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Mas que importa a mídia brasileira? O mundo a ignora tanto
quanto ela ignora o mundo.
No livro O Jardim das Aflições, de minha
autoria, uma história da idéia de império no Ocidente,
terminava com o surgimento das ambições imperiais no seio da
Revolução Americana e sua evolução subseqüente na forma de
um conflito estrutural entre expansão imperial e identidade
nacional.
O capítulo seguinte requereria todo um volume. Ninguém
compreenderá jamais os EUA se insistir em enfocá-los pelo
estereótipo consagrado ou cacoete mental que
enxerga todo imperialismo como um nacionalismo inflado.
O nacionalismo americano, fundado no ensinamento dos Founding
Fathers, em que o mais arrojado espírito modernizante e o culto
da independência individual convivem numa tensão criadora com
um arraigado tradicionalismo cristão, é demasiado local e
peculiar para poder servir de matriz a uma ideologia
imperialista.
Traduziu-se, com mais freqüência, num desejo de isolamento,
empenhado em manter a síntese americana a salvo do contágio das
epidemias ideológicas européias.
A vertente imperialista, ao contrário, surge com uma mentalidade
cosmopolita, mais nova-iorquina do que americana, ligada a crenças
progressistas e materialistas pragmatismo, evolucionismo,
neopositivismo profundamente hostis ao fundo cultural
cristão e, de fato, a todo autêntico espírito americano.
Não é de espantar que, longe de fugir das ideologias
revolucionárias, essa corrente se deixasse gostosamente
contaminar por elas, seja no intuito de aproveitar-se delas, seja
por descobrir a afinidade profunda que aproximava delas as ambições
do capitalismo monopolista através da concepção comum da
sociedade planejada.
A cumplicidade de muitas grandes fortunas americanas
Rockefeller ou Ford, para citar só as duas mais notórias-
com o fascismo, o nazismo e o comunismo explica-se pela sua projeção
futurológica que antevia, para além das convulsões temporárias
geradas por esses movimentos, a utopia de um mundo unificado sob
a égide do planejamento central global, para a qual, cada um a
seu modo, todos eles concorriam.
No plano interno, as megafortunas sempre apoiaram as políticas
intervencionistas e estatizantes como o New Deal de
Roosevelt e a Grande Sociedade de Lyndon Johnson. Na
política externa, favoreceram a acomodação com o comunismo,
sempre alegando razões de prudência mas sabendo perfeitamente
que sacrificavam os interesses nacionais americanos a objetivos
globalistas de longo prazo.
Episódios como o abandono da China aos comunistas, o boicote
ao general MacArthur, a recusa de ajuda à revolução húngara,
que pareceram na época erros monumentais, só foram erros desde
o ponto de vista nacional americano. Mas, evidentemente, o
objetivo dessas políticas transcendia infinitamente o interesse
americano.
Foi só mais recentemente, no entanto, que a contradição
entre esse interesse e o esquema imperialista global se tornou
mais visível (embora ainda haja quem não queira vê-la). A
contradição formula-se assim: é impossível criar desde os EUA
uma administração planetária sem que os próprios EUA tenham
de submeter-se a essa administração.
Esse foi o ponto central da disputa Bush-Kerry. Setenta por cento
das contribuições ao Partido Democrata vêm de grandes
fortunas, o resto vem do povão; no Republicano é o inverso. Os
democratas são portanto o partido da burocracia global, o
partido da ONU, de George Soros e do Tribunal Penal
Internacional.
Os republicanos representam o patriotismo, a tradição
americana, o apego incondicional à soberania dos EUA. O povo
expressou isso dizendo que Bush personificava os valores
morais. Por baixo do conflito moral e cultural, a briga é
mais feia: tratava-se trata-se ainda - de decidir se
os EUA querem ser apenas o país mais poderoso, um primus inter
pares , ou se querem dissolver sua identidade e abjurar de sua
soberania em troca de um posto na administração planetária.
A mídia brasileira, é claro, viu tudo invertido, caindo no
engodo do imperialismo global travestido de antiimperialismo. Mas
que importa a mídia brasileira? O mundo a ignora tanto quanto
ela ignora o mundo.
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