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"Nós somos intrinsecamente colonos. O Brasil é
visto como um grande mercado, não uma nação ou um povo.
Enquanto temos um gabinete da CIA no Palácio do Planalto nossa mídia
está preocupada com o carnaval de 2005".
Com certa indignação nossa imprensa noticiou a avaliação
do Departamento de Estado americano (leia-se estadunidense) sobre
os perigos de se visitar a Terra dos Papagaios.
O destaque foi o grau de violência das cidades
metropolitanas: São Paulo e Rio de Janeiro.
No entanto, deram pouca relevância aos seguintes pontos do
relatório: na Amazônia, os indígenas e a própria Funai foram
qualificados como assassinos e uma inventiva possibilidade de seqüestro
por parte de guerrilheiros da Colômbia.
Voltando ao elemento central da indignação, a violência, ela
parece injustificável. Ora, quem dissemina e explora a violência,
as guerras do tráfico e todo tipo de bandidagem senão a nossa mídia
grande?
A mesma que perpetua o senso comum internacional de que no
Brasil só tem carnaval, favelas e políticos corruptos - e o
brasileiro, típico malandro mundial.
À revelia, nossos intelectuais e artistas (para os ainda
existentes) são substituídos por uma literatura de mercado e
despolitizada, além de músicos comprometidos com canais de TV e
rádios em troca de publicidade.
O livro Pós-colonialismo, identidade e mestiçagem cultural,
de Eliana Reis, exibe um exemplo concreto no personagem do
nigeriano Wole Soyinka, ganhador do prêmio Nobel de Literatura
de 1986.
A imprensa mundial tratou a escolha como uma dívida de premiação
para alguém do terceiro mundo ou atribuíram a complexidade e
excelência da obra a sua educação inglesa.
Não conhecemos as obras de Soyinka porque sequer sabemos o
que acontece no continente africano.
Nossos jornais e emissoras cuidam do eixo EUA- Europa. Para
falar de América Latina, Ásia ou África, somente temas como
guerras civis e ataques terroristas.
Para citar um exemplo mais prático, o cientista político
Fernando Corrêa de Sá e Benevides, um jovem de 88 anos,
proferiu uma palestra, dia 4 de novembro, sobre Pacto Social e
Nacionalismo, na Universidade Federal Fluminense.
Ali foram debatidas questões vigentes e preocupantes como o
retrocesso das conquistas trabalhistas, a possível doação de
50 milhões de hectares da Floresta Amazônica para a Monsanto,
juntamente com suas riquezas estratégicas: urânio e água.
"Nós somos intrinsecamente colonos. O Brasil é visto
como um grande mercado, não uma nação ou um povo. Enquanto
temos um gabinete da CIA no Palácio do Planalto nossa mídia está
preocupada com o carnaval de 2005".
Na palestra compareceram 15 pessoas enquanto outras cem
passeavam pelo pátio.
A "emoção da inferioridade" do brasileiro, expressão
cunhada por Capistrano de Abreu, historiador, em 1921, é reforçada
a cada dia pela mídia grande, perceptível na mega cobertura das
eleições dos EUA e no tratamento festivo dado à reunião do
Grupo do Rio.
Uma tomada de consciência abrangente não é desejável como
comprova o jornal O Globo, último domingo, em que o ministro
Tarso Genro é chamado de "democrata radical" por
defender em seu livro a democratização da informação,
acompanhada da seguinte pergunta do repórter: "Uma das
tarefas seria controlar a informação?".
Para finalizar, cito o apelo do professor Benevides:
"Estou aqui para a conscientização da nova geração. Sei
que é difícil lutar contra uma TV Globo, mas o pouco que
conseguir alcançar terá valido a pena".
Carolina Rangel, nasceu em Campos dos Goytacazes, é
formada em História, é pesquisadora do CNPq num projeto que
relaciona História e Imprensa. Trabalha como jornalista tendo
como suporte o conhecimento histórico.
fazendomedia
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