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- Nelson Motta, você atravessou a Bossa Nova, a Jovem Guarda, o Tropicalismo, a Disco, o BRock sempre como ator principal.
Escreveu Noites Tropicais, que vendeu quase
100 mil cópias. Esteve nos braços Elis Regina, Marisa
Monte e Marília Pêra, para ficarmos em apenas três de suas
mulheres. O que falta Nelson Motta fazer que ainda não tenha
feito?
Nelson Motta Quem sabe um filme. Escrever um
roteiro, isso eu não fiz ainda. Na verdade, o meu livro O
Canto da Sereia está sendo adaptado para o cinema pela
Conspiração Filmes. Acho que vou trabalhar neste roteiro, vai
ser uma experiência diferente.
Eu até tenho uma pequena experiência neste ramo, porque
escrevi os quatro primeiros episódios do seriado Armação
Ilimitada. Foi maravilhoso, e depois disso nunca mais
escrevi nada.
Já tem diretor e elenco para O Canto da
Sereia?
N.M. Já, é a Mini Kerti, uma diretora de
comerciais. O produtor é o Andrucha [Waddington], da Conspiração
Filmes. Mas não tem atores definidos ainda. Eu gostaria que o
detetive Augustão fosse interpretado pelo Roberto Bomfim ou o Otávio
Miller.
Então o cinema é a sua nova paixão...
N.M. Mais ou menos... Acabei de escrever mais um
livro, um romance policial, chamado Bandidos e Mocinhos.
Deve sair lá para setembro. É sobre crime, mistério, passado
num ambiente teatral no Rio de Janeiro. Tem muitos momentos na
favela, no meio do tráfico carioca.
É bem interessante, conta a história de uma delegada de polícia
sensacional. E tenho outro livro saindo agora no meio do ano
sobre o time do Fluminense, para a coleção Camisa 13.
O sr. está guardando histórias para mais um
livro de memórias, no estilo de Noites Tropicais?
N.M. Tenho umas idéias. A primeira é uma coleção
de mais ou menos cinqüenta crônicas sobre música, que andei
escrevendo para jornais e revistas ao longo da minha carreira.
Elas estavam muito dispersas, estou pensando em fazer uma edição
bonita com as que eu tenho mais carinho.
Outra vontade que tenho é a biografia do Tim Maia, que todo
mundo me pede. Infelizmente esse assunto é espinhoso,
juridicamente. Os herdeiros do Tim estão brigando muito, e não
tem quem autorize a publicação. Mas vontade não falta.
O que está lendo no momento?
N.M. Olha, eu acabei de ler uma obra chamada
Carne Crua, da paulistana Ana Ferreira. Adorei, achei
ótimo. Um livro moderno, ágil, sexy. E li também algumas obras
do Marçal Aquino, adorei também. Muito bom, é o meu novo ídolo.
Você já leu?
Ainda não...
N.M. Vai atrás, é sensacional. O Marçal
escreve tão bem que eu perdi momentaneamente a vontade de
escrever. É o grande talento surgido na última década na
literatura brasileira. Só fico aborrecido de não ter lido
outros livros bons, pois o programa de rádio está me dando uma
trabalheira enorme.
O sr. estreou no começo do mês na rádio
Eldorado, de São Paulo, com o programa Sintonia Fina.
Como é a volta ao rádio?
N.M. Ah, estou adorando. É uma coisa diferente,
meu foco principal são os artistas novos. Novos em folha, inéditos.
É uma oportunidade de dar oportunidades para muita gente boa. E
o público está louco por isso, sente falta dessa janela.
O que faço no programa é instruir o público, dar referências,
dizer porque aquele artista é bom, porque a música dele é boa.
Quando você toca a música, todo mundo entende. Vejo o meu
trabalho como um serviço de utilidade pública... (risos) E
apesar da minha idade, tenho uma cabeça muito aberta toco
música nacional e gringa, rap, funk, soul, bossa nova, samba.
Em depoimento há alguns anos, o sr. disse que
o rádio andava muito careta. A opinião continua?
N.M. De uma maneira geral, sim. As rádios têm
uma programação de massa, muito parecidas e sem nenhuma graça.
E tem aquelas rádios segmentadas para o povão, só com pagode e
outros gêneros que me atraem muito. Esse formato pré-determinado
para fazer sucesso estraga a rádio.
As emissoras de rádio ficam mais presas neste
mesmo formato porque estão presas à troca de favores, os
chamados jabás?
N.M. É uma parte do problema. As rádios não
conseguem fugir disso. Existem emissoras que vivem exclusivamente
do jabá, algumas até extinguiram seus departamentos comerciais.
Mas isso envolve tantas coisas, não gosto nem de tocar no
assunto...
- Como é possível então ir na contramão disso, não
tocando música de trabalho, por exemplo?
N.M. Não vou querer dizer como alguém tem que
fazer, mas o formato didático do meu programa é o diferencial.
Já ouvi artistas que lancei no meu programa, como Limusine
Negra, Funk You, Cibelle, Luciana Alves, Rica Amabis e Thalma de
Freitas tocando em outras rádios. E assim começa.
Não tem jabá, não tem faixa de trabalho, não tem conversa
de gravadora. Meu compromisso é apenas com os meus critérios
pessoais.
Qual foi a fase mais gratificante de sua carreira?
N.M. Foram fases tão diferentes... Tive sorte de
poder envelhecer vendo coisas tão diferentes. Quando era
adolescente, pirava ouvindo os compactos do João Gilberto.
Depois, aos 40 anos, era aquela história de noites cariocas,
Morro da Urca, clubbers. Agora que estou na casa dos 60, minha
atividade principal é escrever em casa, mais tranqüilo. Cada
coisa teve a sua época.
Mas se é para escolher um momento especial, acho que foi o
iniciozinho da Bossa Nova, quando era um garoto querendo ser músico
ao lado de Chico Buarque, Edu Lobo, Dori Caymmi, os irmãos Valle
[Marcos e Paulo Sérgio]. Foi uma época maravilhosa, eu estava
acordando para a vida.
Sua carreira é marcada por suas mudanças de
papel na história da música brasileira. Em algum momento estas
mudanças lhe causaram conflito?
N.M. Sempre. Estive dos dois lados do balcão,
fui pedra e fui vidraça. Mesmo sendo jornalista, ouvi e vi
muitas coisas que não pude publicar. Mas em cada uma das funções
que desempenhei, aprendi muito e isso me ajudou a trabalhar e
compreender melhor outras. Acho que administrei bem essa situação,
tanto que nunca briguei com nenhum artista.
Qual Nelson Motta é o melhor? O letrista, o
escritor ou o produtor?
N.M. Não sei... Não sou eu que posso avaliar
isso. Tive sucessos e fracassos em toda a minha vida. Como
letrista, por exemplo, criei coisas boas como O Cantador
[com Dori Caymmi] e Como uma onda [ao lado de Lulu
Santos], mas também fiz muitas besteiras.
A versão que fiz para uma música do Fantasma da Ópera
é constrangedora. Como escritor, os meus primeiros livros são
discutíveis. Durante minha carreira como produtor, muitos espetáculos
que poderiam ser sucessos foram feitos na hora errada.
Como o quê?
N.M. Logo que o Raul Seixas estourou com seu
primeiro disco, nos anos 70, tive a idéia de fazer um compacto só
de clássicos do rocknroll. Elvis Presley, que ele
adorava, Jovem Guarda, Celly Campello... Gravamos o disco, ficou
legal, mas a gravadora não teve coragem de colocar o nome do
Raul na capa.
O disco foi lançado então sob o nome de Rock Machine
como intérprete. Uma palhaçada. É mole? Só no ano passado foi
relançado com o nome Raul Seixas 28 Anos de Rock,
um álbum seminal do rock brasileiro.
Mas o sr. tem alguma frustração na carreira? O
que você gostaria de ter feito, se pudesse ter controle total?
N.M. Olha, minha carreira nasceu de uma grande
frustração... (risos). Eu queria ser músico, instrumentista.
Tinha até um grupo lá pelos 19 anos. Mas naquele momento, eu
rapidamente percebi que os meus amigos Chico Buarque, Caetano
Veloso, Gil eram muito melhores do que eu. Não dava para
competir.
Tive essa frustração, mas olhando para trás dá para ver
que foi o caminha certo a ser tomado. Se tivesse insistido na
carreira de músico, hoje seria um artista medíocre tocando num
barzinho sem-vergonha. Virei letrista, comecei então a brincar
com a poesia, produzir, fazer programas de rádio. Tive esperteza
e humildade para perceber que não tinha bala na agulha
para aquilo.
Aliás, é um conselho que eu dou para todas as pessoas
não tenha medo de reconhecer os seus defeitos.
E se arrepende de alguma coisa?
N.M. Não me arrependo do que eu fiz, mas do que
deixei de fazer. Queria ter tido o prazer de lançar os dois
volumes do Racional, do Tim Maia [mítico disco-duplo
gravado nos anos 70 para a seita Universo em Desencanto, que
virou objeto de culto no Brasil e na Inglaterra. As poucas cópias
que ainda existem no mercado não saem por menos de R$ 350.]
Outro álbum inédito dele é o Nuvens, que tenho uma
cópia em casa. Quem sabe um dia...
Se fosse para escolher, qual seria sua maior musa?
Marisa Monte ou Elis Regina?
N.M. Ah, Elis... Elis era única, foi a maior
diva do Brasil. A Marisa Monte não existiria sem a Elis. Até
musicalmente, acho que a Marisa está entre Gal Costa e a Elis,
um meio-termo onde também pode ser colocada a Cássia Eller. Mas
a Elis é muito maior.
O fato de o sr. estar 100% envolvido com a música
atrapalhou o relacionamento pessoal com Elis Regina?
N.M. É uma faca de dois gumes, né! Quando
funciona é uma maravilha. Mas quando tem alguma coisinha errada,
é um horror.
comunidadenews
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pois queria lhe falar sobre Breno Poubel cuja msica toca no programa Sintonia Fina e
tentei entrar no site mas est em construꡧo.
adorei a entrevista...
abs
Aline Moreira