|
O Brasil é o único País da América Latina
que adotou a redução de risco como política oficial. As
políticas repressivas do passado foram
paulatinamente substituídas por outras nas quais predominam as
distribuições de seringas, cachimbos para uso de crack e
camisinhas, numa atitude mais compreensiva com relação
aos usuários de drogas. A razão aparente é protege-los
da AIDS e da Hepatite tipo C.
Drogas: Repressão Não Resolve? - Não seria, pelo contrário,
aumentar os riscos através da liberalização de todas as drogas
hoje proibidas?
Recentemente a Revista Época, nº 333, 04/10/2004 www.epoca.com.br, publicou uma
entrevista REPRIMIR NÃO RESOLVE - com a psicoterapeuta Mônica
Gorgulho, Diretora da Associação Internacional de Redução de
Danos (International Harm Reduction Association - IHRA) e
ex-Presidente da Rede Brasileira de Redução de Danos (REDUC).
Nesta entrevista, ela defendeu a idéia de que repressão não
funciona para reduzir os problemas de abuso de drogas e suas
conseqüências sociais e apoiou programas governamentais para
estimular o uso seguro dessas substâncias, políticas
já seguidas pelo governo brasileiro nos últimos anos.
O Brasil é o único País da América Latina que adotou
a redução de risco como política oficial. As políticas
repressivas do passado foram paulatinamente substituídas
por outras nas quais predominam as distribuições de seringas,
cachimbos para uso de crack e camisinhas, numa atitude mais
compreensiva com relação aos usuários de drogas. A razão
aparente é protege-los da AIDS e da Hepatite tipo C.
Link aqui: Estadão
21/05/03 "Governo vai dar cachimbo a dependente de crack"
As antigas políticas repressivas foram identificadas pela
entrevistada, bem assim como por todas as instituições e fundações
internacionais ligadas às práticas da redução de risco, como
oriundas de duas fontes.
Em primeiro lugar, os usuários de drogas eram vistos como
criminosos e submetidos a sentenças judiciais severas, inclusive
prisão; em segundo lugar, e ela não vê nenhuma diferença
entre elas, eram diagnosticados como doentes mentais e submetidos
a tratamentos médicos.
Dentro desta nova visão baseada em estratégias mais
avançadas, eles passam a ser vistos como cidadãos
com seus direitos, que podem ou não cometer crimes e ter ou não
alguma perturbação mental.
No entanto, ela repetiu diversas vezes, redução de
risco não significa legalização de drogas ilegais.
Mas
para onde estas práticas apontam? Se não é para a legalização
é pior ainda pois sugeririam aos governos agirem contra a lei!
Sugerem ao Executivo desprezar as leis aprovadas pelo Legislativo
e reforçadas pelo Judiciário!
Na minha opinião a intenção é criar um fait accompli que,
tornará impossível a não aprovação de novas leis que
legalizem as drogas [*].
Examinando mais profundamente a entrevista e a vasta
literatura sobre o assunto podemos verificar que tais
argumentos não estão baseados na verdade mas em meias
verdades/meias mentiras.
Meias-verdades são passíveis de gerar mais confusão e
perturbação mental do que mentiras claras porque, enquanto as
últimas são fáceis de perceber, o mesmo não ocorre com
meias-mentiras.
Estas não são facilmente identificáveis porque sua
falsidade fica encoberta pela parte meia-verdade que serve para
enganar.
Por exemplo, quem poderia discordar do pronunciamento inicial da
entrevista, de que a civilização convive com as drogas
desde o início e de que é pouco provável que no futuro
possa existir um mundo sem drogas?
Qualquer pessoa que conheça a História não pode discordar
desta assertiva. É perfeitamente conhecido que a cerveja e o
vinho existiam já entre os Sumérios.
Os guerreiros árabes usavam hashish desde antes de Maomé e o
mesmo foi largamente utilizado pela seita radical dos Assassinos,
em árabe, hashishim.
Muitas drogas foram utilizadas por várias culturas nos
rituais religiosos. Poderíamos citar uma enorme quantidade de
drogas utilizadas desde tempos imemoriais até o presente.
No entanto, não se segue que este argumento histórico possa
formar uma sólida base para defender a legalização das drogas,
na realidade são um non sequitur!
A base é tão falsa que poderíamos dizer que matar não é
crime, já que convivemos com assassinatos desde Caim. Poderíamos
usar o mesmo argumento sem sentido, mas altamente persuasivo, a
respeito de roubo, contrabando, escravização, tráfico de
mulheres, pedofilia e quase tudo que nosso senso comum civilizado
condena.
A civilização é exatamente o oposto de aceitar o mal como o
bem! A função das leis sempre foi limitar os impulsos
destrutivos com os quais, não obstante, devemos conviver, já
que fazem parte de nossa vida mental.
Claro que legal ou ilegal são definições das sociedades,
como diz a entrevistada.
Mas poderia ser diferente? Ela diz que certas drogas eram
legais no passado e se refere ao ópio, que já foi moda nos EUA
e na Europa, aonde os fumaderos chegaram a ser lugares chiques de
encontro.
Mas ela não diz uma palavra sequer das razões pelas quais o
ópio foi proibido!
Será que alguém, sem nenhum motivo ou razão tomou esta
decisão?
Ou não teria sido pelos grandes danos causados aos usuários
e à sociedade em geral?
Inclusive o caso do ópio nega totalmente a idéia básica
de que repressão não funciona. Quem fuma ópio hoje em dia?
Outra meia-verdade é a comparação do uso de drogas com
trabalho em situações de extrema tensão, em ambientes
insalubres a condição preponderante na atualidade
e até mesmo com fast food.
Estas são afirmações para criar confusão na mente do
ouvinte ou leitor, da mesma forma que apelar para poderosos
interesses econômicos contra a liberalização.
Como
a entrevistada não identifica tais interesses citarei alguns: os
laboratórios que produzem drogas oficiais para serem
prescritas por médicos credenciados para tal. Tanto uns como os
outros estão interessados na proibição para evitar a competição
pelo livre mercado.
Não obstante existirem riscos potenciais nestas drogas, eles
são monitorados constantemente por cientistas e pesquisadores,
ao menos até certo ponto. As autoridades da área de saúde freqüentemente
relatam casos de danos e até mesmo proíbem certas drogas,
retirando-as do mercado.
Curiosamente, o mesmo argumento de poderosos interesses
econômicos nunca é usado na outra direção, aquela dos
defensores da legalização, que contam com somas astronômicas
de dinheiro de poderosas fundações e ONGs.
Seria apenas um desprendido interesse amoroso pela humanidade,
sem prever lucros vultuosos?
Mas a medalha de ouro pelas meias-mentiras vai para o velho
argumento de que é a proibição que causa os danos!
Este é um argumento invertido e pervertido para
convencer que não são os óbvios danos das drogas para os indivíduos
e para a sociedade que levaram à proibição, mas pelo contrário
os danos advêm da proibição e da ilegalidade!
Não se pretende apresentar este argumento para debater
livremente com a opinião contrária, mas ele é geralmente
proferido como a única expressão da verdade absoluta que não
admite contestações!
No fundo, esta
idéia tem a intenção de levar a civilização a abolir todas
as leis, Constituições, tradições, religiões e qualquer
coisa que seja um obstáculo à completa legalização dos
crimes.
Contrariamente ao conhecimento tradicional de que as
leis foram estabelecidas para inibir e punir crimes e abusos
mas que ocorre exatamente o oposto: são as leis que
causam os crimes! Portanto, uma sociedade sem lei seria o Paraíso
na Terra, numa óbvia inversão de substância e definição.
Desses argumentos seguir-se-ia que o álcool ou o fumo, que são
legais, não causariam nenhum dano ou prejuízo aos usuários e
à sociedade. Estranho; pois os adeptos da redução de riscos
consideram que estas drogas representam o mal absoluto!
É impressionante como eles se utilizam simultaneamente de
duas assertivas opostas entre si: as drogas não causariam dano
algum se não fossem proibidas; ao mesmo tempo, drogas que são
legais até mesmo fast food! são as mais perigosas
de todas.
Este é um exemplo da onipotência do pensamento que rege os
mundos científico e intelectual: diga qualquer coisa, mas faça-o
com firme convicção, que ninguém o contestará!
Enquanto na lógica tradicional, idéias opostas mutuamente se
excluem, nesta lógica ilógica são dialeticamente
aceitáveis desde que sejam proferidas com enorme convicção.
E se alguém contestar será imediatamente considerado um ser
desprezível e ignorante dos mais recentes desenvolvimentos
da ciência e da epistemologia. A ambigüidade se torna a
rainha da argumentação.
Interpretações enganosas de dados estatísticos são publicadas
amiúde para provar que o fumo é a causa de maior número de
doenças do que as drogas ilegais. Isso é verdade em números
absolutos mas uma mentira quando examinamos os dados relativos.
É verdade porque o número de fumantes excede em milhões o
de usuários de drogas pesadas. É óbvio que o número de
fumantes que adoecem e morrem, mesmo de causas não relacionadas
com o fumo seja muito maior. Enquanto as doenças de que sofrem
os usuários de drogas sempre são causadas pelo próprio uso.
Uma outra conclusão nunca mencionada a se retirar destas estatísticas
é que, se elas provam alguma coisa, é o fato de que a legalização
aumenta enormemente o número de usuários, como seria de esperar
racionalmente.
O
caso da Holanda é exemplar. Mas estes dados são anátemas e
jamais devem ser mencionados. A proibição, na realidade, é que
inibe usuários em potencial.
Outras estatísticas que apontam contra a legalização são
sistematicamente negadas. Como, por exemplo, em 1980, após as
políticas liberalizantes do governo Carter, havia 25 milhões de
usuários de drogas nos EUA.
Após oito anos de administração Reagan e uma combinação
de repressão com políticas educacionais, este número foi
reduzido à metade, 12,5 milhões. Hoje já sobem novamente, após
oito anos de Clinton, estando em torno de 15 milhões.
Deve a civilização aceitar sua destruição em nome da redução
de riscos? Não seria, pelo contrário, aumentar os riscos através
da liberalização de todas as drogas hoje proibidas?
Heitor de Paola, é Médico Psiquiatra e Psicanalista
no Rio de Janeiro. Membro da International Psychoanalytical
Association e Clinical Consultant, Boyer House Foundation,
Berkeley, Califórnia. Possui trabalhos publicados no Brasil e
exterior. É conferencista na área de Psicanálise e iniciou
seus artigos de análise conjuntural depois dos ataques
terroristas de 11 de setembro. Sua produção é publicada por
sites como Mídia Sem Máscara, O Expressionista e Ternuma.
E-mail:
Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso
parlata
|
estou fazendo em trabalho sobre as drogas e eu queria saber se vcs poderiam me mandar por email informaçãoes sobre as drogas principalmente se possível sobre a legalização no brasil!
meu email é
Esse endereço de e-mail está sob proteção contra Spam (spam bots).Por conseguinte, você deve ativar o recurso Javascript para poder visualizar isso
obrigada!!!
jamile rabelo