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"Talvez eu tenha exagerado algumas
vezes, mas uma instituição sem ordem não funciona".
"Viajávamos para o interior e sequer podíamos nos encostar
nas paredes das casas, pois estavam infestadas de barbeiros".
Vanize, isso é loucura, disse a voz do outro lado da
linha. Loucura? Você vai ver o que eu vou arrumar,
respondeu ela ao amigo.
A estranha construção de lonas pretas e madeira, na verdade
um hospital improvisado que oferecia assistências médica e
odontológica de graça, ocupou o espaço em frente ao Cine Dois
Candangos durante 15 dias no ano de 1989.
O protesto foi uma idéia de professores descontentes com a
administração do Hospital Universitário (HUB) à época
sob responsabilidade do Instituto Nacional de Assistência Médica
da Previdência Social (antigo Inamps). A proposta do órgão era
destinar o espaço à população de classe média e alta,
prejudicando o aprendizado dos estudantes.
À frente do protesto, a professora do então Departamento de
Medicina da Universidade de Brasília (UnB). Vanize de Oliveira
Macêdo, de fala mansa, mas muita garra.
Meses depois, em maio de 1990, o HUB passava definitivamente a
ser administrado pela UnB. A conquista liderada por Vanize é
apenas mais uma de tantas na vida dessa cientista, especialista
em doenças tropicais.
A dedicação ao trabalho fez de Vanize uma das maiores
especialistas em doença de Chagas no mundo tendo escrito
o capítulo reservado à doença em três edições do aclamado
Cecils Textbook of Medicine. Seus esforços, somados aos de
outros cientistas, indicam que a transmissão da doença no
Brasil foi controlada nos últimos cinco anos.
Os resultados mostram a obstinação de Vanize, característica
confirmada por ela, fugindo de sua modéstia habitual.
Sou forte sim. Se não fosse já tinha desaparecido há
muito tempo, revela a professora, que luta contra o câncer
há cerca de cinco anos.
Ao contrário do que ocorre com a maioria dos que sofrem dessa
doença, Vanize pouco modificou sua rotina. Mesmo passando
por um tratamento pesado, ela é a primeira a chegar ao Núcleo
de Medicina Tropical (NMT), às oito horas.
Às vezes, trabalha aos sábados, diz, impressionada, a
diretora da Faculdade de Medicina (FM) da UnB, Tânia Rosa.
Os cuidados especiais com a alimentação praticamente não
existem. Como tudo que gosto. Comigo não tem essa história
de ioga não, ironiza a professora de 69 anos.
PULSO FIRME - Extremamente perfeccionista, Vanize não admite
erros nas pesquisas científicas. Às vezes, ela é dura, não
mede as palavras. Com o tempo, a gente percebe que não é
pessoal. Ela é incapaz de guardar rancor de alguém,
afirma o professor da FM Carlos Eduardo Tosta, parceiro desde
1974. Curiosamente, ela não só admite, como defende sua
postura: Talvez eu tenha exagerado algumas vezes, mas uma
instituição sem ordem não funciona.
Orgulhosa de sua capacidade de direção, a professora se compara
à ex-primeira-ministra inglesa, Margareth Thatcher,
historicamente conhecida como dama de ferro.
Ex-aluno e pesquisador que trabalha com Vanize desde os tempos
de Universidade Federal da Bahia (UFBA), João Barberino entrega:
Ela nunca foi essa pretensa dama de ferro.
Para nós, amigos e colegas do dia-a-dia, ela é, e será
sempre, a presença de luz que nos orienta, engrandece e ilumina,
afirma em texto feito para homenageá-la.
Para muitos, a excessiva dedicação de Vanize à UnB e à
medicina ultrapassa qualquer barreira. Entre seus feitos, já
colocou recursos próprios de sua bolsa de pesquisadora do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(Cnpq) no NMT. Segundo amigos próximos, foi convidada e recusou
o cargo de presidente do conselho na gestão de Lula. Avessa aos
holofotes, ela não admite nem o convite.
Vanize dedica sua vida ao
trabalho e aos amigos
(abaixo, auto-retrato de Marsden)
  ORIGENS
- Vinda de uma família de classe média baixa, sem
qualquer tradição na medicina, Vanize nasceu em 1934, na cidade
de Palmeiras (BA), situada na Chapada Diamantina. Hoje, tem duas
irmãs e três sobrinhos médicos. Quando adolescente, tinha dúvidas
sobre qual profissão seguir.
Entre a Medicina e o trabalho social, escolheu os dois.
Especialmente, as doenças tropicais, patologia com que se
deparou pela primeira vez, durante a especialização na Santa
Casa de Misericórdia da Bahia.
Quando Vanize iniciou seus estudos em Medicina
Tropical, o Brasil era outro.
Viajávamos para o interior e sequer podíamos nos
encostar nas paredes das casas, pois estavam infestadas de
barbeiros, revela.
Hoje, a utilização do inseticida BHC, próprio para matar o
barbeiro, praticamente erradicou a doença de Chagas em crianças
até cinco anos. Foi preciso um esforço político muito
grande dos cientistas para que obtivéssemos êxito no combate.
O cuidado agora é para que transmissão não volte a
acontecer. O mais contraditório é que ela assume o medo
de pegar outra doença tropical, a malária: Prefiro ter a
doença que eu tenho (câncer) a pegar malária.
Precavida, Vanize toma todos os cuidados para não contrair a
doença. Em visitas à Amazônia tropical, chegava a exagerar no
consumo de anti-malárico, aliado à aplicação de repelente da
cabeça aos pés.
Para muitos, a professora se arriscava mais a morrer
intoxicada ao tomar o remédio causador de efeitos
colaterais como a anemia. Porém, entre o risco de contrair malária
e ficar anêmica, ela não hesitava em escolher a segunda,
principalmente, porque, em seu tempo, as condições de trabalho
eram muito inferiores às atuais: Acho a doença perigosíssima.
O povo brincava comigo, mas naquele tempo era fogo. Hoje, os
pesquisadores têm até mordomias.
LAÇOS DE AMIZADE - Do tripé principal de
pesquisadores que fundaram o NMT da UnB, só ela persiste na
instituição. Aluízio Prata líder do grupo, responsável
pela vinda de Vanize para a universidade aposentou-se e
leciona em Uberaba (MG). Já Philip Marsden morreu depois de
acidente vascular-cerebral ocorrido em 1997.
A morte do amigo querido abalou-a profundamente: Foi uma
grande perda. Era um cientista brilhante, cheio de idéias.
Segundo Elza Noronha, pesquisadora do NMT, a sala do professor
ficou intocada quase um ano depois de sua morte. Outro professor,
Carlos Eduardo Tosta lembra que a médica não descuidou do amigo
por um segundo. Ela o visitava diariamente no hospital,
diz.
A nostalgia das amizades remete ao passado, onde Vanize coleciona
histórias. Uma delas, ocorrida no Acre e contada pelo senador Tião
Viana (PT-AC), ex-orientando da professora, marcou a trajetória
do parlamentar.
Precisei exumar um cadáver para confirmar a suspeita de
doença de Chagas. Vanize me apoiou, estudou o coração do cadáver
e forneceu a droga para tratar de outras duas crianças também
doentes. Foi o primeiro caso de Chagas na Amazônia Tropical,
lembra Viana.
Outro período marcado na memória da dama de ferro são os anos
em que o hospital designado para os alunos da UnB se situava em
Sobradinho. Mas as lembranças são amargas.
Vários professores se acidentaram naquele trajeto. Em
dia de neblina, não enxergávamos um metro à frente,
relata. Um dos acidentes chegou a causar o afastamento de um
colega por um ano, devido a problemas neurológicos.
COTIDIANO E HOMENAGENS - Embora vários colegas
considerem Vanize anti-social, a professora se diz amante de
cinema, música e teatro. Como tal, ela vê com bons olhos o
crescimento da oferta de produtos culturais na capital.
As opções de cultura aumentaram, felizmente. Odeio
ficar isolada em casa. Sou uma pessoa normal.
Resistente aos elogios públicos recusou por três vezes
que o UnB Notícias fizesse seu perfil , Vanize foi
homenageada,em março/2004, no XL Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, realizado em Aracaju, Sergipe.
Justa lembrança à professora que, munida de lonas, tacos e
madeiras, ousou desafiar o governo federal para entregar um
hospital à UnB. Eis Vanize de Oliveira Macêdo.
PERFIL
Vanize de Oliveira Macêdo
Data de nascimento: 24/11/1934
Naturalidade: Palmeiras (Bahia)
Graduação: Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública
(1958)
Doutorado: Universidade Federal do Rio de Janeiro (1974)
Ano de ingresso na UnB: 1974
PUBLICAÇÃO
Artigos: 101
Livros publicados: 2
Organização de eventos: 29
ORIENTAÇÃO
Iniciações científicas: 6
Dissertações de mestrado: 16
Teses de doutorado: 8 |
UnB Agência
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