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Celso Furtado, ao morrer, deixa mais pobre a
inteligência brasileira, mas deixa um país mais rico por sua
obra e por tudo o que fez por nosso desenvolvimento, por sua
colaboração à nossa ética e pelo exemplo de seriedade e
coerência.
Recentemente, em um encontro em Alexandria, ouvi de um
professor egípcio a pergunta: por que, nos anos 70, ele recebia
luzes do Brasil, como de Celso Furtado, e no começo do século
XXI não recebe qualquer nova idéia saída daqui?
Lembrei disso ao ser informado esta manhã da morte de Celso.
Ela representa um empobrecimento para a inteligência brasileira.
Poucos brasileiros deram tamanha contribuição ao pensamento
mundial quanto Celso Furtado. E a grande lição para nossos
professores e intelectuais é que ele não contribuiu traduzindo
idéias estranhas, mas formulando as suas próprias, daqui de
dentro.
Esta talvez seja a resposta que o professor egípcio queria:
Os intelectuais brasileiros, deixaram de contribuir para o
pensamento mundial, porque ficaram prisioneiros de textos
importados ao se submeterem na obtenção de seus doutorados.
Deixaram de pensar o Brasil pelo Brasil. Passaram no máximo a
interpretar o Brasil com olhos de estrangeiros.
A segunda lembrança é de que ele formou uma geração,
porque escreveu para que todos pudessem ler e com isso terminou
traduzido no exterior.
Os intelectuais brasileiros de hoje escrevem de maneira que
só os iniciados em suas profissões entendem, porque escrevem
pensando no público externo e este público não precisa ouvir
aqui cópia do que eles pensam e escrevem por lá.
Celso Furtado foi um exemplo da teoria ligada ao compromisso
prático da política. Isto enriqueceu seu pensamento, no lugar
de aprisiona-lo, porque ele fez isso com coerência. Coisa rara
em profissionais que entram na política e terminam perdendo, nos
meandros do poder, a coerência intelectual.
Celso Furtado, ao morrer, deixa mais pobre a inteligência
brasileira, mas deixa um país mais rico por sua obra e por tudo
o que fez por nosso desenvolvimento, por sua colaboração à
nossa ética e pelo exemplo de seriedade e coerência.
(Cristovam Buarque, foi aluno de Celso Furtado.)
Cristovam Buarque é Ph.D. em Economia. Foi governador
do Distrito Federal (1995-98), em 2002 elegeu-se senador pelo PT
com a maior votação dada a um político no Distrito Federal.
Foi Ministro da Educação (2003-04). É membro do Instituto de
Educação da Unesco e professor da UnB. Você pode visitar sua
homepage - http://www.cristovam.com.br
e escrever-lhe em
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O velho discurso nacional-populista de "enxergar o brasil com olhos estrangeiros" está ultrapassado; obsoleto. E insensato. O modelo keynesiano de Celso Furtado fracassou. Antes enxergar o Brasil com olhos estrangeiros da escola austríaca do que com olhos míupes verde-amarelo.