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Seu Jorge: Um Inevitável Sucesso PDF Imprimir E-mail
Escrito por José Chrispiniano   
Wednesday, 03 November 2004

“O samba é nossa verdade, nossa particularidade, nossa medalha de ouro, nosso baluarte, nosso estandarte brasileiro”. Seu Jorge

Mundo Pop apresenta Seu Jorge

Seu Jorge é como um personagem popular: pode ser mecânico, seu amigo, seu parceiro, seu Jorge. O apelido, ele ganhou do amigo Marcelo Yuka, ex-baterista do Rappa.

Mais um fruto da arte marginal, produzida nas favelas e nos morros do Brasil, Seu Jorge nasceu e foi criado nas favelas do Rio de Janeiro.

Já foi borracheiro, relojoeiro, marceneiro, office-boy e contínuo de banco. Músico e ator, Seu Jorge é o codinome de Jorge Mário da Silva, de 34 anos, ator temporão que participou até agora de mais de dez filmes, entre eles, Cidade de Deus, onde ficou famoso pelo personagem Mané Galinha.

Entre 1990 e 1997, ele esteve praticamente fora de combate. Vivia nas ruas do Rio de Janeiro, como um sem-teto. Em 1997, foi parar no grupo de teatro Tá na Rua, de Amir Haddad. Dali, foi "recolhido", por assim dizer, por um grupo de admiradores de sua obra e convidado para integrar um grupo que fez furor durante algum tempo nos bares da Lapa: o Farofa Carioca.

O grupo cresceu que nem massa de fermento e acabou sendo escalado para o Free Jazz Festival, em 1998.

Sozinho de novo, após o fim da banda, o cantor iniciou o trabalho do seu primeiro disco por uma gravadora. Seu primeiro disco sob essa condição é o elogiado “Samba Esporte Fino”, produzido por Mario Caldato Jr., o mesmo dos Beastie Boys.

Entre suas principais influências estão Nelson Cavaquinho, Estação Primeira de Mangueira, Romário, Stevie Wonder e Zeca Pagodinho.


Esta história termina de um jeito um tanto nonsense, com o encontro entre o narrador e o personagem principal, de madrugada, no meio da selva. Chegaremos lá.

Mas antes vamos até onde ela começa, ao menos para mim, há dois anos, no grande Sebolândia, Tucuruvi, na zona norte de São Paulo, com a compra de um CD usado por R$ 7,00: Samba Esporte Fino, do Seu Jorge.

Veja bem, este é o segundo preço mais baixo para um CD na Sebolândia. Não é ofensa, já comprei muita coisa boa até por menos.

Só é engraçado pesar o longo caminho e a lógica que faz com que eu tenha ido a uma hiperfesta badalada de lançamento de um CD que eu comprei usado, por “sete real” dois anos atrás. Algo errado? Onde? Com quem?

O CD era independente, seu primeiro solo após a banda de um álbum só Farofa Carioca.

Seu Jorge já carregava um certo nome, principalmente no Rio, e tinha na produção um dos melhores do mundo: Mário Caldato Jr., produtor dos Beastie Boys e Planet Hemp. Mais importante, a música era extremamente brasileira e popular. Todos gêneros testados e aprovados pelo povão.

Samba, reguinho, samba-rock, funk brazuca. Tudo nos conformes, sem arroubos, sem invencionices. Carisma, visual, o sujeito tinha tudo para estourar.

Bem, foi solapamente ignorado, salvo as exceções de regra. O clipe, que também não ajudava muito, passou pouco na MTV, e a coisa ficou confinada a alguns DJs.

A pequena tiragem do CD logo esgotou. A música "Carolina" pegou e pega bem entre os samba-rocks nos bailes e parecia que fosse ficar nisso aí. Mas o sucesso, no caso já foi dito, era inevitável.

De repente, as pessoas começaram a procurar mais o CD que havia sumido e perguntar onde podiam encontrá-lo. Aí e aí, veio Cidade De Deus. E de repente, Seu Jorge era o caralho. O nome dele agora era Mané Galinha. Ou algo assim...

Neste pé, dia 25 de outubro de 2002 assisti a um show dele no Urbano. Era uma sexta e no domingo aconteceria o segundo turno das eleições.

Seu Jorge abre o show comentando a casa cheia, que ele estava animado porque diziam que não valia a pena vir tocar em São Paulo e que domingo era dia de votar no Lula. Parte da galera delira, parte vaia...

Grande show, grande som, ele tocando violão de pé, levando a banda atrás. Comenta que é uma espécie de show de lançamento do CD, mas que também não é porque não há CD para vender, ainda que vai sair uma nova tiragem em breve.

Penso, "olha a oportunidade, o momento que o cara está perdendo". Mas seu sucesso, Jorge, era inevitável.

Naquele domingo, Lula foi eleito. Montado no CD e no filme, o Brasil oferecia pouco ao Seu Jorge. Nenhuma grande gravadora daqui jamais se interessou e não houve nova tiragem do seu CD, ao mesmo tempo em que ele saia por selos lá fora.

E lá foi ele para o Favela Chic, o bar/restaurante brasileiro em Paris, que tem um selo de música, por onde ele gravou seu novo CD Cru.

E lá foi ele ser ator de um filme da Disney, gravando a trilha sonora com versões black brazuca de David Bowie.

E lá foi ele tanto que um editor de uma revista de world music depois de ver seu show disse ter visto o futuro da música e ele era Seu Jorge.

Aí, ele, o ex-morador de rua, ex-hype carioca, ex-Mané Galinha voltou. E a parte boa desta historinha começa. Alguns dias atrás...

O Hotel é Unique. Parece uma imensa melancia. Na entrada, o filho do "ex-rei da soja", que ficou (mais) rico ao pular fora da bolha da internet na hora certa, lança cachaça for export. Filho do rei da soja, parece querer ser o "king of cachaça", ou algo assim.

Faz sentido, embora a caipirinha que deriva da sua branquinha deixe muito a desejar.

Fotógrafos tiram fotos de famosa colunista social, certamente para uma outra coluna social. Sinal dos tempos.

O hiper-pós-moderno frio cool hotel design abre seu espaço para o "evento", e "evento" será a palavra chave da noite. O ingresso para ver o show custava dez vezes o que eu paguei no CD, R$ 70,00.

Mas é impossível achar alguém que não tenha entrado de graça por algum canal da arquitetura da brodagem paulistana. Só da marca de roupa que patrocina o show são 1.200 "cortesias" (Após o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda, hoje temos o homem cortesia). Bem, tamos aí.

E não é só nóis na fita! Fora as celebrity do ramo modelo e atriz, estavam Milton Nascimento (uma entidade), Raí, Paulo Ricardo, Érika Palomino, Arnaldo Antunes, Falcão do Rappa, Mano Brown e etc. Mano Brown!?!?! Caiu a casa pro Ruy Othake, vida Louka...

Os vips dos vips dos vips têm um espaço próprio, um pequeno elevado diante do palco, feito para ver e serem vistos. Palco de um show à parte.

Quando começa o próprio. Fernanda Lima anuncia a atração e que sua ex-emissora, a MTV, está gravando o show. O nome do programa? MTV apresenta Seu Jorge. Muito prazer.

A banda entra no palco. Toda espontaneamente embalada em roupas da marcas do patrocinador do show e nova tiragem do CD.

E a música? Ora a música... Formada por excelentes instrumentistas, tiveram apenas quatro dias para ensaiar. "Para um show, OK, mas para um DVD, aí, um monte de coisa deu errado e ficou gravado...", falou após o show.

A banda errou tanto que, em "Carolina", os metais saíram completamente fora da música, e depois de algum debate interno, saíram do palco e simplesmente não tocaram algumas canções.

Mas era sua volta, e quem vai ligar para isso? Patrocinado, pouco ensaiado, sendo gravado, sem receber cachê, diante de platéia branca, rica e, pior, vip.

Lançando um CD de anos atrás. O show foi bom, mas só bom, bem pior que aquele do Urbano. Mas para a platéia, repito, não fazia diferença, parte estava empolgada porque gosta, parte porque virou bacana.

Ainda não foi o dia de convencer minha irmã da qualidade de Seu Jorge. Na realidade, ganhei algumas de suas dúvidas. Da sua desconfiança do desconfiado.

No telão, entre frases qualquer coisa, surge "o samba é a nossa verdade". Será?

Há algo errado aqui, na caipirinha for export, no público que não consegue sambar, mais duro que os parisienses que freqüentam o Favela Chic.

Súbito, me lembrei de algo, foi como uma luz em forma de castanha de caju. No auge da valorização do plano real, do 1 pra 1, as lojas importavam uma marca de castanha em lata dos Estados Unidos.

Sendo que nos Estados Unidos, esta mesma castanha era importada do Brasil. Chamava-se Brazil Nut's. Desculpe quebrar a graça explicando, mas o trocadilho em inglês (castanha=maluco) era perfeito para a situação do Brasil importar a mesma castanha que exportava.

E aí, Seu Jorge no Unique me lembrou isso. Macumba para turista. Nós como nossos próprios turistas. Não dá para se enganar que esse show marque algum tipo de reencontro da elite jovem paulistana, da MTV etc com "um pouquinho de Brasil ia iá".

"Bacana" é Seu Jorge e era Pagodinho, mas o que não for "bacana" seguirá sem sentido enquanto não for "bacana".

E esse pessoal hoje esta aqui, amanhã na próxima boca-livre feita para a corte midiática. E Seu Jorge, o ex-morador de rua de olhar desconfiado e ao mesmo tempo curtindo tudo isso, está nesse business perfeito da Brazil Nuts.

De se exportar como exótico, Terceiro Mundo para lá, e se importar como internacional, Primeiro Mundo para cá.

Conseguiu superar a sina cantada em sua própria música, a dura verdade de que "a carne mais barata do mercado é a carne negra".

As engrenagens agora estão todas ao seu favor. As revistas já têm as pautas com ele, aqui e na Europa. No dia seguinte, acordei e o novo clipe, gravado em Roma, com participação de Bill Murray, passava na MTV.

Tudo perfeito demais. Infelizmente o esquema joga assim. E o fato do mesmo CD, a mesma coisa, ter essas duas medidas, mostra a diferença que o peso que está por trás faz.

Como falta verdade, ou ao menos espontaneidade nesse esquema todo. Tá tudo dominado.

Ele é bom. Canta bem, compõe bem, tem suíngue, presença. Mas falta algo no seu jeito populista, e repito, desconfiado, consciente, ainda que vindo donde ele vem faz muito bem de ter pé atrás.

No camarim, depois do show, na selva de socialites turbinadas, jornalistas, músicos, famosos, eu que caí lá por acaso, de carona da carona no canto do canto do espaço.

Um artista que eu admiro pra caramba e sempre quis conhecer estava tão bêbado que quase disse "sai, mala", e Seu Jorge muito solícito, simpático, me sai com essa, quando pergunto se ele já fez alguma coisa com os Racionais. Afinal, os caras disseram que gostavam da sua música.

- Chamei o cara e ele veio aí. O Mano Brown taí, no meu quarto. Dormindo lá em cima. Sensacional... Mas (e é mas mesmo) essa:

- R$70,00 pau por essa qualidade, um lugar legal, com segurança. É até pouco.

E mais essa:

- Eu não esperava esta recepção toda, o pessoal cantando as músicas. E os playboys de São Paulo são diferentes dos do Rio. O playboy de São Paulo uma hora vai trabalhar na empresa do pai. O do Rio vai para a praia.

E só para finalizar:

- Samba... Gosto de tocar tudo, tudo (samba, funk, samba-rock). O que eu gosto de cantar mesmo é o amor. Eu já fui dessas coisas mais políticas... Mas olha, Bob Marley cantou de amor e paz e se tornou o homem mais perigoso do mundo (?).

Tarde, madrugada, álcool etc... Não vou insistir em querer tirar respostas complexas de um cara com a técnica carioca de desviar do assunto.

Se por um lado descobri que este negócio de coluna social, de ir atrás de informação na balada com as pessoas bêbadas tarde da noite até que funciona, por outro não tive coragem de, em uma conversa, ainda que tivesse sido apresentado como jornalista, fazer a pergunta que eu realmente queria.

Se ele achava que estava fazendo em música aquilo que realmente parece ser capaz de fazer. Se estava sentindo-se livre naquilo. Espontâneo.

Alforriado. Admito que talvez a pergunta não faça sentido ou faça, mas ele não tenha resposta porque não sabe ou não se importa. Talvez o sujeito tão temido dormindo no quarto acima tenha. Mas é que aí há alguma coisa, um enigma, uma história de fato, no que tem e no que falta ao seu Jorge.

Quem sabe não preciso ir tão longe, porque houve um ruído, um ato falho dessa resposta no próprio show, no que foi seu melhor momento. Na volta do bis, ele chamou um músico no cavaco, "vem cá, pretinho" e disse, quase bravo, "deu vontade de cantar um samba de João Nogueira". E cantou. Cavaquinho e voz. E foi bonito. E fora do script. E parte da platéia ficou meio perdida. E foi bom. E ali, o samba de fato foi a sua verdade.

Eu quero que Seu Jorge faça o sucesso que lhe é inevitável. Para depois ver o que ele vai fazer.

Livre das engrenagens dos eventos, dos patrocínios, do negro para consumo de luxo exótico, aqui e no exterior. Quando ele estiver em posição de ditar seu próprio caminho.

Que venha o sucesso inevitável, que ele se mude para Nova York, que faça filme com Andrucha, que os festivais de World Music do verão europeu marquem suas datas e que a equipe do Faustão já vá preparando um arquivo confidencial.

Eu vou é esperar e torcer pelo que pode vir depois disso. Se vier...

BScene

Comentarios (6)Add Comment
el baile del pescao
escrito por Visitante, 2005-01-18 14:11:54
bailes
ana maria pero ven rapido maana a prime
escrito por Visitante, 2005-05-18 15:08:11
hola te digo que agas un vaile y que vengas a la escuela armada nacional direccion por el moll del sur asme x favor ese deseo
legal!
escrito por Visitante, 2005-07-08 13:27:26
.
sonic
escrito por Visitante, 2005-07-30 15:13:33
que todos o brasileiros tenham forca para vencer como vc e eu bjs
YASMIN
escrito por Visitante, 2005-12-27 12:37:03
Opahum
q massa po
Um sonoro ZZZZZ para Seu Jorge
escrito por Juca, 2008-07-29 18:57:34
Acho que ele não vingou... voz razoável, repertório duvidoso... 4 anos se passaram desde a publicação dessa matéria.
Kra, a MPB acabou, vamos encarar os fatos. Ninguém mais aguenta o mesmo nhenhenhé que embalarou a juventude de 60,70,80.
E esse kra não está com a bola toda, não.
Não surgiu mais ninguém memorável na MPB desde Marisa Monte em sua melhor forma (anos 80, 90).
Enquanto não aparece ninguém que valha a pena no Brasil, vou curtindo coisas antigas e outras influências (até do exterior, pq não?)

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