|
Aos 65 anos de idade, 44 de carreira, ela é uma
artista atual e inquieta que figura entre as maiores cantoras
contemporâneas em atividade no País.
Engana-se quem pensa que Elza Gomes Soares é apenas uma
sambista ou um capítulo a ser resgatado na história da música
popular brasileira.
Elza blues, sofrida e calejada, é também uma
guerreira alegre, bem-humorada, especialista em dar a volta por
cima e transformar sentimentos, dores e paixões em música de
alta qualidade, capaz de levar o ouvinte das gargalhadas às lágrimas
com a mesma facilidade que vai dos graves aos agudos com sua voz
rascante e inconfundível.
Para Elza, cantar é um parto em cada sílaba,
define José Miguel Wisnik, compositor e ensaísta.
Não é para menos: o currículo que ela traz consigo faria
muito roqueiro parecer uma freira. Filha de lavadeira, teve uma
infância miserável, passou fome, casou-se e foi mãe aos 13
anos, sofreu violência doméstica, teve oito filhos (sem contar
os adotados) - perdeu quatro deles e conheceu o céu e o inferno
em um casamento com o jogador Garrincha, com quem se exilou em
Roma no início da década de 70 *.
Lançou quase 30 discos de carreira, foi chamada de minha
filha por Louis Armstrong e, no ano 2000, foi eleita cantora
do milênio pela BBC de Londres.
Não é à toa que o diretor Milton Alencar gravou um filme
biográfico sobre Elza, tendo a atriz Thaís Araújo no papel
principal e a cineasta Kátia Lund (co-diretora de Cidade de
Deus) que produziu um documentário sobre a vida da diva.
Discografia
Em mais de quatro décadas, Elza Soares lançou 28 discos - número
que não inclui compactos, coletâneas e participações em gravações
de outros músicos. A estréia fonográfica ocorreu em 1959, com
Se Acaso Você Chegasse, disco cujo carro-chefe é a famosa
composição do gaúcho Lupicínio Rodrigues.
A discografia, combinando pedras brutas e lapidadas (quase
todas preciosas) da música popular brasileira, permanece como um
tesouro ainda por ser redescoberto. São LPs cada vez mais raros,
fora de catálogo e muito valorizados no exterior, dos quais
apenas cinco lançados em CD.
No ano passado, dois deles foram resgatados para o formato
digital, graças ao projeto Odeon 100 Anos, supervisionado pelo
baterista e produtor Charles Gavin (Titãs). Os essenciais Elza
Soares - Baterista: Wilson das Neves (1968) e Elza Pede Passagem
(1972) ressurgiram em edições com capa e encarte originais,
faixas remasterizadas e tiragem limitada (2 mil unidades, em média).
O Do Cóccix Até O Pescoço (Maianga/Net Records, 2002),
Produzido por Alê Siqueira, com direção artística de José
Miguel Wisnik e projeto gráfico de Gringo Cardia, foi aclamado
por críticos de São Paulo e Rio como um dos melhores lançamentos
fonográficos de 2002.
Elza definiu o disco como um sonho alto que se realizou
para ela. Na fase de produção, o CD tinha o título
provisório de Foda-se, revela a cantora. Se
dependesse de mim, esse seria o nome definitivo, repleto de
duplos sentidos, mas acabamos descartando a idéia por questões
de mercado.
(*) Biografia
- Elza Soares nasceu em 23 de Junho de 1937 no Rio de
Janeiro. Filha de uma lavadeira e de um operário, foi criada
na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro.
Cantava, desde criança, com a voz rouca e o ritmo
sincopado dos sambistas de morro. Aos 12 anos, já era mãe e
aos 18, viúva.
Foi lavadeira e operária numa fabrica de sabão e, com 20
anos aproximadamente, fez seu primeiro teste como cantora, na
academia do professor Joaquim Negli, sendo contratada para
cantar na Orquestra de Bailes Garan e a seguir no Teatro
João Caetano.
Em 1958, foi a Argentina com Mercedes Batista, para uma
temporada de oito meses, cantando na peça Jou-jou frou-frou.
Quando voltou, fez um teste para a Rádio Mauá, passando
a se apresentar de graça no programa de Hélio Ricardo. Por
intermédio de Moreira da Silva, que a ouviu nesse programa,
foi para a Rádio Tupi e depois começou a trabalhar como
crooner da boate carioca Texas, no bairro de Copacabana, onde
conheceu Silvia Teles e Aluísio de Oliveira, que a convidou
para gravar.
No seu primeiro disco, gravado em 1960, pela Odeon, cantou
Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto
Martins), alcançando logo grande sucesso. Esse samba fez
parte de seu primeiro LP, com o mesmo titulo da música.
A seguir, foi para São Paulo SP, para trabalhar no show
Primeiro festival nacional de bossa nova, no Teatro Record e
na boate Oásis, gravando depois seu segundo LP, A bossa
negra.
Em
1962, como artista representante do Brasil na Copa do Mundo,
que se realizava em Santiago, Chile, cantou ao lado do
representante norte-americano, Louis Armstrong.
Nessa época ficou conhecendo o futebolista Garrincha, com
quem casaria mais tarde. No ano seguinte, gravou pela Odeon o
LP Sambossa, tendo como destaque as músicas Rosa morena
(Dorival Caymmi) e Só danço samba (Tom Jobim e Vinícius de
Moraes); e, em 1964, lançou pela Odeon Na roda do samba
(Orlandivo e Helton Meneses), faixa-título do LP.
Realizando inúmeras apresentações pelo Brasil e nas
emissoras de televisão, os LPs se sucederam: em 1965, foi a
vez de Um show de beleza, pela Odeon, com, entre outras,
Sambou, sambou (João Melo e João Donato), e Mulata
assanhada (Ataulfo Alves); em 1966, saiu pela mesma gravadora
o LP Com a bola branca, onde cantou Estatuto de gafieira
(Billy Blanco) e Deixa a nega gingar (Luís Cláudio).
Apresentou-se, em 1967, no Teatro Santa Rosa, no show Elza
de todos os sambas, e, novamente pela Odeon, gravou em 1969,
o LP Elza, Carnaval & Samba, cantando sambas-enredo, como
Bahia de todos os deuses (João Nicolau Carneiro Firmo, o
Bala, e Manuel Rosa) e Heróis da liberdade (Silas de
Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira).
Em 1970 foi para a Itália, apresentando-se no Teatro
Sistina, em Roma, e gravando Que maravilha (Jorge Ben e
Toquinho) e Mascara negra (Zé Kéti).
Nesse mesmo ano, gravou o LP Sambas e mais sambas, pela
Odeon, interpretando músicas como Maior é Deus (Fernando
Martins e Felisberto Martins) e Tributo a Martin Luther King
(Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli). De volta ao Brasil, em
1972, lançou, pela mesma etiqueta, o LP Elza pede passagem,
onde interpretou Saltei de banda (Zé Rodrix e Luís Carlos
Sá) e Maria-vai-com-as-outras (Toquinho e Vinícius de
Morais), e apresentou-se no teatro carioca Opinião, no show
Elza em dia de graça.
Ainda nesse ano, passou uma temporada realizando um show
no navio italiano Eugênio C, fez um espetáculo de duas
semanas na boate carioca Number One, cantou no Brasil Export
Show, realizado na cervejaria Canecão, do Rio de Janeiro, e
recebeu o diploma de Embaixatriz do Samba, do conselho de
música popular do Museu da Imagem e do Som, do Rio de
Janeiro.
Em 1973, gravou o LP Elza Soares, pela Odeon, cantando
Aquarela brasileira (Silas de Oliveira) e Pranto de poeta
(Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito); e apresentou-se no
show Viva Elza, que estreou no T.B.C., na capital paulista, e
que depois foi levado em vários Estados.
Nos dois anos seguintes, lançou pela Tapecar mais dois
LPs, Elza Soares, com Bom-dia, Portela (Davi Correia e Bebeto
de São João) e Chamego da crioula (Zé Di); e Nos braços
do samba, com faixa-título de Neoci Dias e Dida. Gravou
ainda Pilão+Raça=Elza (1977), Somos todos iguais (1986) e
Voltei (1988).
A partir de 1986, com a morte de Garrinchinha, seu filho
com o jogador de futebol Garrincha (1933 1983), passou
nove anos na Europa e nos EUA.
De volta ao Brasil, gravou em 1997 o CD Trajetória, só
de sambas, com músicas de Zeca Pagodinho, Guinga e Aldir
Blanc, Chico Buarque, Noca da Portela, Nei Lopes e outros.
Nesse mesmo ano, saiu o livro Cantando para não
enlouquecer, biografia escrita por José Louzeiro (Editora
Globo).
mbpnet
|
Ela é tempestade, é mar revolto, é calmaria...
Elza consegue aquilo que como artista procuro e não acho em muitos outros: delicadeza na força!
Axé Elza!