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 A disputa
acirrada entre o PT e o PSDB, inequivocamente, provam a
uniformização da estrutura partidária brasileira e a defesa do
mesmo projeto político pelos dois maiores partidos burgueses do
país.
O segundo turno das eleições municipais não mostrou
divergências programáticas de fundo; ao contrário. As
eleições para prefeito mostraram, nas principais cidades do
país, uma redefinição da correlação de força dos partidos
políticos.
A grande novidade ficou por conta do crescimento vertiginoso
do PT, que polarizou a disputa eleitoral com o PSDB em várias
capitais brasileiras.
Para se ter uma idéia, de acordo com uma pesquisa [1] feita no período das eleições, das 44
cidades onde haveria segundo turno, 32 teriam, segundo os
resultados, na futura gestão um prefeito do PT ou do PSDB.
Essa concorrência, ao contrário do que possa parecer, não
representa o confronto entre dois projetos políticos distintos,
mas a uniformização ideológica do sistema
democrático-burguês no Brasil.
O pensamento único do momento resultou do longo processo de
adaptação do PT ao aparato eleitoral. Essa busca e dependência
das instituições acelerou a mudança pragmática de
orientação ideológica e, por conseguinte, a abertura do leque
de alianças políticas do partido.
As prefeituras serviram de experiência administrativa nos
marcos do regime e da conciliação de classes. Nesse ínterim a
base operária e popular do PT garantia um eleitorado fiel às
propostas alternativas de cunho burguês apresentadas pelos
candidatos petistas.
Havia, entendidas as limitações ideológicas,
diferenciação de visões políticas, se bem que reformistas e
não contraditórias em relação aos interesses da patronal e do
capital estrangeiro.
O discurso cada vez mais simpático à burguesia é uma
conseqüência natural desta mudança que reflete a própria
estrutura histórica original, interna e programática do PT,
visto que a plataforma anticapitalista nunca fez parte da
intervenção do partido, salvo em alguns setores da esquerda que
tão logo adaptaram sua retórica às novas circunstâncias
impostas pela direção majoritária.
A seguinte analogia matemática é válida para elucidar melhor a
questão: se pudéssemos colocar duas funções num mesmo
gráfico, cuja variável do eixo das abscissas seria o tempo
medido em anos e no eixo das ordenadas, o grau de subserviência
ao receituário do Consenso de Washington e da comunidade
financeira internacional, teríamos duas retas de coeficientes
angulares positivos e diferentes.
A de inclinação menor estaria identificada com o PSDB e a
outra, com o PT. O ponto em que as duas funções se igualam,
isto é, o espaço onde as duas retas se cruzam pode ser descrito
na forma (x,y) como (2002,100%).
A partir desse ponto as retas seguem paralelas infinitamente,
se é que se pode afirmar isso sem quebrar as regras da
matemática, em se tratando de funções lineares. E a função,
tanto de um quanto de outro partido é gerenciar o aparato
burguês e sustentar as orientações do FMI.
Por que, poder-se-ia indagar, já que as duas funções são
iguais, há o acirramento do confronto eleitoral e não a
coligação ou mesmo a fusão entre os referidos partidos? Este
é, seguramente, um fenômeno bem mais complexo.
- Primeiramente, ainda há uma forte ilusão a respeito do
PT, levada entusiasticamente a cabo pela esquerda
remanescente dentro e fora das instâncias do partido, de
que o governo está em disputa ou mesmo de uma suposta
inevitabilidade da política econômica adotada.
- Em segundo lugar, ainda no que se refere ao partido do
governo, permanece a idéia da abertura ao diálogo com
os movimentos sociais, ONGs e sindicatos.
Esta tese é verdadeira, aquelas são totalmente falsas. A
aparência do diálogo, de fato, é uma característica inerente
a um governo de frente-popular, ou seja, um partido operário que
faz alianças políticas com a burguesia para ter mais chances de
conquistar cargos e submeter o movimento de massas à sua
influência.
Mas este não é, de maneira nenhuma, o ponto principal da
análise em questão.
As leis da física rezam que os opostos se atraem, porém, neste
caso, a recíproca também é verdadeira: os semelhantes se
repelem. PSDB e PT disputam porque são frações concorrentes à
hegemonia do mesmo projeto político, pai e filho do Plano Real e
do imperialismo, a vertente tupiniquim de republicanos e
democratas, galhos da mesma árvore cuja raiz é o gerenciamento
do sistema capitalista.
Como tal, converteram-se nos maiores partidos do país, os
núcleos em torno dos quais giram as demais agremiações
político-fisiológicas que se alimentam do seu poder.
É muito comum, e às vezes deliberada, a tendência a dissociar
o plano nacional da gestão municipal, mas não há separação.
A personalização ou personificação da política sempre foi
uma tática da burguesia: salientar os aspectos morais do
candidato, ocultando as reais pretensões do partido político e
da coligação, dos interesses envolvidos.
Nenhum candidato contrário às diretrizes de sua legenda
permanece nela; e mesmo que sua retórica as contradiga, o que é
extremamente difícil, não entrará em conflito, pois esta é
uma regra básica para sua manutenção no partido. PT e PSDB
aplicam, no âmbito das cidades, o que fazem nos Estados e no
país e o voto representa a legitimação desta política.
Por essa razão, a disputa é centrada em aspectos
eleitoreiros: obras deixadas pela metade, investimentos não
realizados, denúncias de corrupção e hipocrisia de ambos os
lados.
A nivelação das ideologias seguida à risca por PT, PSDB,
PFL, PMDB, etc, consiste na supremacia e hegemonia do pensamento
único no espectro partidário, deixando na absoluta margem a
esquerda revolucionária, que, todavia, também verá crescer sua
influência à medida que a necessidade do socialismo se torne
cada vez mais presente às massas, como atestam os processos
revolucionários em muitos países latino-americanos.
A política burguesa é uniformizada porque não apresenta nada
de novo.
Tudo o que propõe é arcaico, caduco. As eleições
municipais, se bem que localizadas, podem estar demonstrando um
aspecto importante desse processo de esgotamento. É provável
que o próprio acirramento da disputa eleitoral entre PT e PSDB
desnude a semelhança inequívoca de suas plataformas
programáticas.
Nosso sistema linear de duas funções, então, daria lugar a
uma terceira, totalmente incompatível com as anteriores, mas de
solução definida no bojo da luta de classes.
Enquanto permanecem as ilusões e a obrigatoriedade de
comparecer às urnas, a arma mais apropriada continua sendo dizer
NÃO ao projeto PT/PSDB através do voto nulo.
* Martin, contato
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Nota:
[1] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2110200413.htm
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