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Para o presidente Lula, vai o recado da dona Dolores: Vamos
ver se, até o ano que vem, as coisas vão melhorar. É isso que
eu espero.
Maria Dolores Gomes de Carvalho é uma potencial beneficiária
ao programa de governo na tentativa de erradicar a face mais
reveladora das desigualdades brasileiras: a falta de acesso a
alimentos de qualidade.
Dona Dolores, como prefere ser chamada, não vive nas áreas
mais inacessíveis do país. Mora na Tijuca, bairro tradicional
do Rio de Janeiro que abriga boa parte da classe média carioca.
Sua casa, no morro do Borel, fica a menos de cinco minutos de
uma das maiores redes internacionais de supermercado, o
Carrefour.
Tanta proximidade com a abundância (e muitas vezes com o desperdício)
não garante a dona Dolores e a sua família uma vida em condições
dignas. Em sua simplicidade, revela alguns ajustes necessários
às políticas públicas que estão sendo implementadas.
Para ela, cesta básica não é o caminho: Trabalho
é mais importante.

Morro do Borel, Tijuca - (Foto:
Isnard Martins)
Como foi sua infância?
Dona Dolores Não me lembro de muita coisa, não.
Vivi mais em casa de madame, tomando conta de criança. Quando
ficava na roça, eu até estudava. Fiz até a quarta série lá
em Cambuci, estado do Rio. Depois que vim embora de vez, nunca
mais estudei. Até os 16 anos, vivi lá e cá. Vinha pro Rio de
Janeiro trabalhar de babá nas madames; dava saudade de casa,
voltava.
Onde a senhora morava quando vinha para o Rio?
Dona Dolores Aqui no morro. Um irmão de criação
morava aqui, e eu vinha para casa dele. Mas era só final de
semana, quando saía do trabalho. Depois, meu irmão foi embora,
teve derrame. Nem sei onde ele mora agora; de vez em quando, vem
aqui, mas fica sumido muito tempo.
Não tinha tempo de brincar?
Dona Dolores Que nada. Mas mesmo assim nunca
briguei com mãe nem com pai. Minha mãe largou do meu pai e veio
aqui para o Rio quando eu tinha 11 anos. Fiquei em Cambuci com
meu pai. Depois, ele morreu com problema de cabeça. Aí, na
madame onde eu trabalhava, continuei trabalhando. Me desliguei
dos meus pais muito cedo.
Com que idade a senhora começou a trabalhar?
Dona Dolores Com uns 10 anos, nas fazendas.
Tomava conta dos filhos dos fazendeiros. Estudava de manhã e à
tarde trabalhava. É duro. Isso para as minhas filhas eu não
quero, não.
Chegou a trabalhar com carteira assinada?
Dona Dolores Só uma vez. Trabalhei em um ateliê
de roupa aqui embaixo, fora do morro, por quase dois meses. Como
doméstica, trabalhei 20 e poucos anos, mas nunca tive carteira
assinada. Está tão velha que está sem retrato. Tenho também a
identidade, mas nem sei onde está.
Tantos anos trabalhando sem direitos?
Dona Dolores Sim, mas minha patroa é muito boa
para mim, me ajuda até hoje. Só não tem mais a mesma condição.
Perdeu o marido, e a vida dela também ficou braba. Vou sempre na
casa dela, na praça Saens Peña. Chegamos a conversar sobre esse
negócio de carteira assinada. Ela disse que ia ajudar a pagar.
Eu pagaria uma metade, e ela, a outra metade. Mas aí ficou ruim
para ela.
Qual a sua idade?
Dona Dolores Tenho 56 anos. Só aqui nesta casa,
moro há 30 anos. Meu pai era daqui do morro, minha mãe era de
Cambuci. Casei por aqui também, mas sou viúva.
Como é sua família?
Dona Dolores Sou mãe de cinco filhos, tive duas
filhas mulher, três filhos homem. Mas um filho morreu. E crio
uma menina que a mãe abandonou quando tinha 2 meses. Na verdade,
não é bem uma adoção. Ela tem irmãos, mas a mãe morreu.
Como não tinha ninguém para cuidar dela, eu cuido. Quando
peguei a menina, ela tinha dois meses, era tão miudinha que
parecia um bebê recém-nascido. Agora, já tem 6 anos. Mas na
hora em que os irmãos pedirem, eu dou. Eles trabalham, têm
casa, mas ela não quer ficar. Ela vai passear lá, mas não
fica, não. Ela fica aqui comigo, eu cuido dela.
E a morte de seu filho?
Dona Dolores Ele estava vindo da feira, tinha um
tiroteio, foi negócio de bala perdida, pegou nele, ele morreu.
Tinha 18 anos, foi aí pra baixo do morro. Era o homem da casa. Não
gostava que eu trabalhasse fora, gostava de chegar em casa,
encontrar a comidinha dele pronta, a roupa dele. Agora... acabou.
Vai fazer 15 anos que ele morreu.
Quantos filhos moram aqui?
Dona Dolores Quem mora aqui é a minha filha, com
meus dois netos, o meu filho, que ainda é menor e estuda, e essa
minha menina que crio. Agora também tem uma prima minha, que está
aqui dando um tempo, procurando uma casa ou um quarto para
alugar. Mora todo mundo junto, só que, na hora de dormir, se
separa. Eles vão pra lá para os quartos deles, e eu fico aqui,
são dois cômodos. Minha vida é essa, de vez em quando está
bom, de vez em quando está brabo, vou levando.
Com quantos anos a senhora foi mãe?
Dona Dolores Acho que com 16. Sabe que nem lembro
mais? Tem muitos anos mesmo. Foi com 16 ou 17. E minha filha foi
mãe ainda mais cedo, com 13 anos. Foi até mais difícil do que
na minha época. O pai do meu primeiro neto até ajuda a dar as
coisas, mas é outro também que vira e mexe está desempregado.
Ele trabalha com pintura. Mas, hoje em dia, os prédios preferem
fazer contratos com firmas de pintura. Quando ele pode, dá meu gás,
dá dinheiro para comprar arroz e feijão.
E como a senhora conseguiu essa casa?
Dona Dolores Conheci um rapaz e tive uma filha
com ele. Ele comprou aqui para mim. Ele sumiu, bebia muito, não
sei o que houve com a vida dele, não. Nós nos separamos quando
a menina tinha 2 anos. Era apenas um barraco. Hoje, tem uma parte
barraco e também um cômodo, que fiz com ajuda do padre Carmo,
da Igreja de São Camilo, aqui perto. A casa é dividida por um
guarda-roupa, que separa a parte do barraco da parte dos tijolos.
Deixo meus filhos ficarem nessa parte de tijolo; é melhor. Na
parte do barraco, tem a cozinha e meu quarto. Um grande sonho é
ter condições para ajeitar essa minha casa. Como eu queria ter
um banheiro dentro de casa! Meu problema é desemprego. Ah, tão
bom se conseguisse, em um instantinho melhorava o barraco.
Como funciona a eletricidade aqui?
Dona Dolores Ah, é um monte de fio pendurado. Não
posso pagar luz, não tem como. Não dá choque, porque a gente já
se acostumou. Ganhei um fio de rolo para mudar essa instalação,
mas preciso ver quem pode fazer isso.
A senhora disse que de vez em quando está bom, de
vez em quando está brabo. O que isso significa?
Dona Dolores É negócio de despesa, essas
coisas. Falta para comprar comida, mas a gente sempre dá um
jeitinho. Minha filha vai à igreja, às vezes eu também vou, aí
a gente ganha ajuda, mas é difícil. Tem dia que está meio difícil.
Minha vida é essa: minha filha vai pra feira arrumar as coisas e
vai às igrejas, que me ajudam. Vivo da ajuda dos outros.
Qual jeitinho?
Dona Dolores Ah, minha outra filha que mora aqui
pra baixo e arrumou um emprego me dá um dinheirinho, às vezes vêm
outros e também dão uma ajudinha.
Há dias em que não há nada para comer?
Dona Dolores Tem dia que fico sem nada. Aí,
espero essa ajuda que já falei. Sempre Deus ajuda, sempre. Tem
também um vizinho muito bom e uma menina lá em cima que às
vezes cisma de dar compras. Não conheço ela, mas sempre vou lá
e pego alguma coisa.
Como é sua alimentação no dia-a-dia?
Dona Dolores Ah, eu gosto de fazer uma mesa
bonita. Quando podia, comprava as coisas, fazia a comidinha das
crianças, gelatina, pudim, arrozinho, saladinha. Agora está
brabo, não faço mais, não. Faço o que tem. Às vezes, tem um
feijão ou um arroz ou mesmo galinha. Quando tenho algum
dinheiro, gosto de comprar verdura, que é muito bom e não devia
faltar na mesa das crianças. Hoje, nem sei o que tem pra fazer.
Acho que tem umas sobras na geladeira; vou esquentar.
A senhora participa de algum programa de doação de
cesta básica?
Dona Dolores Até tentei, mas, por causa da falta
de documentos, não consegui. A única coisa que tinha era um
vale-idoso de uma senhora que distribuía alimentos, mas até
isso acabou. Aquela distribuição de leite também acabou. A
minha filha às vezes consegue alguma coisa porque tem criança
pequena. Mas não é sempre. Antes, ela trabalhava em firma de
limpeza, mas depois teve neném e não conseguiu mais trabalho.
Não há ninguém trabalhando?
Dona Dolores Só quem trabalha é essa minha
prima que está aqui agora. Fica assim meio brabo para o fim do mês,
ela só recebe no dia 30. Eu estava trabalhando, tem pouco mais
de um mês que fui mandada embora.
A senhora não procurou outro emprego?
Dona Dolores Eu desanimei. No último emprego,
como doméstica, fiquei só um mês. Acabo desanimando porque as
patroas acham que não tenho mais saúde nem idade para o
trabalho. Por causa da minha pressão alta, a mulher ficou com
medo de eu desmaiar na cozinha dela. Então, vou fazer o quê,
meu Deus?
E a senhora não cuida da hipertensão?
Dona Dolores Sabe que eu tenho medo de tomar remédios?
Tem tanta gente que toma remédio e não pode mais parar. Tem
gente que piora. O remédio que eu tomo é remédio de casa, chá
de colônia, chuchu, essas coisas, mas negócio de médico eu
tenho o maior medo.
E como é a assistência médica?
Dona Dolores A gente vai no posto de saúde da
prefeitura. Até que funciona direitinho. A maioria dos remédios
a gente consegue lá. Também tem vacina para as crianças. Os
agentes de saúde aqui do morro vêm avisar que tem médico
marcado para o pessoal da comunidade.
Quanto uma pessoa precisa ganhar para ter uma vida
decente?
Dona Dolores Não sei, não. Quando eu estava
trabalhando, ganhava R$ 250. Mas na minha situação de agora até
R$ 100 estava bom. Ah, poxa, como servia! Do jeito que está a
vida, a gente não deve nem chorar muito pela quantidade que vai
ganhar. Só de ganhar já está bom.
Nunca recebeu uma cesta da Ação da Cidadania?
Dona Dolores Não. Não tenho nada de lá da Ação
da Cidadania. Nada, nada. Sempre escuto pela televisão. Só sei
dessa que estou falando, dessa senhora que distribui compras de
vez em quando. E tem também uma igreja.
A senhora tem alguma religião?
Dona Dolores Claro, se não fosse Deus, a gente não
existia. Fui batizada na Católica, mas não ligo muito para o
catolicismo, não. Gosto mais é de escutar o programa da Igreja
Universal, me amarro naqueles hinos bonitos. Me dá uma paz. Se
um dia tiver que entrar para alguma igreja, vai ser a Universal.
Toda noite rezo, pedindo um emprego para ter minha casa melhor,
para cuidar dos meus netos, dos meus filhos.
Já ouviu falar do Programa do Governo contra a Fome?
Acha que esse tipo de programa pode melhorar a vida de pessoas
como a senhora?
Dona Dolores De vez em quando, vejo o Lula falar
sobre o Programa conta a Fome. E, para Deus, nada é impossível.
Às vezes, é de onde a gente menos espera que sai alguma coisa
boa.
E o que a senhora espera do Lula?
Dona Dolores Gosto dele. Acho que está fazendo um bom
governo. Muita gente também acha e eu concordo. Quem sabe...
Vamos ver se até o ano que vem as coisas vão melhorar. É isso
que eu espero. Mas é tanta fome e desemprego... Mesmo assim
acredito que o Lula vai conseguir mudar muita coisa. E também
acabar com essa violência que ninguém agüenta mais.
E o que a senhora sugeriria ao presidente?
Dona Dolores Ah, emprego. Principalmente para o
idoso que quer e precisa trabalhar. Ninguém quer aceitar o
idoso, acha que está velho. Usou, jogou fora.
O que seria mais importante: diminuir o desemprego ou
distribuir mais cestas básicas?
Dona Dolores O emprego é mais importante. Se
ficar só na cesta básica, a velhice vai chegando e, quando vê,
já era, morre de coitado. Todo mundo gosta de trabalhar: novo ou
velho prefere estar trabalhando do que depender dos outros.
E o que a senhora acha da governadora Rosinha?
Dona Dolores Sabe que eu nem presto muita atenção
no governo deles, do Garotinho e agora da Rosinha? Nem fui votar.
Eu espero é do Lula, né?
O que acontece aqui em época de eleição?
Dona Dolores O bom é que meus filhos conseguem
trabalhar. Esse negócio de fazer campanha, sabe? Mas candidato
mesmo só veio uma vez aqui, nem lembro se foi o Cesar Maia ou o
Conde. Ele falou que ia me ajudar, mas não vi mais a cara dele.
E também não acreditei muito, não.
A senhora acha que seu filho vai conseguir emprego quando
terminar os estudos?
Dona Dolores Quero acreditar que vai. Ele está
no ginásio, já fez dois cursos, até de informática. Já
estagiou. Eu quero muito que ele estude. Ele só tem 19 anos e
gosta muito de estudar. Se sabe de um curso ali, vai correndo se
inscrever. Minha filha já não teve a mesma oportunidade. Ela
estudava à noite, mas, com o bebê, ficou difícil. Ele tem 1
ano e pouco. Mas meu outro neto, filho dela e que tem 12 anos,
está estudando.
A senhora já foi vítima de preconceito racial?
Dona Dolores Preconceito existe em tudo quanto é
lugar. Tento esquecer, passar por cima. Nem esquento, deixo pra lá,
nem dou ouvidos, faço que nem conheço. Acontece o tempo todo em
qualquer lugar, até na rua. Tem muito preconceito por causa do
morro. O marido de uma patroa minha tinha preconceito, não
gostava de negros. Ser negra, doméstica e morar no morro não
facilita nada. Acho que isso tem muito a ver com o que passa na
televisão. Essa coisa de violência das pessoas que moram no
morro.
A senhora gosta de morar no Borel?
Dona Dolores Eu gosto daqui, tenho sossego, ninguém
me incomoda. Me dou bem com todos os meus vizinhos; não tem
briga, graças a Deus.
Mas não é um local violento?
Dona Dolores É. Mas violência acontece em
qualquer lugar. Não viu aquela menina, coitada, que foi baleada
dentro da Estácio de Sá e outros mais por aí? Até prefiro que
as crianças fiquem em casa, mas tenho que deixar brincar. Fico
sempre olhando. Sempre tem alguém da família por perto.
E quando a senhora vê reportagens que falam das ocupações
policiais em favelas?
Dona Dolores Fico revoltada porque eles às vezes
falam coisas que não são verdade sobre as comunidades. E com as
coisas que fazem com a gente... A gente fica é com medo. Eles
entram na casa dos outros, mexem com a mulher dos outros, xingam
todo mundo, não respeitam as pessoas de idade. Isso é o que eu
vejo. Manda para tudo quanto é lugar. Outro dia mesmo vi essa
cena, fiquei revoltada. Trabalham sem camisa; isso é falta de
respeito, né? As crianças passando para lá e para cá e vendo
tudo isso.
Então, a relação é sempre difícil?
Dona Dolores Eles vindo fazer o trabalho deles
direitinho, todo mundo aceita. Mas tem é que respeitar os
outros. Eu não devo, não tenho medo deles. Mas, do jeito que
está hoje, a gente não sabe quem é bandido e quem é polícia.
Ninguém sabe, eu tenho muito medo. De vez em quando, entram aqui
no meu quintal; fico deitada, fico só olhando. Vão até a
cozinha, depois vão embora. Mas eu tenho medo por causa do meu
filho. Meu filho é estudante.
Teve uma chacina aqui outro dia. Morreram quatro rapazes, todos
trabalhadores. Eles eram amigos do meu filho. Um era meu
afilhado. Outro era estudante, morava na Suíça e veio para se
apresentar ao quartel. Na televisão passou tiroteio de
traficantes com polícia. Falam em tiroteio de bandido e
polícia, mas quem morre mesmo são só os meninos, né? Porque
ninguém ficou ferido entre os policiais? Se os meninos tivessem
armas, se fosse tiroteio, não pegava neles também?
Essa violência tem a ver com a pobreza?
Dona Dolores Mas a maioria dos bandidos hoje é
tudo policial! É sim! Vira e mexe, vejo na televisão e escuto
no rádio que um policial foi preso, outro foi expulso. São os
maiores incentivando os menores. Concorda comigo?
Participaram desta entrevista: Cândido Grzybowski, Iracema
Dantas, Marcelo Carvalho (pelo Ibase); e Janete Malaquias e Mônica
Santos Francisco (agentes comunitárias do Morro do Borel).
ibase
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