|

A Presidência ainda é formada por excelências que despacham
em palácios, um congresso de nobres, orçamentos que não mudam
a vida do povo, um sistema educacional que desiguala cada vez
mais a população, um sistema tributário que concentra renda.
Em novembro de 1889, o jovem oficial do exército Felicíssimo
do Espírito Santo Cardoso entregou a D. Pedro II a carta que
notificava sua destituição e conduziu o imperador ao navio que
o levaria para o exílio. Esse ato foi mais simbólico da mudança
da monarquia à república do que o grito de Viva a República
do Marechal Deodoro.
Ainda assim, a mudança limitou-se à partida do Imperador e
à posse de um marechal na Presidência. O novo regime não
transformou a aristocracia em sociedade republicana, e o Brasil
continuou dividido entre uma minoria privilegiada e uma massa
relegada. Proclamamos a República, mas não a construímos.
Os presidentes eleitos eram membros da aristocracia republicana,
e continuaram governando para ela, e não eleitos do povo e para
o povo.
Nossa República foi mais desigual do que era o império, mais
desigual do que qualquer monarquia. Famílias reais se parecem
mais com seus povos do que nossos governantes e famílias se
pareciam com o povo brasileiro.
A eleição do metalúrgico Lula, trabalhador vindo das
camadas mais pobres do campesinato nordestino, significou a
primeira ruptura na imperial república brasileira.
Cada presidente, mesmo de origem pobre, tinha pago pedágio à
elite antes de chegar ao poder, e se tornado parte dela por meio
de diploma, fortuna ou serviços prestados aos ricos.
Em janeiro de 2003, o bisneto do oficial que entregou a notificação
de expulsão ao imperador passou a faixa presidencial ao metalúrgico
Lula. Passaram-se 113 anos entre a caminhada do bisavô, levando
o Imperador pelos corredores do Palácio Imperial, e a caminhada
do bisneto na rampa do Congresso com a faixa para o presidente
metalúrgico.
Foi preciso mais de um século para a elite brasileira
aceitar um homem do povo como chefe da nação que se dizia
republicana.
Temiam que um presidente vindo do povo não se comportasse
como um deles, nem governasse para eles. A posse do presidente
pelas mãos do bisneto foi mais importante para a República
brasileira do que a expulsão do imperador feita pelo bisavô.
Dois anos depois, a elite aristocrática está aliviada, como
aliviados estavam os nobres dois anos depois de proclamada a República.
O representante do povo sabe governar até melhor do que os
educados doutores e generais de antes. Mas o povo de 2004
descobre preocupado que o império ainda não acabou.
A Presidência ainda é formada por excelências que despacham
em palácios, um congresso de nobres, orçamentos que não mudam
a vida do povo, um sistema educacional que desiguala cada vez
mais a população, um sistema tributário que concentra renda.
E depois de 115 anos de República, ainda não vemos ações
para construir a República, abolir a apartação entre elite e
povo, distribuir melhor a renda, implantar uma justiça igualitária,
reduzir a desigualdade regional, educar com qualidade todo o
povo, defender a nação contra ameaças externas, garantir paz
nas ruas, proteger os patrimônios naturais e culturais, promover
desenvolvimento científico e tecnológico, fazer crescer a
economia de forma sustentável.
Com 115 anos de regime republicano, ainda não nos empenhamos na
construção de uma sociedade republicana, onde todos sejam cidadãos
com direitos e oportunidades iguais. Aceitamos e comemoramos uma
república incompleta.
Temos um estadista metalúrgico, mas não temos uma República.
Temos um imperador metalúrgico. Felizmente, ainda faltam dois
anos para que ele assuma a liderança da construção da República
brasileira.
Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador
do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT
com a maior votação dada a um político no Distrito Federal.
Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de
Educação da Unesco. Autor do livro "Admirável
Mundo Atual". Você pode visitar sua
homepage - http://www.cristovam.com.br
e escrever-lhe em
Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso
|