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Escrito por Carlos Chagas   
Friday, 05 November 2004

"Perdemos nossa identidade", "De que lado estamos nós?" desabafo do candidato derrotado na capital gaúcha, Raul Pont.

Em meio ao cipoal de explicações que vão emergindo das derrotas sofridas pelo PT em núcleos tradicionais como Porto Alegre, São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, surge um diagnóstico tão áspero e contundente quanto verdadeiro.

O candidato derrotado na capital gaúcha, Raul Pont, teve a coragem de pôr o dedo da ferida e afirmar: o partido perdeu por conta das frustrações de expressiva parcela da população que votou no Lula em 2002.

Citou os aposentados, os assalariados de salário mínimo, a classe média e até os bancários como grupos e categorias desiludidas com o governo do PT.

Não poupou sequer o companheiro instalado na presidência da República, que para ele abandonou os trabalhadores logo depois da posse.

Pont culpa até Lula por derrotas

Foi cruel o desabafo de Pont, ao reconhecer que "perdemos nossa identidade", mas sincero ao indagar: "De que lado estamos nós?"

Enquanto boa parte da mídia busca poupar o governo do presidente Lula, acentuando nada ter tido ele a ver com o resultado das eleições municipais, até que enfim aparece quem, de dentro do partido dominante, ousa romper o círculo de giz do sabujismo.

Não dá para omitir a parcela de responsabilidade da política econômica nos decibéis da voz das urnas.

O eleitorado não é bobo, ainda mais em capitais politizadas como as referidas. Um recado foi transmitido aos detentores do poder. Se quiserem, o sinal amarelo acendeu no semáforo colocado diante do Palácio do Planalto.

Poucas mudanças, ou nenhuma mudança, traduziram-se em votos, ou melhor, na falta de votos necessários à vitória de Pont, Marta, Vanhoni e Bittar, entre outros.

Se é verdade que o PT venceu em Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Vitória, consideradas capitais de expressão, além de Aracaju, Palmas, Macapá, Rio Branco e Porto Velho, de menor densidade eleitoral, também é certo haver ficado o partido devendo nos maiores centros operários do País.

A razão surge óbvia e é bom prestar atenção, porque se nada mudar e o presidente Lula perder a reeleição, daqui a dois anos, estará encerrada a maior das experiências políticas das últimas décadas, o governo dos trabalhadores.

Gerações passarão até que apareça uma nova tentativa, sabe-se lá pelas mãos de quem ou de que grupo partidário.

Derrota do conservadorismo, com exceções

Diagnóstico correto também foi feito pelo senador Jefferson Perez, do PDT do Amazonas, provável novo presidente nacional do partido que Leonel Brizola fundou.

O parlamentar amazonense concluiu haver sido o conservadorismo o maior derrotado nas eleições municipais, com as exceções de sempre.

No seu estado, caiu a oligarquia comandada durante anos pela dupla Amazonino Mendes-Gilberto Mestrinho, ambos diversas vezes tendo ocupado o governo local e a prefeitura de Manaus.

Multiplique-se o resultado pelos demais estados, embora, por exemplo, em Goiânia, tenha vencido o veterano Iris Resende.

Outra consideração de Perez é de ter havido uma contramarcha na escalada do PT para transformar-se no partido único nacional, uma espécie de tentativa de mexicanização do Brasil.

Tivesse o PT vencido nas prefeituras onde foi derrotado, e em outras, como estava planejado, chegaríamos perigosamente a 2006 com uma legenda superdimensionada e as demais em processo de extinção.

Seria a consagração do sonho uma vez sonhado por Fernando Collor e por Fernando Henrique Cardoso, de seus grupos se estabelecerem por trinta anos ou mais no poder. Era esse, sem dúvidas, o objetivo do PT. Melhor dizendo, continua sendo, mas agora com os primeiros obstáculos decorrentes das eleições recém-encerradas. Até a reeleição do presidente Lula não parece tão garantida assim. Melhor para a democracia, para a renovação política e para a superação do caciquismo - conclui o senador.

A mesma praga de sempre

Deixamos passar quatro dias para não sermos acusados de ranhetice ou radicalismo. Até mesmo para que os fatos viessem a comprovar os argumentos. Falamos desse execrável horário de verão que há décadas nos assola.

Na terça-feira, 02/11 dia sem trabalho, consagrado aos que partiram, até que a alteração no relógio foi absorvida. Afinal, bastou ficar na cama, tanto faz se até as oito, na realidade, ou às nove horas da manhã, na ficção.

Mas quarta-feira, ontem e hoje, que tal o leitor lembrar como terá se levantado, percebendo que lhe surrupiaram uma hora de sono? Bem disposto, alegre, pronto para o trabalho, os mais velhos, ou o colégio, os mais novos?

Não se debitará ao governo Lula essa apropriação indébita da paciência e da resistência biológica de cada um dos habitantes dos estados onde o horário de verão entrou em vigor.

Desde Getúlio Vargas vem sendo assim, com raras exceções. Pode-se até determinar com precisão a data de nascimento da tecnocracia: foi quando pela primeira vez, sem qualquer consulta, obrigaram o cidadão comum a adiantar o relógio. Por conta de economizar 0,5% de energia, percentual que não podem comprovar, submetem a população a uma truculência absurda.

É claro que de governo para governo as coisas pioram. Não dispuseram, as administrações de Fernando Henrique e de Luiz Inácio Lula da Silva, de personalidade suficiente para impor o horário de verão em todo o País. O Nordeste e o Norte reagiram, seus governadores não aceitaram.

O resultado seria cômico se não fosse trágico. Um operário que mora em Salto da Divisa, em Minas, mas trabalha em Itajimirim, na Bahia, sai de casa às seis da manhã, em dois minutos atravessa a ponte sobre o rio Jequitinhonha, mas chega no serviço às cinco da manhã.

Ficará uma hora perambulando pela rua até a abertura da fábrica. De tarde, ao voltar, sai do trabalho às dezoito horas, mas em dois minutos está em casa e já são dezenove horas. Precisará explicar à mulher não ter ficado uma hora na rua bebendo cachaça...

Aqui para nós, a tecnocracia faz do cidadão um joguete desimportante. Valeria à pena indagar da ministra Dilma Roussef, das Minas e Energia, se já venceu o mau humor de acordar uma hora mais cedo.

Quanto aos seus tecnocratas, ninguém duvide: estão chegando uma hora mais tarde nos seus gabinetes...


tribuna da imprensa

Comentarios (1)Add Comment
...
escrito por Visitante, 2005-05-26 10:55:27
eduardo braga e lula juntos para perder em 2006 para amazonino

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