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Alca é uma manobra dos Estados Unidos para retificar e
consolidar a sua posição imperial, Celso Furtado.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, dia 28 de julho de 2003, em Fortaleza, a recriação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a Sudene.
Originalmente, o órgão que surgiu no governo JK em 1959, a partir de um plano do economista Celso Furtado, se tornou também o primeiro superintendente a coordená-la.
Furtado permaneceu no cargo até 1964, quando foi um dos
primeiros cassados pelos militares, três dias depois do golpe de
abril. Destituído de seus direitos políticos, ficou 10 anos no
exílio.
Hoje, é o economista latino-americano mais lido do mundo.
Publicou 30 livros, traduzidos para 15 idiomas e com mais de 2
milhões de exemplares vendidos em todo o planeta. Um movimento
internacional cogitou sua indicação para o Nobel de Economia.
Nesta rápida entrevista de pouco mais de 15 minutos, Furtado nos
falou por telefone, de sua residência, no Rio, uma das raras dos
últimos tempos, o economista revelou que manteve contato com os
responsáveis pela nova Sudene e aprovava seu trabalho: "Estou
satisfeito". E evitou maiores detalhes com modéstia:
"Não estou mais por dentro do assunto".
Mostrou, entretanto, que estava acompanhando com atenção as ações
do atual governo. Endossou, por exemplo, a prioridade do presidente
Lula para o combate à fome.
"Não tenho dúvida nenhuma de me associar a eles",
refere-se, sempre na terceira pessoa do plural, ao novo governo.
Entrevista de Furtado à Agência Brasil - ABr em julho de
2003
O que foi mais importante na Sudene original? E o que
se pode esperar dessa nova Sudene?
Celso Furtado: A Sudene corresponde a um certo momento
histórico. A história não se inventa mais de uma vez, só se
for como caricatura. Houve um momento em que o Brasil compreendeu
que as desigualdades regionais se agravavam e isso era sério
para o nosso futuro como povo.
Portanto, por iniciativa de Juscelino Kubitschek, o país se
empenhou em lançar uma política nova, que perdurasse. E esse
processo foi interrompido pela ditadura militar. Essa política
nova significava uma participação autêntica do povo, era a
idéia de que o desenvolvimento não era uma coisa artificial,
que se faz em gabinete. É preciso ter o entusiasmo de gente,
participação real. Só que isso, com os militares, desapareceu.
Depois, todas as coisas continuaram dormindo, só restaram uns
trabalhos técnicos.
Há uma herança um pouco desigual, que provavelmente o governo
vai enfrentar. Diante dessa herança desigual, o que fazer? Eu
acho que eles estão fazendo bem, porque estão trabalhando com
gente muito competente. Gente que conheceu a experiência
primitiva da Sudene. Portanto, eu os congratulo, é o máximo que
eu posso fazer.
Diante dessa herança que o governo Lula recebe, qual é,
na sua opinião, a prioridade que deve ser encarada?
Celso Furtado: A verdade é que a prioridade número 1,
o Lula já deu, é o problema da fome. Porque a fome é muito
mais complexa do que se imagina geralmente. Trata-se de um atraso
muito profundo.
Eles estão certos nesta estratégia: começar vendo o que se
chama em economia de "estágios fundamentais" de uma
população. É quase como reconstruir uma população. O efeito
de tudo isso vem com o tempo, não é do dia para a noite que se
vai obter resultado. Deve-se olhar isso com muita calma. Não é
pensar em milagre, é pensar em atacar profundamente.
A Sudene fez um trabalho esplêndido, no que diz respeito a
investimento em pessoal técnico. O Nordeste hoje não é mais o
Nordeste de quando começou a Sudene. O pessoal técnico do setor
público e privado hoje em dia é muito mais bem equipado. As
universidades do Nordeste são uma coisa admirável em relação
ao que havia no passado. Não existiam praticamente, eram
rudimentares.
Houve muita coisa importante, é preciso ter em conta isso.
Agora, o que vem pela frente é mais complexo, porque é
necessário atacar a fome, mas também reorientar profundamente o
desenvolvimento do Nordeste. E isso é um trabalho que também
toma tempo.
Não estou mais por dentro do assunto, mas estive vendo o
trabalho técnico realizado por eles e é admirável o esforço
que estão fazendo e a compreensão que têm da realidade.
O que faltou ser executado em seu plano original para a
Sudene e gostaria de ver retomado agora?
Celso Furtado: No plano original, havíamos nos baseado
na ilusão de que havia um governo com muito apoio popular e que
isso alimentaria um processo de transformações da estrutura
agrária. Por isso, quando nós começamos, a primeira coisa que
fizemos na Sudene foi um projeto de lei de reforma agrária
disfarçado de uma lei de irrigação. Era preciso aproveitar
melhor as terras irrigadas, e nós começamos a reforma agrária
por aí. Isso foi levado a sério.
Só que as forças reacionárias bloquearam tudo isso. Não foi
possível tocar no problema agrário, que é o mais grave no
Nordeste, sem dúvida nenhuma.
Hoje em dia, se há mais recursos para abordar o problema, como
eu estou vendo que há muito mais recursos - e mais coragem dos
políticos, que já não são mais tão subordinados aos
interesses dos latifundiários -, isso é um avanço.
Como o senhor avalia o quadro atual da economia, com a
globalização, o processo de privatização em diversos setores
antes assumidos pelo Estado, as reformas ditas
"neoliberais"? Há espaço para a idéia de
planejamento público neste mundo?
Celso Furtado: Isso realmente é coisa para a gente rir.
Quem conhece a economia sabe que, ela seja pública ou privada,
tem planos, está baseada em planejamento. Você pergunta a uma
General Motors, uma Volkswagen, essas grandes empresas, se elas
não têm planos. Elas têm planos para muitos anos. O
planejamento é essencial à atividade social organizada.
Quando se tem uma sociedade com deformações muito sérias, como
é o caso do Brasil, essas deformações só são corrigidas por
meio de um planejamento que ataque todos os aspectos da
sociedade. Não basta uma coisa ou outra, é muito mais complexo,
porque são sociedades que hoje em dia sofrem as conseqüências
de deformações históricas, como é o caso da estrutura
agrária no Nordeste.
Não ha dúvida nenhuma. É preciso ser um ingênuo ou de
má-fé, como diria Eça de Queiroz, para imaginar que você pode
abordar os problemas complexos do Nordeste sem planejamento. O
planejamento significa comprometer a sociedade, os Estados e as
instituições com mais poder, com objetivos explicitados,
explicados ao povo.
Quando fizemos a Sudene, você não pode imaginar o entusiasmo
que houve. Todas as reuniões da Sudene eram públicas. O povo
olhava e participava dos debates, os governadores todos
participavam. Havia um entusiasmo, um contágio.
Eu me recordo que uma vez houve no Senado um movimento contra a
Sudene. A defesa foi feita pelo povo. Eu nunca gastei um tostão
em propaganda para a Sudene, como superintendente. E assim se
ganhou a briga: foi brigando, lutando, acreditando naquilo.
Mas, uma coisa era certa: ali não cabia nenhuma facilidade,
nenhuma manobra subterrânea, não havia nenhuma força por
detrás. Tudo era explicitado, transparente, foi isso que deu
força à Sudene. Deu um prestígio moral enorme. Você vê que,
quando eu saí de lá, a mim não me convidaram para depor diante
das comissões de inquérito, para pedir conta de nada. Não
havia nada contra mim.
A iniciativa deste novo governo para a discussão do
plano plurianual (PPA), incluindo a sociedade em todos os
Estados, por exemplo, seria uma retomada desse espírito?
Celso Furtado: É uma retomada do melhor espírito de
mobilização de opinião pública, de criar uma consciência
nacional. Isso é indispensável. É importante que se recupere
isso. No Brasil foi se perdendo a fé no governo. Pensa-se que o
governo é desonesto em tudo... É um trabalho importante. O
governo atual tem a grande responsabilidade de reconstituir esse
clima favorável à mobilização social.
Gostaria de uma avaliação sua sobre a Alca. O senhor
acha que esse acordo pode, de fato, trazer novos mercados para o
Brasil?
Celso Furtado: A Alca seria um perigo para o Brasil.
Escrevi sobre isso, claramente mostrando que a Alca é uma
manobra dos Estados Unidos para retificar e consolidar a sua
posição imperial.
Ninguém tem dúvidas sobre isso: a Alca não foi pensada por
ninguém fora dos Estados Unidos, só por eles.
Eles fizeram um projeto próprio. Porque eles têm hoje em dia
um problema sério de balança de pagamentos, eles têm um
desequilíbrio profundo na balança de conta corrente e precisam
corrigir isso. Eles querem, portanto, que o mundo se adapte, crie
condições para eles continuarem avançando e exercendo o seu
poder imperial.
A experiência do México, que já tentou a integração com os
Estados Unidos, é dolorosa. O México já entrou nessa ilusão
de que era uma abertura com os americanos. Se você for ver, os
investimentos americanos feitos no México não criam
propriamente emprego. Eles estão interessados no mercado
americano, usam a tecnologia mais avançada e o resultado final
é lamentável. Eu não creio que essa Alca seja aprovada.
Como o senhor observa essa especulação internacional em
torno de uma possível indicação de seu nome para o prêmio
Nobel de Economia?
Celso Furtado: A idade tem essa vantagem, não é?
Relativiza tudo. Ninguém na minha idade se deixa levar por
ilusões fáceis.
Eu acho muito bonito. Não há nenhuma manobra de minha parte, eu
não participo de nada disso, eu acompanho e vejo. Reconheço que
o Brasil está um pouco carente de figuras desse tipo. Mas, não
poderia comentar isso, e me neguei até hoje a comentar e
participar desse movimento. Apenas observo.
O senhor fez aniversário sábado, dia 26/07/2003. Recebe
como presente a recriação da Sudene?
Celso Furtado: Ah, isso é realmente diferente. Se
tivessem me perguntado algum dia se eu ia participar ou estar
presente à recriação da Sudene... Eu gostaria primeiro de ver
o que se ia fazer.
E fui ver, conversei com eles e examinei os trabalhos, as bases
do que estão fazendo. Fiquei muito satisfeito, achei tudo muito
positivo. Não tenho dúvida nenhuma de me associar a eles e, se
necessário for, pensar algo para que isso avance desta vez. O
pessoal que está lá, o Ciro Gomes, a Tânia, é gente muito boa
e conhece bem o Nordeste.
Agência Brasil
BIBLIOGRAFIA DE CELSO FURTADO
Celso Furtado, morreui aos 84 anos, publicou mais de 30
livros, traduzidos em diversos idiomas, inclusive chinês,
japonês, sueco e polonês. Ele é autor do clássico
"Formação Econômica do Brasil", uma das
principais análises da história econômica brasileira.
Segue a lista dos seus principais trabalhos:
- Economia colonial no Brasil nos séculos
16 e 17" ("L'économie coloniale brésilienne,
tese de doutorado, Universidade de Paris, 1948).
- A economia brasileira (1954)
- Uma economia dependente (1956)
- Perspectivas da economia brasileira (1958)
- Formação econômica do Brasil (1959)
- A Operação Nordeste (1959)
- Desenvolvimento e subdesenvolvimento
(1961)
- A pré-revolução brasileira (1962)
- Dialética do desenvolvimento (1964)
- Subdesenvolvimento e estagnação na
América Latina (1966)
- Teoria e política do desenvolvimento
econômico (1967)
- Um projeto para o Brasil (1968)
- Análise do modelo brasileiro (1972)
- A hegemonia dos Estados Unidos e o
subdesenvolvimento da América Latina (1973)
- O mito do desenvolvimento econômico
(1974)
- A economia latino-americana (1976)
- Criatividade e dependência na
civilização industrial (1978)
- Pequena introdução ao desenvolvimento,
um enfoque interdisplinar (1980)
- O Brasil pós-milagre (1981)
- A nova dependência, dívida externa e
monetarismo (1982)
- Não à recessão e ao desemprego (1983)
- Cultura e desenvolvimento em época de
crise (1984)
- A fantasia organizada (1985)
- Transformação e crise na economia
mundial (1987)
- A fantasia desfeita (1989)
- ABC da dívida externa (1989)
- Os ares do mundo (1991)
- Brasil, a construção interrompida (1992)
- Obra autobiográfica de Celso Furtado, 3
vol (1997)
- O capitalismo global (1998)
- O longo amanhecer (1999)
- Em busca de novo modelo, reflexões sobre
a crise contemporânea (2002)
- Raízes do Subdesenvolvimento (2003)
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