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O Novo Pensamento Econômico Socialista. As
possibilidades, limites e papéis do Estado, dos trabalhadores,
dos movimentos sociais no desenvolvimento da economia solidária
no país.
Nos anos 80 o que o professor Paul Singer falava era entendido
de alguma maneira como a palavra do PT sobre economia. De convicções
socialistas declaradas, foi um dos primeiros militantes
intelectuais do partido. Até por isso tornou-se secretário de
Planejamento na gestão Luiza Erundina, que se iniciou em 89.
Se Lula tivesse vencido Collor, naquele ano dificilmente seu
principal ministro da Economia não seria Singer. Havia
Mercadante, Suplicy e outros, mas Singer estaria no centro. Lula
venceu em 2002, numa outra conjuntura. O PT já tinha mudado, a
esquerda mundial idem e Singer ibidem.
No momento da vitória de Lula, a militância-intelectual do
professor se realizava na economia solidária. Ele já trabalhava
há anos com gente de todos os cantos do Brasil para construir um
sistema cooperativo justo e distributivo.
E hoje está no governo por isso. Esta entrevista de Singer não
é só um debate sobre o atual momento econômico ou os rumos do
movimento de que ele participa. Ela é o estudo de um dos
intelectuais mais preparados do Brasil sobre a condição da
esquerda, as possibilidades de realizações socialistas, a inserção
do Brasil no mundo, a condição do PT, o que é o governo Lula e
tantas outras desafiadoras discussões.
Nesta entrevista, ele fala sobre o surto de economia solidária
no Brasil, um país que tem mais cooperativas do que em todos os
outros países. Segundo o professor, 10% da população mundial
participa hoje de algum tipo de economia solidária.
Para que o leitor entenda o porquê da primeira pergunta, ao
chegarmos para a entrevista, entregamos a edição da Revista Fórum,
que estava nas bancas, cuja capa trazia o líder sul-africano
Nelson Mandela. E o professor registrou: é um dos maiores
homens do nosso tempo.
Além do Mandela, há alguém vivo que o senhor considere
um ícone do nosso tempo?
Ao lado de Mandela, há um sujeito, chamado (Muhammad) Yunus, de
Bangladesh, que fez uma revolução social e cultural sem tomar o
poder, pela linha da economia solidária. A grande diferença é
que Yunus tomou uma decisão revolucionária ao dar crédito
exclusivamente a mulheres.
Na cultura do país, profundamente muçulmano, elas são
particularmente submissas e subordinadas. Como a maior parte do
crédito oferecido era destinado a comprar ou construir casas em
aldeias o banco está presente em dezenas de milhares
delas, com 2,8 milhões de sócios ele instituiu que a
propriedade precisava ser da mulher para ser favorecida pelo crédito.
O dono era sempre o marido. Por querer o crédito, os homens
começaram a passar o terreno para o nome das esposas. Como o divórcio
entre muçulmanos é algo muito simples, basta ao homem dizer por
três vezes eu te divorcio para que a mulher tenha de
pegar as crianças e ir para a casa dos pais; hoje isso ficou
mais complicado.
Hoje, quem tem de sair é o homem, porque a casa está no nome
dela. Yunus e as mulheres também tomaram a decisão no Grameem
Bank de que os associados não devem dar nem receber o dote.
O dote é uma tradição mulçumana. É uma propriedade que se
transfere da família da noiva para a do noivo e era uma das razões
porque as famílias odiavam quando nascia uma mulher. Era um ônus.
E adoravam quando nascia um homem, porque ele trazia um bem.
Entre gente muito pobre, o dote é uma vaca, o que leva vários
anos de trabalho para economizar. Essa prática também está
desaparecendo em Bangladesh, o que é uma tremenda revolução
social e cultural.
Então o senhor considera que a economia solidária tem
um caráter revolucionário?
Tem, porque é uma economia completamente oposta à capitalista
em todos os aspectos importantes. Une-se capital ao trabalho, que
é o que o capitalismo separa. E isso dá ao trabalhador uma
situação totalmente diferente.
O assalariado é um trabalhador sem poder nem
responsabilidade, por definição legal. Se a empresa vai mal,
ele não sofre nada. Se vai bem, tampouco. Tem direito ao salário.
Na economia solidária é ao revés, o trabalhador tem
responsabilidade total, não individual, mas coletiva, pela
empresa. Ele é, por todos os pontos de vista, um participante
ativo, com poder e responsabilidade. Há uma emancipação, uma
desalienação.
Não se pode ser parte de um todo e ficar alheio ao que
acontece. Ao falar com um trabalhador cooperado de empresas
grandes e antigas que passaram por crises e falências, todos dão
este depoimento: Antes era tão bom, podia ir para casa e
esquecer a firma; hoje a levo comigo, sonho com ela. É uma
baita mudança.
Lideranças do movimento no Brasil defendem que a aplicação
de programas sociais de transferência de renda seja adotada por
meio da economia solidária, o senhor acredita que isso é possível?
Isso ocorre no Ministério de Desenvolvimento Social e Combate
à Fome, do Patrus (Ananias), para citar um exemplo. Entre vários
programas, há um de inclusão social, que é de economia solidária
projeto que entrou no PPA (Plano Pluri-Anual), com a
cooperação da Senaes, apesar de a execução ser deles.
No Bolsa-Família, um desdobramento do Fome Zero que já
atinge 5 milhões de famílias, a idéia é que, na porta de saída,
se estimule e ensine modos de trabalho de economia solidária.
Temos quase 500 mil famílias assentadas e praticamente todas
praticam algum tipo de cooperativismo. Um dos objetivos
fundamentais do governo é dar viabilidade econômica aos
assentamentos, o que não é fácil.
Uma grande parte deles não conseguiu ainda por
problemas de localização ou da qualidade da terra. Não é uma
operação comercial, é uma ocupação política das terras.
Depois que conquistam a terra e vão ver como está, muitos
acabam restritos à economia de subsistência. Isso não é miséria,
mas é pobreza. E é preciso ajudá-los, levar educação, saúde,
desenvolver tecnologias para o que pretendem fazer. E realizar
isso tudo coletivamente é bem melhor. Até por uma opção ideológica
dos movimentos da Contag, do MST.
Chico de Oliveira, seu amigo, diz que a economia solidária
mantém a lógica da estrutura capitalista, já que o dinheiro
circula, por exemplo, pelas bolsas de valores. O senhor já
discutiu sobre isso com ele?
Em geral falamos do PT, do governo, da situação da economia. Não
que o tema da economia solidária seja tabu, mas os outros nos
envolvem bastante. Mas antes de responder, quero contar uma
particularidade. O filho mais velho dele, que também se chama
Francisco, o Chiquinho, é secretário de Planejamento da
prefeitura do Recife. E está na economia solidária há muitos
anos.
De vez em quando o encontro e ele me diz: O velho tá
começando a perceber (risos). Mas a inserção da economia
solidária na capitalista não é uma crítica, é uma constatação
inegável que eu subscrevo. A tendência é tentar estruturar a
economia solidária para que ela funcione em forma de redes.
No Brasil ainda estamos muito distantes disso. Mas os
assentamentos de terra, por exemplo, até o fim do governo Lula
devem dobrar. A meta acertada com o movimento é de 500 mil famílias
até o fim do mandato. Se conseguirmos transformá-los em redes,
a economia solidária funcionará melhor.
Formar redes seria encadear, da produção à
comercialização, empreendimentos autogestionados?
Exato. Para dar um exemplo: quase todo o movimento da reforma agrária
é também verde. O MST fez a opção pela agricultura orgânica,
sem o uso de agrotóxicos, que está ganhando espaço. Há um
processo de comercialização solidária, que se chama comércio
justo, que começa na Europa e se estende para cá.
É bem provável que os produtos dos assentamentos sejam
comercializados em comum por entidades também de economia solidária,
de maneira associada aos assentamentos. Isso já acontece em São
Paulo, onde algumas lojas já vendem os produtos.
Em poucos anos poderemos ter algo nesse sentido, porque a
velocidade da mudança é espantosa, o que evidentemente me deixa
muito feliz. A situação da economia solidária hoje e a de
cinco ou seis anos atrás é muito diferente. As iniciativas eram
várias, mas sem ligação umas com as outras.
Meu mérito e me desculpem a falta de modéstia
foi começar a unir esses empreendimentos. Quando a Unitrabalho,
uma grande organização universitária, me convidou para liderar
um programa na área dentro das universidades, comecei a reunir o
pessoal do MST, das incubadoras. Na PUC, em 1997, fizemos as
primeiras reuniões, sem dinheiro para nada. As pessoas vinham de
várias partes do país por conta própria. Não eram muitas,
algo como 50.
Mas na época já foi um espanto ter tanta gente. E começamos
a descobrir iniciativas no Amazonas, no Nordeste. Este ano, o
encontro nacional reuniu 2 mil pessoas, o que mostra a velocidade
do crescimento.
O senhor falou da economia solidária de cinco anos para
trás. E para frente, qual sua expectativa?
Você me pede um chute. Não sou muito utopista e, sobretudo,
tendo a ser modesto. Acho que estamos caminhando para uma ou duas
redes de empresas cooperadas. Uma é a Anteag (Associação
Nacional de Empresas em Auto-Gestão) que reúne 300 ou 400
empreendimentos.
A Unisol, da ADS-CUT está começando, mas já congrega umas
80 cooperativas. E vai crescer muito. Há uma nova lei de falência
em discussão no Congresso, que saiu do Senado em julho e voltou
para a Câmara. Nela está previsto explicitamente o arrendamento
da massa falida pelos trabalhadores organizados em cooperativas
ou associações.
Trata-se de uma das formas de se recuperar uma empresa
quebrada. Mas, queremos mais. A intenção é ter uma política
para incentivar esse tipo de iniciativa, para gerar ou, no mínimo,
evitar o desaparecimento de trabalho e renda. Se conseguirmos
isso, as cooperativas serão milhares, o que só não ocorre hoje
porque a maioria dos trabalhadores não sabe que isso é possível.
No momento, a massa falida não pode receber crédito, é uma
das coisas mais idiotas, que só descobri em Brasília. Se uma
empresa está inadimplente, não pode receber crédito, quer
dizer, se tem uma dívida que não consegue pagar, nunca mais
poderá pagá-la. É algo que também se pretende alterar. E no
caso das empresas recuperadas, no momento da compra, que no caso
das cooperativas é feita pelos trabalhadores, as dívidas tanto
com o fisco quanto com os demais credores desaparecem. É uma
medida muito inteligente, porque o valor negociado aumenta
estupidamente.
Quem vai querer pagar por uma empresa cheia de dívidas? Só
os trabalhadores, que já estão lá e farão isso para preservar
seu próprio trabalho, seu ganho. Assim, são muito poucos os
interessados nos leilões. Ao limpar a empresa que já está
funcionando na mão dos trabalhadores, o preço vai lá para cima
e o dinheiro arrecadado nos leilões, paga os credores, de modo
que o cancelamento das dívidas pagaria antecipadamente os
credores.
Mas a empresa não deveria ficar com os trabalhadores, já
que foram eles que a recuperaram?
Pode ficar ou não. Eles têm de disputá-la no leilão. O juiz
tem de colocar a massa falida em algum momento em leilão. Com a
atual legislação, leva em média sete anos. Uma geração
inteira para que os trabalhadores fiquem craques na autogestão.
Mas pretende-se abreviar o processo. Suponhamos que o leilão
aconteça dois anos depois; sem as dívidas, ela fica mais viável
e mais valorosa.
Com mais competição, os trabalhadores terão de assumir mais
dívidas, mas o BNDES, pelo menos nesse governo, vai financiar. O
Ministério do Trabalho e Emprego com o BNDES, por meio da
Senaes, vai criar um fundo para realizar isso sistematicamente.
Você me pediu uma utopia, uma previsão. Se tudo isso funcionar,
teremos milhares de empreendimentos, sobretudo industriais, mas
também comerciais em não muito tempo. E dessa forma o senhor crê
que a economia solidária pode transformar o conjunto da
economia.
Parto de um princípio diferente do do Chico de Oliveira: acho
que a economia brasileira não é capitalista por inteiro. Do
ponto de vista social, é menos da metade da população
economicamente ativa que vive na lógica capitalista, basta olhar
as estatísticas. Dos que trabalham, menos da metade está em
empresas capitalistas. Uma enorme quantidade trabalha por conta
própria e outros em produção de mercadorias camponeses,
pescadores, artesãos, donos de bar, feirantes. Não é
capitalista, é outra coisa.
Não acredito que daqui a 50 anos a economia solidária será
a única economia do país. Não é nem desejável, porque é
sadio para ela própria que haja alternativas, inclusive o
capitalismo.
Mas o senhor é um socialista convicto, ou mudou de opinião?
Não mudou nada. Exceto que, até os anos 80, acreditava que a
sociedade teria de ter apenas um modo de produção. No Cebrap
(Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) comecei a perceber
isso.
Era uma postura do Marx que se revelou falsa. Ele dizia que o
capitalismo era um pedaço da economia no século XIX, mas em
pouco tempo, seria uniforme, uma sociedade de capitalistas e
trabalhadores e um punhadinho de burocratas. Isso é literal.
Como os trabalhadores serão pobres, explorados etc. e os donos
cada vez menos numerosos, chegará um momento em que a maioria
expropriará os expropriadores etc. Essa era a visão de que nós
todos compartilhávamos.
Hoje, uma parte dos trabalhadores quer ser assalariada, e não
levar uma empresa para casa. Quando uma empresa entra em crise e
os trabalhadores decidem tomar a empresa, parcelas grandes optam
por não integrar a cooperativa.
O que eles ganham com isso? Todos as suas dívidas
trabalhistas serão pagas pelos colegas. Na Uniforja, a
maior forjaria da América Latina, uma das lideranças tinha objeções
ideológicas e 40% dos trabalhadores não entraram para a
cooperativa.
Os outros levaram o projeto e estão indo bem. E pagam
gradativamente todas as dívidas como os companheiros que
preferiram se colocar novamente no mercado de trabalho. Isso é
fruto de um acordo firmado no sindicato. Imagine se não pudesse?
Seria uma forma de restrição às liberdades individuais.
Sonho com o socialismo em que as pessoas tenham mais chances
de escolha, não menos. A empresa capitalista é quase uma
anomalia, porque na lógica assalariada do capitalismo, há
separação entre capital e trabalho, o que não ocorre em todas
os outros meios de produção não-capitalistas. A propriedade
dos meios de produção está unida com o trabalho não só na
economia solidária, mas na atividade do camponês, do pescador,
do artesão, do pequeno comerciante, do pequeno prestador de
serviços etc.
Estou recusando hoje a história de que o mundo vai mudar com
o novo homem que quer ser socialista. Excluo, porque é muito
favorável ao que quero, mas é um sonho. No fundo, estou
apreciando cada vez mais a diversidade. O mundo é mais
interessante com várias lógicas e opções.
Esse novo processo também poderia ser chamado de
socialismo?
Claro. O socialismo é uma proposta, a meu ver, maravilhosa e por
isso sou socialista. Mas que tem ônus. Não é o paraíso na
terra. Ao estudar economia solidária passei a ter um
conhecimento que não tinha. Há conflitos, não de classes,
porque todos são iguais, mas de outras ordens.
Um muito interessante, e que eu nunca sonhara, ocorre entre
jovens e velhos. Enquanto os primeiros querem que a empresa cresça,
porque vão ficar ali pelos próximos 30 anos, os outros, já
começando a pensar na aposentadoria, querem usufruir do que
ganharam. Não é de classe, é humano, depende do ciclo da vida
em que você se encontra.
Se uma dessas opções, no caso o capitalismo, tem uma
característica monopolista e de competição selvagem, não pode
ser um risco à diversidade?
Sim, a distopia de Marx sempre é possível, mas não vem
acontecendo. O futuro é imprevisível. A história passada é
exatamente esta: A economia brasileira não é capitalista por
inteiro.
Menos da metade da população economicamente ativa vive na lógica
capitalista, basta olhar as estatísticas. Uma enorme quantidade
trabalha por conta própria e outros em produção de mercadorias
camponeses, pescadores, artesãos, donos de bar,
feirantes. Não é capitalista, é outra coisa o capitalismo teve
um êxito fantástico e suscitou uma oposição enorme.
Eticamente, a maior parte das pessoas é anticapitalista,
muitas vezes sem saber. Um mundo desigual, em que o equilíbrio
da economia se baseia no desemprego e é só olhar o Banco
Central. Não é o mundo que se deseja. A história dos últimos
dois séculos diz que a economia não está ficando inteiramente
capitalista, mas ele também não está desaparecendo de jeito
nenhum (risos).
O senhor tem alguma referência de um país onde a
economia esteja mais perto desse socialismo?
Por acaso sim, a Islândia. É uma pequena ilha perdida no oceano
Atlântico. Pelo que leio é uma economia agropecuária, em que
80% de tudo está organizado em cooperativas. São basicamente
camponeses que se juntam para industrializar a produção,
comprar o que precisam. Não tenho muitos detalhes. Nos países
escandinavos, não chega a tanto, mas se aproximam.
A Europa inteira tem, na agricultura, muita economia solidária,
que em geral chamam de cooperativas ou de economia social. Na
agricultura, é um fenômeno complexo, a indústria é
capitalista, mas os fornecedores camponeses. Santa Catarina é
isso. A aliança cooperativa internacional reúne representações
políticas de cooperativas do mundo inteiro, não todas, mas
muitas.
Ela contabiliza 600 milhões de membros, 10% da população
mundial. Santa Catarina é um exemplo interessante, porque foi um
dos Estados que mais progrediu na distribuição de renda nos últimos
anos mesmo sem ter crescido. Não tinha esse dado, mas não me
espanta. Santa Catarina é uma espécie de Islândia (risos). No
sentido de que o cooperativismo é muito forte.
Mas existem várias empresas por lá, como a Sadia. O Furlan
é o exemplo típico do novo capitalista, que explora, mas
precisa manter uma vasta base de fornecedores. E esses
fornecedores se organizam em cooperativas para se defender do
capitalista. Uma cooperativa para alguém como o Furlan é o
normal, mesmo que ele não esteja em uma.
O cooperativismo está tradicionalmente sob as asas do Ministério
da Agricultura, porque há 30 anos praticamente só havia
cooperativas nesse setor. Mas eram cooperativas capitalistas. Os
sócios são grandes fazendeiros empregando mão-de-obra
assalariada. O Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura, é
ex-presidente da Aliança Cooperativa Internacional, um
cooperativista de segunda geração.
O pai dele foi quem fez a lei atual do cooperativismo
brasileiro (5764/1971). Soube isso depois que cheguei a Brasília.
O Denacoop (Departamento de Cooperativismo e Associativismo
Rural) está no Ministério da Agricultura, com uma estrutura
grande, com tradição há 30 ou 40 anos.
O sr. publicou um artigo na Folha de S.Paulo
classificando o aumento dos juros como lastimável...
Para falar a verdade, escrevi o artigo antes do aumento, com
intuito de evitá-lo. Mas como a Folha não teve como publicá-lo
a tempo, autorizei o editor a alterar os tempos verbais e
reproduzi-lo depois da reunião do Copom. Eu tentava contribuir
para que o Copom não fizesse aquela besteira.
Então foi um erro lastimável...
Acho que foi, mas a polêmica continua. Não só os
trabalhadores, mas também os capitalistas produtivos, mesmo o
mundo financeiro, achavam que não precisava aumentar. É o que
leio na imprensa, há mais vozes críticas ao aumento dos juros
do que a favor.
Parece que o presidente da República tem menos poder do
que a autoridade monetária.
A autoridade monetária existe em todo o mundo há algum tempo,
mas nunca se imaginou que ela seria aquilo que os mais à direita
chamariam de independente, como é nos EUA, como o Palocci e uma
parte da opinião pública quer o Estadão, a Veja.
Felizmente, hoje não é independente. Não tenho estado com o
presidente ultimamente, por isso não posso dizer o que ele
pensa. Não posso fazer ilações...
Há outras lideranças e visões dentro do próprio
governo que têm manifestado posições contrárias à política
de juros. Há debate interno?
O quanto sei, não há o debate. O que o governo quer é que o
debate fique restrito à equipe econômica, que é basicamente a
diretoria do Banco Central e a cúpula do ministério da Fazenda.
Aí ele não existe, exceto se o aumento será de um quarto ou de
meio ponto percentual.
É pouco, porque o governo está cheio de economistas que não
estão na equipe econômica, assim como no governo Fernando
Henrique.
No governo Lula, nós economistas não pertencentes à equipe
econômica não temos espaço para discussão. Pode haver uma
indicação de que isso vá mudar, porque o presidente afirmou
querer ampliar o conselho monetário nacional, hoje composto pelo
ministro da Fazenda, o do planejamento e o presidente do BC. Não
é um conselho.
Querem trazer de volta um modelo que vigorou até o governo
Itamar e que se revogou com o Plano Real, em que havia
representantes do comércio, da indústria, de trabalhadores.
Poderia até ter mais. Ao estender à sociedade, estende-se também
ao resto do governo. Estou torcendo para isso, mas por enquanto
é só uma idéia.
E por outro lado, uma parte do governo quer a independência
do BC?
Uma parte pequena, a do ministro Palocci. Que é a parte que tem
decidido! Sim. Porque tem o apoio do presidente. É uma pena, eu
preferiria que fosse diferente. Não há debate econômico fora
da equipe econômica no governo. O que não significa que outros
membros não tenham opinião, o ministro Zé Dirceu se disse
contrário à elevação dos juros na véspera da reunião.
O senhor acredita que o Zé Dirceu falaria isso sem o
conhecimento do presidente?
Não vou responder, porque é tão subjetivo... Nem em off
saberia. Parece absurdo que o presidente pedisse a seu ministro
mais importante, afora o Palocci, dizer em público que é contra
e, no dia seguinte, deixar que aconteça.
Ele pode impedir. Basta demitir a direção do BC. Aliás, nem
demitir, só ameaçar. São demissíveis, como eu, que posso ser
demitido de segunda para terça-feira. Mas é possível manter
uma linha diferente da praticada hoje? Todas as economias têm
inflação positiva hoje. Inflação zero é um acaso estatístico
que ocorre pouquíssimas vezes, quando todos os preços que sobem
equivalem- se aos que descem, só aí dá zero na média. A questão
é entre inflação e deflação.
A última, todos aceitam, é um desastre. É uma das contribuições
keynesianas que nem os neoliberais negam. Se houver uma baixa de
preços de 5% ao ano, a economia pára. Se você vai comprar uma
casa, mas sabe que no próximo ano vai pagar 5% menos, você
adia, a não ser que esteja morando na rua. Se muita gente adiar,
não se constroem casas. O mesmo vale para qualquer setor.
Uma pequena inflação é indispensável para estimular o
crescimento da demanda. E conseqüentemente do consumo, do
emprego, da produção. Definir qual é essa pequena inflação
é o problema. Mas com um dígito, é possível lidar. Existe uma
inflação que não somente é necessária, mas controlável, até
por subsídios de preços estratégicos, como se fez sempre no
Brasil.
Subsídios a alimentos básicos podem segurar preços e
reajustes de salários. Ir para a recessão e para o desemprego
em massa é uma opção muito ruim. Não é necessário. É possível
ter inflação controlada e ao mesmo tempo crescimento firme para
se chegar a um pleno emprego. É o que eu preferiria.
Pelo modelo praticado hoje, parece haver duas opções,
aumentar juros ou aumentar o superávit primário para reduzir a
proporção dívida/PIB. Ou os dois.
As duas medidas que você citou são recessivas e se reforçam
mutuamente. Se não se aumentasse o superávit, o dinheiro seria
devolvido à economia, em obras de saneamento, habitação e
outras áreas prioritárias. A opção é por pagar juros, não
amortizar dívida, mas com isso, o país se poupa de aumentar a dívida.
Diminuir a dívida pública é desejável por uns 20 pontos de
vista.
Para começar, porque é um baita concentrador de renda, na
medida em que se tira dinheiro da população para pagar a classe
média, dona da dívida pública e todos os que têm
investimentos. Se a dívida pública fosse metade do que é,
haveria mais distribuição de renda. Há vários caminhos, um
deles é crescer a um ritmo maior do que o crescimento da dívida.
E com isso a dívida vai diminuindo em relação ao PIB.
Minha preocupação atual é a de que o crescimento seja muito
frágil, e um dado revelado em setembro mostra-se especialmente
preocupante.
A taxa de desemprego aumentou e a renda do trabalhador
diminuiu, depois de três meses de queda. Pode ser um acidente,
mas eu ficaria preocupado, já que o dado foi divulgado poucos
dias depois de a taxa de juros e do superávit primário terem
sido elevados. São medidas que podem desacelerar a economia.
Como o senhor avalia os caminhos escolhidos pelo BC?
Do ponto de vista do Copom o risco maior é o da inflação. Na
minha avaliação, o risco maior é a não-queda do desemprego e
o crescimento abortado. Em 2003, o governo fez uma política
expansiva. Não teve um grande resultado, mas praticamente
conseguiu evitar a recessão. O resultado começou a ser positivo
em março de 2004.
O desemprego só começou a cair em maio, o que é natural,
mas quatro meses depois a queda começa a claudicar. Um
crescimento insuficiente é mais preocupante do que a inflação.
O movimento do aumento dos juros e do superávit primário pode
comprometer o crescimento, mas foi uma modificação moderada, a
conta-gotas, em aumentos marginais.
O problema é as expectativas que essas alterações criam.
Por outro lado, o aumento da meta de inflação de 4,5% para 5,1%
para 2005 é positivo.
O senador Aloísio Mercadante havia proposto que a meta fosse
a mesma deste ano, de 5,5%, porque na prática faz muito pouca
diferença para a economia, mas tira pressão do Copom.
Qual sua avaliação da gestão da equipe econômica?
Fiz parte da equipe econômica do PT por muitos anos, promovendo
estudos, análises etc e hoje estou no governo, por isso não me
sinto à vontade para responder essa pergunta. Mantenho uma posição
crítica, como falei.
Uma vez, em um encontro do PT, fiz um discurso com críticas
ao que o ministro Palocci acredita. Ao final do debate ele veio
me cumprimentar e me disse que as críticas ajudam. Tenho convicção
de que ele não falou isso só por educação.
Gostaria que se apostasse mais no crescimento econômico, mas
não me cabe ir além na análise.
Mesmo com uma política macroeconômica ortodoxa, imagino
que o senhor acredite que esse governo tem programas
transformadores e emancipatórios e por isso continua nele?
Essa era a pergunta que eu estava torcendo para você fazer.
Macroeconomia não é tudo. Há, sim, um esforço pela construção
de alternativas e políticas em outras áreas, e é por isso que
estou no governo.
E esses caminhos não estão apenas na economia solidária,
mas em mudanças na estruturas do Estado e da sociedade que se
busca promover. Isso se percebe com muita nitidez, para citar um
exemplo, na política externa, com relações com a China, a Índia,
a África do Sul, que têm semelhanças incríveis com o Brasil.
Lula aparece hoje, principalmente depois da reunião na ONU,
como a grande liderança anti-Bush, não no sentido da Guerra
Fria, mas como alternativa.
E é por isso que ele tem o apoio do Chirac, do Schroeder. É
uma mudança que tem efeitos na economia reduzindo a fragilidade
externa.
Sempre afundamos a cada crise internacional que bate. Agora,
estamos com um superávit comercial que acredito ser o maior da
história. Estamos até com superávit em conta corrente. Não
chega aos pés da China, mas representa muito dinheiro entrando
na economia. E há uma política interna, de reforma agrária, de
economia solidária...
Estou certo de que vai surgir uma enorme quantidade de
cooperativas de crédito, porque os juros altos favorecem isso e
porque o governo está favorecendo isso.
Nos EUA, 60% do mercado financeiro é de cooperativas de crédito.
É um tipo de finança socialista, se quiser chamar assim.
No Brasil, será uma revolução de longo prazo. Isso acontece
porque esse é um governo de esquerda. A maioria das pessoas que
o compõe são de esquerda, não porque tenham migrado para ela
para chegar ao poder, mas por terem biografia de esquerda. Há
políticas de educação, saúde e meio-ambiente importantes.
Não se pode julgar o governo pelo Palocci e pelo Meirelles.
É verdade que nessa área, a linha é tão ou mais conservadora
do que no governo anterior, mas isso não é o governo todo.
Em setembro, tivemos uma reunião de ministérios e cada um
tinha cinco minutos para falar. Foi empolgante. O mais
surpreendente foi o Ministério das Relações Exteriores, com
uma política para regiões fronteiriças, que ocupam 27% do
território.
Fronteira é sempre uma coisa complicada, é uma linha jurídica
e os moradores acabam ficando perdidos, porque moram na mesma
cidade, mas têm nacionalidades diferentes e não são atendidos
pela estrutura do outro país de saúde, educação etc.
Um acordo com o Uruguai foi realizado para que os moradores de até
25 quilômetros recebam binacionalidade para fins de serviços públicos.
Acordo semelhante deve ser firmado com a Argentina. Estou
convencido de que o país vai mudar, porque o movimento social
está no governo. O caso mais escrachado disso sou eu, já que
foi o movimento da economia solidária que me indicou. Devo o
cargo ao movimento. Da mesma forma que o MST e o movimento da
reforma agrária estão no governo com o ministro Miguel Rosseto.
Então se o país não mudar para melhor assim, os
movimentos terão de fazer um profundo exercício de autocrítica,
no mínimo...
Subscrevo totalmente. No meu caso, noto uma grande solicitude de
todos os ministérios para a economia solidária. Todos estão
trabalhando muito, pelo menos 12 horas por dia. Não sei como
eram outros governos nacionais, porque nunca estive em um, estive
apenas num municipal, da Luiza Erundina, em São Paulo, mas a
quantidade de grupos de trabalho interministerial é enorme.
Alguém do meu escalão, com certeza, está em pelo menos seis
grupos. E isso é essencial. No caso da lei de falências,
discuti pessoalmente com o secretário (Marcos) Lisboa, uma vez
sozinho e outra em conjunto com o ministro Palocci, como
representante do ministério do Trabalho, dos interesses dos
trabalhadores. O governo atual, se tiver tempo, pode mudar de
fato a distribuição social.
Há gente boa pensando. O PT entrou prontinho para governar.
Conheci muita gente no tempo do governo da Erundina que hoje está
em Brasília. São pessoas que já tinham o diagnóstico e estão
realizando seus projetos. O sonho do PT sempre foi o crescimento
distributivista.
A política macroeconômica atrapalha um bocado, mas o Fome
Zero já é um baita sucesso. A imprensa passou um ano e meio
falando que o programa era um fracasso. De repente, quando se
anuncia 5 milhões de famílias atendidas, o escândalo passa a
ser a verificação das crianças na escola. Claro que é preciso
verificar, mas o programa existe e funciona. Um outro muito
importante é o da compra de produtos antecipada, para a
agricultura familiar. O agricultor vende para o governo.
Se o preço cair, ele não paga nada, mas se subir, recebe a
diferença. É um subsídio para a agricultura familiar, com 540
milhões de reais, no máximo 2.500 por família, o que dá mais
de 200 mil pequenas propriedades atendidas. No ano passado ele não
conseguiu destinar toda a verba, cujo excedente foi destinado à
Senaes.
O combate à pobreza é prioridade em todo o governo, em
programas picadinhos. A classe média é toda homogênea, todos nós
temos computador, carro, apartamento.
Mas a pobreza não. Ela é muito diversificada. Não adianta
querer ser stalinista e acabar com a pobreza de um único modo,
mas ela não acaba de um jeito só. E o melhor é ajudar os
pobres a se mobilizar para que deixem de ser pobres, o que é a
beleza da economia solidária.
As mudanças estruturais e de política externa podem
puxar a política econômica mais para a esquerda?
Adoraria que isso acontecesse, mas não estou certo de que vá
ser assim. O pronunciamento de Lula na ONU criticando o FMI,
afirmando que o novo colonialismo é o endividamento perpétuo
das economias pobres é uma posição de esquerda da qual não
posso discordar.
Ao mesmo tempo, ele avalia que é importante manter o apoio do
Fundo no país, ao firmar um acordo que, na minha avaliação,
era desnecessário. Tanto o governo de Fernando Henrique quanto o
de Lula são de composição, com conflitos interessantes.
A diferença é que neste o peso da esquerda é maior que o da
direita, ou talvez do centro seja mais adequado dizer, era
predominante no tempo de FHC.
Ou seja, são de composições diferentes.

Paul Singer, 72 anos, é austríaco, de Viena, mora no
Brasil desde 1940. É formado em Economia e Administração,
doutor em Sociologia, além de outras formações. Possui 23
obras publicadas e atualmente é professor titular da Faculdade
de Economia, Administração e Contabilidade da USP.
| Biografia: Paul Singer
nasceu na Áustria, em 1932, numa família de pequenos
comerciantes judeus. Iniciou seus estudos ainda em seu país
de origem, tendo imigrado para o Brasil em 1940. Concluiu
o equivalente ao primeiro grau já em São Paulo. Em
seguida, fez o curso técnico de eletrotécnica na Escola
Técnica Getúlio Vargas. De 1952 a 1956 trabalhou em indústrias
como eletrotécnico, tendo se filiado ao Sindicato dos
Metalúrgicos de São Paulo. Liderou a greve de 1953 que
paralisou a indústria paulistana por mais de um mês. Em
1954, filiou-se ao PSB, interessando-se progressivamente
por economia. Fez o curso de ciências econômicas e
administrativas da USP entre 1956 e 1959. Foi, então,
convidado a integrar o quadro docente da Faculdade de Ciências
Econômicas da USP, do qual se demitiu em decorrência do
golpe de 1964. Voltou à USP em 1966 como professor da
Faculdade de Higiene e Saúde Pública em cujo
Departamento de Estatística instalava-se o Centro de
Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip). No ano acadêmico
de 1966-67, fez o curso de estudos populacionais da
Universidade de Princeton. Retornou ao Brasil em 1967 e
começou a lecionar no Cedip. Com o AI-5, em 1969,
aposentou-se compulsoriamente. Então, com alguns dos
demais colegas expurgados, entre outros, particularmente
aqueles com quem tinha estudado a obra máxima de Karl
Marx, no famoso Seminário de O Capital, fundou o Cebrap.
Foi, também, um dos fundadores do PT, tendo sido secretário
do Planejamento do Município de São Paulo na gestão da
prefeita Luiza Erundina. Dentre suas obras, destacam-se
estudos sobre agricultura, sobre população,
desenvolvimento , socialismo etc. |
rvforum
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pow estou pesquisando na internet sobre a candidata a presidencia ana marai rexeira rangel,gostaria de saber quais sao suas proposta de governo nas areas de educacao ,saude ,economia ,agricultura, cultura, segurança publica e politica externa
queria saber tambem mais sobre sua vida pessoal e seus bens