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"Perdemos nossa identidade", "De que lado
estamos nós?" desabafo do candidato derrotado na capital
gaúcha, Raul Pont.
Em meio ao cipoal de explicações que vão emergindo das
derrotas sofridas pelo PT em núcleos tradicionais como Porto
Alegre, São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, surge um
diagnóstico tão áspero e contundente quanto verdadeiro.
O candidato derrotado na capital gaúcha, Raul Pont, teve a
coragem de pôr o dedo da ferida e afirmar: o partido perdeu por
conta das frustrações de expressiva parcela da população que
votou no Lula em 2002.
Citou os aposentados, os assalariados de salário mínimo, a
classe média e até os bancários como grupos e categorias
desiludidas com o governo do PT.
Não poupou sequer o companheiro instalado na presidência da
República, que para ele abandonou os trabalhadores logo depois
da posse.
Pont culpa até Lula por derrotas
Foi cruel o desabafo de Pont, ao reconhecer que "perdemos
nossa identidade", mas sincero ao indagar: "De que lado
estamos nós?"
Enquanto boa parte da mídia busca poupar o governo do presidente
Lula, acentuando nada ter tido ele a ver com o resultado das
eleições municipais, até que enfim aparece quem, de dentro do
partido dominante, ousa romper o círculo de giz do sabujismo.
Não dá para omitir a parcela de responsabilidade da
política econômica nos decibéis da voz das urnas.
O eleitorado não é bobo, ainda mais em capitais politizadas
como as referidas. Um recado foi transmitido aos detentores do
poder. Se quiserem, o sinal amarelo acendeu no semáforo colocado
diante do Palácio do Planalto.
Poucas mudanças, ou nenhuma mudança, traduziram-se em votos,
ou melhor, na falta de votos necessários à vitória de Pont,
Marta, Vanhoni e Bittar, entre outros.
Se é verdade que o PT venceu em Belo Horizonte, Recife,
Fortaleza e Vitória, consideradas capitais de expressão, além
de Aracaju, Palmas, Macapá, Rio Branco e Porto Velho, de menor
densidade eleitoral, também é certo haver ficado o partido
devendo nos maiores centros operários do País.
A razão surge óbvia e é bom prestar atenção, porque se nada
mudar e o presidente Lula perder a reeleição, daqui a dois
anos, estará encerrada a maior das experiências políticas das
últimas décadas, o governo dos trabalhadores.
Gerações passarão até que apareça uma nova tentativa,
sabe-se lá pelas mãos de quem ou de que grupo partidário.
Derrota do conservadorismo, com exceções
Diagnóstico correto também foi feito pelo senador Jefferson
Perez, do PDT do Amazonas, provável novo presidente nacional do
partido que Leonel Brizola fundou.
O parlamentar amazonense concluiu haver sido o conservadorismo o
maior derrotado nas eleições municipais, com as exceções de
sempre.
No seu estado, caiu a oligarquia comandada durante anos pela
dupla Amazonino Mendes-Gilberto Mestrinho, ambos diversas vezes
tendo ocupado o governo local e a prefeitura de Manaus.
Multiplique-se o resultado pelos demais estados, embora, por
exemplo, em Goiânia, tenha vencido o veterano Iris Resende.
Outra consideração de Perez é de ter havido uma contramarcha
na escalada do PT para transformar-se no partido único nacional,
uma espécie de tentativa de mexicanização do Brasil.
Tivesse o PT vencido nas prefeituras onde foi derrotado, e em
outras, como estava planejado, chegaríamos perigosamente a 2006
com uma legenda superdimensionada e as demais em processo de
extinção.
Seria a consagração do sonho uma vez sonhado por Fernando
Collor e por Fernando Henrique Cardoso, de seus grupos se
estabelecerem por trinta anos ou mais no poder. Era esse, sem
dúvidas, o objetivo do PT. Melhor dizendo, continua sendo, mas
agora com os primeiros obstáculos decorrentes das eleições
recém-encerradas. Até a reeleição do presidente Lula não
parece tão garantida assim. Melhor para a democracia, para a
renovação política e para a superação do caciquismo -
conclui o senador.
A mesma praga de sempre
Deixamos passar quatro dias para não sermos acusados de
ranhetice ou radicalismo. Até mesmo para que os fatos viessem a
comprovar os argumentos. Falamos desse execrável horário de
verão que há décadas nos assola.
Na terça-feira, 02/11 dia sem trabalho, consagrado aos que partiram,
até que a alteração no relógio foi absorvida. Afinal, bastou
ficar na cama, tanto faz se até as oito, na realidade, ou às
nove horas da manhã, na ficção.
Mas quarta-feira, ontem e hoje, que tal o leitor lembrar como terá se levantado, percebendo que lhe surrupiaram uma hora de sono? Bem disposto, alegre, pronto para o trabalho, os mais velhos, ou o colégio, os mais novos?
Não se debitará ao governo Lula essa apropriação indébita da
paciência e da resistência biológica de cada um dos habitantes
dos estados onde o horário de verão entrou em vigor.
Desde Getúlio Vargas vem sendo assim, com raras exceções.
Pode-se até determinar com precisão a data de nascimento da
tecnocracia: foi quando pela primeira vez, sem qualquer consulta,
obrigaram o cidadão comum a adiantar o relógio. Por conta de
economizar 0,5% de energia, percentual que não podem comprovar,
submetem a população a uma truculência absurda.
É claro que de governo para governo as coisas pioram. Não
dispuseram, as administrações de Fernando Henrique e de Luiz
Inácio Lula da Silva, de personalidade suficiente para impor o
horário de verão em todo o País. O Nordeste e o Norte
reagiram, seus governadores não aceitaram.
O resultado seria cômico se não fosse trágico. Um operário
que mora em Salto da Divisa, em Minas, mas trabalha em
Itajimirim, na Bahia, sai de casa às seis da manhã, em dois
minutos atravessa a ponte sobre o rio Jequitinhonha, mas chega no
serviço às cinco da manhã.
Ficará uma hora perambulando pela rua até a abertura da
fábrica. De tarde, ao voltar, sai do trabalho às dezoito horas,
mas em dois minutos está em casa e já são dezenove horas.
Precisará explicar à mulher não ter ficado uma hora na rua
bebendo cachaça...
Aqui para nós, a tecnocracia faz do cidadão um joguete
desimportante. Valeria à pena indagar da ministra Dilma Roussef,
das Minas e Energia, se já venceu o mau humor de acordar uma
hora mais cedo.
Quanto aos seus tecnocratas, ninguém duvide: estão chegando
uma hora mais tarde nos seus gabinetes...
tribuna da imprensa
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