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A diversidade cultural é uma fonte de
dinamismo social e econômico que pode enriquecer a vida humana
no Século XXI, suscitando a criatividade e fomentando a inovação.
Reconhecemos e respeitamos a importância da diversidade na
expressão lingüística e criadora.
As tecnologias da informação oferecem às pessoas perspectivas
sem precedentes para criar e compartilhar conteúdos culturais e
idéias, em escala mundial e a baixo custo. A experiência
demonstra que a diversidade pode despertar a curiosidade,
engendrar a iniciativa e aportar uma contribuição útil nas
comunidades que buscam melhorar suas economias, em especial
mediante a utilização dos meios extraordinários que a
Sociedade da Informação põe à sua disposição.
(Declaração de Okinawa)
Reunião dos Líderes do G-8, Okinawa, julho de 2000
1. A Globalização e seus Desafios
A característica central do mundo que se desenha neste princípio
de Século XXI é a da globalização das atividades econômicas,
como resultado da ação de cada vez mais numerosas organizações
transacionais operando em mercados nacionais e regionais cada vez
mais abertos e integrados.
Alguns números descrevem aspectos desse fenômeno:(1)
- A cada dia, mais de um trilhão de dólares são
transacionados em conversão de moedas no mundo. Tal
valor representa cinqüenta vezes o volume do comércio
mundial.
- Entre 1980 e 1996, a quantidade de turistas dobrou,
chegando a 590 milhões de viajantes.
- Em 1970, havia 7000 corporações operando
internacionalmente. Atualmente, há mais de 50 mil.
- Em 1900, havia somente 20 organizações governamentais e
180 organizações não-governamentais de atuação
internacionais. Hoje há mais de 300 organizações
governamentais e mais de 5000 ONG de âmbito
internacional.
A globalização não é um fenômeno unidimensional. Ela é
melhor caracterizada como «um processo de progressiva inter-relação
entre diferentes sociedades do mundo como um todo nas três
esferas determinantes da dinâmica social: a econômica, a política
e a cultural».(2)
Dentro dessa perspectiva, e para fugir do reducionismo econômico
a que o termo «globalização» tende a relegar as discussões,
outro termo considerado mais apropriado em vários círculos é o
de «mundialização».
Mundialização ou globalização, o processo de crescente
inter-relação entre sociedades e países segue inexorável e
cada vez mais acelerado. A dimensão política se reflete no
estabelecimento, nos últimos cinqüenta anos, de instituições
como a Organização Mundial do Comércio ¯OMC, União Européia,
Banco Mundial, e na assinatura de tratados internacionais em
temas como meio ambiente, direitos humanos, comércio, direitos
do mar, desarmamento, etc.
O multiculturalismo constitui o pilar ideológico da dimensão
cultural da globalização. A globalização se propõe a
possibilitar a circulação ampla de todo tipo de bens e serviços
entre povos vastamente diferentes entre si quanto a história, língua,
costumes, etc. De alguma forma, a premissa subjacente é de que
cada povo continuará falando na sua língua, mantendo seus
costumes, etc., mesmo enquanto se envolve em trocas e relações
com povos muito diferentes.
A globalização é, assim, vista como «abertura a novas
oportunidades; não somente na economia, como na cultura e na política,
antes de ser um perigo é mais um autêntico repto de participação
social e de cooperação interinstitucional que as sociedades
enfrentarem a partir do fortalecimento de seus recursos morais,
culturais e democráticos».(3)
Concretamente, contudo, há imensos desafios à frente para a
maior parte dos países do mundo, que fazem face a um processo em
que há um papel hegemônico e dominante de uns poucos países.
Há crescente preocupação com o fato de que, com a possível
exceção de alguns poucos países, onde os ganhos (econômicos,
ao menos) parecem claros, o processo de globalização que
vivemos tem beneficiado mais os países desenvolvidos, em
detrimento dos restantes, no mundo em desenvolvimento.
Para além dos eventuais resultados econômicos, o problema
mais grave reside na dificuldade que os países em
desenvolvimento encontram em definir e implementar políticas próprias,
que não oscilem a cada instante em função dos humores do
mercado financeiro internacional e de outros interesses externos.
A Cultura como mercadoria
A produção cultural de escala, a par da enorme diversidade que
se encontra no mundo, é em termos industriais concentrada em
alguns poucos países. Vale lembrar que o primeiro item da pauta
de exportações dos EUA atualmente não é de manufaturados, mas
de cultura e entretenimento.
Mais e mais, a cultura é mirada como um item adicional a
tratar nas discussões sobre comércio internacional. Por
exemplo, a OMC deverá proximamente preparar debates sobre a
comercialização de serviços relacionados com educação (a
partir de propostas da Austrália, Estados Unidos, Nova Zelândia
e Japão), cujos resultados poderão afetar a capacidade de um país
de regular seu sistema educacional.
A educação é um grande negócio. Segundo a OCDE, os EUA
movimentam US$ 30 bilhões ao ano com cerca de 1,5 milhões de
estudantes estrangeiros, enquanto exportam da ordem de US$ 7,5
bilhões ao ano em serviços relacionados com educação. Na
Austrália, serviços de educação constituem o terceiro item de
sua pauta de exportação (de serviços), gerando cerca de US$
2,5 bilhões em 2001.
A disseminação de infra-estrutura para ensino a distância
no mundo (via Internet, vídeo-conferência, etc.) propicia a
esses países uma tremenda plataforma para ministrar serviços
educacionais à distância.
O problema surge quando tais esquemas conflitam e/ou contornam
as diretrizes e leis sobre educação de um país que é
potencial cliente desses serviços. É portando real o perigo de
tendências de mercado destruírem aspectos endógenos e
basilares de culturas locais, em favor de culturas dominantes.
O potencial de Tecnologias
Grande parte do impulso globalizante dos últimos cinqüenta anos
se deve ao tremendo impulso proporcionado por tecnologias em áreas
como transportes e comunicações. A área de comunicações, em
particular, tem sido objeto de contínuas e significativas inovações,
evoluindo de serviços estanques em 1950 (em telefonia, rádio,
televisão) para serviços integrados sobre uma infra-estrutura
digital única (via satélite, fibra e rádio) em 2000, e
epitomizados pela recente emergência da Internet e suas aplicações.
No período de dez anos, a Internet se tornou tão importante
que se considera que sua tecnologia é hoje decisiva para que países
em desenvolvimento consigam dar «saltos quânticos» e resolver
desafios renitentes como os de saúde pública, educação de
massa, etc. A ameaça implícita é, por outro lado, a de que a
falha em incorporar adequadamente a Internet e tecnologias
associadas a seu esforço de desenvolvimento pode relegar um país
ao atraso definitivo.
Essa foi a motivação básica para a criação de iniciativas
como a da Força-tarefa das Nações Unidas sobre Tecnologias da
Informação e Comunicação (UN ICT Task Force). Da mesma força,
é a motivação básica que propiciou o lançamento da Cúpula
Mundial sobre a Sociedade da Informação (World Summit on the
Information Society, WSIS), que terá lugar em Genebra (dezembro
de 2003) e Tunis (dezembro de 2005).
Desenvolvimento Sustentável
Finalmente, o mundo vive, hoje, o desafio de conceber e colocar
em prática políticas e modelos de desenvolvimento sustentável,
em que os padrões de consumo e de produção das gerações
presentes não comprometam a vida das gerações futuras. Aqui,
uma revisão drástica da relação com o meio ambiente é de
primária importância, através da busca de outras fontes de
energia, da contenção da poluição, etc.
As Nações Unidas estabeleceram, em 2002, uma série de
objetivos de desenvolvimento no mundo sobre alguns aspectos básicos
em educação, saúde, água potável, etc., que persistem como
renitentes desafios na agenda política das nações: são os
chamados Millenium Development Goals ¯MDGs, que incluem metas a
atingir em 2015 tais como:(4)
- Reduzir à metade a pobreza e a fome extremas.
- Reverter a propagação de doenças, especialmente
HIV/AIDS e malária.
- Reduzir a mortalidade infantil (abaixo de 5 anos de
idade) em dois terços.
- Atingir educação primária universal.
Em paralelo, Conferências mundiais sobre temas como Pobreza
(Monterrey, 2002) e Água (correntemente em Kioto), assim como o
processo da OMC, buscam gerar um modelo de governança mundial
que seja mais eqüitativo e sustentável.
Não é preciso enfatizar o papel que se confia a tecnologias
em geral, e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) em
particular (incluindo no termo não somente a Internet, mas
Televisão, Rádio, Telefone, etc.) para se perseguir as metas do
MDG de maneira efetiva:(5) por exemplo, é
improvável que se logre promover a educação maciça da população
de países como a Índia, Brasil, etc., sem contar com o uso
intensivo de tecnologias de suporte a aprendizado a distância.
Por outro lado, do ponto de vista de atividades econômicas
sustentáveis, a grande possibilidade que TIC abrem é a de uma
indústria baseada em bens intangíveis, como materiais
educacionais, entretenimento, etc., e de serviços via redes. Sob
essa ótica, obviamente, a cultura é um bem «empacotável» e
com imenso apelo comercial.
2. Diversidade Cultural
Diversidade na Terra
A diversidade é a característica básica das formas de vida e
das manifestações de cultura na Terra. Como ilustra
interessante documento da BT,(6) há um
paralelo entre os níveis de diversidade biológica e cultural,
adaptado no Quadro 1 abaixo:
Diversidade Biológica
- Genética
- Variações e similaridades genéticas entre
grupos de pessoas
- Espécies
- Línguas
- Ecossistema
- Cultura
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Diversidade Cultural
- Genética
- Variação de genes dentro de uma espécie
- Diferentes espécies e sua presença em regiões
- Diferentes linguagens e sua distribuição em
regiões
- Uma região com características bem definidas
(ex.: florestas tropicais)
- Complexo de indivíduos e comportamentos dentro
de um contexto histórico comum
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Quadro 1: Diversidade Biológica
vs. Diversidade Cultural (de 6)
À guisa de ilustração: quanto à diversidade
de espécies, cerca de 1,7 milhões já foram identificadas até
hoje, e estimativas do número total de espécies em existência
variam de 5 milhões até perto de 100 milhões; por outro lado,
há algo como 6500 linguagens faladas hoje no mundo, e 95 por
cento da população mundial se concentra na fala de menos de 300
dessas linguagens.
É interessante notar que há significativa correlação entre
diversidade biológica e diversidade cultural, quando se as
mapeia por áreas geográficas. Algumas áreas bem delimitadas,
tais como ilhas, por exemplo, reúnem grande diversidade, tanto
biológica como cultural. O Quadro 2 abaixo, adaptado de Harmon,(7) enumera os países com a maior incidência de
plantas ou línguas autóctones e não existentes em nenhum outro
país.
Línguas Nativas
Papua Nova Guiné (847)
Indonésia (655)
Nigéria (376)
Índia (309)
Austrália (261)
Austrália (261)
Camarões (201)
Brasil (185)
Zaire (158)
Filipinas (153)
EUA (143)
Vanuatu (105)
Tanzânia (101)
Sudão (97)
Malásia (92)
Etiópia (90)
China (77)
Peru (75)
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Flores Nativas
Brasil (55,000)
Colômbia (35,000)
China (30,000)
México (20,000 - 30,000)
Venezuela (15,000 - 25,000)
Antiga União Soviética (22,000)
Indonésia (20,000)
Equador (16,500 - 20,000)
EUA (18,956)
Bolívia (15,000 - 18,000)
Austrália (15,000)
Índia (15,000)
Peru (13,000)
Malásia (12,000)
Tailândia (12,000)
Costa Rica (10,000 - 12,000)
Zaire (11,000)
Papua Nova Guiné (10,000)
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Quadro 2: Inter-relação entre
Diversidades (de 7)
A diversidade biológica e a diversidade cultural
estão sob ameaça cada vez maior. Por exemplo, estima-se que
cerca de metade das línguas conhecidas corre perigo, sendo
utilizada por pequeno número de falantes nativos, não por acaso
de minorias em acelerado processo de desintegração cultural.
Uma língua deixa de existir a cada duas semanas.
Algo como 90 por cento das línguas existentes terão
desaparecido ao longo do Século xxi, sem qualquer registro ou
documentação.
Pouco se compreende realmente sobre a inter-relação entre
culturas e ecossistemas físicos em que aquelas se desenvolvem.
Mas é evidente que é uma relação superiormente sutil nos
mecanismos, minuciosa nos detalhes, e estendida no tempo.
No estágio de compreensão que se tem hoje, uma
estratégia óbvia de cautela e humildade parece saltar à vista:
não é possível preservar culturas específicas sem se
preocupar com a preservação do ecossistema em que elas se
originaram e desenvolveram.
Línguas e Diversidade Cultural
A língua é o suporte e a expressão básica de uma cultura. Há
algo como 6500 línguas no mundo e há menos de 200 países,
dando, portanto, uma média de mais de 30 línguas por país. É
evidente que não há, com toda probabilidade, países monolíngues.
E, se uma língua expressa uma variedade cultural específica, é
também evidente que não há países monoculturais.
E, no entanto, a maior parte dos países é
identificada por uma língua ou um conjunto restrito de línguas,
o que sugere que a diversidade lingüístico/cultural é,
infelizmente, fator de estratificação ou de exclusão.
Conforme Calvet,(8) «em
todas as partes há línguas não reconhecidas e,
portanto, falantes rechaçados de fato ou, ao menos, cuja língua
não lhes permite participar da vida do Estado».
Há estrutura na diversidade lingüística? Calvet afirma
aptamente que sim, tomando como base as relações que o bilingüismo
sugere para quaisquer pares de línguas faladas em um contexto
cultural específico: por exemplo, considerando que um bilíngüe
em tupi e português tem como toda probabilidade o tupi como
primeira língua e o português como segunda língua.
Com base na identificação e orientação entre
esses pares de línguas, Calvet sugere mirar o conjunto de línguas
do mundo «como uma espécie de galáxia formada por diferentes
estratos gravitacionais». No centro da galáxia, está a língua
hipercentral por excelência do mundo atual, o inglês.
Ao redor, cerca de uma dezena de línguas
supercentrais (i.é, espanhol, francês, português, etc.), «cujos
falantes, quando são bilíngües, têm tendência a utilizar bem
a língua hipercentral ¯o Inglês¯, ou mesmo uma outra língua
do mesmo nível, um língua supercentral». As línguas
supercentrais serão, por sua vez, eixos para algo como uma
centena de línguas centrais. Estas, por sua vez, serão o centro
gravitacional para algo como 6.000 línguas periféricas.
Tomando este imaginativo modelo como base, fica claro o desafio
de preservação da diversidade lingüística no mundo
globalizado. Há uma força gravitacional que reforça o
(hiper/super)centro, enquanto as línguas periféricas tendem a
se esvaziar por falta de falantes ou por falta de atrativo
concreto (econômico, político, cultural) para que essas
subsistam.
O modelo também sugere como, a par da afinidade
horizontal entre grandes conjuntos lingüísticos (como entre o
Português, Espanhol e o Francês), há que atentar para as relações
verticais entre línguas em diferentes órbitas da galáxia e as
culturas enlaçadas por elas: as línguas ameríndias para a
hispanidade/lusofonia, as línguas africanas para a francofonia,
etc.
Como enfatiza Calvet, «em outras palavras, se
bem a defesa da diversidade pode permitir aos grandes conjuntos
lingüísticos preservar sua identidade no concerto das línguas
do mundo, em especial frente ao Inglês, isto não nos deve fazer
olvidar que dentro desses grandes conjuntos existem outras
identidades, outra diversidade, outros plurilingüismos».(9)
Tecnologias
A produção de tecnologia e seu aproveitamento para fins
econômicos e sociais é também uma manifestação cultural
e, como tal, baseada em paradigmas que se refletem em maior
ou menor grau em determinadas culturas.
Já se afirmou no início deste trabalho que a Internet é o
produto mais recente de uma longa seqüência de avanços em
TIC. Aqui, vale a pena examinar TIC e a Internet como expressão
acabada de um modo de produção tipicamente americano, de
difícil assimilação inicial por parte de outras culturas.
Tal modo de produção inclui os seguintes aspectos:
* Cooperação pré-competitiva: Originado
do paradigma clássico de atividades de pesquisa acadêmica,
o desenvolvimento em TIC e da Internet, em especial, envolve
forte cooperação entre potenciais competidores. O modelo de
software aberto principia com esse impulso à cooperação,
posteriormente acrescido de preocupações sociais e baseado
em voluntarismo pro bono somente permissível, em escala, em
sociedades pós-escassez.
* Experimentalismo: Conforme
o motto conhecido das reuniões de engenharia da Internet
(rough agreement, running code), há impulso generalizado à
produção de protótipos e produtos concretos, mesmo que de
qualidade variável, no período mais abreviado possível. Se
tal modelo do first mover podia, na indústria tradicional,
ser combatido com considerável sucesso por modelos de produção
enfatizando acabamento e qualidade (como o japonês), na área
de TIC a situação se tem mostrado totalmente diferente. A
liderança mundial dos EUA em Internet, redes de alta
velocidade, animação gráfica, etc., é absolutamente
incontestável. Com TIC, o paradigma de development to go,
creative destruction, etc., se revela formidável.
* Escala: A escala de atuação
e aplicação incorporada é não raro superior em várias
ordens de magnitude à escala concebida em outras culturas e
países para atividades tecnológicas e de qualquer outro
tipo. Filmes de orçamento médio em Hollywood são impagáveis
em qualquer outro centro de produção. O modelo CNN é de
atuação global e também local. E a Internet, como concepção
original e concretização final, é global.
Como conseqüência, a hegemonia da cultura americana e de
seus derivados na Internet é incontestável. A língua
inglesa é dominante na Internet. As ferramentas mais críticas
são voltadas primariamente para a língua inglesa. Os
principais serviços e web sites disponíveis na Internet têm
grande predominância de origem nos EUA.
3. O Direito à Comunicação
A diversidade cultural e o direito à comunicação
O ato da comunicação está no cerne da globalização e da
sustentação da diversidade cultural. É na comunicação que o
indivíduo expressa sua identidade, opiniões e intenções, e as
confronta com outros indivíduos oriundos de contextos culturais
distintos.
Como bem expressa Hoyos,(10)
«no ato comunicativo se entretecem a diversidade de
perspectivas, origem do multiculturalismo, e a perspectiva de
cada qual, fundamento vivencial de identidade pessoal, para (...)
chegar ao acordo fundador da ciência e da sociedade, a saber:
que dando razões e motivos se estabelecem consensos e dissensos».
A livre-expressão é consagrada na Carta de Direitos Humanos das
Nações Unidas e na Carta Magna de inúmeros países, o exemplo
mais conhecido possivelmente sendo a da Primeira Emenda à
Constituição dos Estados Unidos.
Essa emenda expressamente proíbe o Congresso
americano de elaborar quaisquer leis que restrinjam ou eliminem o
direito à livre escolha de religião, a liberdade de expressão,
a liberdade de imprensa, o direito de se reunir pacificamente, ou
o direito de apelar ao governo para reparar injustiças em cortes
inferiores ou outros setores do governo.
A Primeira Emenda é certamente a mais conhecida da Carta de
Direitos dos EUA, e constitui o cerne da ação de centenas de
organizações da sociedade, muitas das quais criadas
especificamente para tratar dos desdobramentos do tema de livre
expressão na Internet e nos meios de comunicação de massa.(11)
A regulamentação da livre-expressão no mundo não é, por
outro lado, matéria de consenso. Recente evento(12)
permitiu identificar as seguintes grandes correntes de
opinião:
i.A livre-expressão é um direito transcendente, que não pode
ser restringido em nenhuma hipótese por dispositivos de censura
prévia. Em tal posição, a responsabilização por atos de
expressão deve ocorrer a posteriori.
ii. Outra posição coloca limites no direito de livre-expressão,
quando esta pode atentar contra outros valores fundamentais, como
a dignidade humana, a privacidade, a segurança, etc.
A primeira posição (i) é a que mais claramente se expressa na
Primeira Emenda dos EUA. Contudo, mesmo nos EUA, ao contrário do
que geralmente se supõe, o Congresso, por diversas vezes,
aprovou leis «no interesse público» que restringiram o direito
de livre-expressão (pessoal e da imprensa), especialmente em
situações de (iminente) conflito externo amplo (já em 1798,
com o Alien and Sediction Acts, e em 1940, como o Smith Act). Ao
longo do tempo, no processo de velar pela constitucionalidade de
tais leis, a Suprema Corte tem tendido a adotar uma postura eqüidistante,
balanceando os direitos individuais com os interesses da
sociedade.
A posição (ii) é explicitamente adotada em boa parte dos países,
condicionando o direito à livre-expressão a outras leis e
interesses da sociedade e do Estado.
Concretamente, quando a posição (i) é assumida, disposições
são concebidas para permitir que, se na origem a expressão é
livre, na outra ponta, o receptor (potencial) da comunicação
possa filtrar e eliminar conteúdos indesejados.
O esquema de classificação de conteúdos de TV
é um exemplo desse tipo de iniciativa. O esquema de filtros de
software na Internet tenta desempenhar o mesmo papel.
A relação entre a Internet e a televisão, aliás,
suscita uma observação importante. Em muitos países, há
iniciativas concretas no sentido de se criar legislação específica
para aspectos de uso da Internet.
Em algumas áreas, como em Comércio Eletrônico,
a ausência de precedentes justifica a criação de novas disposições
legais, subordinadas à legislação comercial mais ampla. No que
tange a temas como conteúdos, expressão, privacidade, etc., a
existência prévia (e toda a discussão envolvida) de leis
associadas a meios tradicionais de comunicação de massa tende a
cobrir naturalmente as manifestações no chamado ciber-espaço.
Essa convergência, além do mais, é endossada
pela cada vez mais inexorável integração entre a Internet e a
televisão, que tende a eliminar distinções clássicas como
difusão (broadcasting) e comunicação pessoa-a-pessoa.
O papel de tecnologias
Para exercer o direito a livre-expressão, em princípio o único
requisito é dominar a língua que os (potenciais) destinatários
da comunicação compreendem.
Aqui, um primeiro tipo de barreira pode se colocar a quem não
seja capaz de se expressar adequadamente tal língua: a língua
dominante no país, a língua do Estado, a língua dominante no
cenário internacional, etc. Claramente, países devem assegurar
oportunidades de treinamento para seus cidadãos vencerem este
tipo de barreira.
A comunicação, por outro lado, via de regra fará uso de alguns
instrumentos de apoio: um caixote no Hyde Park, uma folha de
papel e um lápis, um dispositivo de comunicação à distância
como o telefone.
A mensuração do acesso da população mundial
ao telefone, aliás, cunhou o termo divisão digital, em 1985,
quando um relatório da UIT sublinhou que mais de metade das
pessoas no mundo jamais havia feito uma chamada telefônica.
Desde então, a evolução das tecnologias e da
Internet trouxeram para o topo da agenda política mundial, o
desafio de oportunidades digitais, conforme é ilustrado na
figura abaixo, extraída re relatório da DOT Force do G-8.(13)
Uma forma de aproveitar as oportunidades que as novas tecnologias
oferecem é exemplificado pela iniciativa do Grameen Bank, em
Bangladesh, que permitiu a mulheres explorar o aluguel de
telefones celulares em comunidades carentes naquele país.

Fig. 1: Inclusão Digital e
Respostas ao Desafio (de 12)
É, contudo, na forma da Internet que as novas
tecnologias oferecem as melhores oportunidades para a comunicação
irrestrita, pessoa-a-pessoa, pessoa-a-grupo, ou «a quem possa
interessar» (via Web Sites).
O baixo custo relativo (comparado a esquemas
tradicionais) para se montar uma estação de rádio, uma gráfica,
uma publicação eletrônica, etc., favorece enormemente a
democratização dos meios de comunicação, permitindo ao homem
comum tornar-se fonte e não somente receptor de mensagens.
Para explorar tais pontencialidades, contudo, o
interessado terá de se familiarizar com o uso de computadores e
outros dispositivos que, mesmo se tornando cada vez mais fáceis
de utilizar, representam um salto de complexidade considerável
com relação a, por exemplo, telefones celulares.
Em outras palavras, o direito à comunicação no
mundo moderno demanda um nível mínimo de capacitação das
pessoas no uso de meios tecnológicos de (ainda) razoável
complexidade de operação, como computadores. Em muitos círculos,
tal necessidade é denominada de alfabetização digital,
e o desafio básico é:
Como alfabetizar digitalmente pessoas que não
raro têm dificuldades com a leitura ou escrita normais? A
resposta não é simples, e demanda a execuação de pelo menos
duas ações. De um lado, os fabricantes de equipamentos e
software e os provedores de serviços baseados em Internet terão
de fazer um esforço concentrado e decisivo no sentido de
implementar interfaces mais simples de operar, incluindo:
* esquemas padronizados de navegação e
busca de informações;
* ativação/resposta baseada em voz (tanto quanto palavras e
ícones);
* tradutores automáticos entre as línguas mais usadas;
* etc.
Do outro lado, o paradigma mais usual de capacitação
atual, que é como regra baseado na mera prática de habilidades
no uso de ferramentas, terá de dar lugar a esquemas que
enfatizem a absorção de processos cognitivos por parte das
pessoas.
Por exemplo, a estruturação de interfaces na
forma de hierarquias de menus interativos é um achado precioso,
mas só funciona realmente se a pessoa compreende o modelo
abstrato de interação em que ele é baseado.
4. Cooperação Rumo à Sociedade da Informação
O processo da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação
(WSIS)(14) oferece um mais do que oportuno
marco para articular iniciativas cooperativas entre os três espaços
lingüísticos e os países envolvidos.
Iniciativas a discutir podem incluir:
1.A promoção de um instrumento internacional de proteção a
diversidade cultural, permitindo a governos promover políticas
culturais próprias, mas integradas à regulamentação de comércio
internacional.
Um avanço interessante nessa direção é certamente a Declaração
Universal sobre a Diversidade Cultural,(15)
gerada na Conferência Geral da UNESCO em novembro de 2002. A
Declaração propõe princípios sobre Pluralismo, Direitos
Humanos, Criatividade e Solidariedade Internacional, a partir do
prisma comum de proteção à Diversidade Cultural, e inclui um
Plano de Ação em vinte pontos.
Conforme o texto introdutório, ela «pode
tornar-se uma formidável ferramenta de desenvolvimento, capaz de
humanizar a Globalização. Evidentemente, nela não se
prescrevem ações concretas, e sim orientações gerais que os
Estados Membros, em colaboração com o setor privado e a
sociedade civil, devem traduzir em políticas inovadoras em seu
contexto específico».
A Declaração e seu Plano de Ação, contudo, não bastam. No
lado da OMC, por exemplo, a inclusão de serviços de educação
como itens de negociação, sem maiores considerações quanto a
especificidades culturais associadas, mostra que a «vida real»
pode caminhar mais rápido e gerar resultados questionáveis
irreversíveis.
2.O registro digital de línguas em ameaça de extinção nos países
dos três espaços lingüísticos.
É paradoxal que, apesar do imenso barateamento e ampla
disponibilização de meios audiovisuais, não haja iniciativas
generalizadas de países no sentido de registrar aspectos de
culturas autóctones que se vão desvanecendo, sob protestos de
pesar dos mesmos países.
Alguns organismos internacionais atuam no sentido
de promover a preservação de patrimônios históricos e
culturais da humanidade. Mas cada país pode, com poucos
recursos, principiar a registrar as pequenas manifestações
culturais, a começar pelas línguas, que vão desaparecendo sem
rastros. À guisa de exemplo, uma iniciativa interessante é a de
ONG no norte do Canadá que, com apoio do Governo, se dedicam a
registrar depoimentos de anciãos em pequenas comunidades Inuit,
para disseminação via web.
3.O desenvolvimento de técnicas e ferramentas para o
processamento de línguas (incluindo a tradução entre elas e o
Inglês) dos três espaços lingüísticos.
Se há uma tecnologia que, embora bastante envolvida e exercitada
em laboratórios de P&D no mundo, ainda não chegou realmente
ao mercado, é a de tradução automática ou semi-automática
entre línguas.
Há, contudo, considerável acervo de resultados e projetos(16) a respeito, que permitem prever que produtos
de boa qualidade surgirão no mercado nos próximos anos,
tratando das principais línguas do mundo.
Por outro lado, a probabilidade de que, em um
prazo previsível, línguas como o guarani e swahili sejam incluídas
nesses produtos e incorporadas à Internet é praticamente nula.
E, no entanto, especialmente nos modelos de tradução que
utilizam uma interlíngua (i.é, uma «língua» intermediária
para a qual e a partir da qual a tradução entre quaisquer duas
línguas será feita), a implementação de tradutores é uma
tarefa essencialmente horizontal e cooperativa entre grupos com
responsabilidades de desenvolvimento para as línguas envolvidas.
A União Européia, no âmbito de Programas de
P&D como o IST, tem financiado várias iniciativas envolvendo
lingüística computacional.
Outras organizações, como a União Latina, têm
promovido e sustentado iniciativas de base como a elaboração de
Glossários Terminológicos, a avaliação da situação de Línguas
na Internet,(17) etc.
Falta um grande projeto de tradução entre línguas
que poderia abarcar, horizontalmente, os três espaços lingüísticos
e, verticalmente, algumas línguas autóctones da América Latina
e da África.
Tal iniciativa, para além do possível e provável
resultado tecnológico, teria, no mundo, atual um imenso
significado político.
5. Conclusão
Há uma crescente degradação da diversidade cultural no mundo
que caminha junto com a degradação ambiental, como irônico
tributo à indissociável inter-relação entre ambas
diversidades, biológica e cultural.
Em um mundo globalizado em que todas as atividades se integram
cada vez mais, a hegemonia de uma cultura que tenda a «pasteurizar»
as outras, em função de seu poderio econômico e tecnológico,
é vista como uma ameaça real.
O direito à comunicação, embora consagrado na constituição
de muitos países, carece, na prática, de pleno usufruto por
minorias culturais, sociais e lingüísticas.
A Internet e outras possibilidades propiciadas pela revolução
em curso nas tecnologias da informação e comunicação
dramatizam o desafio da diversidade cultural e da comunicação
livre. Por outro lado, essas mesmas tecnologias estão no cerne
das políticas de apoio à diversidade cultural e à ampla
comunicação que é cada vez mais urgente conceber.
Autor
Tadao Takahashi, é Brasileiro, Presidente do Programa
Sociedade da Informação do Brasil. Foi o fundador e primeiro
Diretor Geral (1989-1996) da Academia Brasileira de Internet, a
qual se converteu no principal e exclusivo serviço de Internet
do país. Membro da UN ICT Task Force tem participado em
diferentes reuniões e atividades internacionais na ICT para o
Desenvolvimento (G-8 DOT Force, UNESCO Informação para Todos,
MARKLE/UNDP GDOI, etc). Desempenhou postos no Ensino e Investigação
na Universidade de Campinas (1973-1985), Ciências da Imagem e
Engenharia Experimental e Faculdade das Ciências no Instituto da
Tecnologia de Tóquio (1975-1979), Logabax/CII Departamento de
Desenvolvimento em Paris, e SID Informática em São Paulo
(1979-1981), Centro de Investigação e Desenvolvimento de
Telebras em São Paulo (1980-1982).
(1) : British Telecom - Variety and Values A sustainable response
to globalisation? London, Jan. 2002
(2) : Hoyos Vasquez, G - Comunicación intercultural para
democratizar la democracia, in Tres Espacios Linguísticos ante
los desafios de la mundializacion Actas del Coloquio
Internacional Paris, Mar. 2001
(3) : Idem a 2
(4) UN: Implementing the Millenium Declaration United Nations,
NY, Oct. 2002
(5) : Wild, K.: Measuring and Enhancing the Impact of ICTs on the
Millenium Development Goals UN ICT Task Force, Feb. 2003
(6) : Idem a 1
(7) : Harmon, D. - Losing species, losing languages: connections
between biological and linguistic diversity, Southwest Journal of
Linguistics Vol 15, 1996
(8) : Calvet, L-J - Identidades y plurilinguismo in Tres Espacios
Linguísticos ante los Desafios de la mundializacion. Actas del
Coloquio Internacional.Paris, Mar. 2001
(9) Idem a 8.
(10) : Idem a 1
(11) : Ver diretório de instituições, por exemplo, em www.ala.org/alaorg, e relatórios
como o State of the First Amendment www.firstamendmentcenter.org
(12) : Internet Rights Forum - Report on International Discussion
Forum on Freedom of Expression in the Info. Society. Paris, Nov.
2002
(13) : DOT Force - Developing a Development Dynamic G-8 DOT Force
Final Report. June 2001
(14) : WSIS - Presidents Committee Non-paper to PrepCom-2,
WSIS. Geneva, Dez. 2002
(15) : UNESCO - Texto
completo e plano de ação da Declaração Universal sobre a
Diversidade Cultural (em download)
(16) : UNL - Universal Network Language www.undl.org
(17) : Pimienta, D. - El Quinto Estudio de las Lenguas y la
Internet El Lugar de las Lenguas Latinas, FUNREDES/Union Latina
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