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Apesar das farpas de um lado e do outro, PT e PSDB marcharão
juntos na política brasileira, Cristovam Buarque e Fernando Henrique
Cardoso.
Foi uma longa conversa para reinterpretar o passado, analisar
o presente e pensar o futuro. Com um gravador em punho, o senador
petista Cristovam Buarque (DF), ex-ministro da Educação,
resolveu registrar a troca de impressões com o ex-presidente
tucano Fernando Henrique Cardoso, quando eles se reuniram, um
mês atrás, em Providence, nos Estados Unidos.
O diálogo, cedido ao Globo por Cristovam, somou 50 páginas
impressas, das quais foram extraídos alguns trechos.
Entrevistador e entrevistado revelam identidades. Ambos
defendem um choque social e acreditam que, um dia, apesar das
farpas de um lado e do outro, PT e PSDB marcharão juntos na
política brasileira.
CRISTOVAM BUARQUE: A sua eleição e a do Lula
não são fatos inesperados? A esquerda chegar ao poder?
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO: Totalmente.
CRISTOVAM: E não é uma surpresa que tenhamos
chegado ao poder sem uma proposta nova para o povo? Chegamos
rebocados pela direita.
FERNANDO HENRIQUE: Surpresa não é chegar, é
chegar pelas duas vias... (risos)
CRISTOVAM: Nossas brigas (PT e PSDB) não podem
impossibilitar um trabalho?
FERNANDO HENRIQUE: Não discutimos nem
disputamos ideologia. É poder, é quem comanda. Minha idéia
para o Brasil é a seguinte: você tem uma massa atrasada no
país, e partidos que representam esse atraso, clientelismo. Os
dois partidos que têm capacidade de liderança para mudar isso
são o PT e o PSDB. Em aliança com outros partidos. No fundo,
disputamos quem é que comanda o atraso. O risco é quando o
atraso se comanda. É um pouco o negócio do pacto com o diabo,
do Fausto, não é? Você pode perder a sua alma nesse processo,
porque o atraso pode te comandar. O risco neste momento é de
vocês, do PT. De comandar um pouco o atraso e imprimir os outros
nessa direção.
CRISTOVAM: Ainda é possível uma aliança
PT-PSDB?
FERNANDO HENRIQUE: Acho que sim. Porque a luta
é política, não é ideológica.
CRISTOVAM: Nós, do PT, fomos cooptados, ficamos
lúcidos, amedrontados ou oportunistas? A nossa mudança veio de
qual destes fatos?
FERNANDO HENRIQUE: Veio de tudo isso. Na
campanha, é natural um certo oportunismo. Com jogada de
marketing, você cria um mito, conta uma história. O meu mito
era fácil, era o real, moeda, estabilidade. O Lula era ele
próprio, a vida dele. Eu não estava mentindo, realmente tinha
feito o real. O Lula também não, representa a ascensão de uma
camada. Mas uma coisa é campanha e outra é governo. No governo,
não basta paz e amor.
CRISTOVAM: Não está na hora de a gente dar um
choque social no Brasil?
FERNANDO HENRIQUE: Se não fizermos alguma coisa
rápido, haverá danos à democracia. Se o resultado vai muito
devagar, é uma tragédia. Se não anda, pior ainda. Andar para
trás é inaceitável. Eu resumiria dizendo: mais investimento em
infra-estrutura e um choque social.
CRISTOVAM: Com uma carga fiscal de mais de 30%
do PIB já dá para fazer...
FERNANDO HENRIQUE: Aumentou muito a
arrecadação. Não entendi porque houve um aumento do superávit
primário. Sou doutor nisso. Desde 1999 estou lutando com o FMI.
A idéia do Fundo é sempre um pouco mais alto. Porque com o
superávit atual, de 4,5%, você não paga nem os juros. Mas se
for de 5%, também não vai pagar. Não precisa exagerar no
superávit primário. Eu até posso dizer isso. O Lula é que
não pode porque é o presidente. Os mercados caem no dia
seguinte, é verdade.
CRISTOVAM: Mas para dar esse choque, não é
preciso ter um compromisso (a palavra pacto não é boa)?
FERNANDO HENRIQUE: Não devemos falar de pacto
porque dá má sorte. Digamos uma convergência. Tem de ser uma
coisa suprapartidária. A sociedade tem de comprar a idéia. E
tem que pegar gente influente na mídia, porque hoje não existe
nada sem mídia. Na política atual, parafraseando Descartes
(Penso, logo existo), é estou na TV, logo
existo. Se você não é virtual, você não existe.
CRISTOVAM: A imprensa a gente até traz, agora a
Justiça é que difícil trazer...
FERNANDO HENRIQUE: As classes dirigentes,
dominantes, e mais do que as classes, as mentalidades dominantes
e as culturas tradicionais estão encasteladas na Justiça.
CRISTOVAM: Em novembro de 1998, acompanhei o
Lula para visitá-lo. Quando o senhor abriu a porta do
apartamento residencial no Alvorada, disse: Lula, venha
conhecer a casa onde você um dia vai morar. Foi
generosidade ou previsão?
FERNANDO HENRIQUE: Não creio que tenha sido uma
previsão, mas sempre achei uma possibilidade. E também um gesto
de simpatia. Eu disse ao Lula naquele dia: Temos uma
relação de amizade há tantos anos, não tem cabimento que o
chefe do governo não possa falar com o chefe da
oposição. Era uma época muito difícil para o Brasil.
Eu disse lá, não sei se você se lembra: Algum dia
nós podemos ter de estar juntos. Eu pensava numa crise.
E disse ao Lula: Não quero nada de você. Só
conversar. É para você ter realmente essa noção de que num
país, você não pode alienar uma força. Lula conversou
comigo no dia da posse. E foi bonita aquela posse... Na hora de
ir embora, o Lula levou a mim e a Ruth até o elevador. E aí ele
grudou o rosto em mim, chorando. E disse: Você deixa aqui
um amigo. Foi sincero, não é?
CRISTOVAM: Você é adversário dele?
FERNANDO HENRIQUE: Eleitoralmente, sim. Mas tem
que estar perto. Tem que saber o que o outro pensa.
* Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia, ex-
governador (DF) (1995-1998), em 2002 elegeu-se senador pelo PT
com a maior votação dada a um político no Distrito Federal.
Foi Ministro da Educação (2003-2004). É membro do Instituto de
Educação da Unesco. Autor do livro "Admirável
Mundo Atual", e nosso colunista. Você
pode visitar sua homepage - http://www.cristovam.com.br
e escrever-lhe em
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