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Índio Brasileiro quer (voltar a) Ser Índio PDF Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Sugimoto   
Saturday, 20 November 2004

O antropólogo Siloé Amorim: pesquisa no alto sertão nordestino, e descobre cinco povos ressurgidos no sertão.

O antropólogo e fotógrafo pernoitou, entre 1999 e 2002, em casas de sapé e em redes estendidas no precário. Peregrinou no alto sertão alagoano e baiano, para acompanhar e documentar o ressurgimento de povos indígenas.

No levantamento, transformado em tese orientada pelo professor Fernando de Tacca e que acaba de ser defendida no Instituto de Artes da Unicamp, Amorim fez o inventário étnico de cinco povos ressurgidos: Kalankó, Karuazu (foto abaixo), Catókinn, Koiunpanká e Tumbalalá, os quatro primeiros radicados em Alagoas, e o último na Bahia.

O ineditismo do trabalho está ligado ao fato de o fenômeno começar a ser recorrente no cenário indigenista nacional, um território marcado pela falta de diretrizes. Siloé atuou em duas frentes, a antropológica – cuja abordagem já é considerada referência – e a imagética.

Na primeira, o rigor científico levou o pesquisador a reconstituir a trajetória secular dos ancestrais dos índios ressurgidos. Na segunda, reuniu um acervo de três mil fotos e outras 80 horas de gravações em vídeo.

As descobertas, porém, não foram obra do acaso. Em 1987, para obter o título de graduação em antropologia na Escola Nacional de Antropologia e História do México, Siloé fez um trabalho sobre a identidade histórica dos Xucuru-Kariri na cidade alagoana de Palmeira dos Índios, sua terra natal, onde morou até os 12 anos de idade.

Conta que, ao perguntar para o pai sobre o destino dos índios do lugar, obteve como resposta: “Sei não, meu filho. Têm uns índios na Fazenda Canto que o povo diz ser
índio só para tomar terra”. Siloé decidiu, então, viajar durante seis meses, por sete estados brasileiros, estreitando relações com lideranças indígenas do Nordeste.

Entretanto, só foi encontrar os índios ressurgidos em 1998, ano em que voltou definitivamente para o Brasil para lecionar no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Na verdade, explica o antropólogo, o ressurgimento vem sendo registrado desde os anos 1940, mas o fenômeno pesquisado por ele é bastante peculiar.

“Os outros grupos buscavam sua identidade por meio de outros parâmetros. Esses, não. Além de ressurgirem numa seqüência incomum, eles têm uma conduta própria”..

A maioria das populações das tribos, diz Siloé, é constituída por caboclos, gente muito pobre que trabalha na lavoura, na verdade descendentes de índios que tiveram seus aldeamentos extintos a partir da segunda metade do século 19, especialmente nocaso de Alagoas.

As aldeias passaram a ser terras devolutas, que eram transformadas em vilas ou redistribuídas. “Eles deixaram de ser índios e passaram a ser pessoas integradas à sociedade.

Ao mesmo tempo, eram caboclos sem os direitos de índios e muito menos de cidadãos”, explica.

Siloé observa que o ressurgimento é muito mais que a busca da terra perdida. “Aterra é um elemento que aglutina, mas o processo é muito mais complexo e sutil”. Quais seriam então os outros elementos? A procura por uma identidade própria, negada através dos tempos, é uma delas. A outra é a tradição oral, que resistiu apesar da falta de uma memória linear. “Tudo isso foi herdado e transmitido, seja na prática de danças ou na prática de rituais”.

Nesse processo, afirma Siloé, os elementos vívidos vão se conjugando. Não raro, índios – e não-índios – mimetizam práticas e símbolos de outras religiões, entre elas da cató-
lica e do candomblé. “Eles recriam uma nova tribo”, testemunha. Os únicos elementos ancestrais comuns registrados nas tribos são o maracá, instrumento musical uti-
lizado em rituais, e o toré, dança que representa todos os povos indígenas do Nordeste.

Nos encontros, os integrantes da tribo usam vestimentas – conhecidas como praiás – confeccionadas com caruá, fibra típica do sertão alagoano. Fazem parte também do
resgate étnico o uso do arco-e-flecha e de cocares, e a pintura.

Nesse sentido, o ressurgimento vai acabar com os conceitos de índio aculturado, de índio acoboclado ou integrado, usados pelo discurso oficial para identificá-los. “Índio hoje é aquele que se auto-reconhece como tal. A Contituição de 1988 garante esse direito”, historia o antropólogo.

Entretanto, a busca por uma identidade não tem sido das mais fáceis. Os líderes tribais recorreram ao atalho e buscaram apoio de representantes dos poderes públicos locais. Assim, conta Siloé, angariaram a simpatia da Igreja Católica –cujo apoio é ostensivo – de juízes e de prefeitos.

Pelo menos por ora, a utopia de população – cerca de 3 mil pessoas distribuídas nas cinco aldeias – está se concretizando.

Os índios criaram uma espécie de rede de solidariedade, passaram a ser vistos de outra maneira pelos moradores, antes hostis, e vêm recebendo assistência médica, embora ainda não sejam oficialmente reconhecidos pela Funai, órgão incumbido de fazer o levantamento etnográfico. Só a partir daí os povos ressurgidos poderão ter suas aldeias demarcadas.

O Índio brasileiro quer (voltar a) ser índio, o antropólogo reuniu acervo de três mil fotografias Índios ressurgidos dançam o toré durante ritual no interior de Alagoas: três
mil pessoas distribuídas em cinco aldeias

* Luiz Sugimoto Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso

 

unicamp.br


Notas etnográficas : A construção da auto-imagem de povos indígenas ressurgidos. Os Tumbalalá, os Kalankó e os Karuazu, Kóiupanká e Catókinn [1]

por antropólogo Siloé Soares de Amorim [2]

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Resumo

Os Tumbalalá, os Kalankó e os Karuazu, os Catókinn e os Kóiupanká, que durante décadas sobreviveram no anonimato, sem um etnônimo próprio, denominados recentemente como "povos indígenas ressurgidos", buscam, como tais, construir sua identidade indígena fundamentada, por um lado, nos padrões de reconhecimento étnico oficial - influenciada pelas tradições indígenas ancestrais - e, por outro, numa auto-imagem compatível com o processo de 500 anos de "descaracterização" étnica.

Dentro desse contexto, procuram explicações para as suas perguntas e a sua origem, lutando pela obtenção do reconhecimento oficial, na reconstrução de sua identidade como povos indígenas no Brasil Contemporâneo. Assim sendo, este artigo esboça sucintamente os aspectos político-culturais de seu ressurgimento no contexto indígena nacional.

Jaraguá, Maceió, AL, abril/2003.


Reconhecimento étnico no Brasil e o indigenismo

Visto inicialmente como um conjunto de concepções teóricas e de políticas desenvolvidas pelo Estado Brasileiro e outros setores da sociedade, para a emancipação do índio à comunhão nacional, o indigenismo provocou, nesse dualismo de sua política, desde a ocupação colonial a partir de 1500, a "descaracterização" étnica e o extermínio de vários povos.

Aqueles povos que foram obrigados a viver como brancos, dispersando-se na crescente população dominante, tiveram suas características sociais, religiosas, físicas e culturais próprias violadas e diluídas durante o processo imposto pela política de catequeses, civilização e integração do índio aos moldes europeus.

Não obstante, nas últimas décadas do século XX, vários povos considerados extintos vêm reaparecendo ou ressurgindo no cenário político nacional, apesar da indiferença e do abandono do indigenismo oficial que desconhecia sua existência.

Apesar desse fenômeno de ressurgimento étnico versus abandono acontecer em todo o Brasil, é na região Nordeste - porta de entrada da colônia européia - que inicialmente ressurge uma série de etnias tidas como "incorporadas" à sociedade brasileira, consideradas extintas nos registros oficiais da Fundação Nacional do Índio - FUNAI.

Faz-se necessário, portanto, dar visibilidade a essa questão e diferenciar estes "novos povos", dos já conhecidos e/ou reconhecidos pela FUNAI, anteriormente definidos como "índios emergentes"[3], termo que se torna ainda mais significativo quando abordamos a problemática indígena na atualidade devido à própria dinâmica da ressurgência étnica, que sinaliza questões não só na ordem do político, mas principalmente antropológicas que necessitam ser observadas com profundidade.

Segundo o Movimento Indígena, a ressurgência indígena[4]revela, no caso desses povos, uma visibilidade reconquistada e a resistência indígena ao longo de 500 anos[5].

Ou seja, tidos como exterminados, os povos ressurgidos ou emergentes mantiveram uma memória viva, dinâmica, principalmente no que se refere às lutas e resistência dos povos indígenas, impondo à antropologia brasileira o desafio de construir um objeto próprio de abordagem etnológica totalmente diferenciado dos estudos até então realizados.

Imagem e estereótipo

A imagem dos belos índios puros ou isolados,vistos ainda como representantes de uma população pré-colombiana intocável, e a do "grotesco" aculturado, misturado, integrado, ressurgido, contrapõem-se.

No imaginário popular, tais transformações não figuram como parte de um cenário devastador ou transformador dos povos e indivíduos indígenas e suas tradições. Geralmente, a falta de visão e de compreensão desses processos (ao longo de 500 anos) faz com que o coletivo busque nos índios uma imagem idealizada: a do "natural", a do "índio nu" e "puro" que habita nas selvas. Imagens essas que, iconicamente, inculcadas na população, geralmente propagadas pela mídia, provocam olhar o índio ressurgido como aquele "que não é mais índio" e fazem vê-lo como uma geração de remanescentes dispersos entre as massas populares que visam como índios resolver seus problemas de sobrevivência. Por outro, busca no índio isolado, o amazônico, a figura do índio selvagem, puro, natural, "não miscigenado".

O Brasil indígena, ao completar 500 anos de ocidentalização, carrega consigo também as experiências do extermínio de centenas de etnias diferenciadas, e de seus componentes, que alcançavam, calcula-se, mais de 6 milhões de pessoas. O peso dessa experiência de orientação colonial recai ainda sobre o restante daqueles povos que somam atualmente no Brasil o significativo número de 220 etnias, falando mais de 180 línguas, totalizando uma população atual de aproximadamente 700 mil índios[6] que vivem na condição de isolados, contatados e ressurgidos.

Os isolados, em realidade, correspondem a duas formas de ver e situar esses povos. Uma delas diz respeito aos índios que nunca tiveram contato com as sociedades atuais e "vivem livres" na região amazônica, são nômades e até a atualidade não tiveram nenhuma forma de contato.

A outra, são aqueles contatados pela FUNAI, que se recusam a aceitar a integração ou manter o contato como os Zoé (Pará), os Omorê (Rondônia), entre outros que preferem, mesmo estando alguns grupos vivendo em contato com a sociedade nacional, continuar distantes do integracionismo e são considerados ou proclamados "povos livres".

Entre os contatados, figuram aqueles que eram livres, mas que atualmente vivem em Reserva ou Posto Indígena[7] e dependem relativamente da FUNAI para sua sobrevivência, isto é, a maioria dos povos indígenas no Brasil.

Os ressurgidos, isto é, índios que circulam em busca de reconhecimento oficial, como é o caso dos Tumbalalá, em Pambu, município de Abaré, Bahia; os Kalankó e Karuazu, em Água Branca e Pariconha, Alagoas; os Kambeba, às margens do rio Negro, Amazonas; os Pipipam, em Pernambuco; os Xetá, no Paraná, entre outros[8], tentam reconstruir sua identidade historicamente negada - como povos etnicamente diferenciados, lutando pela recuperação e demarcação de seus territórios tradicionais, extintos oficialmente e ocupados por terceiros já então durante os governos coloniais e do Império[9].

Os povos em questão reúnem elementos culturais regionais ligados à cultura sertaneja nordestina, ou seja, uma série de elementos transmitidos no processo de colonização com costumes religiosos e culturais assimilados sincreticamente dos aspectos indígenas, europeus e africanos. Desenvolveram e adaptaram formas de sobrevivência com as dificuldades do semi-árido.

Na memória, guardam aspectos singulares de sua cultura ancestral indígena transmitida e praticada de geração a geração. Em sua diversidade, entre os aspectos culturais mais conhecidos estão o Toré e o Praiá[10], ambos levado a cabo no plano simbólico intermediado pelo pajé ou por um membro por ele designado ou pelo cantador e cantadora·de Toré, uma pessoa respeitada por seus poderes hierárquicos no campo espiritual e por sua capacidade de lidar com os encantados.

O Toré representa um dos mais significativos elementos de união e de identidade entre os povos indígenas no Nordeste[11]. Por seu caráter musical e dancístico, é o elemento mais significativo de sua etnicidade.

É um foco convergente de poder, fornecedor de ideologias, de unidade e diferenciação; é, portanto, como o define Sheila Brasileiro (1999:184) "fonte de legitimação de objetivos políticos" [12] e, claro, de identidade.

O Toré, para os povos ressurgidos, antes do "dar-se a conhecer" para a sociedade envolvente, era praticado apenas por algumas famílias "detentoras" desse conhecimento. A partir de sua apresentação pública como povos diferenciados, passa a fazer parte dos deveres cotidianos desses povos, suas comunidades e seus indivíduos.

No que se refere a suas obrigações espirituais, o Toré passa a ser elemento de iniciação infantil, delimita funções e atribui privilégios tanto no plano social como no espiritual no interior do grupo.

A complexidade sócio-político-religiosa existente no Toré é o elemento central aglutinador entre os povos indígenas do Nordeste, seu caráter ritual implica dois universos principais: o Toré de ordem pública e o de ordem "particular", isto é, o ritualístico.

O primeiro está relacionado a sua etnicidade, é público, é o "nós estamos aqui", pintados e com cocar para mostrar que "somos índios"; dessa forma se apresentam com suas vestimentas em eventos políticos e religiosos. O segundo, sem seus elementos visuais, é praticado no "terreiro", na aldeia e dele participam todos os integrantes.

É a "brincadeira do índio", é sua relação social com os "encantados", isto é, seus predecessores, "índios velhos que se encantaram" e que "visitam a aldeia", que "vivem escondidos no mato" ou mesmo noutras aldeias de outros estados, mas que interagem sensorialmente com a comunidade.

Os três povos ressurgidos entoam[13] e dançam o Toré com variedades tonais e causas distintas. Seus cantos ou toadas às vezes apresentam ritmos que são capazes de hipnotizar o dançante ou ouvinte com o chacoalhar dos maracás, apitos, flautas e as toadas.

Os Kalankó, Karuazu, Kóiupanká e Catókinn (descendentes dos Pankararu e dos Geripankó), praticam o Toré e a dança dos Praiás como ritual e como dança, tendo como elemento musical à toada (voz), o maracá e a flauta, enquanto os Tumbalalá (descendestes dos Tuxá e Truká), utilizam somente o maracá.

O fumo é um elemento muito significativo para esses povos, é no fumar que são invocados os encantados para curar, para defumar, ou seja, limpar o ambiente etc.

No campo simbólico e no sensitivo, tratados poderiam ser escritos sobre o Toré. Porém, outros rituais iguais em complexidade são praticados por esses povos que ressurgem, que recriam e relêem de forma singular suas experiências.

Os Tumbalalá dançam e cantam com ritmo às vezes alegre, às vezes "monótono". Ao chacoalhar do maracá entoam o Toré em seus rituais "particulares" vestidos de taioba (saia) e seu pujá (tocado), ambos elaborados com a fibra do caroá.

A prática de alguns rituais como a "festa do umbú" e a "queimada do cansanção"[14], está intimamente ligada à recuperação da terra indígena.

Determinados rituais ou ciência - como eles os chamam - é somente transmitida uma vez "levantada a aldeia", ou seja, demarcada suas terras e o povo reconhecido.

odos esses rituais e seus segredos são transmitidos de forma hereditária, o que só pode acontecer em terra indígena com local sagrado garantido.

Os povos ressurgidos, por estarem distante de seus descendentes (no tempo e nas relações intergrupais) carecem da terra para resgatar e praticar seus rituais; entretanto, as relações reiniciadas a partir do ressurgimento, estreitam cada vez mais os laços culturais e tradicionais desses povos que, pouco a pouco, reconstroem seu universo cultural e ritualístico.

A construção da auto-imagem

Os aspectos culturais dos Tumbalalá, Kalankó e Karuazu, Catókinn e Kóiupanká ressurgem de metáforas que envolvem, de um lado, as "pontas de ramas" e os "troncos velhos"[15], de outro, o ressurgimento de vários comunidades que se separaram do seu "tronco originário" e se desenvolveram sob infinidades de releituras culturais de origem indígenas em confronto com a sociedade dominante.

Ao mesmo tempo em que tentam desconstruir a imagem do índio genérico que a sociedade majoritária construiu em torno da identidade indígena no Brasil, os povos ressurgidos visam construir uma "outra" imagem que respalde sobretudo em padrões visuais sua identidade contemporânea como índios.

No processo dessa construção, por um lado, demandam a restituição de seus bens territoriais, por outro, evocam sua identidade étnica repleta de diferenças entre o ancestral pré-cabraliano e o atual, que transita nas periferias urbanas, semi-urbanas, rurais; entre suas aldeias, a selva e as bancadas parlamentares almejando criar paralelos entre seus espaços étnicos e o mundo que os rodeia, e uma paridade entre a imagem que demanda esses espaços sócio-politicos e uma imagem visual que tentam construir com a finalidade de se auto-identificar e serem identificados.

Nesta complexidade, as construções do mundo ou do universo social que buscam erigir demandam desses povos resgatar e incorporar o universo indígena que foi se distanciando paulatinamente de seus ancestrais, no tempo e no espaço, mantendo apenas possíveis relações esporádicas com estes últimos e buscando assimilar também o mundo dos "brancos", para eles, burocratizado e sinuoso, com o qual interagem no processo de ressurgência étnica.

O universo desses povos, antes vistos como camponeses pobres, sertanejos marginalizados, afastados de seus descendentes, ao ressurgir, criou outras formas de organização social, de parentesco.

Distanciados de seus descendentes por décadas, foram levados a optar por novos aprendizados que os afastaram ainda mais do "tronco" ancestral, de seus mitos, de sua cultura. No processo em que se encontram, são por vezes incentivados, por outras obrigados a resgatar e gerar redes de relações com um mundo totalmente adverso ao que já estavam habituados, tendo que compor e recompor, ordenar e reordenar seu universo cultural, político, econômico, religioso, psíquico-social, ecológico, buscando superar barreiras que os separam entre ambos os mundos: o indígena do qual "estavam distante" e o do branco, com os quais mantinham uma dinâmica totalmente contrária àquela exigida no processo de ressurgência.

Na construção da auto-imagem estão projetadas múltiplas identidades (religiosas, culturais, sociais, raciais, entre outras) acumuladas ao longo dos anos de afastamento do "tronco", com as quais esses grupos tiveram que conviver, inclusive de "forma desconexa" da realidade indígena.

Esta, com toda sua carga representativa contemporânea, passa a funcionar de forma totalmente estabelecida, estando eles de acordo ou não, tenham eles assimilado ou não tal processo, tal realidade, sua maneira de ser nesse novo contexto social, político, religioso, cultural. Neste sentido, aprenderam a anunciar de forma sui generis sua realidade, sua maneira de ser atual.

Enquanto grupos étnicos, especificam elementos (externos) de enunciação dessa realidade que são assimilados e comunicados por meio de recursos dancístico-ritualísticos, elementos visíveis-sensíveis que compõem suas formas de resgate sócio-cultural e religioso e que expressam suas necessidades de reafirmar-se etnicamente frente a determinadas situações de conflitos internos (com seus semelhantes) e essa multifacetada realidade externa, que gera uma enorme capacidade de estabelecer associações com diferentes estruturas cósmicas/indígenas e o mundo dos brancos que os rodeia.

Tal processo leva-os a abstrair e eleger significados que consideram - mais ou menos - pertinentes para a construção de sua imagem e a reconstrução de seu universo indígena atual.

A construção identitária ou da auto-imagem desses povos obrigatoriamente passa por dois focos de análise: Um corresponde ao processo interno de construção e reconstrução identitária da própria imagem (aqui me referindo não aos elementos gráficos dessa imagem, esse merece um outro tipo de tratamento) do grupo, como etnia específica, isto é, com etnônimo próprio e suas estruturas hierárquicas (sócio-culturais, religiosas e políticas). As relações desses sujeitos e suas representações davam-se de forma desconexa.

Com a necessidade de reconhecimento formal ou oficial, criaram novos modelos de coesão grupal, novos hábitos de interação com o meio social e ecológico, e teceram novas formas de inter-relações com seus "parentes" e o mundo que os rodeia.

O outro está estreitamente ligado às relações com o mundo externo, com a população local, regional, internacional e, mesmo, perante seus semelhantes que, todavia, encontram resistência em assumir esses "novos" índios como parte da população indígena nacional devido a sua transfiguração étnica que precisa de suporte visual para sua identificação.

Nesses dois aspectos, os índios em questão se inserem no Movimento Indígena por uma necessidade intrínseca a sua resistência como povos aqui existentes há milênios, sobrepassando os limites de sua sobrevivência no tempo e no espaço.

A exteriorização de suas memórias, principalmente no que se refere à dança, canto e rituais, observadas como construtoras de sua identidade e de sua auto-imagem, é o caminho que os leva a simbolizar essencialmente as relações abstratas, como a cosmologia, narrativa mítica intimamente ligada a seus ancestrais, cujas relações, a princípio, reorganizam seu universo indígena e sua identidade atual a qual encontra-se num momento de reflexões profundas e faz parte de um processo delicado, longo, que precisa de todo o apoio para se auto-afirmar.

A dinâmica desse processo de ressurgência demanda desses índios uma autonomia que os obriga a interagir com flexibilidade. Tal situação obriga-os, como forma de resistência, a manter uma imagem social (preestabelecida e disseminada entre a sociedade majoritária), mas, principalmente, a cultivar uma imagem visual, para que sejam aceitos como índios nos parâmetros do indigenismo oficial e perante a sociedade nacional.

Problemática que nos abre para outras formas de abordagem antropológica devido a que fixam e estabelecem relações e constroem imagens identitárias (visíveis ou não), tomando como referência elementos sócio-culturais e visuais de acordo com as de seus descendentes (Pankararu, Tuxá ou Truká, e Geripankó).

Apesar de compartilhar com os índios da região as mesmas problemáticas e os mesmos espaços - temporal, geopolítico, social e cultural -, diversificam seu universo étnico, o que os torna capazes de confrontar e eleger os significados que consideram pertinentes para essa construção, na qual são levados a reinventar uma imagem não só nos termos das relações sociais estabelecidas entre o universo indígena e o dos "brancos", mas também como uma forma de autonomia e, principalmente, no sentido mesmo de cultivar uma imagem e apropriar-se dela materialmente, isto é, visualmente ou graficamente, que os distinga e os legitime enquanto índios, enquanto um povo diferenciado perante não só a sociedade como um todo, mas principalmente frente a si mesmos, que nasceram ouvindo dizer que seus pais, seus avós, seus tios eram índios e que muitos "foram pegos a dente de cachorro".

No imaginário dessas pessoas, isso tem o significado de que ao recobrar o direito de outra vez ser índio estão também devolvendo-o a seus descendentes, ao mesmo tempo em que contribuem para a construção e a formação de imagens (visuais e sociais) das sociedades indígenas contemporâneas que, em sua onipotência, própria desses povos, refletem os preceitos da sociedade que os submeteu e na qual estão submersos, expressando, dessa maneira, a realidade concreta de sua existência.

Gradativamente, mediante o contato direto com a sociedade dominante, esses povos reformulam a imagem (social) construída e reafirmam sua identidade através de estratégias a serem adotadas para sua continuidade étnica nos espaços estabelecidos e outras por estabelecer na construção (visual) da auto-imagem patenteada nos meandros do indigenismo formal, que alimenta uma imagem dos índios como um modelo a ser seguido, e mesmo da antropologia que aborda normalmente a questão indígena mediante métodos de análise levados geralmente a estudar suas relações de parentescos.

É, portanto, fundamental compreender que ser índio hoje é, em diversos contextos, acionar várias identidades juntas, a do pobre, a do negro, a do camponês, entre outras.

Acionadas simultaneamente, essas identidades possibilitam a expansão e o aprimoramento da identidade dos índios no processo de ressurgência étnica e suas manifestações. Nestas, vamos encontrar sua parte índia, negra, branca. Vamos encontrar manifestações arquetípicas do índio que assimilou as tradições políticas, sociais, religiosas e culturais do europeu, do africano, das inumeráveis tribos que transitavam pelo território antes e depois de Cabral; dos franceses, holandeses, árabes.

Vamos encontrar manifestações e expressões dos cangaceiros, dos coronéis, do paternalismo, do clientelismo, do compadrio e, finalmente, dos povos do Continente Americano contemporâneo, o que nos coloca diante de uma diversidade étnica (indígena) que extrapola nossa concepção (estereotipada) a respeito desses núcleos populacionais no Brasil de hoje.

Isso é incontestável. É uma riqueza que devemos considerar.

Suas narrações orais e visuais nos envolvem em eloqüências que especificam o significado próprio do ato e das ações de ressurgir e envolvem processos profundos de restauração e reestruturação étnica e cultural numa política de inserção populacional indígena.

Isso coloca em evidência as características da política nacional em direção aos povos indígenas cujas características físicas e culturais nesses 500 anos de ocupação e invasão de seus territórios os envolve em fatalidades históricas e os conecta a uma infinidade de termos de lacunas etnográficas que resultam em elucubrações ideológicas e distorcidas da realidade indígena no Brasil quinhentista e a hesitação do órgão indigenista de atuar em parceria com eles; nesse sentido, espera-se, por meio deste ensaio, uma aproximação e diálogo com esses sujeitos sociais e a sociedade brasileira como um todo.


[1] Mestrado em Multimeios - na linha de pesquisa Antropologia Visual - do Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, sob a orientação de Fernando de Tacca. Ficha catalográfica (Biblioteca Central) Am68i: Amorim Siloé Soares de. Índios ressurgidos: a construção da auto-imagem, os Tumbalalá, os Catókinn, os Kalankó, os Karuazu e os Kóiupanká [s.n.], 2003

[2] Formado em Antropologia pela "Escuela Nacional de Antropología e Historia" - ENAH, México.
[3] Termo inicialmente utilizado para designar os Kalankó, Karuazu e Tumbalalá, foi utilizado pela imprensa alagoana que divulgou a "apresentação" ou a emergência destes povos à sociedade. Veja os jornais: Tribuna de Alagoas, n. 808, ano III, Maceió, 25 de abril de 1999; Gazeta de Alagoas, Maceió, 25 de abril de 1999. Posteriormente, foi adotado o de "ressurgido" pelo Conselho Indigenista Missionário- CIMI para diferenciá-los de grupos sociais economicamente emergentes. Porém, ambos os termos são utilizados por antropólogos e pelo Movimento Indígena, e pretendem designar a condição de povos indígenas marginalizados no contexto das políticas indigenistas oficiais e que buscam seus direitos como povos diferenciados.

[4] É importante esclarecer que os povos ressurgidos na realidade descendem dos povos que os reconhecem e os apoiam em seu ressurgimento; geralmente são povos ou comunidades que emigraram de suas aldeias em busca de sobrevivência. Em ordem, os povos Tumbalalá descendem e foram reconhecidos primeiro pelos Tuxá (Bahia) e Truká (Pernambuco) e se apresentaram publicamente em 1998. .Em Alagoas, os Kalankó, em 1998, os Karuazu, em 1999, os Kóiupanká, em 2001 e os Catókinn, em 2002, descendem e foram reconhecidos pelos Pankararu (Pernambuco) e pelos Geripankó (Alagoas).

[5] Conselho Indigenista Missionário - CIMI. Outros 500, construindo uma nova história, Editora Salesiana, São Paulo, 2001:157-165.

10] Os Praiás formam um tipo de sociedade secreta na qual ninguém "pode saber" quem ocupa a vestimenta denominada praiá; ao mesmo tempo, o praiá (a veste), é o próprio "encantado", ou seja, um espírito ancestral. O moço que a veste é seu "dono", zela pela veste e pelo espírito: lhe dá garapa (suco de cana ou água adoçada) e fumo e o leva para dançar no terreiro da aldeia, além de cuidar e zelar pelo bom estado da vestimenta. Entre os Pankararu, dos quais descendem os Kalankó e Karuazu, Catókinnn e Kóiupanká, sua diversidade simbólica está representada por vários aspectos festivo-ritualísticos particulares, como a "dança dos praiás", em que representam uma infinidade de animais e suas danças; "flechamento do umbú", festa-ritual que dura quatro semanas a partir do flechamento do primeiro fruto do umbuzeiro; "menino do rancho", outro ritual que envolve diretamente os Praiás, no qual uma criança é iniciada, geralmente para ser curada de algum malefício, doença etc. Esse ritual implica, também, na iniciação de um praiá menino, cuja complexidade não permite que seja descrita superficialmente.

[11] Os povos indígenas no Nordeste (mais Minas Gerais e Espírito Santo) somam um total de 46 etnias reconhecidas pelo Movimento Indígena. São mais de 170 mil pessoas (Cf. Jornal Porantim, ano XXV, n. 253, março de 2003). Não estão somados aqui os índios do Espírito Santo nem os de Minas Gerais, somente os dos nove estados que compõem o Nordeste e que vivem em condições similares, tanto históricas como étnicas, econômicas, sociais e religiosas. Sua problemática de inserção tanto no Movimento Indígena como no indigenismo oficial tem origens similares. Pela FUNAI, das 46 etnias, são reconhecidas oficialmente 33. O órgão ainda não reconhece os povos ressurgidos que são atualmente 13. Aqueles que se deram a conhecer publicamente estão esperando reconhecimento oficial, além de outros que estão se organizando para o mesmo fim, buscando também formas de legitimação, que implica na elaboração de um laudo (levantamento/reconhecimento) antropológico da etnia para identificar o povo e delimitar o território tradicional. Esse levantamento só tem validade se autorizado e afiançado pela FUNAI e pode levar anos; isso irá depender da coesão e formas de luta desses povos e de liberações burocráticas. O reconhecimento é importante para identificar, demarcar e homologar as terras indígenas e a restituição dos seus direitos contemplados na Constituição Brasileira.

[12] Sheila Brasileiro. Povo indígena Kiriri: emergência étnica, conquista territorial e faccionalismo, apud João Pacheco de Oliveira (organizador): A viagem de volta: etnicidade, política e reelaboração cultural no Nordeste indígena, Rio de Janeiro, Contra Capa, 1999:184.

[13] De toante. Entoar um Toré, cantar ou dançar solenemente. Todos os povos indígenas do Nordeste entoam ou puxam formalmente o Toré. O toante (o cantador), estreita sua relação sagrada com os encantados, o que acontece somente nos locais apropriados. O Toré, como dança, pode ser publica ou não.

[14] Planta de pelo urente da família das euforbiáceas, loasáceas e urticáceas que provoca em contato com a pele, queimação e coceiras.

[15] É muito comum ouvir destes povos que descendem do "tronco" Tuxá, ou "ponta de rama" Pankararu, entre outros.

Comentarios (24)Add Comment
...
escrito por Visitante, 2005-04-01 09:30:22
Muito bom esse texto.Parbens!
rafael e katarina
escrito por Visitante, 2005-04-05 07:41:21
legal
...
escrito por Visitante, 2005-05-14 20:13:23
O Indio Comtemporaneo: qual a sua situao?
Éééé.....
escrito por Visitante, 2005-05-18 15:50:57
Como isto interesaaaaante.......
valeria c de souza
escrito por Visitante, 2005-06-06 15:21:37
valeu professor, vc muito inteligente q trabalho lindo.
victoria leal
escrito por Visitante, 2005-06-14 16:39:37
muito grande e nao e assim a vestimenta pois ela e inventada esta ai
parabéns... pelo envolvimento e pela aul
escrito por Visitante, 2005-06-17 05:20:19
o Br seria muito melhor se resgatassemos nossas dvidas... negros e ndios merecem repara�o. brilhante trabalho
...
escrito por Visitante, 2005-06-18 11:27:18
parabéns pelo trabalho e pela iniciativa!!!
maycon
escrito por Visitante, 2006-03-25 16:41:32
Eh muito interessante.Muito booooooooooooom, parabennnnnnssss
sss.
Cara porretaum
escrito por Visitante, 2006-04-03 14:59:38
null

Eu achei a desgraça uma puta ki pariu
eu odeio tudo ki tenha a ver com GEOGRAFIA....
....foi mal, geografia eh um xingamento pavoroso d+

.................................................................vlw!
bom
escrito por Visitante, 2006-05-29 11:46:10
esta otimo, e isso q eu precisava, obrigado por me oferecer isso
é preciso fazer por hoje sm querer reveter o que já acanteceu!
escrito por Taísa, 2007-02-02 19:45:50
ao contrário do que muitos defendem, acredito que é preciso sim fazer algo para dar ao índio o orgulho e direito de ver sua cultura "limpa" sem interrupções que a negram, precisamos acabar com a imagem de um índio folclorizado!Porém discordo que ao fazendo o índio ser respeitado leve e somente leve em conta um ato de desculpas pelo estrago feito à sua cultura ( porrada dad não se tira!)
parabéns pelo trabalho feito!
Os aspéctos físicos do índio
escrito por GENACI, 2007-04-14 19:18:34
eu queria saber todos os aspéctos físicos do índio smilies/grin.gif
os aspéctos físicos do índio
escrito por GENACI, 2007-04-14 19:22:23
eu queria saber tudo sobre os aspéctos físicos do índio smilies/grin.gif smilies/cheesy.gif smilies/wink.gif smilies/smiley.gif smilies/shocked.gif smilies/cool.gif smilies/tongue.gif :- smilies/kiss.gif
...
escrito por max, 2007-04-16 23:16:56
Ficou muito ruim! smilies/angry.gif smilies/grin.gif smilies/cheesy.gif smilies/tongue.gif smilies/kiss.gif smilies/smiley.gif smilies/wink.gif smilies/cheesy.gif
falta de informação
escrito por angela, 2007-06-07 04:14:12
estou procurando pinturas corporal indígena, quai os tipos de pintura os índios faziam. Cada ritual tem um tipo de pintura.estou fazendo um trabalho pra faculdade sobre pintura corporal tem as imagens mas falta a descrição para que aquela pintura era feita e qual o seu significado. Tenho que apresentar a curadoria terça feira e não acho. Espero que vocês me ajudem.
ñ tenho
escrito por andreza raiane, 2007-07-09 18:15:55
eu gostei muito dessa história ,mas eu quero saber sobre a história de abaré smilies/angry.gif smilies/angry.gif
A cultuura indígena
escrito por laiane miranda, 2007-11-06 18:02:35
smilies/smiley.gif smilies/smiley.gif Ficou muito bacana!!!!!!!!! pois para min, tudo que se preserva e se expoe a sociedade atualizada,será de grande importancia,principalmente demontrar valores culturais indígenas do nosso povo ,que nem sempre é explorado e estudado ,mas sim, na maior parte das das vezes é esquecido e visto como algo primitivo e desnecessario para os "grandes avanços globais " que a cada dia se tornam mas coerentes do que a propia valorizaçao da nossa cultura ! precisamos acordar para este mundo global e passar a dar mais valor ao que realmente se tem valor.
ruim de mais este site !!!!!
escrito por este saite é uma porcaria não achei nada que queriae a maioriade cupa foi google !!!!!, 2008-03-08 20:21:35
smilies/angry.gif smilies/sad.gif smilies/shocked.gif smilies/cry.gifsite ruim não achei minha pesquisa e a maioria de culpa foi o google!!!!!
Te amo Mariela!!!!
escrito por Nick, 2008-04-02 12:01:34
Te amooooooooooooo
melhoria
escrito por Maria edurda, 2008-04-15 11:27:21

Oie
tdo bem
acho que devia fazer mas galerias de fotos
pq eu estudo muito isso... smilies/cheesy.gif
indios
escrito por giovanna, 2008-04-17 00:16:46
queria saber as condiçoes economicas e sociais dos indios na atualidade............... smilies/cry.gif smilies/sad.gif
joia
escrito por isael, 2008-05-07 15:51:41
muit bem arcumentado smilies/grin.gif
...
escrito por ilos, 2008-08-28 00:47:30
Para quem ja ouviu falar em teoria da evolução, esses são os exemplos típicos do fracasso.

Viva à ciência. Viva ao domínio do planeta.

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