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"O Brasil atua da maneira mais otária possível no
mercado, porque paga um juro de caloteiro e paga todo dia
direitinho. Faz questão de tirar o leite das crianças para
pagar essa dívida. Já pagou a dívida umas três vezes e
continua pagando", do jornalista Fritz Utzeri.
Pelo seu sotaque, ninguém poderia supor que se tratasse de um
alemão. Porém, mesmo falando um português genuinamente
carioca, seu nome não deixa dúvidas: Fritz Utzeri. Formado em
medicina, começou no jornalismo em 1968, no Jornal do Brasil.
A partir daí passeou pelas maiores redações do Brasil. Além
do JB, onde chegou a ser correspondente internacional em Nova
Iorque e Paris, na década de 80, Fritz também levou o texto e
as idéias de um dos maiores cronistas do país para "O
Globo" e para o velho "Pasquim". Hoje é colunista
do "Pasquim 21".
Porém, mesmo com o gabarito de quem já foi diretor de redação
do Jornal do Brasil, o próprio jornal que o criou parece ter
esquecido disso e, recentemente, cortou seu salário em 75%.
Fritz preferiu se demitir.
E foi assim, com a mágoa de quem vê a "selvageria" em
que se tranformou o jornalismo brasileiro, que este jornalista de
59 anos abriu as portas de seu apartamento no bairro das
Laranjeiras, no Rio de Janeiro.
Breno - Você vê perspectiva de melhora na mídia?
Quando você considera a mídia, você não deve considerá-la
necessariamente como jornalismo ou televisão. Mídia pode ser um
monte de coisas e certamente há muitas mídias por aí que estão
surgindo, que já estão efetivadas e que há algum tempo atrás
a gente não sabia o que era.
A primeira vez que eu estava numa chefia de jornal e o cara virou
para mim e disse que eu estava num portal, eu não entendi nada.
É uma coisa muito recente. Tudo vai virar uma grande geléia
geral de comunicação, mas como vai evoluir eu não sei.
Há um desinteresse muito grande pela mídia, principalmente pela
mídia escrita. Nós vivemos uma fase de sociedade hoje em que as
pessoas não querem mais a palavra escrita; o visual predomina e
o símbolo predomina sobre a palavra.
Breno - Como você começou?
Sou formado em medicina. Naquela época do movimento
estudantil dos anos 60 eu de repente me vi dirigindo o
Departamento de Imprensa no Diretório das Ciências Médicas e
gostei daquele negócio. Nós tínhamos um boletinzinho em
formato A4 e tirava uns 500 exemplares.
Chamava-se "Perspectivas" e era uma radicalidade
extraordinária, tanto que todos nós fomos processados pela
Aeronáutica e nos acusavam de tentar dividir as Forças Armadas,
o que naquela época já me pareceu uma piada.
Breno - Você disse que tinham 500 de tiragem, mas e se
tivessem 1.000.000?
Um milhão seria uma coisa diferente, mas ia acontecer como? Não
havia a menor possibilidade disso acontecer.
Eu aprendi uma coisa e por isso não entrei na luta armada: o
velho Lenine já dizia que só se bate num exército com outro exército.
Se você não tiver um exército, meu caro, você pode desistir
dessa coisa porque você vai acabar esmagado.
Breno - E a grande mídia hoje em dia pode ser
considerada um outro exército?
A mídia como exército? Se for, é um exército de apoio.
Porque a mídia em geral tem apoiado muito. Primeiro com o
governo do FH e, agora, com o próprio Lula.
Eu e Mino Carta fomos os primeiros jornalistas que declaramos
a intenção de votar no Lula. Mas, antes de votar no Lula, já
no Pasquim, eu fiz uma coluna e falei:
- "Não adianta a gente se iludir. O acordo já foi feito
e foi feito. A política econômica não vai mudar".
Isso eu escrevi alguns meses antes da eleição, mas durante a
campanha eu comecei a achar que a tática do PT seria se aliar à
Fiesp, ao setor produtivo da economia, contra o setor
especulativo e financeiro da economia.
Ninguém estava elegendo o Lula para fazer revolução
socialista. Não era isso que se propunha.
O Brasil atua da
maneira mais otária possível no mercado, porque paga um juro de
caloteiro e paga todo dia direitinho. Faz questão de tirar o
leite das crianças para pagar essa dívida. Já pagou a dívida
umas três vezes e continua pagando.
Marcelo - E as linhas editoriais apóiam isso?
Hoje eu estava vendo o imbecil do Palocci na televisão
dizendo: "Temos mesmo que fazer isso, rigor fiscal, baixo
investimento...".
Tudo bem, rigor fiscal eu não tenho nada contra, mas baixo
investimento? E guardar dinheiro para pagar rigorosamente os
agiotas internacionais; uma dívida que a gente já pagou várias
vezes?
E historicamente ninguém nunca pagou essas dívidas. A
Alemanha não pagou a dívida da reparação na Segunda Guerra
Mundial e veja a merda que a Alemanha fez.
Nós não fizemos merda alguma internacional e hoje nos
tornamos exportadores de divisas. Estamos exportando sangue,
aquilo que seria necessário para que o país crescesse. O
resultado: o país tem crescido que nem rabo de cavalo, pra
baixo.
Marcelo - Os meios de comunicação de massa não vêem
que um dia esse mercado interno nosso vai explodir, esse
desemprego vai explodir?
Uma das características do capitalismo é que amanhã estaremos
todos mortos. É só você pensar um pouco para ver que esse negócio
não tem saída. Vai-se empurrando com a barriga até o dia em
que realmente vai acontecer alguma coisa qualquer.
Precisamos hoje ganhar eficiência, e ganhar eficiência
significa o quê?
Se vocês quatro fazem esse jornal aqui e eu pago R$100 a cada
um, mais o custo do jornal, mais uma série de outras coisas,
para aumentar meu lucro eu tenho que botar dois de vocês na rua,
continuar pagando os R$ 100 para os outros dois que vão
trabalhar o dobro e continuar fazendo o mesmo volume de material.
Obviamente a qualidade vai piorar. É o que está acontecendo com
o JB.
E a minha margem de lucro aumenta. Mas eu estou cortando 50%
dos consumidores porque eu estou botando as pessoas na rua, o índice
de desemprego aumenta e essas pessoas estão excluídas da
sociedade.
E até que limite você vai levar isso? É a proposta que o JB
me faz: trabalhar a mesma coisa para ganhar 25% do que eu
ganhava. Eles têm a coragem de fazer uma proposta dessas.
Marcelo - Quem está tendo mais apoio da mídia, o FH ou
o Lula?
Acho que o FH era mais bem tratado, se segurava mais que o
Lula. O Lula é o rei das metáforas, aquelas besteiras. Mas ele
teve muita oportunidade, o problema é que Lula e livro...
Infelizmente eu tenho que confessar que eu estava errado
quando antes da eleição eu dizia que ele estava preparado para
governar.
O exemplo desse jornalista americano é flagrante. Ele
transformou uma besteira num caso de Estado. De irresponsável a
matéria só tinha um dado: o de que o país estava preocupado
com isso. Quanto à questão de o Lula beber, ele bebe pra
cacete, enche os cornos.
E não tem a inteligência do Jânio Quadros, que era outro
presidente bêbado que a gente tinha. Quando era governador de São
Paulo, Jânio foi perguntado por uma repórter: "Governador,
o senhor não está preocupado, dizem por aí que o senhor é
alcoólatra?" Ele disse: "Não, minha filha, estão
enganados, eu não sou alcoólatra, eu sou bêbado".
O FH jamais passou recibo e, na época, eu era diretor de redação
do JB e fui entrevistar o FH e disse a ele na lata:
- "O senhor não gosta de trabalhar, custa a decidir e
quem manda no governo é ACM".
Ele respondeu tranqüilo, porque político é isso, tem que
estar disposto a ouvir certas coisas.
Júlio - Mas assusta o fato de ele ter tentado expulsar
esse jornalista do país, além de ter sido divulgado os hábitos
desse jornalista aqui no Rio, dizendo que ele ia para a praia,
que também bebia...
Esse jornalista não é uma pessoa pública, ele não está
governando o Brasil. O escritório dele é em Ipanema; eu
adoraria ser correspondente estrangeiro no Brasil. O escritório
dele era pra ser em São Paulo ou em Brasília. Mas, mesmo assim,
dizer que o cara vai à praia e bebe cerveja no Rio...
Ele seria idiota se não fizesse isso. Essa de expulsar o
correspondente do Brasil deve ter sido tomada depois de uma noite
de porre, quando ele mesmo disse que acordou invocado.
Júlio - Hoje em dia, qual é o perfil do jornalista que
consegue sobreviver nessas condições, com esse jornalismo que
é feito hoje?
Ainda tem gente boa no jornalismo. Você pega a Folha e vê
que tem bons profissionais. Mesmo no JB ainda tem bons
profissionais, mas está cada vez mais difícil você permanecer
vivo se você for independente, se você for crítico.
Marcelo - Você diria que o (Nelson) Tanure, depois que
comprou o JB, conseguiu piorar o jornal?
Eu diria que não piorou muito mais do que já estava no
sentido econômico porque é um desastre, mas eu acho que é um
outro tipo de jornal, um outro conceito que não foi nem o Tanure
quem criou, porque o Tanure não entende muito de jornal.
Já era uma coisa que me foi proposta quando eu era diretor de
redação do jornal e eu não aceitei. Era fazer um jornal com o
mínimo de pessoas, comprando material de agências, chupando matéria
da Internet.
Marcelo - Você acha que o Jornal do Brasil ainda tem
jeito?
Eu acho que não, quer dizer, pode se arrastar por aí, etc.
Mas como jornal não. Não é mais o Jornal do Brasil, é outra
coisa.
fazendomedia
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Gostaria de ter contato com o Sr. Fritz Utzeri. Como faz-lo ?
Grato,
Carlos Torres
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