“O que nos falta é a capacidade de traduzir em proposta aquilo que ilumina a
nossa inteligência e mobiliza nossos corações: a construção de um novo mundo.”
(Betinho-1993)
A trajetória de militância de Betinho vem da adolescência, a partir do contato que travou com padres dominicanos que exerceram grande influência na Ação Católica e na JEC (Juventude Estudantil Católica), em Belo Horizonte.
A JEC se politizou, transformando-se na JUC (Juventude Universitária Católica). Então, Betinho começou a viajar pelo Brasil com o Centro Popular de Cultura, o CPC da UNE (União Nacional dos Estudantes). Convocou assembléias estudantis em faculdades e disputou a direção da entidade com a Ação Popular (AP) que, na época, dominava o movimento estudantil.
Na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez parte do núcleo que gerou o pensamento político da JUC e depois o da AP, articulando-se posteriormente com o grupo de cristãos progressistas da PUC-Rio. Desde então, ficaram claros os princípios que marcariam o seu discurso e as suas ações.
Em 1962, formado em Sociologia, engajou-se nos movimentos operários e na luta pelas chamadas reformas de base que marcaram o governo João Goulart. Ao mesmo tempo, exerceu funções de coordenação e assessoria no Ministério da Educação e Cultura – onde fez articulações a favor do projeto de alfabetização de adultos do então jovem professor pernambucano Paulo Freire – e na Superintendência de Reforma Agrária. Além disso, elaborou estudos sobre a estrutura social brasileira para a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), da ONU.
Exílio
Depois do golpe de 1964, quando a tendência de formação de grupos guerrilheiros começou a se definir, a AP redirecionou-se para o movimento sindical e para o trabalho com grupos sociais (mulher, jovens etc). Quanto a Betinho, passou a atuar na resistência à ditadura militar. Em 1971, quando a repressão intensificou-se, o procuradíssimo líder da AP partiu para o exílio.
Morou primeiro no Chile, onde viviam cerca de 5 mil brasileiros e brasileiras articulados em mais de 40 grupos de esquerda. Deu aulas na Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales, em Santiago, e atuou como assessor do presidente Allende, deposto em 1973 pelo general Augusto Pinochet com apoio da CIA.
Conseguiu escapar do sangrento golpe asilando-se na embaixada do Panamá. Em 1974, já vivendo um processo de desengajamento da AP, foi para o Canadá e depois para o México, onde fez o curso de doutorado e deu novo rumo à sua história pessoal.
Durante o exílio, exerceu cargos de direção e consultoria em organizações como o Conselho Latinoamericano de Pesquisa para a Paz (Ipra), a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Latin American Research Unit (Laru).
Pré
Nesse mesmo país, participou da criação do Centro de Estudos Latinoamericanos, que produzia análises sobre a América Latina veiculadas em diversas publicações e até em audiovisuais. Era uma espécie de pré-Ibase, como gostava de dizer, comparando com o instituto que iria fundar com o amigo Carlos Afonso, dois anos depois de voltar ao Brasil.
No final dos anos 1970, com o aumento das pressões para a abertura política no Brasil, o nome do irmão do Henfil tornou-se um dos símbolos da campanha pelo retorno dos cassados e exilados políticos, celebrizado nos versos de "O Bêbado e o equilibrista".
Em 1979, com a anistia, voltou ao país. Betinho trouxe do exterior a experiência de um novo modo de organização da sociedade civil que não passava pelos partidos políticos e pelos sindicatos.
No início dos anos 1980, ajudou a fundar o Instituto de Estudos da Religião (Iser) e logo depois o Ibase – instituição de caráter suprapartidário e supra-religioso dedicada a democratizar a informação sobre as realidades econômicas, políticas e sociais no Brasil.
Desde então passou a recusar qualquer enquadramento no tradicional mundo da política, mesmo no campo da esquerda.
Frentes de luta
Betinho desempenhou papel decisivo como fundador e principal articulador da Campanha Nacional pela Reforma Agrária, congregando entidades de trabalhadores(as) rurais em busca de uma solução para a grave questão da distribuição, posse e uso da terra, um dos principais problemas estruturais dos países em desenvolvimento. Na luta pela democratização da terra organizou, em 1990, o movimento Terra e Democracia, que levou ao Aterro do Flamengo milhares de pessoas.
Betinho soube que havia contraído o vírus HIV numa das transfusões de sangue que precisava fazer periodicamente, em função da hemofilia, em 1985. A inevitabilidade da doença sem cura o estimulou a abrir uma nova frente de luta.
Em 1986, ajudou a fundar a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), uma das primeiras e mais influentes instituições do país nessa área, da qual foi presidente durante 11 anos.
Em 1992, integrou a liderança do Movimento Pela Ética na Política, que culminou no impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em setembro do mesmo ano, e serviu de base para a maior mobilização da sociedade brasileira em favor das populações excluídas: a Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida.
Mostrou-se também um especialista no trato com a mídia, deixando suas idéias registradas em inúmeras entrevistas. Não foi por acaso que foi escolhido o Homem de Idéias 1993 pelo suplemento cultural do Jornal do Brasil.
Transformações : "Para nascer um novo Brasil, humano, solidário, democrático, é fundamental que uma nova cultura se estabeleça, que uma nova economia se implante e que um novo poder expresse a sociedade democrática e a democracia no Estado." |
Betinho morreu aos 61 anos em sua casa, no bairro do Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1997, um sábado à noite, cercado por amigos e parentes.
Seleção de frases e pensamentos de Herbert de Souza-Betinho
Ética
"Em resposta a uma ética da exclusão, estamos todos desafiados a praticar uma ética da solidariedade." (1993)
Transformações
"O que nos falta é a capacidade de traduzir em proposta aquilo que ilumina a nossa inteligência e mobiliza nossos corações: a construção de um novo mundo."(1993)
Sociedades
"Quando uma sociedade deixa matar crianças é porque começou seu suicídio como sociedade." (1991)
"Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura." (1993)
Inclusão
"A democratização das nossas sociedades se constrói a partir da democratização das informações, do conhecimento, das mídias, da formulação e debate dos caminhos e dos processos de mudança." (1991)
"A terra e a democracia aqui não se encontram. Negam-se, renegam-se. Por isso, para se chegar a democracia é fundamental abrir a terra, romper essas cercas que excluem e matam, universalizar esse bem, acabar com o absurdo, restabelecer os caminhos fechados, as trilhas cercadas, os rios e lagos apropriados por quem, julgando-se dono do mundo, na verdade o rouba de todos os demais." (1994)
Essência
"A luta pela democracia é que desenvolve o mundo e ela se constrói com e através da comunicação."(1993)
"Toda informação é, de certa forma, uma proposta ou elemento de formulação de propostas. É matéria-prima fundamental da ação política e, portanto, do trabalho cotidiano dos movimentos populares." (1990)
Olhares
"É preciso olhar a propriedade da terra com o olhar da democracia, com o olhar da vida, e não com o olhar da cobiça, da cerca, da violência..." (1994)
"É importante ver, com os dois olhos, os dois lados - para mudar uma única realidade, a que temos." (1997)
"Essas crianças estão nas ruas porque, no Brasil, ser pobre é estar condenado à marginalidade. Estão nas ruas porque suas famílias foram destruídas. Estão nas ruas porque nos omitimos. Estão nas ruas, e estão sendo assassinadas." (1992)
"No Brasil não existia o controle do sangue: a Aids era desconhecida. Ele não existia também para outras doenças. Assistimos ao comércio de sangue, uma irresponsabilidade total. Neste sentido, a Aids salvou o sangue."
Passos
"Não podemos aceitar a teoria de que se o pé é grande e o sapato, pequeno, devemos cortar o pé. Temos de trocar de sapato." (1995)
"Para nascer um novo Brasil, humano, solidário, democrático, é fundamental que uma nova cultura se estabeleça, que uma nova economia se implante e que um novo poder expresse a sociedade democrática e a democracia no Estado."
Humanidade
"Solidariedade a gente não agradece, se alegra."
"O desenvolvimento humano só existirá se a sociedade civil afirmar cinco pontos fundamentais: igualdade, diversidade, participação, solidariedade e liberdade." (1994)
"Democracia serve para todos ou não serve para nada." (1995)
ibase
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