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É a nossa auto-estima que melhora, a percepção do direito
de sonhar, de realizar, de ascender.
Neste retorno vou falar sobre um assunto que já foi muito
explorado, mas sob um outro foco, a posse de Luiz Inácio Lula da
Silva.
Mais que Uma Posse
A posse de Lula como presidente teve várias representações.
Representou a ascensão de um partido, a ruptura popular com uma
corrente política, o amadurecimento do eleitorado, das
instituições etc.
Entretanto, acredito que a multidão que esteve em Brasília
estava feliz não somente pela vitória de seu candidato.
Há uma
mensagem por trás da vitória de Lula que transcende sua
trajetória individual. Lula representa a possibilidade.
De um nordestino que vendia laranja quando criança a
presidente da República, temos a história de um autêntico the
self made man*.
Um homem que chegou ao topo sem o ensino formal, sem capital,
de origem humilde, que lutou contra suas próprias limitações.
A felicidade dos milhares que estiveram na festa popular da posse
era também de quem percebe que tudo é possível.
A alegria de constatar que num país tão cheio de
desigualdades, com tão alta concentração de riqueza e poder,
ainda assim há uma chance para um indivíduo do povo, de
ascender social, econômica e culturalmente. Uma chance que
transformou os EUA num país de empreendedores.
Essa possibilidade foi um fator crítico para fazer dos Estados
Unidos o país que é hoje. Ao contrário da Inglaterra do final
do século XVII, a América não tinha uma hierarquia social, nem
reis, nem nobres. Não havia concentração de riqueza porque a
elite não estava formada estruturalmente.
A estrutura social foi fruto do trabalho dos que mais se
destacaram como industriais, agricultores, comerciantes e
políticos.
A riqueza não foi herdada por hereditariedade, nem usurpada
através de guerras. É como se alguém tivesse lhes dito: lá
está a terra, a riqueza, a prosperidade, ou pelo menos um futuro
melhor. Tudo que vocês têm a fazer é serem espertos e
trabalharem duro.
O que a América ofereceu aos colonos não foi um paraíso. Pelo
contrário, eles tinham que enfrentar duras condições, lutando
contra índios, bandidos e a própria natureza.
Mas tudo isso era apenas um detalhe perto da possibilidade
concreta de realização de um sonho de liberdade que seu país
de origem não permitia.
Assim nasceram a América e seus mais admirados líderes.
Líderes que, aos olhos do homem comum, fizeram por merecer. Os
americanos admiram este tipo de indivíduo. Por isso não é de
estranhar a simpatia que Bush e o povo americano têm demonstrado
por Lula.
Para milhões de brasileiros, Lula se tornou mais que um
presidente, mas um simbolismo. Simboliza que qualquer um pode
progredir, desde que lute com todas as forças.
Significa que estamos num país que oferece essa possibilidade
e que foi quebrada a hegemonia política de uma elite míope.
Em tese, o brasileiro não tem mais desculpa
- Não pode dizer que lhe falta educação (que educação
Lula teve?),
- que lhe falta oportunidade (ele criou oportunidades),
- que lhe falta dinheiro (quanto dinheiro um torneiro
mecânico consegue juntar?).
Agora existe um dedo invisível apontado para cada um de nós,
brasileiros, responsabilizando-nos por nossos próprios sucessos
e fracassos.
Houve a quebra daquela incômoda e silenciosa sensação que
somos um país de derrotados. De que não podemos fazer muito,
que nada podemos.
A nossa baixa auto-estima sempre esteve clara nas expressões
populares irônicas e autodepreciativas.
A trajetória e a vitória de Lula em sí foi mais importante
que qualquer medida econômica, porque mexe com a atitude das
pessoas.
Em primeira instância, a esperança tinha vencido o medo - a
sensação geral de que nós podemos muito mais do que fazemos,
independente das condições que se apresentam.
Abordando este aspecto, conclui-se que é a nossa auto-estima
que melhora, a percepção do direito de sonhar, de realizar, de
ascender.
Os países democráticos que se viram diante de grandes
dificuldades só puderam virar a mesa, basicamente, sob duas
condições:
- uma liderança forte e visionária, e
- o apoio e ajuda da população e das instituições
constituídas.
Foi o caso da Inglaterra, por exemplo durante a Segunda
Guerra. Quando Winston Churchill assumiu como primeiro-ministro,
a Inglaterra estava dividida e a população estava apática em
relação à Alemanha e ao conflito.
Só com a mudança de atitude da população e com o apoio do
parlamento que Churchill conseguiu vencer Hitler.
Da mesma forma Franklin Roosevelt só conseguiu implantar as
medidas impopulares e dolorosas para tirar os EUA da depressão
(conhecidas como New Deal) com o apoio incondicional do
congresso.
Espero realmente que Lula venha compreender isso a tempo, e haja
de acordo, assim como Franklin Roosevelt durante a Grande
Depressão de 1929. Ele compreendeu que pior do que a economia,
estava a auto-estima da nação. A sua frase mais famosa dessa
época ilustra bem isso: tudo que temos a temer é nosso
próprio medo.
De Luiz Inácio Lula da Silva: ''Quando olho a minha própria
vida de retirante nordestino, de menino que vendia amendoim e
laranja no cais de Santos, que se tornou torneiro mecânico e
líder sindical, que um dia fundou o Partido dos Trabalhadores e
acreditou no que estava fazendo, que agora assume o posto de
supremo mandatário da nação, vejo e sei, com toda a clareza e
com toda a convicção, que nós podemos muito mais.''
Trecho do discurso de posse de Lula, no Congresso
* the self made man (o homem que se fez sozinho) é como são
chamados os homens que conseguiram sucesso e fortuna a partir
do nada, muitas vezes sem estudo e diante de muitas
dificuldades. A história americana é recheada de homens
deste tipo e são famosos e admirados. Muitos deles se
transformaram em mitos, como Ford e Andrew Carnegie.

Charles Benigno, site: www.charlesbenigno.adm.br,
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unama
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No me importo se reproduzem, pois dizem o autor, mas gostaria que indicassem o endereo do meu site www.charlesbenigno.adm.br, visto que foi de l㧡 que tiraram o texto.
Grato.
Charles Benigno