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O aporte e a importância do escracho é singular,
específico. É a bisca pela justiça, e nada mais. Mas por isso
mesmo (e não apesar disso) é que é tão potente. Por isso
mesmo, é que é universal, por essa singularidade é que todos
nos sentimos parte, nessa singularidade nos sentimos expressados.
I
Os escrachos extravasam as formas tradicionais da política:
são uma prática inovadora que afirma um novo sentido da
política e da militância.
Nesse sentido, é fundamental poder esmiúçá-lo e conhecer
suas implicações. Como a experiência zapatista, a do MST e
tantas outras, funda uma nova subjetividade revolucionária.
Pensar a especificidade que o escracho implica, as
características reais que a constituem, é a única forma de
impedir que seja reinterpretado a partir de fórmulas que hoje
não nos auxiliam. Este é o objetivo deste encontro*.
II
Os escrachos são, em primeiro lugar, um chamado
à luta, uma confirmação prática de que a ação
transformadora é agora, ou não é. São o oposto da melancolia
daquele que espera (sentado) por um mundo melhor. O escracho nos
demonstra que a luta não depende da idéia de um amanhã
luminoso, de nenhuma estratégia cientificamente demonstrada, nem
de nenhum salvador que nos liberte.
Peter
Allgeier
Embaixador norte-americano, co-presidente da alca, após o
terrível ataque. dos Confeiteiros Sem Fronteiras. notícia aqui
Por isso o escracho funda uma outra idéia do
tempo, diferente daquela que o capitalismo nos oferece.
Para este último o passado já se foi, só
existe como memória passiva, como Nunca Mais. Vivemos o futuro
como uma promessa longínqua e imprecisa, que não depende de
nós. Por isso nosso presente é débil, triste: estamos sós, e
esperando um milagre.
No escracho, pelo contrário, o passado atua com força, os
desaparecidos vivem como projeto atual, é um passado que afirma:
é passado do presente. Por outro lado, o futuro já chegou,
porque não é outro além daquele que vamos construindo, que
depende de nós: é o futuro do presente. Assim o escracho funda
um presente pleno de potencialidades, decisivo.
O escracho é uma prática que não pode esperar nem se
conformar. Surge hoje e é para o agora.
III
É assim porque se organiza o escracho apenas para dar resposta
à exigência que o funda: justiça. É esta a necessidade que
afirma na prática. E é uma experiência que não precisa de
nenhuma justificação. Não precisa de um programa acabado, nem
sequer de adesões individuais: não depende do
consenso.
É uma verdade independente da complexidade da conjuntura, das
razões de Estado, das relações de forças, não se esgota em
nenhuma compensação pontual. Por isso o escracho se nega a ser
simplesmente a representação das vítimas; por isso não busca
no Poder a solução. O escracho produz um compromisso militante
que está mais próximo, que não depende do poder. É um novo
sentido do compromisso.
IV
O escracho cria uma outra idéia e outra prática da justiça,
que é oposta e antagônica à justiça formal. E com ela funda
uma nova prática e um novo conceito da Democracia.
Manifestações no Brasil
Lembrem-se
da batata no Abreu Sodré, das bananas em Amazonino Mendes,
dos abacaxis contra Celso Pitta e, claro, dos ovos que
transformaram José Serra no omelete-man de 2001.
"José Serra, então
ministro da Saúde, foi atingido em duas ocasiões, numa
delas, por um ovo nas costas, jogado por um estudante, em
Belo Horizonte".
"José Genoino, presidente do PT, foi
atingido no rosto por uma torta atirada por uma ativista,
"Confeiteiros Sem Fronteiras'', durante sua
participação no Fórum Social Mundial, em Porto
Alegre."
"Quando o presidente
Lula se dirigia ao microfone, dois ovos e um tomate foram
lançados em direção ao palanque. Um ovo atingiu a base da
estrutura, na altura onde se encontrava sentado o
ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. O outro ovo e o
tomate explodiram no meio da rua." >notícia
aqui
"Palanque do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva foi alvo de ovos. Dois ovos foram lançados contra a
comitiva presidencial, em São Paulo. O primeiro acertou a
perna do vice-prefeito da cidade, Hélio Bicudo. O outro ovo
atingiu o braço do ministro da Saúde, Humberto Costa."
notícia
aqui
"A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy(PT), foi
atingida por respingos de ovos, num Shopping Popular em Guaianazes - surpreendida com o protesto de um grupo de 150 camelôs". notícia
aqui
"Um estudante de direito da Faculdade do Largo de
São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), atirou uma galinha preta viva contra a prefeita de São Paulo,
Marta Suplicy (PT)". notícia
aqui, e Por que uma galinha?
outros manifestos: notícia aqui*
Em primeiro lugar, se não há justiça,
há Escracho. Ou seja, a justiça não depende de uma
instituição que a encarne, mas da ação que a produz. Não é
a instituição, nem a norma, nem sequer o direito (humano) o que
funda o justo, mas o ato e a prática concreta da justiça.
Em segundo lugar, o mais importante, esta busca de justiça não
se esgota, nem sequer se expressa, na pena carcerária, nem pode
ser contida nas burocracias judiciais. A luta que o escracho
expressa vai mais além do Estado de direito, não pode ser
reabsorvida por este. Se hoje fossem presos um, dois, ou dez
militares genocidas, os escrachos não acabariam.
O escracho inventa concretamente ma nova noção da justiça,
fundada na capacidade popular de produzir verdades que o poder
não pode desarmar cooptando-as. É esta a via pela qual o campo
popular se converte em sujeito autônomo.
V
O escracho, então, é uma nova situação que compõe e
implementa uma prática alternativa. Ou seja, que contém
indícios de uma nova sociedade. Estes indícios se manifestam,
atuam, independentemente dos slogans ou palavras que elegemos
para explicar-los. Às vezes, inclusive, elegemos slogans
contrários à prática que levamos adiante.
Um exemplo disto ocorre quando pedimos justiça
ao estado, no mesmo momento em que negamos esta justiça e
fundamos outra. Isto ocorre quase sempre, e nos mostra algo
fundamental: que o sujeito da política é a situação da qual
participamos, a ação coletiva com a qual nos comprometemos; e
não os indivíduos isolados e a idéia que fazemos de nós.
Miguel Angel Rovira
Chefe da Segurança dos Metrôs de Buenos Aires e alvo do
protesto assinado pelo grupo HIJOS: Uma forma criativa de se agir
contra o alto grau de repressão presente nas estações de
metrô
Por isso o escracho funciona como uma máquina.
Não é decisivo quantas pessoas participam dele, nem como foi
organizado. Quando se põe em ação, funciona, transmite um
sentido de radicalidade impressionante, comove o bairro,
incorpora pessoas espontaneamente.
VI
O aporte e a importância do escracho é singular, específico.
É a bisca pela justiça, e nada mais. Mas por isso mesmo (e não
apesar disso) é que é tão potente. Por isso mesmo, é que é
universal, por essa singularidade é que todos nos sentimos
parte, nessa singularidade nos sentimos expressados.
É certo que os H.I.J.O.S**. se equivocariam se amanhã opinassem
sobre o que devem fazer os trabalhadores, ou sobre que
estratégia devem seguir os assentamentos, ou sobre como um
cientista deve pesquisar. Não; se os H.I.J.O.S. são um grupo de
vanguarda hoje, é porque fazem os escrachos. E não o
contrário.
O escracho demonstra que as vanguardas hoje se definem por suas
práticas concretas e não por suas opiniões sobre as práticas.
E além disso, deixam claro que toda prática política de
vanguarda, alternativa ou revolucionária, é, por
circunstância, singular.
** Manifestações do
tipo, denominadas "escraches" (escrachos), foram
idealizadas pelo H.I.J.O.S., grupamento que reúne os filhos
de desaparecidos e assassinados durante a última ditadura
militar argentina. O ingresso destes últimos na cena
política na maioria dos casos com a mesma idade que seus
pais no período de sua militância ou seqüestro implica,
novas fórmulas, estratégias e ressignificações vinculadas
ao modo de conceber tanto a ação quanto os sentidos da
recordação. Entre HIJOS e MADRES, todos lutam contra os
milicos assassinos.
VII
O que dissemos antes, a singularidade do escracho, se confirma
por um outro ângulo. Pelo fato de que muitas vezes se assume o
escracho abstraindo-se de sua significação profunda; quando
isto acontece, o escracho carece de radicalidade política.
Isto aconteceu com sindicatos, partidos políticos, agrupamentos
universitários que realizam escrachos pedindo aumento salarial,
incrementação de orçamentos, ou qualquer petição ao poder em
questão - seja estatal ou não. Nestas ocasiões se perde a
essência do escracho, e se fica preso na lógica da
negociação.
É evidente que o significado político do escracho, sua
universalidade, passa por outro aspecto além da simples
imitação.
VIII
H.I.J.O.S. é um movimento social que se organiza pela exigência
de justiça. E no compromisso com esta exigência de justiça. E
no compromisso com esta exigência concreta inventa o escracho,
prática que funda uma nova forma de entender a justiça. O
escracho, por isso, é político. A política, então, não é
outra coisa senão o pôr em ação de novas formas de fazer e
entender a vida social.
Isto é o contrário de entender a política como
algo diferente da luta social, isto é, como a luta por
magníficas abstrações, como a liberdade, a
revolução, ou o bem da humanidade,
abstrações que apenas se realizarão (talvez) quando tomemos o
poder.
Guerra Mercadológica
Adesivos utilizados pelo grupo GAC em uma apologia as táticas de
invasão e submissão utilizadas pelo grande capital
A política da realização de projetos transformadores e não a
elaboração de prudentes e autorizados programas. H.I.J.O.S. faz
os escrachos, enquanto os partidos de esquerda tentam capitalizar
isso para sua importante estratégia. Por isso
H.I.J.O.S. rejeita os partidos de esquerda. H.I.J.O.S. é uma
organização política porque não é nem pretende ser um
partido.
IX
O escracho é então uma referência visível de uma nova
prática de transformação. Mas, visto desta maneira, podemos
encontrar milhares de experiências que compartem da mesma busca,
talvez menos espetaculares, menos difundidas ou referenciadas,
mas igualmente importantes. Situações de resistência e
criação de novas formas de existência, onde se produzem e se
exercitam concepções autônomas às do poder, em cada um dos
âmbitos da vida.
No aprofundamento e desenvolvimento destas experiências, e na
capacidade que elas tenham de se articular para se fortalecer
mutuamente, é onde transcorre hoje a política revolucionária.
* Este texto foi escrito como estopim de um debate com
integrantes de H.I.J.O.S. Tradução de Ricardo Rosas, Publicado
no nº 1 da revista Situaciones.
hemi.nyu.edu
| * Manifesto dos(as)
Confeiteiros(as) Sem Fronteiras, por ocasião da
Conferência das Nações Unidas para Comércio e
Desenvolvimento (UNCTAD), no Brasil. Por
Confeiteiros(as) Sem Fronteira
À sociedade civil mundial;
À toda a imprensa;
A Associação Internacional Político-Recreativa e sem
fins lucrativos Confeiteiros Sem Fronteiras vem a
público saudar o presidente da Conferência das Nações
Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) Rubens
Ricupero. É com especial alegria que saudamos este
economista heterodoxo que chegou ao mais alto posto do
organismo das Nações Unidas dedicado à defesa dos
países "em desenvolvimento".
Mas quem serão esses "países em
desenvolvimento" que defende o senhor Ricupero e a
sua organização? Serão os milhões de miseráveis e
famintos que circulam pelas ruas de São Paulo, Lima,
Joanesburgo ou Bombaim? Ou serão os empresários
brasileiros, indianos, sul-africanos e mexicanos que
querem ser promovidos ao primeiro mundo?
Desde o nascimento do capitalismo industrial os liberais
prometem acabar com a pobreza por meio do crescimento
econômico. Eles dizem que fazendo crescer a economia, os
pobres vão pouco a pouco superar a pobreza sem que seja
necessário repartir a riqueza e acabar com a
desigualdade - esse estimulo tão essencial à
competitividade de mercado. Foi isso que vimos no Brasil
no século XX: o segundo maior crescimento econômico do
mundo e a terceira pior distribuição de renda. O Brasil
é modelo de desenvolvimento! O Brasil deu certo!
Para celebrar o sucesso brasileiro e expandir por todo o
mundo a ilusão do desenvolvimento, prestamos essa
singela homenagem ao Sr. Rubens Ricupero às vesperas da
Conferência Geral da UNCTAD. Enquanto aguardamos
ansiosamente as manifestações que se oporão à
conferência em São Paulo, saudamos o seu arrojo, o seu
carisma e a sua defesa intransigente dos interesses dos
ricos dos países pobres.
Que se vayan todos!
Lembrando o grande anarquista Abelardo Barbosa,
Despedimo-nos,
Confeiteiros Sem Fronteiras
Seção Brasília
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