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Traçar considerações sobre o ensino superior brasileiro, não
é tarefa fácil, principalmente quando dele se tem experiência
apenas como discente, aprendiz.
É nessa condição que observamos que esse ensino tem se
apresentado um tanto desgastado e que as estratégias utilizadas
para resgatar sua credibilidade e auto-confiabilidade pouco tem
apresentado resultados convincentes.
As circunstancias econômicas, sociais e até mesmo culturais no
Brasil, forçadas pela conjuntura mundial dos novos paradigmas
emergentes, em conjunto com as políticas implementadas para a
reformulação do ensino superior, tem forçado o encaminhamento
de medidas que afunilam o ensino superior brasileiro à condição
de uma mercadoria cujo valor se deflaciona e carrega junto os
ideais de muitos que nele ainda acredita.
Busca-se expressar com essa forma desiludida e pessimista do
panorama atual do ensino superior brasileiro, que no mundo
globalizado de hoje, as transformações que acontecem de forma
cada vez mais rápida e acelerada.
Todas as dimensões, política, econômica, social e científica,
provocam repercussões em todas as organizações, e de maneira
especial na universidade, que apesar da condição privilegiada
que possui, de detentora e formadora de uma "elite"
intelectual, não tem conseguido prover soluções para a sua
auto-realização e confiabilidade.
Essa instituição, pelo seu caráter milenar e pelas suas funções
de produção e disseminação do conhecimento, deveria analisar
todo esse complexo de transformações, procurando adaptar-se e,
ao mesmo tempo, através da formação de profissionais, da
realização de pesquisas e de sua interação com a sociedade,
intervir nos vários aspectos desse processo, criticando-o; o que
de fato tem acontecido, avaliando-o e sugerindo caminhos
alternativos.
Contudo, o que se tem visto é a falta de compromisso por
parte dos dirigentes com essa problemática.
Eunice Durham, dona do título de professora emérita da
Universidade de São Paulo, ao traçar um diagnóstico da situação
das universidades brasileiras, enfatiza que o problema não é
simplesmente de conjuntura interna, mas engloba variantes de vários
países.
São problemas comuns e que se apresentam "... como se os
diferentes países estivessem orquestrando 'variações sobre um
mesmo tema' ".
Focaliza ainda que não adianta incrementar as instituições
de nível superior se o objetivo é continuar com a mesmice. O
incremento só funciona se haver mudança, se o novo aparecer
enquanto "novo", enquanto proposta de superação do
tradicional.
A autora argumenta ainda que apesar da situação atual
oscilar conforme os variantes externos, a raiz do problema
"... resulta da opção política que foi feita ainda na década
de 50, durante a prolongada discussão da primeira Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional".
Tal política assegurava investimentos federais para a criação
e manutenção de grandes universidades públicas visando aliar
ensino e pesquisa.
No entanto, essa política criou distorções que se
apresentam hoje, também, como fator determinante da deflação
do valor do ensino público superior.
Durham, focaliza que dentre essas distorções, destaca-se
"a associação entre ensino e pesquisa que tendeu a se
manter antes como bandeira ideológica do que como realização
concreta da maioria dos setores universitários públicos..."
Aliado as causas apontadas acima, cabe ainda ressaltar as
transformações no ensino superior sofridas em face a
reestruturação de 68 com Lei 5.540 que é responsável pela
atual estrutura e se apresenta como incapaz de vislumbrar
caminhos para a superação de tais problemas.
Questões como a desarticulação entre o ensino da graduação
e o ensino da pós-graduação; a divisão entre ciclo básico e
ciclo profissional causando seqüelas na formação profissional;
a exagerada departamentalização dos vários setores dentre
outros, todos resultados da reformulação da 5.540 e que se
apresentam como fatores que contribuem para a atual conjuntura do
ensino superior brasileiro.
A conseqüência primeira desse processo é o esvaziamento ou
ainda sucateamento das IPES (Instituições Públicas de Ensino
Superior), e que tem se manifestado dentre outras formas através
dos problemas de ordem interna nessas instituições,
principalmente no que concerne a falta de políticas voltada ao
estímulo à docência e apoio nas iniciativas que consolidam o
tripé:
- ensino,
- pesquisa, e
- extensão, traduzidos através de uma remuneração digna
de uma elite intelectual.
Ao explanar sobre a situação atual das Universidades,
Laymert G. S. em artigo para a folha de São Paulo, comenta que:
"... o desmantelamento das universidades públicas parece
inoxorável [ e que ] ... a destruição delas deixará um enorme
vazio que não será ocupado pelas particulares, pela simples razão
de que estas nem merecem seriamente o nome de
universidade..."
E ai o autor faz uma exceção às PUCs , mas que está espremida
entre a função pública e o contrato de trabalho privado.
Como resultado desse panorama em que se apresenta o ensino
superior brasileiro, está a conseqüente estagnação da produção
científica num contexto geral, uma vez que no Brasil apenas 13%
dos docentes tem doutorado e 22% tem mestrado.
Outro quadro que acentua essa problemática é o longo tempo médio
de formação de um doutor ou de um mestre (Leite, D. & Morosini,
M.,1992).
Apesar dos números acima apresentarem-se de forma
generalizado no que concerne aos vários tipos de instituições
de nível superior, não resta dúvida que no Brasil, as IFES são
as que mais geram conhecimento fundamentados na investigação
cientifica e como tais, elas sobrevivem.
Feito o questionamento sobre como está o ensino superior
brasileiro e traçadas algumas considerações, resta uma outra
questão: O que fazer para reverter esse quadro?
Toda essa conjuntura dado a preocupação que gera, pode nos
remeter, se não tivermos conhecimento de causa dessa problemática,
a respaldar a argumentação da proposta Neoliberal quando
encaminha políticas em diversos segmentos voltadas às privatizações.
Nesse sentido, na tentativa de responder o questionamento
acima, cabe inserir nas análises a preocupação de compreender
a quem interessa essa desestruturação do ensino superior
brasileiro, a qual sistema, grupos, ou política isso é
interessante e porque medidas plausíveis e convincentes não são
tomadas para resgatar sua credibilidade.
* José Carlos S. de Mesquita, é Pedagogo/Especialista
em Adm. e Planej. para Docentes
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DEMO, Pedro, 1994. Crise dos paradigmas da educação superior.
Educação Brasileira. Brasília, 16 (32): 15-48,
DURHAM, Eunice
D' AMBRÓSIO, Ubiratran, 1999. Educação para uma sociedade em
transição. Campinas, SP: Papirus
FOLHA de SÃO PAULO. Caderno mais 04/06/2000
LEITE, D. & MOROSINI,M., Universidade no Brasil: A idéia e a
prática. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. 73
(174):242-254. Brasília, maio/agosto. 1992
MOROSONI, Marília, 2000. Revista Professor do Ensino Superior:
identidade, Docência e Formação, Brasília: DF.
pedagogia.pro
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