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Escrito por Fritz Utzeri*   
Friday, 03 December 2004

Existe no Brasil um divórcio quase total entre a sociedade civil e os militares. A rigor, a expressão "sociedade civil" nem deveria existir, pois suporia a existência de uma "sociedade militar" paralela, diferente, o que é um absurdo.

 

O que quero dizer é que os problemas das Forças Armadas não são objeto de preocupação sequer da grande maioria dos políticos. E os próprios militares não fazem a menor força para expor seus problemas e a situação das três armas vai se deteriorando progressivamente, o que é inadmissível para um país das dimensões e da posição geopolítica do Brasil, mesmo que sejamos um país tradicionalmente pacífico e sem "inimigos naturais", salvo - jocosamente - nossos "hermanos" argentinos, com os quais temos resolvido nossos problemas na bola. Quem foi melhor, Pelé ou Maradona?

Hoje as Forças Armadas do Brasil estão sucateadas, notadamente o Exército, um Exército que é incapaz de defender, de forma eficaz, as nossas fronteiras. As questões militares deveriam ser objeto de atenção, discussão e decisão de toda a sociedade.

Que tipo de Forças Armadas devemos ter? Grandes contingentes de recrutados ou forças menores e mais profissionais, altamente treinadas e especializadas? Que tipo de doutrina militar ensinaremos?

Durante anos fomos influenciados por franceses e alemães, depois da II Guerra passamos à influência norte-americana que levou os militares brasileiros a se engajarem na Guerra Fria, o conflito leste-oeste,com as conseqüências que conhecemos bem e que, pelo visto, estão metidas nas cabeças dos militares até hoje: um exército de segurança nacional "guardião das instituições" e preparado para atirar para dentro, uma verdadeira aberração.

Não estaria na hora de pensar no Brasil e prestar atenção para os conflitos que hoje são norte-sul?

O ex-bloco comunista está quase todo na OTAN, a Rússia já é observadora e essa "aliança" é contra quem? Pelo momento parecem não olhar para nós, mas se alguém no Pentágono achar, de repente, que estamos escondendo centrífugas (como o NYTimes já insinuou) para fazer nossas bombas atômicas...

O Brasil deveria tê-las, de preferência em conjunto com a Argentina, pois se até estados como o Paquistão as têm e talvez até organizações terroristas as terão em breve, porque nós continuaríamos desarmados?

O Brasil é um país continental, situado numa faixa climática inteiramente favorável e com uma das maiores reservas de água doce do mundo. Á água, que está escasseando cada vez mais, será uma mercadoria muito cobiçada na segunda metade deste século, ainda mais se persistir o aquecimento global e os americanos continuarem ignorando coisas como o Protocolo de Kyoto.

A água será desejada e rara, mais ou menos como o petróleo o é hoje. Sem petróleo vive-se, já sem água... Além de imensas quantidades de água doce na superfície, principalmente na Bacia Amazônica, ainda temos o maior aqüífero do mundo, O Guarani, uma cisterna de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, dividido com a Argentina, Paraguai e Uruguai, um patrimônio do Mercosul.

Temos ainda maior biodiversidade do Planeta, riqueza incalculável de que somos depositários e constantemente acusados de destruir. Daí, não seria mau ir pondo as barbas de molho.

Vejam o que acontece com o Iraque e com a Chechênia, massacrados por causa de petróleo, sob a desculpa de impor "democracia", "valores morais" ou de não permitir a separação.

O Brasil precisa de Forças Armadas? Precisa.

E o mais complexo é que - como em quase tudo - temos que queimar a vela pelos dois lados. Temos problemas africanos e exigências suecas. O ideal seria ter um exército como o americano, profissional, altamente treinado e equipado.

Só que no Brasil, o serviço militar que os jovens de classe média e alta odeiam e evitam, é uma das poucas possibilidades de inserção social,cívica e até profissional para um grande contingente de filhos de pobres e desassistidos. Portanto, ainda está longe o dia em que o ideal será possível, mas não custa ir caminhando nessa direção.

Hoje, mal há dinheiro para sustentar os efetivos, principalmente do Exército, que chegou a mandar os recrutas para comer em casa e encurtou o tempo de alistamento para economizar recursos. Só para ter uma idéia da situação basta ver que o Ministério da Defesa gastou, de janeiro a setembro passado, R$ 18,4 bilhões.

Desses recursos, nada menos que 81,52% (R$ 15 bilhões) foram despendidos para o pagamento de pessoal da ativa, da reserva e de pensões a viúvas e filhas. Para os gastos com outros custeios (combustível, munição, fardamento, rancho e manutenção de armamentos, veículos e equipamentos) e investimentos (novas instalações, treinamentos, novos equipamentos e armamentos), sobraram apenas R$ 3,4 bilhões, ou seja,18,48% do total.

Ricardo Bergamini, que anota e divulga, incansavelmente, os números do governo, observa que a despesa média per capita das Forças Armadas com o seu pessoal ativo é de R$ 39,90 por dia, o que é insignificante.

Os militares, como não poderia deixar de ser, não estão gostando nada disso.Só para ter idéia do descalabro, o programa de reaparelhamento do Exército conseguiu gastar até agora a assustadora cifra de R$ 798 mil.

Dá para comprar três importados de luxo. Como termo de comparação, basta lembrar que o novo avião francês do presidente da República não sairá por menos de R$ 150 milhões.

Na Força Aérea, que tem que economizar o querosene e canibalizar aviões (o menos velho voa com peças do mais velho), o programa de substituição dos obsoletos caças Mirage II se arrasta e corre o perigo dos aviões substitutos já estarem superados quando forem, enfim, comprados, mais ou menos o que aconteceu com a Marinha, que comprou um porta-aviões de segunda mão e aviões de museu: os Douglas Skyhawk A-4, "semi novos", a delícia de um colecionador, vendidos pelo Kuweit.

O Brasil precisa de uma Aeronáutica capaz de garantir a integridade de seu espaço aéreo, com caças de longo alcance e outras unidades, baseadas na Amazônia, talvez em porta-aviões fluviais equipados com caças de decolagem vertical e helicópteros para todos os fins e missões, aviões de patrulha costeira, de transporte, equipamentos fabricados em parte pela Embraer o mais bem sucedido filhote industrial criado pelo regime militar, hoje a quarta fábrica de aviões do mundo.

O Brasil deverá, obrigatoriamente, ter capacidade de por satélites em órbita e participar ativamente desse mercado bilionário.

O país precisa de uma Marinha capaz de dissuadir potenciais inimigos e para isso nada melhor do que o submarino nuclear, de preferência com mísseis (também nucleares), a melhor arma de dissuasão existente.

Dirão que enlouqueci, mas o fato é que porta aviões é canhoneira, arma ofensiva, imperialista, para a qual não temos utilidade. Já alguns bons submarinos são outra coisa, como o são fragatas, lanchas de intervenção rápida e uma guarda costeira.

Outro absurdo é a distribuição das forças armadas pelo território. Ainda hoje há enormes contingentes em cidades como o Rio, sem praticamente qualquer utilidade, empenhados na rotina ordem-unida-basquete-ordem-unida-instrução-volei (ou basquete).

Essas tropas ainda estão aqui como se os piratas franceses fossem aparecer no litoral e trocar tiros com os fortes. Esses soldados deveriam estar em patrulhas nas fronteiras e em pontos estratégicos. Com mais de 8 mil quilômetros de litoral não temos uma guarda costeira digna desse nome e nosso litoral é uma peneira, por onde entram (e saem) drogas, armas, ouro, pedras e o que mais se possa imaginar.

A Baia da Guanabara, onde se concentra mais de 80% da esquadra brasileira, é um espaço aberto a piratas e contrabandistas.

Outro detalhe fundamental deve ser o incentivo para a criação e afirmação de uma verdadeira indústria bélica.

O Brasil, durante o regime militar, registrou até alguns sucessos nessa área, mas a corrupção destruiu o negócio. Devemos ter tecnologia para desenvolver armas e munições, se quisermos estar prontos para um eventual conflito e, até mais do que isso, para desencorajar olhares de desejo. A Suíça, neutra e pouco maior do que um queijo, faz isso.

O assunto é muito amplo e os militares deveriam concordar em discuti-lo em público. A matéria diz respeito a todos os brasileiros e os políticos deveriam prestar mais atenção a ela, nem que fosse pelo volume de empregos,atividade econômica e progresso que Forças Armadas bem administradas,fortes, distribuídas pelo território e preparadas possibilitam. Os dados estão aí, meio desordenados, porque não sou especialista no assunto (nunca dei um tiro em minha vida) e sou de paz, mas não adianta fazer como o avestruz e fingir que o problema não existe.

Agora mesmo, estamos envolvidos numa missão de paz no Haiti que pode - eventualmente - se tornar perigosa, uma espécie de mini Iraque, à medida que os partidários do ex-presidente Jean Bertrand Aristide vão se tornando mais ativos.

Hoje, o Exército Brasileiro faz, no Haiti, o que ainda resiste em fazer aqui, ou seja,invadir favelas atirando. É um milagre que ainda não tenhamos tido baixas fatais.

Além disso, o Brasil está movendo uma campanha internacional intensa para conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Esses engajamentos envolvem responsabilidades internacionais cada vez maiores e um país como o Brasil, que por sua dimensão e dinâmica não pode escapar de seu destino de ser grande, precisa investir em sua defesa e estar preparado a ocupar o seu lugar no mundo, sem agressões, mas sempre determinado e alerta.

O assunto está na mesa. Quem discute?

* Fritz Utzeri, é ex-diretor de redação do Jornal do Brasil. Formado em medicina, começou no jornalismo em 1968, no Jornal do Brasil. Passeou pelas maiores redações do Brasil. Além do JB, onde chegou a ser correspondente internacional em Nova Iorque e Paris, na década de 80, Fritz também levou o texto e as idéias de um dos maiores cronistas do país para "O Globo" e para o velho "Pasquim". Hoje é colunista do "Pasquim 21".

 

abi

Comentarios (3)Add Comment
LAURO
escrito por Visitante, 2004-12-29 23:16:36
O BRASIL ESTA ENTREGUE NAS MÃOS DOS SAQUEADORES SALVO ALGUMAS PESSOAS AINDA HONESTAS QUE COMANDA O NOSSO PAIS, VEJA SO ONTEM ASSISTINDO UM PROGRAMA NA REDE TV E FOI NOTICIADO QUE ESTAVA SENDO VENDIDO COCAINA PARA ALGUNS FUNCIONARIOS DO MINISTERIO DA JUSTIÇA VEJA POR QUEM ESTAMOS SENDO GOVERNADOS TEM MUITAS OUTRAS COISAS. DA PARA SE VER, ONDE IREMOS PARAR NESSE.
PAIS? O GOVERNO MANDA AJUDA HUMANITARIA PARA OUTROS PAISES NA HORA, GASTANDO MILHOES DE REAIS ENQUANTO ISSO NOSSAS CRIANÇAS MORREM DE FOME, E CADA VEZ MAIS SENDO RECRUTADAS PARA O TRAFICO DE DROGAS NOS MORRO E FAVELAS,FICO INDIGNADO EM SABER QUE MUITOS ARTISTAS DE TV, FILHOS POLITICOS E PESSOAS INFLUENTES SAO VICIADAS E, DROGAS ESSAS PESSOAS SUSTENTA O TRAFICO DE DROGAS E SAO TRATADAS COMO EXEMPLOS PARA A JUVENTUDE.ESTAMOS SIM A VER NAVIOS O BRASIL EM BREVE VAI VIRAR UMA COLOMBIA E ISSO IRA INTRESSAR MUITO A OUTROS PAISES QUE EM BRVE IRAO MANDAR AQUI ASSIM COMO OS TRAFICANTES TOMARAM CONTA DO RIO DE JANEIRO ( A POLICIA FINGE COMBATER O TRAFICO E OS TRAFICANTES FINGEM TER MEDO DA POLICIA EMQUANTO ISSO O POVO SOFRE) CADE O NOSSO PRESIDENTE. ESTAMOS FERRADOS. FICA AQUIU O MEU DESABAFO COMO CIDADAO BRASILEIRO.
UÉLINTON
escrito por Visitante, 2005-05-30 10:13:02
O BRASIL DEVERIA SE APROFUNDAR NA TECNOLOGIA NUCLEAR, PARA MAIS FUTURAMENTE, SE DEFENDER DE GANANCIOSOS PASES IMPERIALISTAS COMO OS ESTADOS UNIDOS.
͉ INEVITVEL UM FUTURO CONFRONTO COM ESTE POR MOTIVO O QUAL VIMOS A CIMA; A AGUA...
OBS: SERIA OMISSO DE FATOS O PRESIDENTE DIZER QUE O BRASIL NÃO POSSUI ARMA NUCLEAR. SERIA COMO O DONO DE UMA REDE DE CELULARES NO TER O SEU PRÓPRIO...
UÉLINTON
escrito por Visitante, 2005-07-04 12:09:47
NO BRASIL HÁ INDICIOS DE ARMA NUCLEAR... UM DOS FATOS QUE ME INTRIGOU FOI O DO CIENTISTA ALEMÃO QUE VISITOU O BRASIL EM 1998 E, DEPOIS DE SUA VISITA, O BRASIL TRIPLICOU SUA PRODUÇÃO DE URANIO.
LEVANDO EM CONSCIDERAÇÃO QUE ESTE CIENTISTA HAVIA DESENVOLVIDO UMA TECNOLOGIA NUCLEAR DE ULTIMA GERAÇÃO, PODEMOS CHEGAR A VÁRIAS CONCLUSÕES.
O QUE ME DEIXA INDIGNADO, É O FATO DO ESTADOS UNIDOS TER ARMA NUCLEAR E A ONU IMPEDIR OS OUTROS PAÍSES DE TER A SUA. BEM, ISSO JÁ ERA DE SE ESPERAR, POIS O PRESIDENTE DA ONU É UM AMERICANO. "RISOS"

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