Sobre o papel dos movimentos sociais no governo Lula, afirma: "Caímos no comodismo. Agora, mais do que nunca, nós, dos movimentos, poderíamos estar dando panos ao governo Lula; e não estamos. Estamos deixando o pessoal que sempre dominou, aquela gente que sempre foi oligarquia e não quer perder o poder, ficar grudado no Lula. Se nós, movimento social, estivéssemos lá todo dia, batendo, cobrando, tenho certeza de que a coisa estaria melhor...". Quem ousa discordar da dona Dijé?
Maria de Jesus Ferreira Bringelo, conhecida como dona Dijé, tem 53 anos, já foi uma produtiva quebradeira de coco, que mora na comunidade de Monte Alegre, no Maranhão.
Ela é uma das fundadoras do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e coordenadora de políticas públicas da Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (Assema). Hoje, luta pela aprovação de uma lei federal que garanta livre acesso aos babaçuais, conquista já alcançada em cinco municípios do Maranhão: "A lei foi levada para Brasília pela deputada Terezinha Fernandes, do PT, e está tramitando. Se for aprovada, vai ser uma grande conquista".
Dona Dijé, é um exemplo de como a participação e a organização comunitária fazem diferença na conquista por direitos. Como é o trabalho de uma quebradeira de coco?
Dona Dijé: Depois de catar os cocos que caem das palmeiras, quebramos com um machado e tiramos caroço por caroço. Juntamos tudo e vendemos por quilo para quem vai fazer o óleo. É tudo bem difícil... No começo só conseguia tirar meio quilo de amêndoa. Demorei a quebrar 3, 4 quilos. Mas, depois que aprendi, minha tendência foi começar a quebrar muito coco, foi rápido.
Quando comecei com esse trabalho, muitas vezes tinha que ir pro mato de manhã, pra quebrar o coco e, assim, comprar o arroz pra comer de tarde. Muitas e muitas das vezes, fui pro mato só com a água do pote. Outras vezes, quando tinha o que comer, fazia almoço pra comer com farinha. Café era de ano em ano, só na Páscoa, na Semana Santa. Mas essa vida fui levando. Não conto as vezes em que saí de casa e deixei um menino de 8 anos e uma menina de 6 cuidando de um bebê.
A senhora nasceu no Maranhão?
Dona Dijé: Sim, nasci no Cajueiro, perto de Bacabal, no Médio Mearim. Mas minha família é de Monte Alegre, onde minha mãe nasceu. Assim como todo mundo que morava lá, ela era descendente de escravos e foi passar uma temporada no Cajueiro, onde nascemos eu e mais duas irmãs. Com o decorrer do tempo, minha mãe adoeceu, ficou muito mal, e a minha avó foi buscar a gente. Voltamos para o Monte Alegre e, quando eu estava com 6 ou 7 anos de idade, me separei da minha mãe e fui para a escola. Estudei um tempo em São Luiz Gonzaga, até a metade da quarta série. Naquela época, só tinha duas maneiras de a gente estudar: ir para casa de um branco ou de um parente. Quando a gente ia para a casa de um branco, era para ser ama ou para ser empregada. Nessa trajetória, fui até os meus 15 anos, depois voltei para a comunidade.
" Lembro que, uma época, eu e minha comadre íamos pra reza só com um pé de chinelo: ela ia com um, e eu ia com o outro. Era um pé calçado, outro descalço, porque a sandália era pra nós duas. Nós não conquistamos só coisas materiais, mas conhecimento também, a nossa clareza. Ficando engajados nos movimentos, acho que conseguimos dar passadas. Conseguimos muita coisa." |
Então, a senhora trabalhou desde criança?
Dona Dijé: Eu ficava na casa de conhecidos. O pessoal dizia que não era trabalho, mas eu tinha que cozinhar, lavar, varrer casa, olhar menino. De tempo em tempo, minha mãe me levava pra passar dias em casa, até que um dia decidi arrumar um casamento e cuidar da minha vida.
Com que idade a senhora casou?
Dona Dijé: Eu era bem novinha, 16 anos. Foi um casamento que não durou muito tempo, uns três, quatro meses. Casei em janeiro; em maio, a gente já tinha se largado. Ele também era novinho, a mãe ainda governava. Um dia, ela chegou e disse: "Vamos, vamos, acabou". E ele foi. Fiquei grávida, mas perdi a criança.
Apesar de não ter durado nada, nesse casamento aprendi a cuidar da minha vida. Eu já sabia quebrar coco, mas não quebrava bem. Assim, tive que aprender a fazer direito. Já que eu queria ficar na comunidade de Monte Alegre, tinha que saber o trabalho de lá. Dali pra frente, ficou muito claro que eu tinha uma responsabilidade a cumprir. Tinha que enfrentar a dura realidade da vida.
Depois desse casamento, passei muitos e muitos anos sozinha, só virando de perna pra cima, cabeça pra baixo, quebrando coco, trabalhando roça, bebendo cachaça e indo pra festa! Ia me sustentando com o coco e com a roça. Nesse intervalo, tive um filho e duas filhas. Mas as duas meninas morreram. Depois de uns 10 ou 12 anos, arrumei outro casamento. Eu e seu Domingos passamos uma temporada juntos, uns 14 anos. Agora, estou solteirinha da silva.
A senhora ainda quebra coco?
Dona Dijé: Faz uns quatro anos que não quebro coco direto. Mas, quando tenho um tempinho, quebro. Teve uma época em que fui professora na minha comunidade e, quando eu saía da lida, lá pelas 10 horas, 10h30, meu machado já estava amolado para ir pro mato. Não tinha essa história de almoço, não. Era sair da escola, jogar o machado nas costas e ir quebrar coco. Isso era todo dia. Agora minha vida é mais corrida, mas tenho sempre um coquinho lá em casa...
Quantos anos viveu só do coco?
Dona Dijé: Direto, acredito que uns 20 anos. Numa época, eu só não quebrava de noite porque não dava certo, mas, se desse, eu quebrava. Quando eu dependia só de quebrar o coco, eu saía de manhã cedinho pro mato e só voltava lá pelas 4 ou 6 da tarde. Quando chegava em casa, ainda tinha todo o trabalho de dona de casa: fazer a janta, banhar menino, arrumar a casa.
Relembrando tudo isso, vejo como mudou a nossa vida. Hoje, temos roupa pra vestir, temos calçado e saímos bem arrumadinhos. Lembro que, uma época, eu e minha comadre íamos pra reza só com um pé de chinelo: ela ia com um, e eu ia com o outro. Era um pé calçado, outro descalço, porque a sandália era pra nós duas. Numa época, eu não tinha nem uma rede pra deitar. Nós não conquistamos só coisas materiais, mas conhecimento também, a nossa clareza. Ficando engajados nos movimentos, acho que conseguimos dar passadas. Conseguimos muita coisa.
Quantos filhos(as) tem?
Dona Dijé: Cinco. Minha caçula está com 11 anos. Tenho dois filhos, um com 34 e outro com 25 anos, e mais duas filhas, uma com 23 e outra com 17 anos. Os meninos já estão casados. Todo mundo mora em Monte Alegre.
Todos tiveram uma infância difícil. Quando eram pequenos, tinham que esperar eu chegar do mato pra ter o que comer. Saía de casa e deixava um menino tomando conta de outro. Brinquedo que é bom, nada! Meus filhos e as outras crianças de Monte Alegre nunca tiveram um brinquedo. Assim como eu nunca brinquei com uma boneca, minhas crianças também não tinham brinquedos. Hoje eu posso - e me orgulho disso - dar uma boneca pra minha caçula. Antigamente, as meninas brincavam com sabugo enrolado num pano. Isso era a boneca, porque a gente não podia comprar.
| "As lutas pela terra no Maranhão só começam a ser conhecidas a partir dos anos 80, mas o nosso maior embate foi ainda nos anos 70. Nossa história não está nos jornais ou livros e, quando explodiu, já tinha um século de resistência. Na verdade, a história da nossa comunidade começou em 1870." |
Suas filhas também são quebradeiras?
Dona Dijé: Elas ainda estudam, mas sabem quebrar coco muito bem. Minha caçula tanto é quebradeira como é vendedeira. Assim que uma de nós consegue quebrar uma certa quantidade, ela já está pedindo para ir vender. Quando todas estão em casa, até brigam por causa do machado...
Quanto vale 1 quilo de coco e qual a média de retirada por dia?
Dona Dijé: Um quilo de coco é vendido por R$ 1. Mas, antigamente, lá em Monte Alegre, a gente tinha que quebrar 5 quilos de coco pra comprar 1 quilo de arroz. Sei de comunidades em que 10 quilos de coco valiam 1 quilo de arroz. Hoje, quebramos o coco e recebemos o dinheiro na hora. Isso foi uma grande mudança, porque, durante muito tempo, entregamos as amêndoas em troca de vale, um pedacinho de papel com o valor escrito. Se aquele pedacinho de papel se perdesse, nós perdíamos o dinheiro... Uma boa quebradeira de coco consegue tirar 10 quilos, na média.
Hoje, o comércio é feito livremente, mas já houve cerceamento?
Dona Dijé: Sim, e muito. Era a época do coronelismo. Os donos da terra nos obrigavam a vender tudo pra eles. Eles ameaçavam nos proibir de entrar pra catar o coco. Alguns fazendeiros até botavam uma corrente na saída da fazenda e um capanga pra tomar conta de tudo. Pra fugir disso, a gente levantava meia-noite, botava o coco no saco, aproveitava a hora em que o capanga estava dormindo e ia amanhecer o dia na calçada em Lima Campos. A gente batia na porta do comerciante pra ele comprar o coco antes de o dia amanhecer pra ninguém passar e ver. A gente amanhecia o dia dormindo nas calçadas.
A região do Médio Mearim tem uma história de conflitos agrários. Houve algum na sua comunidade?
Dona Dijé: Tivemos uma grande luta para permanecer na nossa terra. Monte Alegre foi onde ocorreu um dos primeiros conflitos do Maranhão. As lutas pela terra no Maranhão só começam a ser conhecidas a partir dos anos 80, mas o nosso maior embate foi ainda nos anos 70. Nossa história não está nos jornais ou livros e, quando explodiu, já tinha um século de resistência. Na verdade, a história da nossa comunidade começou em 1870. Nesse ano, o coronel Lisboa Ferreira comprou as terras de Monte Alegre e se mudou para lá com seus escravos. Depois da Abolição, em 1888, os negócios da fazenda já não iam bem, e o coronel pouco se interessava pelas terras. No ano de 1907, ele resolveu ir embora de vez e deu a posse de parte da terra a 12 negros que ainda estavam na fazenda. Pelo que contavam nossos antepassados, ele vendeu uma parte e doou outra. As pessoas antigas foram passando essa história para os mais novos, e o povo foi ficando e tendo seus filhos...
Mas, se os negros tinham a posse da terra, qual foi o conflito?
Dona Dijé: O primeiro conflito foi a descoberta de que esses 12 negros tinham sido enganados pelo capataz da fazenda. Os negros não sabiam ler nem escrever, e o tal capataz dizia que a escritura que o coronel tinha feito estava errada, que precisava levar ao cartório. Só que nesse conserto, quando eles abriram os olhos, o tal sabido já era o dono de toda a terra. Apesar de terem descoberto isso, os negros não tinham a quem recorrer. Além disso, era uma área muito grande, quatro léguas de terra, e todo mundo continuou vivendo lá mesmo. Mas o problema veio à tona quando o capataz morreu, em 1976. Os filhos lascaram a vender tudo e venderam a terra com o povo todo dentro. Aí foi uma briga, uma guerra de fogo.
| "Os grandes fazendeiros iam comprando as terras, e as pessoas iam desocupando. Só que eles não conseguiram nos expulsar da nossa comunidade. Nosso lema era: "Nossa morada é aqui e a gente não vai sair"." |
Como foi essa briga?
Dona Dijé: Foi uma resistência nossa muito forte e liderada pela dona Vitalina, que hoje tem 90 anos e ainda mora em Monte Alegre. Logo depois da notícia da venda da terra, dona Vitalina dizia: "Daqui ninguém tira nosso povo. Eu só saio se for com São Benedito!". Ela nos juntou pra contar toda a história do nosso povo e, depois de algumas conversas, perguntou se nós tínhamos coragem de lutar para permanecer na terra.
Foi uma resistência feminina?
Dona Dijé: Sim, toda das mulheres. Lideradas pela dona Vitalina, fazíamos nossas reuniões no mato e íamos bolando o que fazer para não ter que sair da terra. Durante a semana todinha, quebrávamos coco; sábado e domingo, pegávamos um caderno e saíamos pelos povoados pedindo ajuda - dinheiro mesmo! Só que nós não dizíamos muito bem pra que era essa ajuda. Algumas pessoas diziam: "Ah, essas mulheres querem é uma bala". Mas fomos lutando e nos organizando e, quando já sabíamos mais ou menos o que e como fazer, resolvemos chamar os companheiros. Os homens pegavam nas armas mais pesadas, as mulheres eram pra pensar.
Quem eram essas mulheres?
Dona Dijé: Vitalina, Nazi e eu. A primeira coisa que decidimos fazer foi contar o que estava acontecendo em Monte Alegre, as ameaças que a gente sofria. Começamos a escrever um monte de carta e enviar pra tudo quanto era endereço que alguém tivesse. Nós escrevíamos de noite, dentro das casas e quase no escuro, tamanho era o medo... Sempre ficava alguém vigiando a porta, enquanto uma de nós escrevia as cartas. Nós tínhamos medo, muito medo, medo, medo, muito medo...
Medo de quê?
Dona Dijé: Uma coisa incrível é que nem tínhamos noção de que vivíamos na ditadura militar, nós lutávamos pela sobrevivência. Tudo isso aconteceu de 1976 a 1979, mas não tínhamos essa informação sobre política. Nosso medo era bem mais próximo: se alguém nos delatasse, seríamos presas. Nessa época, tinha muita mulher grávida na nossa comunidade - inclusive eu -, e nosso medo era ir para prisão. Passamos dois anos sem botar roça, a saída era só quebrar coco pra comprar comida e fazer o dinheiro. Existe um ditado popular que diz que negro não trabalha, que negro é preguiçoso. Você já pensou passar dois anos sem poder plantar um pé de arroz, sobreviver só do babuçu pra tudo?
O comentário nas cidades mais próximas era de que estávamos procurando confusão, diziam que aquele ninho de negros ia ser desmanchado logo. Foi uma época em que muita gente foi expulsa da terra, daí os conflitos que ficaram famosos.
Os grandes fazendeiros iam comprando as terras, e as pessoas iam desocupando. Só que eles não conseguiram nos expulsar da nossa comunidade. Nosso lema era: "Nossa morada é aqui e a gente não vai sair".
Quantas pessoas viviam em Monte Alegre?
Dona Dijé: Umas 97 famílias. Mesmo com o apoio que conseguimos de alguns advogados, a Justiça deu ganho de causa às pessoas que compraram nossas terras. Com isso, pensavam que íamos desistir, mas se enganaram. Mandaram construir uma cerca em toda a nossa comunidade e ficavam nos ameaçando, dizendo que tínhamos que ir embora. Fizemos uma reunião e decidimos pôr abaixo a cerca.
E qual foi a reação dos fazendeiros?
Dona Dijé: Aumentaram as ameaças! Todo santo dia aparecia um pistoleiro novo na região. Eles ameaçavam nos matar, mas a nossa negrada se armava de espingarda e tudo mais que tivesse à mão e ficava esperando por eles. Ao mesmo tempo, a Justiça continuava a mandar os despejos, mas nós não saíamos! Ia delegado, oficial de justiça, polícia, advogado, e nós não saíamos!
Essas ameaças nunca foram cumpridas? Não houve mortes?
Dona Dijé: Nunca morreu gente! Mas muitos companheiros levaram surras. Quando isso acontecia, rapidinho fretávamos um caminhão, enchíamos com homem e mulher da comunidade, só não iam as mulheres grávidas, para ir a São Luiz Gonzaga pressionar o poder público. Sempre insistimos que a terra era nossa e que ninguém ia embora. Passamos por essas ameaças de 1976 a 1979, quando houve uma ordem de despejo. Como não a cumprimos, queimaram as nossas casas.
| " Horas depois do acontecido, chega o Aroldo Sabóia, o deputado. Ele tanto fez que conseguiu levar a juíza que deu a liminar de despejo para ver as casas queimadas. Ele falou: 'Tá aqui, trouxe a égua que mandou queimar as casas de vocês'. " |
Quando as casas foram queimadas?
Dona Dijé: No dia 12 de novembro de 1979. Vivíamos sobressaltados por tantas ameaças. Estávamos tentando fazer uma roça miudinha, quando uma menina avisou: "Gente, a polícia chegou no Monte Alegre". Foi um desespero quando ela disse que já estavam colocando nossas coisas no caminhão. A ordem era tirar tudo de Monte Alegre, e nossa reação primeira foi pensar em nos esconder no mato. Naquele momento, pensei: "Nós não matamos, não roubamos, o que vamos ficar fazendo dentro do mato?". Aí, voltamos para as nossas casas e já encontramos algumas vazias e outras queimadas. Nem sei como, de repente veio a notícia de que um deputado - Aroldo Sabóia - estava tentando impedir o despejo. Mas já era tarde. Enquanto o Aroldo procurava resolver nossos direitos na capital, eles queimavam nossas casas. O desespero era enorme. De repente, um temporal caiu, e eles foram embora. Mas disseram: "Amanhã de manhã cedo, a gente volta".
Não acreditamos que pudessem voltar e ficamos todos nas casas que restaram. Mas, quando o sol esquentou, lá pelas 11 horas, voltou um monte de polícia, que nos mandou sair de casa. Bateram nos nossos companheiros que tentavam impedir o despejo. Ficamos lá vendo nossas casas serem destruídas e sem ter o que fazer.
Queimaram todas as casas?
Dona Dijé: Todas. E fizeram isso também em outros povoados da região. O povo ficou sem eira nem beira. Nossas casas eram de palha e taipa, o pouco que não queimava era derrubado com trator. Só a igreja não foi queimada. Ouvi quando um policial perguntou a outro se devia queimar a igreja também. Ele respondeu que não; era pra deixar que ela se destruía com o tempo. Era uma igreja improvisada, não tínhamos padre, mas de vez em quando vinha um rezar uma missa.
Horas depois do acontecido, chega o Aroldo Sabóia, o deputado. Ele tanto fez que conseguiu levar a juíza que deu a liminar de despejo para ver as casas queimadas. Ele falou: "Tá aqui, trouxe a égua que mandou queimar as casas de vocês".
E o que disse a juíza?
Dona Dijé: Ela dizia que não tinha autorizado queimar aquele monte de casas, que ela não sabia que isso poderia acontecer e que só tinha dado autorização de despejo de três casas. As mulheres foram se encostando na égua, e ela entrou no carro de costas. Teve medo. O nome dela não esqueço: Maria das Graças Mendes Corrêa, era juíza da Comarca de São Luiz Gonzaga, em 1979.
Depois disso, vocês foram para onde?
Dona Dijé: Continuamos em Monte Alegre! Não fomos embora! Fomos para o meio do mato. Passamos três dias, pegando sol, chuva e sereno. Eu tinha acabado de parir um menino, e meu filho dormia numa caixa de papelão. Não tínhamos nem o que comer nesses três dias; a igreja se mobilizou e arrecadou arroz, farinha, massa, leite, açúcar, café etc. Até as nossas facas de cortar carne, nossos machados, nossas espingardas, tudo, tudo, tudo, a polícia levou. A polícia deixou a comunidade totalmente desarmada. Ficamos à mercê deles. Mas a igreja foi fundamental, nos ajudou com o que pôde, até mesmo a mobilizar outros municípios para fazer um barracão.
Como continuou a luta de vocês depois disso? Onde foi construído esse barracão?
Dona Dijé: Em Monte Alegre. Só depois de um ano, começamos a construir as nossas casas. Depois de muito tempo e muita resistência nossa, o Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] fez a desapropriação das terras, em 1985. Foram anos de incertezas e muita luta, mas nunca saímos da nossa terra. No fundo, minha opinião é de que não foi o governo que desapropriou nossa terra, nós é que lutamos por ela. Foi ao longo desse tempo que conseguimos nos organizar, criar uma associação para Monte Alegre. Esse foi um lado positivo do conflito: aprendemos a nos organizar. Se não tivéssemos tido esses grandiosos conflitos, ainda viveríamos na ignorância dos nossos direitos.
Depois da desapropriação das terras, vocês continuavam a se reunir?
Dona Dijé: Sim, e muito! Por volta de 1987, era uma febre de reuniões e grandes assembléias entre as mais diferentes organizações de trabalhadores. Juntava muita gente, e o papel das mulheres acabou sendo o de fazer comida pra aquele povão. Eu participava, mas tinha mesmo era que cuidar da lida. Além de ter uma casa, tinha os filhos pra dar de comer. E, se não fosse trabalhar, eles não comiam, era um monte de problema... Chegou um momento em que as mulheres decidiram: "Não vamos mais cozinhar pra ninguém, porque, agora, vamos lá pra discussão. Os homens estão fazendo a coisa errada e, se não formos pra lá, vão continuar fazendo". E aí começamos a abandonar a cozinha. Em 1989, surgiu a Assema [Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão] e, junto, um trabalho nas bases, principalmente com as mulheres. Criamos o Grupo de Estudos das Quebradeiras.
| " A primeira coisa que melhorou foi o nosso conhecimento de vida e dos direitos. Antes, quebrar coco não era uma coisa digna. As mulheres que viviam do coco se escondiam e tinham vergonha, não consideravam uma profissão. Hoje, somos quebradeiras assumidas. Construímos nossa identidade. Aonde quer que uma de nós vá - São Luís, Brasília ou outra cidade -, agora ela pode dizer com orgulho: 'Sou quebradeira de coco, tenho uma vida digna, uma profissão digna'." |
Como está Monte Alegre hoje?
Dona Dijé: Lá, hoje, vivem 500 pessoas. Existe gente com 10, 12 filhos... Temos roça e animais. A lida ainda é dura, mas estamos melhorando aos poucos. Já temos luz elétrica e água. Algumas casas são de tijolo, mas ainda existe casa de taipa e cobertas por palha. Fizemos um projeto pra reconstruir todas as casas, mas o dinheiro não deu pra tudo. Quando o morador tem uma condição melhor, ele vai tocando pra frente. Temos também uma escola, que este ano está funcionando até a oitava série. Muitas crianças estão na escola.
Agora que temos a terra, estamos lutando para que seja reconhecida como terra remanescente de quilombos. Toda a história da comunidade prova que somos remanescentes de escravos e queremos que isso seja reconhecido.
Quando surgiu o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB)?
Dona Dijé: Foi em 1990. Começamos a juntar as mulheres de vários municípios pra discutir. Nós já tínhamos o tal grupo de estudos e acabamos vendo que o mesmo problema que existia no Maranhão também existia em outros estados. Era um problema de várias mulheres. Resolvemos criar um movimento que englobasse mulheres de estados mais próximos onde tem maior densidade de babaçu. Fizemos o primeiro encontro interestadual em 1991 ou 1992, não lembro exatamente a data.
Nesse tempo todo, nossa maior batalha - e também nossa maior conquista - é levar conhecimento para as bases. O movimento, hoje, está institucionalizado e é legalmente uma associação. Mas, para nós, continua sendo movimento; essa formalização foi uma necessidade da luta. São 24 coordenadoras, 12 titulares e 12 suplentes, tem coordenadora no Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará.
E qual é a luta específica do MIQCB neste momento?
Dona Dijé: Queremos aprovar uma lei federal que garanta o acesso ao babaçu. A lei foi levada para Brasília pela deputada Terezinha Fernandes, do PT, e está tramitando. Se for aprovada, vai ser uma grande conquista. Já temos leis no estado do Maranhão e em alguns municípios que impedem a queimada e garantem às mulheres que elas possam fazer a coleta nas terras públicas e privadas. Mas queremos ter uma lei que garanta esses direitos no país todo.
De que forma o associativismo empregado pela Assema melhorou a vida das famílias que vivem do babaçu?
Dona Dijé: A primeira coisa que melhorou foi o nosso conhecimento de vida e dos direitos. Antes, quebrar coco não era uma coisa digna. As mulheres que viviam do coco se escondiam e tinham vergonha, não consideravam uma profissão. Hoje, somos quebradeiras assumidas. Construímos nossa identidade. Aonde quer que uma de nós vá - São Luís, Brasília ou outra cidade -, agora ela pode dizer com orgulho: "Sou quebradeira de coco, tenho uma vida digna, uma profissão digna".
| "Mesmo aqui na nossa região existem pessoas brancas que tratam a gente mal. Quando sentamos pra conversar em algum tipo de mobilização, sempre alguém diz: 'Ali tem um grupo de negros que não quer trabalhar'. Lembro também de uns fazendeiros que sempre diziam que não davam um boi pelos negros. Isso tudo não é racismo" |
O que representa a Assema para as quebradeiras de coco?
Dona Dijé: A Assema é a nossa cara; é a cara dos trabalhadores, das trabalhadoras, das quebradeiras de coco. Aqui, entre nós, não existe divisão de tratamento, nós mesmos administramos a nossa entidade. Se vamos viajar, viajamos juntos. Não existe essa história de fulano vai num carro, beltrano vai em outro. Vamos juntos pra todo lugar, aqui não existe separação. Homens e mulheres, todos mandam igual. Quando discordamos, discutimos até achar um meio-termo...
O movimento das quebradeiras nunca tentou ingressar na política formal?
Dona Dijé: Sim, nós temos uma vereadora, a Maria Alaíde, do Lago do Junco. Ela já está pleiteando o segundo mandato. Ela foi coordenadora da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais.
Sabemos que é importante ocupar todos os espaços, na política e nas ruas. Fui a todos os fóruns de Porto Alegre. Achei bom, muita discussão. Consegui fazer algumas amizades, fiz contatos importantes e aproveitei muito para espalhar a nossa luta. Organizamos oficinas que foram bastante procuradas. Foi um espaço de troca muito bom. Isso faz parte da caminhada.
A senhora já passou por alguma situação de racismo?
Dona Dijé: Olha, passamos o tempo todo por isso. Uma vez me senti muito ofendida num ônibus. A pessoa não falou nada, mas quando eu e uma amiga entramos, ela olhou de um jeito... Minha amiga sentou ao lado dela, e, na mesma hora, a dona se levantou e foi sentar em outro lugar. Eu me senti humilhada. Isso é muito triste.
Mesmo aqui na nossa região existem pessoas brancas que tratam a gente mal. Quando sentamos pra conversar em algum tipo de mobilização, sempre alguém diz: "Ali tem um grupo de negros que não quer trabalhar". Lembro também de uns fazendeiros que sempre diziam que não davam um boi pelos negros. Isso tudo não é racismo? Acho isso horrível, mostra justamente que as pessoas não têm clareza do que é a vida real. Nessas bandas, as pessoas são muito ligadas em novela, mas assistir um jornal pra ver o que está acontecendo, não. Na hora do jornal, faz uma coisa, faz outra, mas, na hora da novela, todo mundo está ligado. Acho que isso tudo acaba influenciando esses pensamentos.
O que pensa sobre as cotas para afrodescendentes?
Dona Dijé: Acho que isso ainda vai render muito. Pelo que acompanho no jornal e na televisão, acho que alguns detalhes precisam ser melhorados. Mas é um espaço de conquista, sabe por quê? Tenho visto muitos negros que sei que são capazes, mas a burocracia impede que eles subam na vida. Hoje, até que está mais fácil para um negro chegar à universidade, mas ainda é muito pouco. Até hoje um negro pra subir na vida tem que ficar provando o tempo todo que é bom...
Qual sua avaliação do governo Lula?
Dona Dijé: São mais de 500 anos que não podem ser consertados em quatro anos, é muito pouco pra se consertar tudo que existe de errado. Nossa história já começou errada... Mas acho que o Lula vem tentando cumprir alguma coisa. Pelo menos, o governo agora fala de coisas que antes viviam encobertas. Sei que existe gente que acha este governo negativo, mas algumas coisas estão mudando.
Mas o melhor mesmo seria o Lula fazer a reforma agrária, de verdade. Ele prometeu e ainda não fez... Não se muda a vida do povo brasileiro sem fazer a reforma agrária. Se ele fizer a reforma agrária, vai acabar com a fome e a miséria. Não é só fome que é miséria, não. Outras coisas também são miséria. Quando você vê umas cidades como algumas aqui do Maranhão cheias de terras e com gente passando fome, logo percebe que, sem a reforma agrária, essas pessoas não vão ter a chance de uma vida digna. As pessoas iam ter onde plantar, iam poder ver sua criança brincar, saudável, sem estar na marginalidade.
Penso muito nessa juventude envolvida na marginalidade, e a reforma agrária também pode ajudar nisso. Quebro um caroço de coco, boto um punhado de farinha e digo pro meu filho: "Oh, é isso que tem". Ele come, bebe uma água e fica satisfeito. Por quê? Se ele for na casa do meu vizinho, talvez ele também esteja dando um punhado de farinha pro filho dele. E quando parte pra chegar na cidade, se meu filho não almoçar hoje, de tarde ele vem, se ele não jantar, amanhã ao meio-dia ele vem, mas na janta ele não vem mais pra casa. Entendeu onde está o problema?
Havia uma expectativa muito grande de que, neste governo, a participação dos movimentos sociais seria maior?
Dona Dijé: Acho que o maior problema é que, quando o Lula foi eleito, caímos no comodismo. Na minha opinião, agora, mais do que nunca, nós, dos movimentos, poderíamos estar dando panos ao governo Lula; e não estamos. Estamos deixando o pessoal que sempre dominou, aquela gente que sempre foi oligarquia e não quer perder o poder, ficar grudado no Lula. Os movimentos estão encolhidos. Agora que ganhamos o governo, temos é que nos desdobrar; e nós estamos vendo a barca passar. Se nós, movimento social, estivéssemos lá todo dia, batendo, cobrando, tenho certeza de que a coisa estaria melhor.
novae
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Desde já agradecida.
Viviane