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No Brasil ele é conhecido como o gênio louco da música
popular brasileira e o bruxo. Assim, mais um
apelido afetuoso apenas reforça sua fama de prodígio excêntrico.
Miles Davis costumava chamá-lo de “aquele albino louco”, mas o compositor e versátil instrumentista Hermeto Pascoal, jamais se sentiu ofendido, com os apelidos.
Por outro lado, descrever a música de Pascoal sempre se provou
uma tarefa difícil. Pascoal e seu quinteto tocaram na série de
jazz do Lincoln Center, no que foi o início de uma rara turnê
pelos EUA, neste mês de novembro/2004.
Ele admite, entretanto, que estaria igualmente confortável
tocando com uma orquestra sinfônica ou em um baile folclórico
campestre.
Tenho 68 anos e, até hoje, nunca fui capaz de definir o
tipo de música que faço, disse Pascoal em uma entrevista,
antes de se apresentar no Rio de Janeiro, neste mês.
Apesar de dar preferência ao piano, usa uma variedade de
instrumentos: Sou um músico de jazz quando toco jazz. É
uma parte, uma parte forte, da minha música. Mas é apenas uma
das coisas que faço, não é a única.
Para os luminares do jazz com quem Pascoal trabalhou durante os
anos, desde Davis até Ron Carter e Cannonball Adderley, pouco
importa o rótulo de sua música. Hoje em dia, a influência de
Pascoal é igualmente forte entre jovens músicos, que procuram
seus discos antigos em vinil e admiram a complexidade das
harmonias em seus arranjos orquestrais e a imprevisibilidade
brincalhona de suas composições.
Ele é um dos meus compositores prediletos de todos os
tempos, e o apresentei a muitas pessoas, disse o
trompetista Nicholas Payton, em entrevista por telefone de New
Orleans. Ele está tão à frente que levou um longo tempo
para que o público o acompanhasse e para que tivesse a exposição
que merece.
Uma das coisas que o tornam tão especial, acrescentou Payton, é
que ele é muito contemporâneo, mas com os pés no chão.
Como disse Payton: Ele não tem medo de se arriscar; é
selvagem; faz qualquer coisa, mas o que o me inspira é que mesmo
quando está fazendo abstrato, você sente os ritmos brasileiros,
a conexão com o centro de sua cultura, de sua música.
Cada vez mais, porém, o apelo de Pascoal se estende para além
do mundo do jazz. Suas composições para orquestra foram
apresentadas na Europa e na América Latina.
O Kronos Quartet ficou impressionado com um de seus shows nos
EUA, nos anos 80, e encomendou e toca uma composição enérgica
de Pascoal, Marcando Tempo.
Não sei se é uma comparação justa, mas uma pessoa
similar na música americana poderia ser Charles Ives,
disse o violinista David Harrington, fundador do quarteto.
Hermeto é criativo da forma mais fundamental e
revigorante, com uma imaginação expansiva como a de uma criança,
uma enormidade de fontes de inspiração e uma curiosidade
vibrante, um sentimento de que, onde quer que estejamos, há sons
que podem se tornar parte de experiências musicais.
Origens
Nascido no
Estado pobre de Alagoas, no Nordeste do Brasil, ainda criança
Pascoal foi atraído pelo que chamou de a beleza sagrada e
abertura da música.
Mas como tinha problemas visuais associados com sua condição
de albino, os professores de música não o quiseram como aluno,
dizendo-lhe que não seria capaz de ler ou escrever partituras.
Como resultado, teve que aprender a tocar instrumentos sozinho e
é, em suas próprias palavras, completamente autodidata.
Ele começou aos 7 anos com o acordeão, que ele tocava nos
bailes do interior. Adolescente, mudou-se para a cidade grande de
Recife, quando passou a tocar em programas de rádio.
Não tínhamos nada lá na roça, nem rádio, nem piano,
nem nada, então me sentia um órfão, lembra-se. Até
fazer 14 anos, eu tocava mais para os bichos, e essa experiência
é parte da minha essência.
No início da era da bossa nova, entretanto, Pascoal já tinha
chegado ao Rio e encontrado trabalho como instrumentista e
arranjador.
Ele passou grande parte dos anos 60 em uma banda com o
percussionista Airto Moreira, tocando uma mistura de samba, bossa
nova e jazz.
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