O Modernismo como conceito teve início no meio da década de 1910, depois de Oswald de Andrade ter conhecido o Professor Mário de Andrade, e mais tarde com o retorno da Europa por Anita Malfatti e suas exposições de pintura em 1917, bem como o surgimento do escultor Victor Brecheret, que seriam futuramente as bases das artes plásticas da Semana de 1922.
O fim do movimento se deu por volta da década de 40, principalmente com o falecimento de Mário de Andrade, em 1945.
E como todo movimento de longa duração, também foi de grande complexidade e ousadia. Esses intelectuais romperam com toda uma forma de fazer arte, totalmente voltada à Europa, seu povo e seu modo de vida.
O Modernismo procurou substituir o conceito de raça pelo de cultura, partindo de novos paradigmas, analisando a arte brasileira como algo efetivamente nacional. Isso se deu com um modo de pensar totalmente novo, incorporando o passado e as tradições brasileiras, mas não como formas inertes e sim utilizando esses elementos como novas ferramentas para criação.
Essa perspectiva foi uma afronta para os intelectuais mais ortodoxos, pois ia contra a toda uma forma única de pensar e produzir arte. Os modernistas traziam algo impensado até aquele momento: a busca pela valorização do povo brasileiro.
Esta seria baseada no aproveitamento também da cultura popular e não apenas utilizar elementos da cultura erudita, centrando no país e suas necessidades, com anseios e projetos próprios e com apelo ao povo, desvinculando-se das outras nações.
Esse desejo se manifestou nas obras feitas naquele período, como retratos do mestiço, da favela, do progresso, colocando pela primeira vez a arte com uma função pública e política perante a sociedade.
Esse conceito colocado por Madeira e Veloso (1999) seria o passado, a tradição, o primitivo como fontes de um lirismo original, matéria-prima para a paródia e para a crítica, incorporando as contradições entre a natureza e a cidade, a realidade urbana com seus elementos mais radicalmente modernos.
E tudo isso se constituiria na “devoração antropofágica” de todos esses elementos para se criar uma nova perspectiva para a nossa cultura, deglutindo tudo a seu redor e trazendo algo mais reflexivo e próximo ao Brasil.
Ao analisar a cultura brasileira por este novo parâmetro, valorizando o nosso povo, bem como tudo produzido aqui, os modernistas causaram um impacto muito grande nas pessoas.
O objetivo foi aproximar a grande massa representada naquele movimento artístico. Só que isso acabou não ocorrendo, justamente pela população não ter identificado aquilo que diziam representar a eles mesmos, até por não possuir conhecimento daquilo, por ser uma classe iletrada, portanto, sem maior informação sobre o que seria aquele movimento único na arte brasileira.
Outro fator foi o alto custo para se ter acesso a essas obras. Exemplo disso foi o alto preço das noites na Semana de Arte Moderna. Ainda que o Teatro Municipal ficasse aberto durante o dia na semana de fevereiro de 1922, os operários estavam trabalhando, portanto, não tinham condições de acompanhar as exposições, palestras, etc.
Porém, se com o povo o movimento não obteve êxito, não se pode dizer o mesmo em relação ao acervo cultural e a sua importância no desenvolvimento artístico brasileiro, tendo como enorme influência o Modernismo Antropofágico de Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Raul Bopp, entre outros já citados.
Podemos exemplificar esta influência para a nossa cultura com a Bossa Nova, a Tropicália de Caetano, Gil e a arte daquele período por Oiticica Filho. Lembremos também o modernista Gláuber Rocha com seu Cinema Novo, e posteriormente o movimento musical pernambucano denominado Manguebit.
Todos esses períodos representaram plenamente o movimento cultural mais importante de toda a história artística brasileira, afinal o Modernismo nos trouxe uma forma nossa de criarmos a arte brasileira.
Obra citada: VELOSO, M. MADEIRA, A. Leituras Brasileiras: Itinerários no Pensamento Social e na Literatura. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
Modernismo, globalmente consolidado, o movimento fez sua transição para o século XXI
Tendência vanguardista que rompeu com padrões rígidos e caminhou para uma criação mais livre, surgida internacionalmente nas artes plásticas e na literatura a partir do final do século XIX e início do século XX. Foi uma reação às escolas artísticas do passado.
Como resultado desenvolveu-se novos movimentos, entre eles o expressionismo, o cubismo, o dadá, o surrealismo e o futurismo.
No Brasil, o termo identifica o movimento desencadeado pela Semana de Arte Moderna de 1922. Em 13, 15 e 17 de fevereiro daquele ano, conferências, recitais de música, declamações de poesia e exposição de quadros, realizados no Teatro Municipal de São Paulo, apresentam ao público as novas tendências das artes do país. Seus idealizadores rejeitam a arte do século XIX e as influências estrangeiras do passado.
Defendem a assimilação das tendências estéticas internacionais para mesclá-las com a cultura nacional, originando uma arte vinculada à realidade brasileira.
A partir da Semana de 22 surgem vários grupos e movimentos, radicalizando ou opondo-se a seus princípios básicos. O escritor Oswald de Andrade e a artista plástica Tarsila do Amaral lançam em 1925 o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, que enfatiza a necessidade de criar uma arte baseada nas características do povo brasileiro, com absorção crítica da modernidade européia.
Em 1928 levam ao extremo essas idéias com o Manifesto Antropofágico, que propõe "devorar" influências estrangeiras para impor o caráter brasileiro à arte e à literatura. Por outro caminho, mais conservador, segue o grupo da Anta, liderado pelo escritor Menotti del Picchia (1892-1988) e pelo poeta Cassiano Ricardo (1895-1974).
Em um movimento chamado de verde-amarelismo, fecham-se às vanguardas européias e aderem a idéias políticas que prenunciam o integralismo, versão brasileira do fascismo.
O principal veículo das idéias modernistas é a revista Klaxon, lançada em maio de 1922.
Artes plásticas – Uma das primeiras exposições de arte moderna no Brasil é realizada em 1913 pelo pintor de origem lituana Lasar Segall. Suas telas chocam, mas as reações são amenizadas pelo fato de o artista ser estrangeiro.
Em 1917, Anita Malfatti realiza a que é considerada de fato a primeira mostra de arte moderna brasileira.
Apresenta telas influenciadas pelo cubismo, expressionismo, fauvismo e futurismo que causam escândalo, entre elas A Mulher de Cabelos Verdes.
Apesar de não ter exposto na Semana de 22, Tarsila do Amaral torna-se fundamental para o movimento. Sua pintura é baseada em cores puras e formas definidas. Frutas e plantas tropicais são estilizadas geometricamente, numa certa relação com o cubismo. Um exemplo é Mamoeiro.
A partir dos anos 30, Tarsila interessa-se também pelo proletariado e pelas questões sociais, que pinta com cores mais escuras e tristes, como em Os Operários.
Di Cavalcanti retrata a população brasileira, sobretudo as classes sociais menos favorecidas. Mescla influências realistas, cubistas e futuristas, como em Cinco Moças de Guaratinguetá.
Outro artista modernista dedicado a representar o homem do povo é Candido Portinari, que recebe influência do expressionismo. Entre os muitos exemplos estão as telas Café e Os Retirantes.
Distantes da preocupação com a realidade brasileira, mas muito identificados com a arte moderna e inspirados pelo dadá, estão os pintores Ismael Nery e Flávio de Carvalho (1899-1973).
Na pintura merecem destaque ainda Regina Graz (1897-1973), John Graz (1891-1980), Cícero Dias (1908-) e Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).
O principal escultor modernista é Vitor Brecheret. Suas obras são geometrizadas, têm formas sintéticas e poucos detalhes. Seu trabalho mais conhecido é o Monumento às Bandeiras, no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
Outros dois escultores importantes são Celso Antônio de Menezes (1896-) e Bruno Giorgi (1905-1993).
Na gravura, o modernismo brasileiro possui dois expoentes. Um deles é Osvaldo Goeldi (1895-1961). Identificado com o expressionismo, cria obras em que retrata a alienação e a solidão do homem moderno. Lívio Abramo (1903-1992) desenvolve também um trabalho com carga expressionista, porém engajado socialmente.
A partir do final dos anos 20 e início da década de 30 começam a se aproximar do modernismo artistas mais preocupados com o aspecto plástico da pintura. Utilizam cores menos gritantes e composição mais equilibrada. Entre eles destacam-se Alberto Guignard (1896-1962), Alfredo Volpi, depois ligado à abstração, e Francisco Rebolo (1903-1980).
O modernismo enfraquece a partir dos anos 40, quando a abstração chega com mais força ao país. Seu final acontece nos anos 50 com a criação das bienais, que promovem a internacionalização da arte do país.
Literatura – Uma das principais inovações modernistas é a abordagem de temas do cotidiano, com ênfase na realidade brasileira e nos problemas sociais. O tom é combativo.
O texto liberta-se da linguagem culta e passa a ser mais coloquial, com admissão de gírias. Nem sempre as orações seguem uma seqüência lógica e o humor costuma estar presente. Objetividade e concisão são características marcantes. Na poesia, os versos tornam-se livres, e deixa de ser obrigatório o uso de rimas ricas e métricas perfeitas.
Os autores mais importantes são Oswald de Andrade e Mário de Andrade, os principais teóricos do movimento. Destacam-se ainda Menotti del Picchia e Graça Aranha (1868-1931).
Em sua obra, Oswald de Andrade várias vezes mescla poesia e prosa, como em Serafim Ponte Grande. Na poesia, Pau-Brasil é um de seus principais livros.
A primeira obra modernista de Mário de Andrade é o livro de poemas Paulicéia Desvairada. Sua obra-prima é o romance Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter, que usa fragmentos de mitos de diferentes culturas para compor uma imagem de unidade nacional.
Embora muito ligada ao simbolismo, a poesia de Manuel Bandeira também exibe traços modernistas. Um exemplo é o livro Libertinagem.
O modernismo vive uma segunda fase a partir de 1930, quando é lançado Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade.
Os temas sociais ganham destaque e o regionalismo amplia sua temática. Paisagens e personagens típicos são usados para abordar assuntos de interesse universal.
Entre os que exploram o romance social voltado para o Nordeste estão Rachel de Queiroz, de O Quinze, Graciliano Ramos, de Vidas Secas, Jorge Amado, de Capitães da Areia, José Américo de Almeida, de A Bagaceira, e José Lins do Rego (1901-1957), de Menino de Engenho.
Surgem ainda nessa época os romances de introspecção psicológica urbanos, como Caminhos Cruzados, de Érico Veríssimo.
Numa linha mais intimista estão poetas como Cecília Meireles, autora de Vaga Música, Vinicius de Moraes, de Poemas, Sonetos e Baladas, Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), de Desaparição da Amada, e Henriqueta Lisboa (1904-1985), de A Face Lívida.
A terceira fase do modernismo tem início em 1945. Os poetas retomam alguns aspectos do parnasianismo, como Lêdo Ivo, de Acontecimento do Soneto. João Cabral de Melo Neto, de Morte e Vida Severina, destaca-se pela inventividade verbal e pelo engajamento político.
Na prosa, os principais nomes são Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas, e Clarice Lispector, de Perto do Coração Selvagem.
Música – O modernismo dá prosseguimento às mudanças iniciadas com o impressionismo e o expressionismo, rompendo ainda mais com o sistema tonal (música estruturada a partir da eleição de uma das 12 notas da escala como a principal).
Os movimentos musicais modernistas são o dodecafonismo, o neoclassicismo e as escolas nacionais (que exploram o folclore de cada país), predominantes internacionalmente de 1910 a 1950.
Heitor Villa-Lobos é o principal compositor no Brasil e consolida a linguagem musical nacionalista. Para dar às criações um caráter brasileiro, busca inspiração no folclore e incorpora elementos das melodias populares e indígenas.
O canto de pássaros brasileiros aparece em Bachianas nº 4 e nº 7. Em O Trenzinho Caipira, Villa-Lobos reproduz a sonoridade de uma maria-fumaça, e em Choros nº 8 busca imitar o som de pessoas numa rua. Nos anos 30 e 40, sua estética serve de modelo para compositores como Francisco Mignone (1897-1986), Lorenzo Fernandez (1897-1948), Radamés Gnattali (1906-1988) e Camargo Guarnieri (1907-1993).
Teatro – O modernismo influencia tardiamente a produção teatral. Só em 1927 começam as inovações nos palcos brasileiros. Naquele ano, o Teatro de Brinquedo, grupo experimental liderado pelo dramaturgo e poeta Álvaro Moreyra (1888-1965), monta Adão, Eva e Outros Membros da Família.
A peça, em linguagem coloquial e influenciada pelo marxismo, põe pela primeira vez em cena dois marginais: um mendigo e um ladrão.
Ainda na década de 20 são fundadas as primeiras companhias de teatro no país, em torno de atores como Leopoldo Fróes (1882-1932), Procópio Ferreira (1898-1979), Dulcina de Moraes (1908-1996) e Jaime Costa (1897-1967).
Defendem uma dicção brasileira para os atores, até então submetidos ao sotaque e à forma de falar de Portugal.
Também inovam ao incluir textos estrangeiros com maior ousadia psicológica e visão mais complexa do ser humano.
A peça O Rei da Vela (1937), de Oswald de Andrade, é considerada o primeiro texto modernista para teatro. Nas experiências inovadoras anteriores, apenas a encenação tinha ares modernistas ao incluir a pintura abstrata nos cenários e afastá-los do realismo e do simbolismo.
Mas o texto de Oswald de Andrade trata com enfoque marxista a sociedade decadente, com a linguagem e o humor típicos do modernismo.
A peça O Bailado do Deus Morto, de Flávio de Carvalho, é uma das primeiras montagens modernistas, encenada pela primeira vez em 15 de novembro de 1933, em São Paulo. Mescla teatro, dança, música e pintura.
É o primeiro espetáculo com texto livre, improvisado, cenário impactante, linguagem popular e uso de palavrão, sem preocupação com a seqüência lógica de acontecimentos.
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Garimpeiro
água-forte, assinatura Tarcila do Amaral (1972) - 48 x 66 cm