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A imprensa se comporta, com freqüência, de acordo com algumas passagens bíblicas onde é mais fácil uma montanha de tolices passar pelo buraco de uma agulha que umas poucas questões serem minimamente analisadas.
A referência à passagem bíblica é apenas um recurso de comparação antes
que críticos espumantes enxerguem aqui qualquer outro viés.
A tolice dos
últimos dias está em criticar, como se ainda vivêssemos sob a ditadura militar,
um pretenso chauvinismo, o que não tem qualquer relação com a
realidade.
Surpreendida por um crescimento na produção econômica, queda
nos índices de desemprego e um bom porcentual de aprovação popular por parte do
governo do PT, entre outras referências que deveriam ser bem recebidas, a
"oposição" e parte da mídia se esforçam para encontrar o que a ironia popular
chama de "pêlo em ovo".
Não que o governo esteja isento de
críticas.
Milton Santos, um dos maiores geógrafos brasileiros, e que teve
negado em sua terra, a Bahia, uma homenagem que deveria ser prestada pela
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), sempre disse que a
obrigação dos intelectuais é fazer a crítica ao poder.
Milton Santos é
outra dessas metáforas poderosas.
Quase desconhecido no Brasil, até ser
cultuado no exterior, ao final da vida teve parte do mérito que lhe é devido
reconhecido por um círculo que nunca chegou a ser amplo.
Negro como a
noite, elegante no vestir e em se comportar, Milton Santos passou por dissabores
ao longo da vida, em aviões e outros ambientes vetados a despossuídos,
especialmente pela cor de sua pele. Ignorantes e pavlovianamente condicionados,
os serviçais desses ambientes desconheciam quem era aquele homem bem vestido, de
sorriso largo e cultura imensa, comprometida com a dignidade humana.
A
recusa da Bahia em prestar-lhe homenagem durante o último encontro da SBPC em
Salvador é apenas um indicativo do ponto a que pode chegar o simplorismo e a
estupidez, mesmo de setores supostamente esclarecidos como os que se abrigam na
universidade.
Em Salvador alegaram qualquer coisa que ele teria feito ao
tempo do governo Jânio Quadros e a homenagem, com a saúde dele seriamente
comprometida, não pôde ser feita.
Oligarquia Atrasada
A
crítica que pontuou na mídia ao longo da semana passada e se repetiu na véspera
do feriado de 7 de Setembro é de um pretenso nacionalismo, algo à la Garrastazu
Médici, estimulada pelo governo Lula.
A Folha de S. Paulo, durante a
semana comemorativa, chegou a publicar um box sobre o ambiente de ufanismo da
ditadura. E voltou à carga na véspera do 7 de Setembro. Ditadura, aliás, bem
suportada pela Folha, que durante todo aquele período não publicava editoriais e
tinha, além de um jornal explicitamente simpático aos militares, a Folha da
Tarde, parte de sua segurança feita por homens que eram policiais do sistema de
poder.
Talvez os jovens repórteres e os não tão jovens articulistas da
Folha, febris pela disputa insana que a direção do jornal instila na redação,
não tenham tido tempo de conhecer um pouco a história da publicação onde
trabalham. Ou tenham lido apenas o que escreveram os bajuladores, ainda que em
teses acadêmicas.
O fato é que se trata de uma necessidade psicológica
profunda melhorar a auto-estima dos brasileiros (do brasileiro, como prefere a
mídia) e desenvolver um certo patriotismo. Não há nada de errado nisso e uma
iniciativa como essa não pode ser confundida com ufanismo histérico combinado a
pretensas superioridades sobre outros povos ou nações.
Nossa auto-estima
já nasceu embotada por versões equivocadas sobre o que ocorreu na
história.
Aprendemos na escola que o Brasil começou a ser colonizado por
criminosos. Nossos professores primários só não disseram, porque também não
sabiam, que essa gente havia cometido crimes contra a igreja e que essa igreja,
da Contra-Reforma, era corrupta, atrasada e tinha as mãos sujas de sangue pelos
crimes da Inquisição.
Nossa condição de colônia de um país que foi
alijado da Revolução Industrial, após um período de exploração do planeta que
deitou as bases da revolução científica do século 17, tem uma relação estreita e
profunda com nossa auto-estima.
Aparecemos em todo o mundo como um país
de gente alegre, receptiva e generosa, mas nossas mulheres se prostituem no
exterior denunciando uma injustiça social e falta de perspectiva que vêm de
longe, produzidas por uma oligarquia rural escravista, atrasada em todos os
sentidos, despudorada quanto a princípios mínimos de dignidade
humana.
O sinhozinho
Boa parte dos representantes dessa mentalidade está
hoje na "oposição". De lá vem algumas dessas "críticas" ressentidas que parte da
imprensa endossa estupidamente ou reforça movida pelo mesmo sentimento de
inconformismo.
O governo do príncipe dos sociólogos, Fernando Henrique
Cardoso, para citar dois exemplos, enterrou 10 bilhões de reais no Banco
Nacional e nos levou de volta às cavernas com o apagão que, desde então,
produziu um novo tipo de artesanato: as tochas que antigamente iluminavam as
cavernas e que, agora, podem ser compradas em redes de
supermercados.
Recorremos a velas, lampiões e lamparinas, mas FHC, que
fala inglês e francês, embora ninguém entenda o que ele diz ou escreveu, mesmo
em português, ainda assim é identificado com a modernidade por certa percepção
de realidade.
Modernidade que a Folha de S. Paulo ajudou a difundir em
reportagens de páginas inteiras propagandeando morbidades como festas do peão
boiadeiro que, como um vírus, se disseminou de Barretos para o Brasil
inteiro.
Isso é que era. Chapeuzão de caubói, cinturão imitando os que
Bush usa no seu rancho e um delírio de ser de alguma forma
norte-americano.
Claro que o governo do PT tem uma série enorme de
problemas. Por que não teria?
A começar do presidente e do insulto tolo
que fez recentemente aos jornalistas, acusando-os indiscriminadamente de
covardes. Talvez ela tenha se esquecido do confronto que teve com Fernando
Collor quando acabou derrotado. A figura do sinhozinho abateu Lula e ele
entregou os pontos. Gilberto Freyre e Sigmund Freud ampliariam suas obras
analisando cenas como essa.
Promessa
segura
Em relação à "onda
patriótica" que ocupou outras três páginas da edição da Veja, no entanto, a
questão é inteiramente distinta. Lula tem experiência pessoal e profunda do que
é ser excluído social, retirante que passou fome, e agora se empenha em fazer
com que essa experiência dramática seja ao menos minimizada.
Os que nunca
tiveram essa experiência interpretam a proposta como exótica. Faz sentido de um
ponto de vista psicanalítico, para dizer o mínimo.
De uma ou outra forma
há uma recuperação de ânimos visível a olho nu neste país. Pode ser pelo
futebol, pela conquista de algumas medalhas olímpicas em Atenas, ou pela
performance da economia. Mas há, e isso é fundamental para a qualidade de vida
dos brasileiros.
Talvez nunca tenha havido um movimento discreto, mas
crescente, de solidariedade, de ONGs e outras associações empenhadas em
minimizar os problemas sociais. É uma reação desejável ao crescimento de uma
violência estrutural. Isso enfurece a "oposição", representantes de usineiros do
Nordeste, gente que se vê com direito de sequer pagar impostos,
auto-identificados como os donos ou a expressão do poder.
Ou seus
equivalentes em outras regiões.
É preciso, sim, não resgatar (não se
resgata o que não se teve), mas construir uma noção de pátria baseada em
identificação cultural, preocupação com o país, determinação de vencer nossos
próprios desafios para não repetirmos fiascos e brutalidades históricas como a
Guerra do Paraguai, como buchas de canhão de interesses internacionais.
É
preciso refutar a Lei do Gerson, esta sim construída pela ditadura militar, as
frases de efeito duras e excludentes como o "ame ou deixe-o" forjadas pela
direita truculenta e intolerante.
É profundamente necessário um convite à
reflexão sobre as potencialidades do Brasil. Da riqueza antropológica
representada por povos indígenas que ainda se mantém arredios ao contato, ao
potencial econômico, passando pelas belezas naturais e as perspectivas de
criação na ciência e tecnologia. O Brasil formou, no ano passado, 8.500
doutores. São novos pesquisadores e a promessa mais segura de expansão de
conquistas científico-tecnológicas. É preciso inseri-los na
produção.
Iniciativa
saudável
A propósito, este ano,
completa 100 anos de um caso exemplar de campanha movida pela oposição/imprensa
contra projetos cidadãos: a Revolta da Vacina – ou Quebra-Lampiões –, no Rio de
Janeiro.
Para os leitores que não se lembram mais disso, vamos recordar
que Oswaldo Cruz, médico-sanitarista nascido em São Luiz do Paraitinga, terra do
professor Aziz Nacib Ab’Saber, no Vale do Paraíba, ocupava a direção do
Instituto Manguinhos (Instituto Soroterápico, em 1902), quando irrompeu uma
epidemia de febre amarela no Rio, a então capital do país.
Oswaldo Cruz,
pesquisador de prestígio internacional, inicia uma campanha de combate aos focos
de mosquitos e sofre resistência por parte de positivistas (uma praga que a
França nos legou), políticos de oposição ao governo de Rodrigues Alves e de
vários jornais do Rio de Janeiro.
O combate à febre amarela (que deixava
de quarentena navios brasileiros em portos estrangeiros, mesmo
latino-americanos) estimulou uma revolta na Escola Militar com repercussão
popular que ameaçou o governo de Rodrigues Alves. Subjugada pelo comandante da
guarnição federal, Hermes Rodrigues da Fonseca, a revolta não inibiu o trabalho
de Oswaldo Cruz. Em 1903, o número de óbitos estava em 584 casos, em 1904 subiu
para 589 e em seguida decresceu: 39 em 1906, 4 em 1907 e nenhum em
1908.
Em conseqüência disso, o júri do XIV Congresso Internacional de
Higiene, em Berlim, deu o primeiro prêmio, uma medalha de ouro ao Brasil, entre
os 123 países presentes ao encontro.
Como se vê, de um ponto de vista
histórico as coisas mudam, mas nem tanto. Por isso mesmo, estimular um mínimo de
consciência patriótica, de melhoria de auto-estima, longe de bravatas
inconseqüentes, é uma iniciativa saudável.
Certamente é isso que irrita a
oposição e parte da imprensa. Oswaldo Cruz conheceu bem o significado
disso.
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vereadores trabalham