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Escrachos: Nove Hipóteses para a Discussão PDF Imprimir E-mail
Escrito por Da Redação   
Tuesday, 07 December 2004

O aporte e a importância do escracho é singular, específico. É a bisca pela justiça, e nada mais. Mas por isso mesmo (e não apesar disso) é que é tão potente. Por isso mesmo, é que é universal, por essa singularidade é que todos nos sentimos parte, nessa singularidade nos sentimos expressados.

I

Os escrachos extravasam as formas tradicionais da política: são uma prática inovadora que afirma um novo sentido da política e da militância.

Nesse sentido, é fundamental poder esmiúçá-lo e conhecer suas implicações. Como a experiência zapatista, a do MST e tantas outras, funda uma nova subjetividade revolucionária. Pensar a especificidade que o escracho implica, as características reais que a constituem, é a única forma de impedir que seja reinterpretado a partir de fórmulas que hoje não nos auxiliam. Este é o objetivo deste encontro*.

II

Os escrachos são, em primeiro lugar, um chamado à luta, uma confirmação prática de que a ação transformadora é agora, ou não é. São o oposto da melancolia daquele que espera (sentado) por um mundo melhor. O escracho nos demonstra que a luta não depende da idéia de um amanhã luminoso, de nenhuma estratégia cientificamente demonstrada, nem de nenhum salvador que nos liberte.

Peter Allgeier
Embaixador norte-americano, co-presidente da alca, após o terrível ataque. dos Confeiteiros Sem Fronteiras.
notícia aqui

Por isso o escracho funda uma outra idéia do tempo, diferente daquela que o capitalismo nos oferece.

Para este último o passado já se foi, só existe como memória passiva, como Nunca Mais. Vivemos o futuro como uma promessa longínqua e imprecisa, que não depende de nós. Por isso nosso presente é débil, triste: estamos sós, e esperando um milagre.

No escracho, pelo contrário, o passado atua com força, os desaparecidos vivem como projeto atual, é um passado que afirma: é passado do presente. Por outro lado, o futuro já chegou, porque não é outro além daquele que vamos construindo, que depende de nós: é o futuro do presente. Assim o escracho funda um presente pleno de potencialidades, decisivo.

O escracho é uma prática que não pode esperar nem se conformar. Surge hoje e é para o agora.

III

É assim porque se organiza o escracho apenas para dar resposta à exigência que o funda: justiça. É esta a necessidade que afirma na prática. E é uma experiência que não precisa de nenhuma justificação. Não precisa de um programa acabado, nem sequer de adesões individuais: não depende do “consenso”.

É uma verdade independente da complexidade da conjuntura, das razões de Estado, das relações de forças, não se esgota em nenhuma compensação pontual. Por isso o escracho se nega a ser simplesmente a representação das vítimas; por isso não busca no Poder a solução. O escracho produz um compromisso militante que está mais próximo, que não depende do poder. É um novo sentido do compromisso.

IV

O escracho cria uma outra idéia e outra prática da justiça, que é oposta e antagônica à justiça formal. E com ela funda uma nova prática e um novo conceito da Democracia.

Manifestações no Brasil

Lembrem-se da batata no Abreu Sodré, das bananas em Amazonino Mendes, dos abacaxis contra Celso Pitta e, claro, dos ovos que transformaram José Serra no omelete-man de 2001.

"José Serra, então ministro da Saúde, foi atingido em duas ocasiões, numa delas, por um ovo nas costas, jogado por um estudante, em Belo Horizonte".

"José Genoino, presidente do PT, foi atingido no rosto por uma torta atirada por uma ativista, "Confeiteiros Sem Fronteiras'', durante sua participação no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre."

"Quando o presidente Lula se dirigia ao microfone, dois ovos e um tomate foram lançados em direção ao palanque. Um ovo atingiu a base da estrutura, na altura onde se encontrava sentado o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. O outro ovo e o tomate explodiram no meio da rua." >notícia aqui

"Palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi alvo de ovos. Dois ovos foram lançados contra a comitiva presidencial, em São Paulo. O primeiro acertou a perna do vice-prefeito da cidade, Hélio Bicudo. O outro ovo atingiu o braço do ministro da Saúde, Humberto Costa." notícia aqui

"A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy(PT), foi atingida por respingos de ovos, num Shopping Popular em Guaianazes - surpreendida com o protesto de um grupo de 150 camelôs". notícia aqui

"Um estudante de direito da Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), atirou uma galinha preta viva contra a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT)". notícia aqui, e Por que uma galinha?

outros manifestos: notícia aqui*

Em primeiro lugar, “se não há justiça, há Escracho”. Ou seja, a justiça não depende de uma instituição que a encarne, mas da ação que a produz. Não é a instituição, nem a norma, nem sequer o direito (humano) o que funda o justo, mas o ato e a prática concreta da justiça.

Em segundo lugar, o mais importante, esta busca de justiça não se esgota, nem sequer se expressa, na pena carcerária, nem pode ser contida nas burocracias judiciais. A luta que o escracho expressa vai mais além do Estado de direito, não pode ser reabsorvida por este. Se hoje fossem presos um, dois, ou dez militares genocidas, os escrachos não acabariam.

O escracho inventa concretamente ma nova noção da justiça, fundada na capacidade popular de produzir verdades que o poder não pode desarmar cooptando-as. É esta a via pela qual o campo popular se converte em sujeito autônomo.

V

O escracho, então, é uma nova situação que compõe e implementa uma prática alternativa. Ou seja, que contém indícios de uma nova sociedade. Estes indícios se manifestam, atuam, independentemente dos slogans ou palavras que elegemos para explicar-los. Às vezes, inclusive, elegemos slogans contrários à prática que levamos adiante.

Um exemplo disto ocorre quando pedimos justiça ao estado, no mesmo momento em que negamos esta justiça e fundamos outra. Isto ocorre quase sempre, e nos mostra algo fundamental: que o sujeito da política é a situação da qual participamos, a ação coletiva com a qual nos comprometemos; e não os indivíduos isolados e a idéia que fazemos de nós.

Miguel Angel Rovira
Chefe da Segurança dos Metrôs de Buenos Aires e alvo do protesto assinado pelo grupo HIJOS: Uma forma criativa de se agir contra o alto grau de repressão presente nas estações de metrô

Por isso o escracho funciona como uma máquina. Não é decisivo quantas pessoas participam dele, nem como foi organizado. Quando se põe em ação, funciona, transmite um sentido de radicalidade impressionante, comove o bairro, incorpora pessoas espontaneamente.

VI

O aporte e a importância do escracho é singular, específico. É a bisca pela justiça, e nada mais. Mas por isso mesmo (e não apesar disso) é que é tão potente. Por isso mesmo, é que é universal, por essa singularidade é que todos nos sentimos parte, nessa singularidade nos sentimos expressados.

É certo que os H.I.J.O.S**. se equivocariam se amanhã opinassem sobre o que devem fazer os trabalhadores, ou sobre que estratégia devem seguir os assentamentos, ou sobre como um cientista deve pesquisar. Não; se os H.I.J.O.S. são um grupo de vanguarda hoje, é porque fazem os escrachos. E não o contrário.

O escracho demonstra que as vanguardas hoje se definem por suas práticas concretas e não por suas opiniões sobre as práticas. E além disso, deixam claro que toda prática política de vanguarda, alternativa ou revolucionária, é, por circunstância, singular.

** Manifestações do tipo, denominadas "escraches" (escrachos), foram idealizadas pelo H.I.J.O.S., grupamento que reúne os filhos de desaparecidos e assassinados durante a última ditadura militar argentina. O ingresso destes últimos na cena política na maioria dos casos com a mesma idade que seus pais no período de sua militância ou seqüestro implica, novas fórmulas, estratégias e ressignificações vinculadas ao modo de conceber tanto a ação quanto os sentidos da recordação. Entre HIJOS e MADRES, todos lutam contra os milicos assassinos.

VII

O que dissemos antes, a singularidade do escracho, se confirma por um outro ângulo. Pelo fato de que muitas vezes se assume o escracho abstraindo-se de sua significação profunda; quando isto acontece, o escracho carece de radicalidade política.

Isto aconteceu com sindicatos, partidos políticos, agrupamentos universitários que realizam escrachos pedindo aumento salarial, incrementação de orçamentos, ou qualquer petição ao poder em questão - seja estatal ou não. Nestas ocasiões se perde a essência do escracho, e se fica preso na lógica da negociação.

É evidente que o significado político do escracho, sua universalidade, passa por outro aspecto além da simples imitação.

VIII

H.I.J.O.S. é um movimento social que se organiza pela exigência de justiça. E no compromisso com esta exigência de justiça. E no compromisso com esta exigência concreta inventa o escracho, prática que funda uma nova forma de entender a justiça. O escracho, por isso, é político. A política, então, não é outra coisa senão o pôr em ação de novas formas de fazer e entender a vida social.

Isto é o contrário de entender a política como algo diferente da luta social, isto é, como a luta por magníficas abstrações, como “a liberdade”, “a revolução”, ou “o bem da humanidade”, abstrações que apenas se realizarão (talvez) quando tomemos o poder.

Guerra Mercadológica
Adesivos utilizados pelo grupo GAC em uma apologia as táticas de invasão e submissão utilizadas pelo grande capital

A política da realização de projetos transformadores e não a elaboração de prudentes e autorizados programas. H.I.J.O.S. faz os escrachos, enquanto os partidos de esquerda tentam capitalizar isso para sua “importante” estratégia. Por isso H.I.J.O.S. rejeita os partidos de esquerda. H.I.J.O.S. é uma organização política porque não é nem pretende ser um partido.

IX

O escracho é então uma referência visível de uma nova prática de transformação. Mas, visto desta maneira, podemos encontrar milhares de experiências que compartem da mesma busca, talvez menos espetaculares, menos difundidas ou referenciadas, mas igualmente importantes. Situações de resistência e criação de novas formas de existência, onde se produzem e se exercitam concepções autônomas às do poder, em cada um dos âmbitos da vida.

No aprofundamento e desenvolvimento destas experiências, e na capacidade que elas tenham de se articular para se fortalecer mutuamente, é onde transcorre hoje a política revolucionária.

* Este texto foi escrito como estopim de um debate com integrantes de H.I.J.O.S. Tradução de Ricardo Rosas, Publicado no nº 1 da revista “Situaciones”.


hemi.nyu.edu

 

* Manifesto dos(as) Confeiteiros(as) Sem Fronteiras, por ocasião da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), no Brasil.

Por Confeiteiros(as) Sem Fronteira

À sociedade civil mundial;
À toda a imprensa;

A Associação Internacional Político-Recreativa e sem fins lucrativos Confeiteiros Sem Fronteiras vem a público saudar o presidente da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) Rubens Ricupero. É com especial alegria que saudamos este economista heterodoxo que chegou ao mais alto posto do organismo das Nações Unidas dedicado à defesa dos países "em desenvolvimento".

Mas quem serão esses "países em desenvolvimento" que defende o senhor Ricupero e a sua organização? Serão os milhões de miseráveis e famintos que circulam pelas ruas de São Paulo, Lima, Joanesburgo ou Bombaim? Ou serão os empresários brasileiros, indianos, sul-africanos e mexicanos que querem ser promovidos ao primeiro mundo?

Desde o nascimento do capitalismo industrial os liberais prometem acabar com a pobreza por meio do crescimento econômico. Eles dizem que fazendo crescer a economia, os pobres vão pouco a pouco superar a pobreza sem que seja necessário repartir a riqueza e acabar com a desigualdade - esse estimulo tão essencial à competitividade de mercado. Foi isso que vimos no Brasil no século XX: o segundo maior crescimento econômico do mundo e a terceira pior distribuição de renda. O Brasil é modelo de desenvolvimento! O Brasil deu certo!

Para celebrar o sucesso brasileiro e expandir por todo o mundo a ilusão do desenvolvimento, prestamos essa singela homenagem ao Sr. Rubens Ricupero às vesperas da Conferência Geral da UNCTAD. Enquanto aguardamos ansiosamente as manifestações que se oporão à conferência em São Paulo, saudamos o seu arrojo, o seu carisma e a sua defesa intransigente dos interesses dos ricos dos países pobres.

Que se vayan todos!

Lembrando o grande anarquista Abelardo Barbosa,

Despedimo-nos,

Confeiteiros Sem Fronteiras
Seção Brasília

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