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Negro é Quase uma Ofensa PDF Imprimir E-mail
Escrito por Rogério Santana*   
Friday, 05 November 2004
“O negro é culpado pela situação existente. O branco pensa mal dele. Mas é ele próprio que dá origem aos desentendimentos. Ficam nos botequins, bebendo sem parar, mesmo que não seja pinga, falam em voz alta, tratam-se com palavrões, andam desalinhados ou relaxados. O negociante não pode firmar uma boa idéia de elementos dessa categoria. E por uns, pagam todos.” Depoimento de um entrevistado a Florestan Fernandes, no livro "A integração do negro na sociedade de classes".

Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, cerca de cem milhões de pessoas vindas da África foram traficadas para as Américas. Estimativa essa, altamente passional, tendo em vista a consciência da mea-culpa cultural.

Dessa quantia, o Brasil teria comercializado, legal ou ilegalmente, mais ou menos doze milhões. Entre os historiadores, o número oscila entre três e treze milhões. Há diferença?

Quando os primeiros africanos escravizados chegaram ao Brasil, eram identificados pelos nomes das regiões de onde procediam. Suas tribos de origem eram consideradas representativas de qualidades próprias do escravizado, úteis para cada tipo de trabalho.

O fenótipo e os objetos culturais identificavam o valor da mercadoria. Os boçais, como eram conhecidos aqueles que não falavam o português, e os ladinos, mais adaptados à sociedade colonial, tinham seu preço avaliado em função da procedência.

Os traficantes, segundo essa lógica, levavam em conta a inteligência dos Iorubas, a docilidade dos Bantos ou a arrogância do Malês, como marcas naturais de determinada tribo ou etnia.

Os que chegavam ao país eram desagregados (o que não impediu que formassem famílias e não permanecessem isolados...), no intuito de não poderem contar com pares próximos que proviessem da mesma cultura.

Diferentes de outros povos que se estabeleceram no Brasil, os africanos tiveram que enfrentar, em sua imensa maioria, a violenta e sistemática destruição de seus laços de parentesco.

Ao invés de construírem sua história com base na tradição, tiveram que fazê-lo apenas com a bagagem cultural que conseguiram trazer, deixando para traz a maior parte de seus saberes.

Assim como os africanos, os escravizados nascidos no Brasil possuíam algo que os agrupava e os distinguia de seus compradores escravistas: a cor.

Com o passar do tempo e, principalmente, após a abolição, os crioulos, como eram chamados os descendentes de africanos nascidos aqui, passaram a ser identificados não mais por sua procedência étnico-geográfica, mas por sua cor que dizia, a um só tempo, sua origem e seu status na sociedade colonial.

Ocorreu, então, uma mudança histórica dos termos usados para identificar as gerações de descendentes de africanos. Ou seja, como signo corporal, os traços físicos, que antes eram associados à procedência, passaram a designar uma condição.

A transformação por que passou a imagem dos africanos no Brasil teve como critério a ser ignorado a procedência geográfica, já que, quase como indesejável, essa população deveria provir e permanecer apenas no imaginário, jamais numa realidade palpável que indicasse a história de seu trajeto até o presente status.

A palavra raça, síntese de toda uma ideologia histórica do pensamento ocidental, no Brasil, traz em sua etimologia, elementos mais complexos que merecem ser apontados. Segundo a filósofa Marilena Chauí, o uso de raça como designativa de caracteres fenótipos tem sua origem em um significado aparentemente distante do de sua aplicação atual.

Como conseqüência, raça na língua portuguesa deriva de ratio, que significa conta, cálculo, faculdade de julgar, método, razão. A palavra ratio, por sua vez, deriva do termo latino reor, contar, calcular.

Portanto, raça deriva do termo italiano razza (século XV): espécie, tipo semelhança de família, mas tem como origem ratio, que se refere a uma contagem por semelhança de espécie e tipo para objetos, não pessoas e muito menos características físicas...

Essas observações são feitas por Chauí, para demonstrar que, tanto no dicionário de grego, como no de Latim, línguas que formaram o português, raça não existe, sendo tradução de conceitos que dizem sobre “termos clássicos que não possuem correspondentes em nossa sociedade, em nossa cultura” e que dessa forma “curiosamente não se tem como traduzir ratio por raça”.

A discrepância entre tais palavras indica que se pode pensar como indivíduos que eram identificados por uma cultura específica (através de seus nomes), passaram a ser designados por referências aos seus caracteres físicos. Houve aí uma grave e intencional dissolução da identidade africana.

Seria uma incoerência chamar um basco de espanhol, ou uma ofensa igualar, baseando-se apenas pela cor, irlandeses do norte e ingleses. Embora se possam derivar traços em comum não existe uma cultura européia.

É claro que se pode verificar pontos em comum nas culturas européias, asiáticas ou africanas, mas deve-se ter em mente que a cor da pele não é um bom critério para classificar as pessoas.

Na década de trinta, quando a Antropologia passava pela revisão de conceitos que herdara da tradição evolucionista (o que possibilitou o aparecimento de teorias como o nazismo), no Brasil, os estudos sobre raça aconteciam em meio a forte ascensão do fascismo na Europa, e, internamente, durante a ditadura de Getúlio Vargas.

Essa conjuntura política iria servir de cena para o que se convencionou chamar de “mito da democracia racial”.

O mito, segundo o qual a nação teria sido fundada por três raças, visto de uma perspectiva antropológica, possui como elementos constituintes de sua narrativa, a supremacia do português – quase nunca citado, por que subentendido como branco, a ginga do negro e a bravura do índio como formadores de uma identidade nacional, a brasilidade.

Não se pode considerar acaso que nessa época o samba passasse a ser a musica nacional. A Umbanda, que se diferencia do Candomblé por incluir elementos cristãos, fosse legalizada e até hoje centros federados contariam com o alvará na parede.

A capoeira regional, dissidência da capoeira Angola, versão brasileira do ritual de cortejo Banto da dança da zebra, incorporasse elementos de outras lutas, deixaria de ser considerada uma prática ilegal.

A perda de referenciais de identidade baseados numa cultura material de tradição contínua, e não apenas imaginária, fez com que o conteúdo atribuído a esses significados tivesse interpretação negativa.

Os referenciais pessoais (nome, local de nascença, família, os mortos e os nascimentos) atribuídos para identificá-los foram apagados e em seu lugar aceitos apenas os brasileiros, que davam conta de um lugar subalterno para que pudessem existir.

Entretanto, o que tem sido demonstrado pelas Ciências Sociais, sobretudo pela Sociologia, é que, na ordem das práticas e representações, as posições de status ocupadas pelos três segmentos na sociedade, mostram-se historicamente hierarquizadas.

Quando se fala de relações raciais, no caso brasileiro, geralmente trata-se da relação entre negros e brancos, pois, aos índios, é designado mais comumente o termo relações interétnicas.

Ao congelarmos uma categoria como única designação existente (o princípio de não-contradição da identidade), invocamos o mito que pressupõe tais identidades como completas. Não deveriam existir negros, pois a África não é a negrolândia mas, sim, Nagôs, Quimbumdos, Umbundos, Minas, Talensis, Macondos, Xosas, Zulus, Koi Kois, Fons, Angolas...

Que uma nação possa ser construída a partir dessas três culturas e que isso seja relativamente bem sucedido, o Brasil pode bem servir como prova, como atestam a cor e os traços de nossa população atual, nossa abertura a povos de todas as nações ou a exuberância mundial de nossas artes.

Mas é preciso não ter ilusões: o Brasil foi um dos países que mais cresceu economicamente, todavia teve a distância entre ricos e pobres misteriosamente aumentada para uma situação onde os dez por cento mais ricos têm metade do total e os dez por cento mais pobres têm um por cento do total. Esse mistério tem causas e cabe ao país desvendá-las.

A sociedade e, de modo mais imediato, o poder público e os meios de comunicação deveriam levar em conta, na hora de contemplar uma parcela da população, o direito que esta tem de saber mais do que sua história mítica, de saber sua história real, contada por quem está retomando as condições de fazê-lo.


Bibliografia:

CHAUÍ, Marilena. Cultura e racismo, in: Princípios n° 2 9 (p.62). São aulo, Anita, 1993

DA MATTA, Roberto. Digressão: A Fábula das três raças ou problema do raismo à brasileira, in: Relativizando: uma introdução a Antropologia Social, Rio de Janeiro, Record, 1987.

NANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de Classes, volume II.São Paulo, Ática, 1978.

PES, Nei. Bantos, Malês e Identidade Negra.Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1988.

Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo, Cia. Das Letras, 1999.

SEYFERTH, Giralda. As Ciências Sociais no Brasil e a questão racial” in: Cativeiro & Liberdade. Rio de Janeiro, Uerj, 1989.

SCHWARCZ, Lílian. O espetáculo das raças. São Paulo, Companhia das Letras, 1993.


* Rogério Santana, é Antropólogo, pesquisador da Gerência de Pesquisa e Documentação da MULTIRIO; mestre em Comunicação, imagem e informação pela Universidade Federal Fluminense.

 

multirio

Comentarios (3)Add Comment
...
escrito por Visitante, 2005-01-06 11:42:55
O artigo é show! Uma necessidade social...
Incluirei no kit-educativo q estou mandando para umas pessoas que desenvolvem peças teatrais educativas, ok
Ate
Cassiano
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tu copio
escrito por Visitante, 2005-04-28 09:24:39
tu copio
flavia
escrito por Visitante, 2005-06-11 16:51:31
horrivel

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