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Escrito por Cândido Grzybowski, Iracema Dantas, Marcelo Carvalho   
Thursday, 25 November 2004

Para o presidente Lula, vai o recado da dona Dolores: “Vamos ver se, até o ano que vem, as coisas vão melhorar. É isso que eu espero”.

 

Maria Dolores Gomes de Carvalho é uma potencial beneficiária ao programa de governo na tentativa de erradicar a face mais reveladora das desigualdades brasileiras: a falta de acesso a alimentos de qualidade.

Dona Dolores, como prefere ser chamada, não vive nas áreas mais inacessíveis do país. Mora na Tijuca, bairro tradicional do Rio de Janeiro que abriga boa parte da classe média carioca.

Sua casa, no morro do Borel, fica a menos de cinco minutos de uma das maiores redes internacionais de supermercado, o Carrefour.

Tanta proximidade com a abundância (e muitas vezes com o desperdício) não garante a dona Dolores e a sua família uma vida em condições dignas. Em sua simplicidade, revela alguns ajustes necessários às políticas públicas que estão sendo implementadas.

Para ela, cesta básica não é o caminho: “Trabalho é mais importante”.

 

Morro do Borel, Tijuca - (Foto: Isnard Martins)

Como foi sua infância?

Dona Dolores
– Não me lembro de muita coisa, não. Vivi mais em casa de madame, tomando conta de criança. Quando ficava na roça, eu até estudava. Fiz até a quarta série lá em Cambuci, estado do Rio. Depois que vim embora de vez, nunca mais estudei. Até os 16 anos, vivi lá e cá. Vinha pro Rio de Janeiro trabalhar de babá nas madames; dava saudade de casa, voltava.

Onde a senhora morava quando vinha para o Rio?

Dona Dolores
– Aqui no morro. Um irmão de criação morava aqui, e eu vinha para casa dele. Mas era só final de semana, quando saía do trabalho. Depois, meu irmão foi embora, teve derrame. Nem sei onde ele mora agora; de vez em quando, vem aqui, mas fica sumido muito tempo.

Não tinha tempo de brincar?

Dona Dolores
– Que nada. Mas mesmo assim nunca briguei com mãe nem com pai. Minha mãe largou do meu pai e veio aqui para o Rio quando eu tinha 11 anos. Fiquei em Cambuci com meu pai. Depois, ele morreu com problema de cabeça. Aí, na madame onde eu trabalhava, continuei trabalhando. Me desliguei dos meus pais muito cedo.

Com que idade a senhora começou a trabalhar?

Dona Dolores
– Com uns 10 anos, nas fazendas. Tomava conta dos filhos dos fazendeiros. Estudava de manhã e à tarde trabalhava. É duro. Isso para as minhas filhas eu não quero, não.

Chegou a trabalhar com carteira assinada?

Dona Dolores
– Só uma vez. Trabalhei em um ateliê de roupa aqui embaixo, fora do morro, por quase dois meses. Como doméstica, trabalhei 20 e poucos anos, mas nunca tive carteira assinada. Está tão velha que está sem retrato. Tenho também a identidade, mas nem sei onde está.

Tantos anos trabalhando sem direitos?

Dona Dolores
– Sim, mas minha patroa é muito boa para mim, me ajuda até hoje. Só não tem mais a mesma condição. Perdeu o marido, e a vida dela também ficou braba. Vou sempre na casa dela, na praça Saens Peña. Chegamos a conversar sobre esse negócio de carteira assinada. Ela disse que ia ajudar a pagar. Eu pagaria uma metade, e ela, a outra metade. Mas aí ficou ruim para ela.

Qual a sua idade?

Dona Dolores
– Tenho 56 anos. Só aqui nesta casa, moro há 30 anos. Meu pai era daqui do morro, minha mãe era de Cambuci. Casei por aqui também, mas sou viúva.

Como é sua família?

Dona Dolores
– Sou mãe de cinco filhos, tive duas filhas mulher, três filhos homem. Mas um filho morreu. E crio uma menina que a mãe abandonou quando tinha 2 meses. Na verdade, não é bem uma adoção. Ela tem irmãos, mas a mãe morreu. Como não tinha ninguém para cuidar dela, eu cuido. Quando peguei a menina, ela tinha dois meses, era tão miudinha que parecia um bebê recém-nascido. Agora, já tem 6 anos. Mas na hora em que os irmãos pedirem, eu dou. Eles trabalham, têm casa, mas ela não quer ficar. Ela vai passear lá, mas não fica, não. Ela fica aqui comigo, eu cuido dela.

E a morte de seu filho?

Dona Dolores
– Ele estava vindo da feira, tinha um tiroteio, foi negócio de bala perdida, pegou nele, ele morreu. Tinha 18 anos, foi aí pra baixo do morro. Era o homem da casa. Não gostava que eu trabalhasse fora, gostava de chegar em casa, encontrar a comidinha dele pronta, a roupa dele. Agora... acabou. Vai fazer 15 anos que ele morreu.

Quantos filhos moram aqui?

Dona Dolores
– Quem mora aqui é a minha filha, com meus dois netos, o meu filho, que ainda é menor e estuda, e essa minha menina que crio. Agora também tem uma prima minha, que está aqui dando um tempo, procurando uma casa ou um quarto para alugar. Mora todo mundo junto, só que, na hora de dormir, se separa. Eles vão pra lá para os quartos deles, e eu fico aqui, são dois cômodos. Minha vida é essa, de vez em quando está bom, de vez em quando está brabo, vou levando.

Com quantos anos a senhora foi mãe?

Dona Dolores
– Acho que com 16. Sabe que nem lembro mais? Tem muitos anos mesmo. Foi com 16 ou 17. E minha filha foi mãe ainda mais cedo, com 13 anos. Foi até mais difícil do que na minha época. O pai do meu primeiro neto até ajuda a dar as coisas, mas é outro também que vira e mexe está desempregado. Ele trabalha com pintura. Mas, hoje em dia, os prédios preferem fazer contratos com firmas de pintura. Quando ele pode, dá meu gás, dá dinheiro para comprar arroz e feijão.

E como a senhora conseguiu essa casa?

Dona Dolores
– Conheci um rapaz e tive uma filha com ele. Ele comprou aqui para mim. Ele sumiu, bebia muito, não sei o que houve com a vida dele, não. Nós nos separamos quando a menina tinha 2 anos. Era apenas um barraco. Hoje, tem uma parte barraco e também um cômodo, que fiz com ajuda do padre Carmo, da Igreja de São Camilo, aqui perto. A casa é dividida por um guarda-roupa, que separa a parte do barraco da parte dos tijolos. Deixo meus filhos ficarem nessa parte de tijolo; é melhor. Na parte do barraco, tem a cozinha e meu quarto. Um grande sonho é ter condições para ajeitar essa minha casa. Como eu queria ter um banheiro dentro de casa! Meu problema é desemprego. Ah, tão bom se conseguisse, em um instantinho melhorava o barraco.

Como funciona a eletricidade aqui?

Dona Dolores
– Ah, é um monte de fio pendurado. Não posso pagar luz, não tem como. Não dá choque, porque a gente já se acostumou. Ganhei um fio de rolo para mudar essa instalação, mas preciso ver quem pode fazer isso.

A senhora disse que “de vez em quando está bom, de vez em quando está brabo”. O que isso significa?

Dona Dolores
– É negócio de despesa, essas coisas. Falta para comprar comida, mas a gente sempre dá um jeitinho. Minha filha vai à igreja, às vezes eu também vou, aí a gente ganha ajuda, mas é difícil. Tem dia que está meio difícil. Minha vida é essa: minha filha vai pra feira arrumar as coisas e vai às igrejas, que me ajudam. Vivo da ajuda dos outros.

Qual jeitinho?

Dona Dolores
– Ah, minha outra filha que mora aqui pra baixo e arrumou um emprego me dá um dinheirinho, às vezes vêm outros e também dão uma ajudinha.

Há dias em que não há nada para comer?

Dona Dolores
– Tem dia que fico sem nada. Aí, espero essa ajuda que já falei. Sempre Deus ajuda, sempre. Tem também um vizinho muito bom e uma menina lá em cima que às vezes cisma de dar compras. Não conheço ela, mas sempre vou lá e pego alguma coisa.

Como é sua alimentação no dia-a-dia?

Dona Dolores
– Ah, eu gosto de fazer uma mesa bonita. Quando podia, comprava as coisas, fazia a comidinha das crianças, gelatina, pudim, arrozinho, saladinha. Agora está brabo, não faço mais, não. Faço o que tem. Às vezes, tem um feijão ou um arroz ou mesmo galinha. Quando tenho algum dinheiro, gosto de comprar verdura, que é muito bom e não devia faltar na mesa das crianças. Hoje, nem sei o que tem pra fazer. Acho que tem umas sobras na geladeira; vou esquentar.

A senhora participa de algum programa de doação de cesta básica?

Dona Dolores
– Até tentei, mas, por causa da falta de documentos, não consegui. A única coisa que tinha era um vale-idoso de uma senhora que distribuía alimentos, mas até isso acabou. Aquela distribuição de leite também acabou. A minha filha às vezes consegue alguma coisa porque tem criança pequena. Mas não é sempre. Antes, ela trabalhava em firma de limpeza, mas depois teve neném e não conseguiu mais trabalho.

Não há ninguém trabalhando?

Dona Dolores
– Só quem trabalha é essa minha prima que está aqui agora. Fica assim meio brabo para o fim do mês, ela só recebe no dia 30. Eu estava trabalhando, tem pouco mais de um mês que fui mandada embora.

A senhora não procurou outro emprego?

Dona Dolores
– Eu desanimei. No último emprego, como doméstica, fiquei só um mês. Acabo desanimando porque as patroas acham que não tenho mais saúde nem idade para o trabalho. Por causa da minha pressão alta, a mulher ficou com medo de eu desmaiar na cozinha dela. Então, vou fazer o quê, meu Deus?

E a senhora não cuida da hipertensão?

Dona Dolores
– Sabe que eu tenho medo de tomar remédios? Tem tanta gente que toma remédio e não pode mais parar. Tem gente que piora. O remédio que eu tomo é remédio de casa, chá de colônia, chuchu, essas coisas, mas negócio de médico eu tenho o maior medo.

E como é a assistência médica?

Dona Dolores
– A gente vai no posto de saúde da prefeitura. Até que funciona direitinho. A maioria dos remédios a gente consegue lá. Também tem vacina para as crianças. Os agentes de saúde aqui do morro vêm avisar que tem médico marcado para o pessoal da comunidade.

Quanto uma pessoa precisa ganhar para ter uma vida decente?

Dona Dolores
– Não sei, não. Quando eu estava trabalhando, ganhava R$ 250. Mas na minha situação de agora até R$ 100 estava bom. Ah, poxa, como servia! Do jeito que está a vida, a gente não deve nem chorar muito pela quantidade que vai ganhar. Só de ganhar já está bom.

Nunca recebeu uma cesta da Ação da Cidadania?

Dona Dolores
– Não. Não tenho nada de lá da Ação da Cidadania. Nada, nada. Sempre escuto pela televisão. Só sei dessa que estou falando, dessa senhora que distribui compras de vez em quando. E tem também uma igreja.

A senhora tem alguma religião?

Dona Dolores
– Claro, se não fosse Deus, a gente não existia. Fui batizada na Católica, mas não ligo muito para o catolicismo, não. Gosto mais é de escutar o programa da Igreja Universal, me amarro naqueles hinos bonitos. Me dá uma paz. Se um dia tiver que entrar para alguma igreja, vai ser a Universal. Toda noite rezo, pedindo um emprego para ter minha casa melhor, para cuidar dos meus netos, dos meus filhos.

Já ouviu falar do Programa do Governo contra a Fome? Acha que esse tipo de programa pode melhorar a vida de pessoas como a senhora?

Dona Dolores
– De vez em quando, vejo o Lula falar sobre o Programa conta a Fome. E, para Deus, nada é impossível. Às vezes, é de onde a gente menos espera que sai alguma coisa boa.

E o que a senhora espera do Lula?

Dona Dolores
– Gosto dele. Acho que está fazendo um bom governo. Muita gente também acha e eu concordo. Quem sabe... Vamos ver se até o ano que vem as coisas vão melhorar. É isso que eu espero. Mas é tanta fome e desemprego... Mesmo assim acredito que o Lula vai conseguir mudar muita coisa. E também acabar com essa violência que ninguém agüenta mais.

E o que a senhora sugeriria ao presidente?

Dona Dolores
– Ah, emprego. Principalmente para o idoso que quer e precisa trabalhar. Ninguém quer aceitar o idoso, acha que está velho. Usou, jogou fora.

O que seria mais importante: diminuir o desemprego ou distribuir mais cestas básicas?

Dona Dolores
– O emprego é mais importante. Se ficar só na cesta básica, a velhice vai chegando e, quando vê, já era, morre de coitado. Todo mundo gosta de trabalhar: novo ou velho prefere estar trabalhando do que depender dos outros.

E o que a senhora acha da governadora Rosinha?

Dona Dolores
– Sabe que eu nem presto muita atenção no governo deles, do Garotinho e agora da Rosinha? Nem fui votar. Eu espero é do Lula, né?

O que acontece aqui em época de eleição?

Dona Dolores
– O bom é que meus filhos conseguem trabalhar. Esse negócio de fazer campanha, sabe? Mas candidato mesmo só veio uma vez aqui, nem lembro se foi o Cesar Maia ou o Conde. Ele falou que ia me ajudar, mas não vi mais a cara dele. E também não acreditei muito, não.

A senhora acha que seu filho vai conseguir emprego quando terminar os estudos?

Dona Dolores
– Quero acreditar que vai. Ele está no ginásio, já fez dois cursos, até de informática. Já estagiou. Eu quero muito que ele estude. Ele só tem 19 anos e gosta muito de estudar. Se sabe de um curso ali, vai correndo se inscrever. Minha filha já não teve a mesma oportunidade. Ela estudava à noite, mas, com o bebê, ficou difícil. Ele tem 1 ano e pouco. Mas meu outro neto, filho dela e que tem 12 anos, está estudando.

A senhora já foi vítima de preconceito racial?

Dona Dolores
– Preconceito existe em tudo quanto é lugar. Tento esquecer, passar por cima. Nem esquento, deixo pra lá, nem dou ouvidos, faço que nem conheço. Acontece o tempo todo em qualquer lugar, até na rua. Tem muito preconceito por causa do morro. O marido de uma patroa minha tinha preconceito, não gostava de negros. Ser negra, doméstica e morar no morro não facilita nada. Acho que isso tem muito a ver com o que passa na televisão. Essa coisa de violência das pessoas que moram no morro.

A senhora gosta de morar no Borel?

Dona Dolores
– Eu gosto daqui, tenho sossego, ninguém me incomoda. Me dou bem com todos os meus vizinhos; não tem briga, graças a Deus.

Mas não é um local violento?

Dona Dolores
– É. Mas violência acontece em qualquer lugar. Não viu aquela menina, coitada, que foi baleada dentro da Estácio de Sá e outros mais por aí? Até prefiro que as crianças fiquem em casa, mas tenho que deixar brincar. Fico sempre olhando. Sempre tem alguém da família por perto.

E quando a senhora vê reportagens que falam das ocupações policiais em favelas?

Dona Dolores
– Fico revoltada porque eles às vezes falam coisas que não são verdade sobre as comunidades. E com as coisas que fazem com a gente... A gente fica é com medo. Eles entram na casa dos outros, mexem com a mulher dos outros, xingam todo mundo, não respeitam as pessoas de idade. Isso é o que eu vejo. Manda para tudo quanto é lugar. Outro dia mesmo vi essa cena, fiquei revoltada. Trabalham sem camisa; isso é falta de respeito, né? As crianças passando para lá e para cá e vendo tudo isso.

Então, a relação é sempre difícil?

Dona Dolores
– Eles vindo fazer o trabalho deles direitinho, todo mundo aceita. Mas tem é que respeitar os outros. Eu não devo, não tenho medo deles. Mas, do jeito que está hoje, a gente não sabe quem é bandido e quem é polícia. Ninguém sabe, eu tenho muito medo. De vez em quando, entram aqui no meu quintal; fico deitada, fico só olhando. Vão até a cozinha, depois vão embora. Mas eu tenho medo por causa do meu filho. Meu filho é estudante.

Teve uma chacina aqui outro dia. Morreram quatro rapazes, todos trabalhadores. Eles eram amigos do meu filho. Um era meu afilhado. Outro era estudante, morava na Suíça e veio para se apresentar ao quartel. Na televisão passou “tiroteio de traficantes com polícia”. Falam em tiroteio de bandido e polícia, mas quem morre mesmo são só os meninos, né? Porque ninguém ficou ferido entre os policiais? Se os meninos tivessem armas, se fosse tiroteio, não pegava neles também?

Essa violência tem a ver com a pobreza?

Dona Dolores
– Mas a maioria dos bandidos hoje é tudo policial! É sim! Vira e mexe, vejo na televisão e escuto no rádio que um policial foi preso, outro foi expulso. São os maiores incentivando os menores. Concorda comigo?


Participaram desta entrevista: Cândido Grzybowski, Iracema Dantas, Marcelo Carvalho (pelo Ibase); e Janete Malaquias e Mônica Santos Francisco (agentes comunitárias do Morro do Borel).



ibase

Comentarios (3)Add Comment
Marilia
escrito por Visitante, 2005-07-28 05:33:58
Incrivel!!!! Como tm filhos!!!!!!!
muito interente
escrito por Visitante, 2005-08-17 14:13:37
Meu chei orrivel oq ela falou sobre a policia + acho q lgumas coisas sao mentiras imposivel conhesso gente policia direita e falou q e mentira
...
escrito por CRISTIANO DA INDIANA, 2008-07-02 02:19:00
DONA DOLLORES ESPERO QUE DEUS CUIDE DE VC MUITO BEM AI NO CEU E PROTEJA SEUS FILHOS AQUI NA TERRA .SAUDADES ETERNAS!

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