
racismo e a intolerância.
O prêmio, concedido pela Unesco, fez parte dos eventos
realizados em dezembro para comemorar o Dia Internacional da
Abolição da Escravatura (2 de dezembro), além de marcar o
encerramento do ano internacional de comemoração da luta contra
a escravidão e de sua abolição.
O ano de 2004 também marca o bicentenário da independência do
Haiti, que virou um símbolo do levante e da resistência contra
a escravidão.
"No Brasil, lutamos por um povo que há mais de 500 anos vem
sendo colonizado e, por outro lado, estamos celebrando a
descolonização do povo haitiano, que conseguiu sua independência
há 200 anos."
'Milagre dos orixás'
Criado em 1944 no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro
organiza atividades culturais, educacionais e políticas para,
segundo Nascimento, "resgatar a dignidade do negro e sua
identidade total".
"Queremos o reconhecimento de que ele tem valores africanos,
que ele tem o direito de viver a sua vida de acordo com a sua ótica.
Não como a sociedade branca quer."
Segundo Abdias, é um "milagre dos orixás" o movimento
ter sobrevivido esses 60 anos, já que não houve nenhuma ajuda
por parte de fundações ou do governo durante todo esse tempo.
É por isso que ele se disse surpreso com a notícia de que
ganharia um prêmio por seus esforços à frente do Teatro
Experimental do Negro. "Foi uma grande surpresa para mim,
porque nós sempre fomos abandonados, sobretudo no plano
internacional. Os órgãos internacionais nunca olharam a nossa
questão."
'Falta tudo'
Na opinião de Abdias, o prêmio reconhece que algo precisa ser
feito no Brasil, já que, segundo ele, pouco mudou nesses 500
anos para o negro. A igualdade ainda estaria longe de ser
conquistada.
"Falta tudo para o negro conseguir a igualdade prevista pela
democracia. Onde está o povo negro? Só nos morros, só nessas
embrulhadas policiais, porque ele não tem nada. Não tem
emprego, não tem moradia, não tem apoio efetivo na sua saúde,
não tem uma educação igual à dos brancos."
Segundo Abdias do Nascimento, há alguns anos, a Unesco
demonstrou vontade de ajudar o movimento coordenado por ele, mas
faltou vontade política do governo brasileiro. "A Unesco
exigia que o governo fosse o canal de intermediação para se
conseguir o auxílio, mas o governo se negou a ser esse
canal."
"O governo brasileiro nunca quis reconhecer que no Brasil
existe um problema do branco a respeito do negro."
Porém, na opinião do ativista, essa situação está mudando, o
que pode ser percebido com a criação da Secretaria Especial
para Políticas de Promoção da Igualdade Racial, que tem status
de ministério.
"A ministra Matilde Ribeiro, é uma negra, que está se
esforçando muito, mas ainda não sobrou nada para o movimento.
Porque, para um assunto dessa envergadura, dessa delicadeza, em
que se precisa mudar muita coisa psicologicamente, isso
demora."
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