Fala, Brasil! - Vanize Macêdo: A Embaixadora da Medicina Tropical
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Vanize Macêdo: A Embaixadora da Medicina Tropical PDF Imprimir E-mail
Escrito por Ivan Iunes (texto) e Isabela Lyrio (fotos)   
Friday, 12 November 2004

"Talvez eu tenha exagerado algumas vezes, mas uma instituição sem ordem não funciona".
"Viajávamos para o interior e sequer podíamos nos encostar nas paredes das casas, pois estavam infestadas de barbeiros".

Vanize, isso é loucura”, disse a voz do outro lado da linha. “Loucura? Você vai ver o que eu vou arrumar”, respondeu ela ao amigo.

A estranha construção de lonas pretas e madeira, na verdade um hospital improvisado que oferecia assistências médica e odontológica de graça, ocupou o espaço em frente ao Cine Dois Candangos durante 15 dias no ano de 1989.

O protesto foi uma idéia de professores descontentes com a administração do Hospital Universitário (HUB) – à época sob responsabilidade do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (antigo Inamps). A proposta do órgão era destinar o espaço à população de classe média e alta, prejudicando o aprendizado dos estudantes.

À frente do protesto, a professora do então Departamento de Medicina da Universidade de Brasília (UnB). Vanize de Oliveira Macêdo, de fala mansa, mas muita garra.

Meses depois, em maio de 1990, o HUB passava definitivamente a ser administrado pela UnB. A conquista liderada por Vanize é apenas mais uma de tantas na vida dessa cientista, especialista em doenças tropicais.

A dedicação ao trabalho fez de Vanize uma das maiores especialistas em doença de Chagas no mundo – tendo escrito o capítulo reservado à doença em três edições do aclamado Cecil‘s Textbook of Medicine. Seus esforços, somados aos de outros cientistas, indicam que a transmissão da doença no Brasil foi controlada nos últimos cinco anos.

Os resultados mostram a obstinação de Vanize, característica confirmada por ela, fugindo de sua modéstia habitual.

“Sou forte sim. Se não fosse já tinha desaparecido há muito tempo”, revela a professora, que luta contra o câncer há cerca de cinco anos.

Ao contrário do que ocorre com a maioria dos que sofrem dessa doença, Vanize pouco modificou sua rotina. “Mesmo passando por um tratamento pesado, ela é a primeira a chegar ao Núcleo de Medicina Tropical (NMT), às oito horas.

Às vezes, trabalha aos sábados”, diz, impressionada, a diretora da Faculdade de Medicina (FM) da UnB, Tânia Rosa.

Os cuidados especiais com a alimentação praticamente não existem. “Como tudo que gosto. Comigo não tem essa história de ioga não”, ironiza a professora de 69 anos.

PULSO FIRME - Extremamente perfeccionista, Vanize não admite erros nas pesquisas científicas. “Às vezes, ela é dura, não mede as palavras. Com o tempo, a gente percebe que não é pessoal. Ela é incapaz de guardar rancor de alguém”, afirma o professor da FM Carlos Eduardo Tosta, parceiro desde 1974.

Curiosamente, ela não só admite, como defende sua postura: “Talvez eu tenha exagerado algumas vezes, mas uma instituição sem ordem não funciona”.

Orgulhosa de sua capacidade de direção, a professora se compara à ex-primeira-ministra inglesa, Margareth Thatcher, historicamente conhecida como dama de ferro.

Ex-aluno e pesquisador que trabalha com Vanize desde os tempos de Universidade Federal da Bahia (UFBA), João Barberino entrega: “Ela nunca foi essa pretensa dama de ferro.

Para nós, amigos e colegas do dia-a-dia, ela é, e será sempre, a presença de luz que nos orienta, engrandece e ilumina”, afirma em texto feito para homenageá-la.

Para muitos, a excessiva dedicação de Vanize à UnB e à medicina ultrapassa qualquer barreira. Entre seus feitos, já colocou recursos próprios de sua bolsa de pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq) no NMT. Segundo amigos próximos, foi convidada e recusou o cargo de presidente do conselho na gestão de Lula. Avessa aos holofotes, ela não admite nem o convite.

Vanize dedica sua vida ao trabalho e aos amigos
(abaixo, auto-retrato de Marsden)

ORIGENS - Vinda de uma família de classe média baixa, sem qualquer tradição na medicina, Vanize nasceu em 1934, na cidade de Palmeiras (BA), situada na Chapada Diamantina. Hoje, tem duas irmãs e três sobrinhos médicos. Quando adolescente, tinha dúvidas sobre qual profissão seguir.

Entre a Medicina e o trabalho social, escolheu os dois. Especialmente, as doenças tropicais, patologia com que se deparou pela primeira vez, durante a especialização na Santa Casa de Misericórdia da Bahia.

Quando Vanize iniciou seus estudos em Medicina Tropical, o Brasil era outro.

“Viajávamos para o interior e sequer podíamos nos encostar nas paredes das casas, pois estavam infestadas de barbeiros”, revela.

Hoje, a utilização do inseticida BHC, próprio para matar o barbeiro, praticamente erradicou a doença de Chagas em crianças até cinco anos. “Foi preciso um esforço político muito grande dos cientistas para que obtivéssemos êxito no combate.

O cuidado agora é para que transmissão não volte a acontecer”. O mais contraditório é que ela assume o medo de pegar outra doença tropical, a malária: “Prefiro ter a doença que eu tenho (câncer) a pegar malária”.

Precavida, Vanize toma todos os cuidados para não contrair a doença. Em visitas à Amazônia tropical, chegava a exagerar no consumo de anti-malárico, aliado à aplicação de repelente da cabeça aos pés.

Para muitos, a professora se arriscava mais a morrer intoxicada ao tomar o remédio – causador de efeitos colaterais como a anemia. Porém, entre o risco de contrair malária e ficar anêmica, ela não hesitava em escolher a segunda, principalmente, porque, em seu tempo, as condições de trabalho eram muito inferiores às atuais: “Acho a doença perigosíssima.

O povo brincava comigo, mas naquele tempo era fogo. Hoje, os pesquisadores têm até mordomias”.

LAÇOS DE AMIZADE - Do tripé principal de pesquisadores que fundaram o NMT da UnB, só ela persiste na instituição. Aluízio Prata – líder do grupo, responsável pela vinda de Vanize para a universidade – aposentou-se e leciona em Uberaba (MG). Já Philip Marsden morreu depois de acidente vascular-cerebral ocorrido em 1997.

A morte do amigo querido abalou-a profundamente: “Foi uma grande perda. Era um cientista brilhante, cheio de idéias”. Segundo Elza Noronha, pesquisadora do NMT, a sala do professor ficou intocada quase um ano depois de sua morte. Outro professor, Carlos Eduardo Tosta lembra que a médica não descuidou do amigo por um segundo. “Ela o visitava diariamente no hospital”, diz.

A nostalgia das amizades remete ao passado, onde Vanize coleciona histórias. Uma delas, ocorrida no Acre e contada pelo senador Tião Viana (PT-AC), ex-orientando da professora, marcou a trajetória do parlamentar.

“Precisei exumar um cadáver para confirmar a suspeita de doença de Chagas. Vanize me apoiou, estudou o coração do cadáver e forneceu a droga para tratar de outras duas crianças também doentes. Foi o primeiro caso de Chagas na Amazônia Tropical”, lembra Viana.

Outro período marcado na memória da dama de ferro são os anos em que o hospital designado para os alunos da UnB se situava em Sobradinho. Mas as lembranças são amargas.

“Vários professores se acidentaram naquele trajeto. Em dia de neblina, não enxergávamos um metro à frente”, relata. Um dos acidentes chegou a causar o afastamento de um colega por um ano, devido a problemas neurológicos.

COTIDIANO E HOMENAGENS
- Embora vários colegas considerem Vanize anti-social, a professora se diz amante de cinema, música e teatro. Como tal, ela vê com bons olhos o crescimento da oferta de produtos culturais na capital.

“As opções de cultura aumentaram, felizmente. Odeio ficar isolada em casa. Sou uma pessoa normal”.

Resistente aos elogios públicos – recusou por três vezes que o UnB Notícias fizesse seu perfil –, Vanize foi homenageada,em março/2004, no XL Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, realizado em Aracaju, Sergipe.

Justa lembrança à professora que, munida de lonas, tacos e madeiras, ousou desafiar o governo federal para entregar um hospital à UnB. Eis Vanize de Oliveira Macêdo.

PERFIL

Vanize de Oliveira Macêdo
Data de nascimento: 24/11/1934
Naturalidade: Palmeiras (Bahia)
Graduação: Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública (1958)
Doutorado: Universidade Federal do Rio de Janeiro (1974)
Ano de ingresso na UnB: 1974

PUBLICAÇÃO

Artigos: 101
Livros publicados: 2
Organização de eventos: 29

ORIENTAÇÃO

Iniciações científicas: 6
Dissertações de mestrado: 16
Teses de doutorado: 8

 

UnB Agência

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