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João Guilherme Estrella. A real de um traficante que viu a casa cair. Ele foi um dos maiores traficantes do Rio. Famoso por vender a cocaína mais
pura da cidade.
João Guilherme Estrella, abastecia a alta sociedade carioca e
já chegou a faturar maus de US$ 100 mil numa única operação.
Se livrou da penitenciária porque seus advogados provaram que
ele torrava tudo que ganhava com pó.
Condenando a dois anos num manicômio, conseguiu ficar limpo e
contou sua estória num livro* que vai virar filme pelas mãos da
produtora Mariza Leão e da Columbia Pictures.
João
Guilherme Estrella, 43 anos, entrou para a lista dos grandes
traficantes brasileiros sem nunca ter disparado uma só bala.
Maior distribuidor de cocaína do Rio entre 1988 e 1995, não
podia ser mais diferente do estereótipo do traficante bad boy,
armado até os dentes.
Operando numa conexão que começava no Mato Grosso e se
estendia até Amsterdã, ganhava em média R$ 75 mil por mês.
Numa única transação internacional, chegou a embolsar R$ 300
mil. Só trabalhava com pó de grife, batizado de Nelore
Puro.
Mas João gostava mais de cocaína que do dinheiro que tirava
dela. Numa festa de aniversário, presenteou os 350 convidados
com papelotes da droga.
Foi por causa dessa falta de tino comercial que seu advogado
conseguiu apresentá-lo à Justiça como um viciado que traficava
por necessidade de garantir o próprio consumo. Graças a essa
manobra, pegou dois anos de internação no Manicômio
Judiciário Heitor Carrilho, parte do Complexo Penitenciário
Frei Caneca.
Antes de ser julgado, passou quatro meses na carceragem da
Polícia Federal na praça Mauá, centro do Rio. Lá, dividia o
exíguo espaço com outros traficantes que, como ele, aguardavam
sentença.
Dividir seis celas com 120 caras em crise de
abstinência era um inferno. Rolava pancadaria toda hora.
Estrella,
que ficou conhecido na mídia carioca como Johnny (nome que era
usado pelo cliente que o delatou), diz que só se recuperou
porque foi enviado a um manicômio em vez de uma penitenciária.
Lá, tinha assistência médica, fazia exercícios e podia
trabalhar. Livre desde 1998, virou músico e hoje vive da
produção de shows para cantores como Hyldon, aquele de Na
Rua, na Chuva, na Fazenda.
Convencido por um primo, o jornalista Guilherme Fiuza,
resolveu contar sua história no livro "Meu Nome Não é
Johnny" *.
Lançado em abril pela editora Record, o livro já esgotou a
primeira edição de 5 000 exemplares. Também atraiu o interesse
de produtoras como Conspiração Filmes e TV Zero e dos cineastas
Roberto Santucci e Sandra Werneck, que querem transformar a
história em filme no ano que vem.
Traficante
por acaso
Filho de um gerente do extinto Banco Nacional, cresceu na zona
sul carioca e começou a cheirar aos 23 anos. Um dia, encomendou
5 gramas de pó para rachar com dois amigos do condomínio de
classe média alta em que vivia no Jardim Botânico.
Em cima da hora, os dois parceiros desistiram da transação.
João disse ao traficante que não tinha como pagar sozinho, mas
pediu para ficar com o pó para vender.
Era uma sexta-feira. No domingo, já tinha repassado tudo.
Surpreso, o traficante ofereceu-lhe mais 50 gramas para vender em
um mês.
Ele nunca tinha visto tanta droga, mas topou na hora. Assim,
começou sua carreira no tráfico.
João nunca se considerou um criminoso e diz que só conheceu
bandidos de verdade quando ficou preso na Polícia Federal. Foi
lá que conheceu um traficante que tinha o hábito de serrar
pernas e braços dos inimigos ainda vivos.
Virou ghost-writer das cartas de amor de um gerente do
tráfico conhecido como Mick Jagger, que enfrentou um cerco da
polícia cheirando 50 gramas de pó.
E formou um conjunto musical com o dono de uma boca de fumo.
Hoje, dá palestras em escolas, mas seu discurso não tem nada do
moralismo que acomete ex-viciados.
Diz que, não fosse o risco da dependência, experimentar
drogas seria um bom lucro para a existência. Também
não carrega culpas. Não faria de novo, mas não me
arrependo. Eu tirei proveito e cresci com isso.
(TRIP)
Alguém pode se dar bem no tráfico?
João Guilherme Estrella Porra... Só se for imortal, né?
[Risos.] Tomar tiro e não cair. Para ser um traficante de
sucesso precisa ser invisível.
Esses caras que chegam ao topo do poder no morro morrem cedo
pra caralho. Não vale a pena, não.
Antes de ser preso, você se considerava um traficante?
Traficante sim, bandido não.
Como um cara de classe média entra no tráfico?
Olha, eu gostava de cheirar. E meus amigos também. Eu sempre
tinha alguma cocaína e arrumava pra eles. Virei traficante por
acaso. Começou porque eu era um usuário. Não tinha planejado
traficar, mas acabou acontecendo. Rolava uma sensação de poder
e muito dinheiro. Era difícil pular fora.
Como era essa sensação de poder?
Era gostosa. As pessoas te procuram, você tem o que elas
querem... Cada vez aparece mais gente. Você ganha mais, gasta
mais. Tudo fica extravagante. A prepotência vai se instalando
dentro de você.
Seu
círculo de amigos aumentou muito depois que você começou a
traficar?
Alguns eu conheci por causa disso e acabei ficando amigo de
verdade. Você é muito procurado, sua vida muda muito. Fica como
a Bolsa de Valores.
Sexta-feira não podia sair de casa porque o telefone não
parava de tocar. Era difícil até sair para tomar uma cerveja
porque era muita grana em jogo.
E os clientes chatos?
Dei esporro em vários! Esporro mesmo, pra pessoa se tocar e
parar de ligar pra minha casa às três da manhã. Tinha dois
amigos que extrapolavam às vezes. Dez da manhã, bêbados,
apareciam na porta da minha casa querendo cheirar cocaína.
Quanto ganhava num fim de semana?
Mais ou menos uns US$ 25 mil mensais. Agora, se fosse para a
Europa, era até mais [ ele chegou a ganhar US$ 100 mil numa
única operação ]. Isso, mesmo tendo que pagar alguém pra
levar a droga, porque eu não correria esse risco. Mandava gente
pra Bélgica, Holanda...
Você não tinha medo de alguém ser preso e te dedurar?
Não tinha medo de nada. Mas tem gente que te cagüeta, não tem
jeito. É um negócio arriscado, e uma hora você dança. Ainda
mais do tamanho que eu fiquei.
Você era procurado por gente que não conhecia ou só
vendia para amigos?
Acaba fugindo um pouco do controle. Ligavam dizendo: Sou
amigo de fulano, lembra?. Não dá para saber, né? Um vai
falando pro outro.
E eu só vendia a pura, não era essa de hoje, misturada. A
droga era muito boa porque tinha um processo de destilação que
hoje em dia não dá mais tempo de fazer.
Ela secava ao ar livre por um tempo longo. Isso faz com que a
coca não machuque o nariz. E eu também não misturava. Do jeito
que vinha da Bolívia, eu vendia. Hoje em dia isso é difícil de
encontrar.
Você
vendia mais caro?
Vendia pelo mesmo preço que a maioria, geralmente R$ 30 por 1
grama de cocaína. E era 1 grama pesado na balança digital.
Cheguei a sair com 30 papéis de 1 grama no bolso.
Depois que levei a primeira dura [em 1991, pagou US$ 14 mil a
policiais civis para se livrar da prisão] , deixei de vender na
rua. Passei a vender uma quantidade maior para menos gente, só
mesmo quem me telefonava.
Você dava alguma recomendação para não repassarem seu
telefone?
Dava, mas isso não adianta. Alguns te ligam falando: Vem
cá, posso passar seu telefone pra um amigo meu?. Algumas
vezes você libera, outras não.
Quem é pego cheirando na rua não quer nem saber. Toma o
primeiro tapa e já vai dizendo seu nome. Nego amarela rapidinho.
Apesar de faturar até US$ 100 mil num mês, você não
ficou rico...
É que sou compulsivo, até hoje. Quando tenho, eu gasto. Torrei
tudo o que ganhei. Mas foi até bom porque senão estaria preso
até hoje. Se tivesse mansão, essas coisas, estaria preso, pois
esta era a tese da promotoria, que eu era empresário do
tráfico.
Como não era rico, conseguimos derrubar o argumento deles.
Você nunca achou que fosse ser preso?
Se acontecia alguma coisa, eu subornava. Achava que ia me safar.
Mas, um pouco antes de ser preso, tinha pensado em parar.
Como
você está com a Justiça?
Completamente resolvido. É bom quando acaba. Fui condenado a
quatro anos e minha pena foi transformada em dois anos de
tratamento no manicômio. Na cadeia, acaba a sentença e você
está livre ou pelo menos deveria ser assim.
No manicômio, se eu estivesse muito louco, não saía.
Precisei fazer perícia, passar pela aprovação de toda a equipe
técnica que tem lá dentro (psicólogo, psiquiatra e assistente
social).
Depois de tudo isso, você ainda precisa ter um parente que se
responsabilize por você. Senão não sai. Tava cheio de neguinho
no manicômio abandonado pela família.
E a história do LSD que sobrou na sua mão e você
distribuiu?
Meu distribuidor na Europa trouxe mil ácidos para o Brasil e
não conseguiu deixar com ninguém. Aí resolveu dar tudo para
mim, e eu distribuí para os amigos.
Era
comum usar ácido?
Já rolava um pouco de ecstasy. Nego cheirava pó, mas LSD eu
mesmo não tomava há um tempão. Mas aí caiu aquela
monstruosidade na minha mão. Porra, tomamos ácido pra caramba.
Toda hora.
Eu saia na rua e levava 20. Aparecia alguém, eu falava
abre a boca e colocava na língua. Parecia um Cristo
[risos] . Era uma pedra roxa e, às vezes, esfarelava. Uma vez,
tinha combinado de sair com uma galera para tomar ácido e ficar
na Cobal do Leblon.
Aí um amigo meu, que é um músico conhecido, me ligou porque
ia viajar no dia seguinte e queria dar dois tequinhos.
Arruma um presentinho, ele pediu.
Disse pra ele passar na minha casa e fiz dois pacotinhos: um
com os três ácidos que ia levar pros amigos na Cobal e outro
pra ele com uns três tecos.
Na hora de tirar do bolso, como o conteúdo dos dois saquinhos
estava esfarelado, acabei dando o pacotinho errado. Ele achou a
cor estranha, mas mandou tudo e foi pra casa. Depois de três
horas, ele ligou: Seu filho da puuuta! Tenho que viajar
amanhã e estou pra lá e pra cá!. Falou que estava
viajando muito e não estava agüentando.
Três ácidos é coisa pra caralho, né? Aí falei: Tu
também parece um tamanduá, cheira qualquer coisa!.
Na TRIP 127, João Guilherme Estrella fala sobre
glamorização do tráfico, legalização das drogas, festas da
alta sociedade e o período que passou preso e no manicômio.
trip
* Dois mundos, Por Fabrício Muller
Livro retrata como um rapaz, João Guilherme Estrella, da
Zona Sul carioca, da classe média alta carioca, bem nascido
e bastante enturmado, mergulha de cabeça no mundo do tráfico
de drogas - Acaba se envolvendo com o tráfico e começa a
vender droga para sustentar seu próprio vício.
Transformado em um grande atacadista de cocaína
boliviana, ele enfrenta problemas com a polícia e a lei,
passando por muitos problemas na prisão e no manicômio
judiciário.
Intrigante história urbana da sociedade carioca é o mote
de "Meu Nome Não é Johnny", excelente livro
escrito por Guilherme Fiúza.
Todo o mundo já deve ter ouvido aquela teoria de que os
verdadeiros grandes traficantes do Rio de Janeiro
moram confortavelmente em apartamentos na Zona Sul carioca, não
nos morros.
Quando se lê o subtítulo de "Meu Nome Não é
Johnny" A Viagem Real de um Filho da Burguesia à
Elite do Tráfico, de Guilherme Fiuza (Editora Record, 336 páginas),
pode-se pensar que estamos diante de um caso destes ou
seja, o de um traficante realmente grande com educação
burguesa.
Sinto decepcionar os partidários desta teoria da conspiração,
mas a história contada neste excelente livro é um pouco
diferente.
"Meu Nome Não é Johnny" conta a história de João
Guilherme Estrella, rapaz bem nascido que gosta de tocar músicas
em seu violão e que cedo começou a se envolver no meio artístico.
A partir da convivência com a turma vêm as
primeiras experiências com drogas. Primeiro a maconha,
depois o LSD e então a cocaína que acaba viciando-o.
Como necessita de cada vez maiores quantidades para
consumo próprio, ele começa a vender pó (ainda em pequena
escala) para arranjar dinheiro. Isto o faz entrar em contato
com alguns traficantes e a coisa vai aumentando.
Estrella arruma esquemas para traficar quantidades cada
vez maiores diretamente da Bolívia: a cocaína que ele
conseguia lá apelidada de Nelore Puro
era a mais pura do mercado de drogas no Rio da época
(final dos anos 80/início dos 90).
Juntando o grande conhecimento da sociedade carioca que tem
João Guilherme Estrella (ele sempre fora um sujeito
extremamente sociável e simpático) com a qualidade insuperável
de seu pó, é óbvio que o resultado só pode ser um.
O rapaz da Zona Sul transforma-se em um grande atacadista
de drogas, chegando a fazer viagens para Amsterdam para fazer
grandes vendas do Nelore Puro na Europa).
E, claro, neste tempo todo ele continua ingerindo
quantidades fenomenais de cocaína.
Mas se Estrella já passa a ser um grande traficante em
termos de quantidade, em termos de violência ele não pode
ser comparado aos chefões do morro.
Impulsivo, pouco se importando com as conseqüências de
seus atos, não só ele não tem segurança pessoal como
sequer anda armado. Logo a Lei está atrás dele.
Na primeira vez consegue se safar da polícia através de
suborno. Na outra isto não é mais possível. É preso,
recebendo uma condenação leve, em um grande momento da juíza
que o condenou pois ela, acertadamente, acreditava no
caráter de João Guilherme Estrella.
Mas nem por isto o sofrimento que o protagonista passa, tanto
na cadeia quanto no manicômio judiciário, são pequenos.
Todos estes maus momentos acabam ajudando o rapaz da Zona Sul
a se redimir.
Atualmente, ele trabalha como produtor musical, não
trafica mais e está recuperado do vício da cocaína.
"Meu Nome Não é Johnny" (o título é baseado na
notícia do Jornal do Brasil; quando da prisão do
traficante, o diário carioca escreveu que seu apelido era
Johnny o que nunca fora verdade) é uma obra
extremamente bem escrita, em uma linguagem simples, direta e
envolvente. É o tipo do livro difícil de parar de ler.
Outra qualidade é que, em nenhum momento, o autor
Guilherme Fiuza parece querer dar uma lição de moral aos
leitores.
Fiuza nem precisa disto, na verdade. A história fala por si.

Guilherme e João Guilherme,
autor e personagem de um excelente livro sobre o mundo das
drogas na sociedade carioca
bacana
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Carlos Maurício - BH