“O negro é culpado pela situação existente. O branco pensa mal dele. Mas é ele próprio que dá origem aos desentendimentos. Ficam nos botequins, bebendo sem parar, mesmo que não seja pinga, falam em voz alta, tratam-se com palavrões, andam desalinhados ou relaxados. O negociante não pode firmar uma boa idéia de elementos dessa categoria. E por uns, pagam todos.” Depoimento de um entrevistado a Florestan Fernandes, no livro "A integração do negro na sociedade de classes".
Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, cerca de cem milhões de
pessoas vindas da África foram traficadas para as Américas.
Estimativa essa, altamente passional, tendo em vista a consciência
da mea-culpa cultural.
Dessa quantia, o Brasil teria comercializado, legal ou
ilegalmente, mais ou menos doze milhões. Entre os historiadores,
o número oscila entre três e treze milhões. Há diferença?
Quando os primeiros africanos escravizados chegaram ao Brasil,
eram identificados pelos nomes das regiões de onde procediam.
Suas tribos de origem eram consideradas representativas de
qualidades próprias do escravizado, úteis para cada tipo de
trabalho.
O fenótipo e os objetos culturais identificavam o valor da
mercadoria. Os boçais, como eram conhecidos aqueles que não
falavam o português, e os ladinos, mais adaptados à sociedade
colonial, tinham seu preço avaliado em função da procedência.
Os traficantes, segundo essa lógica, levavam em conta a
inteligência dos Iorubas, a docilidade dos Bantos ou a arrogância
do Malês, como marcas naturais de determinada tribo ou etnia.
Os que chegavam ao país eram desagregados (o que não impediu
que formassem famílias e não permanecessem isolados...), no
intuito de não poderem contar com pares próximos que proviessem
da mesma cultura.
Diferentes de outros povos que se estabeleceram no Brasil, os
africanos tiveram que enfrentar, em sua imensa maioria, a
violenta e sistemática destruição de seus laços de
parentesco.
Ao invés de construírem sua história com base na tradição,
tiveram que fazê-lo apenas com a bagagem cultural que
conseguiram trazer, deixando para traz a maior parte de seus
saberes.
Assim como os africanos, os escravizados nascidos no Brasil possuíam
algo que os agrupava e os distinguia de seus compradores
escravistas: a cor.
Com o passar do tempo e, principalmente, após a abolição,
os crioulos, como eram chamados os descendentes de africanos
nascidos aqui, passaram a ser identificados não mais por sua
procedência étnico-geográfica, mas por sua cor que dizia, a um
só tempo, sua origem e seu status na sociedade colonial.
Ocorreu, então, uma mudança histórica dos termos usados
para identificar as gerações de descendentes de africanos. Ou
seja, como signo corporal, os traços físicos, que antes eram
associados à procedência, passaram a designar uma condição.
A transformação por que passou a imagem dos africanos no Brasil
teve como critério a ser ignorado a procedência geográfica, já
que, quase como indesejável, essa população deveria provir e
permanecer apenas no imaginário, jamais numa realidade palpável
que indicasse a história de seu trajeto até o presente status.
A palavra raça, síntese de toda uma ideologia histórica do
pensamento ocidental, no Brasil, traz em sua etimologia,
elementos mais complexos que merecem ser apontados. Segundo a filósofa
Marilena Chauí, o uso de raça como designativa de caracteres
fenótipos tem sua origem em um significado aparentemente
distante do de sua aplicação atual.
Como conseqüência, raça na língua portuguesa deriva de
ratio, que significa conta, cálculo, faculdade de julgar, método,
razão. A palavra ratio, por sua vez, deriva do termo latino
reor, contar, calcular.
Portanto, raça deriva do termo italiano razza (século XV):
espécie, tipo semelhança de família, mas tem como origem
ratio, que se refere a uma contagem por semelhança de espécie e
tipo para objetos, não pessoas e muito menos características físicas...
Essas observações são feitas por Chauí, para demonstrar que,
tanto no dicionário de grego, como no de Latim, línguas que
formaram o português, raça não existe, sendo tradução de
conceitos que dizem sobre termos clássicos que não
possuem correspondentes em nossa sociedade, em nossa cultura
e que dessa forma curiosamente não se tem como traduzir
ratio por raça.
A discrepância entre tais palavras indica que se pode pensar
como indivíduos que eram identificados por uma cultura específica
(através de seus nomes), passaram a ser designados por referências
aos seus caracteres físicos. Houve aí uma grave e intencional
dissolução da identidade africana.
Seria uma incoerência chamar um basco de espanhol, ou uma ofensa
igualar, baseando-se apenas pela cor, irlandeses do norte e
ingleses. Embora se possam derivar traços em comum não existe
uma cultura européia.
É claro que se pode verificar pontos em comum nas culturas
européias, asiáticas ou africanas, mas deve-se ter em mente que
a cor da pele não é um bom critério para classificar as
pessoas.
Na década de trinta, quando a Antropologia passava pela revisão
de conceitos que herdara da tradição evolucionista (o que
possibilitou o aparecimento de teorias como o nazismo), no
Brasil, os estudos sobre raça aconteciam em meio a forte ascensão
do fascismo na Europa, e, internamente, durante a ditadura de Getúlio
Vargas.
Essa conjuntura política iria servir de cena para o que se
convencionou chamar de mito da democracia racial.
O mito, segundo o qual a nação teria sido fundada por três raças,
visto de uma perspectiva antropológica, possui como elementos
constituintes de sua narrativa, a supremacia do português
quase nunca citado, por que subentendido como branco, a ginga do
negro e a bravura do índio como formadores de uma identidade
nacional, a brasilidade.
Não se pode considerar acaso que nessa época o samba passasse a
ser a musica nacional. A Umbanda, que se diferencia do Candomblé
por incluir elementos cristãos, fosse legalizada e até hoje
centros federados contariam com o alvará na parede.
A capoeira regional, dissidência da capoeira Angola, versão
brasileira do ritual de cortejo Banto da dança da zebra,
incorporasse elementos de outras lutas, deixaria de ser
considerada uma prática ilegal.
A perda de referenciais de identidade baseados numa cultura
material de tradição contínua, e não apenas imaginária, fez
com que o conteúdo atribuído a esses significados tivesse
interpretação negativa.
Os referenciais pessoais (nome, local de nascença, família,
os mortos e os nascimentos) atribuídos para identificá-los
foram apagados e em seu lugar aceitos apenas os brasileiros, que
davam conta de um lugar subalterno para que pudessem existir.
Entretanto, o que tem sido demonstrado pelas Ciências Sociais,
sobretudo pela Sociologia, é que, na ordem das práticas e
representações, as posições de status ocupadas pelos três
segmentos na sociedade, mostram-se historicamente hierarquizadas.
Quando se fala de relações raciais, no caso brasileiro,
geralmente trata-se da relação entre negros e brancos, pois,
aos índios, é designado mais comumente o termo relações interétnicas.
Ao congelarmos uma categoria como única designação existente
(o princípio de não-contradição da identidade), invocamos o
mito que pressupõe tais identidades como completas. Não
deveriam existir negros, pois a África não é a negrolândia
mas, sim, Nagôs, Quimbumdos, Umbundos, Minas, Talensis,
Macondos, Xosas, Zulus, Koi Kois, Fons, Angolas...
Que uma nação possa ser construída a partir dessas três
culturas e que isso seja relativamente bem sucedido, o Brasil
pode bem servir como prova, como atestam a cor e os traços de
nossa população atual, nossa abertura a povos de todas as nações
ou a exuberância mundial de nossas artes.
Mas é preciso não ter ilusões: o Brasil foi um dos países
que mais cresceu economicamente, todavia teve a distância entre
ricos e pobres misteriosamente aumentada para uma situação onde
os dez por cento mais ricos têm metade do total e os dez por
cento mais pobres têm um por cento do total. Esse mistério tem
causas e cabe ao país desvendá-las.
A sociedade e, de modo mais imediato, o poder público e os meios
de comunicação deveriam levar em conta, na hora de contemplar
uma parcela da população, o direito que esta tem de saber mais
do que sua história mítica, de saber sua história real,
contada por quem está retomando as condições de fazê-lo.
Bibliografia:
CHAUÍ, Marilena. Cultura e racismo, in: Princípios n° 2 9
(p.62). São aulo, Anita, 1993
DA MATTA, Roberto. Digressão: A Fábula das três raças ou
problema do raismo à brasileira, in: Relativizando: uma introdução
a Antropologia Social, Rio de Janeiro, Record, 1987.
NANDES, Florestan. A Integração do Negro na Sociedade de
Classes, volume II.São Paulo, Ática, 1978.
PES, Nei. Bantos, Malês e Identidade Negra.Rio de Janeiro,
Forense Universitária, 1988.
Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São
Paulo, Cia. Das Letras, 1999.
SEYFERTH, Giralda. As Ciências Sociais no Brasil e a questão
racial in: Cativeiro & Liberdade. Rio de Janeiro, Uerj,
1989.
SCHWARCZ, Lílian. O espetáculo das raças. São Paulo,
Companhia das Letras, 1993.
* Rogério Santana, é Antropólogo, pesquisador da
Gerência de Pesquisa e Documentação da MULTIRIO; mestre em
Comunicação, imagem e informação pela Universidade Federal
Fluminense.
multirio
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Incluirei no kit-educativo q estou mandando para umas pessoas que desenvolvem peças teatrais educativas, ok
Ate
Cassiano
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