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Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro
mostra de que forma a cultura árabe-islâmica trazida pelos
negros africanos no século 18 ajudou a engendrar o caldeirão
que deu origem a manifestações típicas nacionais, como o samba
dos morros cariocas.
A influência árabe na cultura brasileira começa antes mesmo
da descoberta do país, a partir da ocupação pelos mouros da
Península Ibérica, no século 8, que deixa marcas importantes,
por exemplo, na língua, literatura e na arquitetura portuguesas.
O que poucos sabem, porém, é que a presença árabe é
sentida até em uma criação genuinamente nacional, associada ao
Brasil por qualquer habitante do planeta: o samba.
Isso mesmo, o samba, em suas origens, nas batucadas nos morros do
centro do Rio de Janeiro, nos primeiros anos do século 20,
contou, entre os vários instrumentos de percussão de origem
africana, com um, em especial, de origem árabe: o adufe.
Semelhante ao pandeiro, só que em formato hexagonal e sem
platinelas, o adufe teria ajudado o samba a chegar à batida rítmica
que hoje o caracteriza.
Ou, pelo menos, contribuído para a marcação
"diferente" do samba produzido em algumas escolas mais
tradicionais, como é o caso da Portela.
Quem afirma é João Baptista de Medeiros Vargens, professor
de árabe do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor, ao lado de
Carlos Monte, do livro "A Velha Guarda da Portela"
(Manati, 2001).
Segundo Vargens, o adufe, embora nunca lembrado pelo nome
correto, aparece nos relatos de alguns veteranos sambistas da
Portela, e no do cantor e compositor Paulinho da Viola, que
conviveu com muitos deles. "Paulinho, no livro, lembra as
batucadas na antiga sede da Portela, a Portelinha.
Lembra dos cavaquinhos, das palmas e de uns pandeiros
quadrados, que seriam responsáveis por esse toque da Velha
Guarda, pelo desenho melódico dos velhos bambas da escola",
revela o professor.
Vargens conta que essa marcação rítmica desenvolvida com a
participação do adufe ajudava a dar uma marca especial à
bateria da Portela, reconhecida imediatamente pelo público
quando a escola começava a entrar na avenida, "pelo menos
até meados dos anos 1970".
'Islamismo e Negritude'
Não há
estudos sobre a presença de descendentes árabes nos morros
cariocas, até porque ainda são poucas as iniciativas de
registro da história dessa população e do próprio samba, aliás.
Mas uma outra pista sobre a convergência dos dois mundos -
cultura árabe e negros sambistas - é dada também pelo
professor Vargens.
Atento às manifestações da cultura árabe no Brasil, ele
observa que letras do compositor Aniceto (de Meneses e Silva Júnior),
morto em 1993, um dos fundadores da escola de samba Império
Serrano e também compositor da Portela, se referem aos
"mussurumins", termo que é uma corruptela de muçulmanos.
Segundo Vargens, que é autor, junto com Nei Lopes, do livro
"Islamismo e Negritude - da África ao Brasil, da Idade Média
aos nossos dias" (UFRJ,1982), o primeiro contato dos
brasileiros com a cultura islâmica foi por intermédio de
escravos africanos muçulmanos e não de imigrantes árabes - que
por aqui começaram a chegar nas últimas décadas do século 19.
Estes, aliás, oriundos principalmente da Síria e do Líbano,
tinham principalmente formação cristã.
O Islamismo, escreve Vargens, teve papel muito importante na
"aglutinação e resistência" dos negros feitos
escravos no Brasil.
"Esse Islamismo, que já na África, como vimos, não era
exatamente o mesmo da Arábia, no Brasil sofreu, é claro, ainda
outras influências, recebendo os nomes de 'religião dos alufás',
e culto 'mussurumin', 'muçulmi' ou 'malê' - nomes estes pelos
quais eram genericamente conhecidos os negros islamizados.
E foi esse Islamismo que criou a mítica do negro altivo,
insolente, insubmisso e revoltoso (...)", diz trecho do
livro.
Os negros adeptos do Islamismo, apurou o professor em seus
estudos, começaram a chegar ao país a partir do século 18 e
foram deslocados principalmente para o Nordeste, em especial a
Bahia (onde mais para frente, em 1835, seriam responsáveis pelo
episódio conhecido como Levante dos Malês).
Eram negros cultos, alfabetizados (liam o alcorão em árabe)
e viviam agrupados na capital, Salvador, e no Recôncavo. Uma
parte deles, muito provavelmente após a perseguição policial
desencadeada pela revolta, migrou para o Rio de Janeiro.
Quanto a sua ligação com o samba e com a cultura dos morros
cariocas, há apenas indícios e "muito para ser
estudado", diz Vargens.
"Uma pena termos no Brasil apenas dois centros oficiais (um
na Universidade de São Paulo, USP, e outro na UFRJ) de estudos
da cultura árabe. Ao todo devem ser uns 10 professores, enquanto
que na Espanha são 500".
Um pouco mais de investimento em pesquisa iria, sem dúvida,
revelar uma ligação muito mais íntima - e surpreendente -
entre as duas culturas do que se supõe hoje.
anba
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Grata
Flávia camilla de Medeiros Vargens
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