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O samba é nossa verdade, nossa particularidade, nossa
medalha de ouro, nosso baluarte, nosso estandarte brasileiro.
Seu Jorge
Mundo Pop apresenta Seu Jorge
Seu Jorge é como um personagem popular: pode ser mecânico, seu
amigo, seu parceiro, seu Jorge. O apelido, ele ganhou do amigo
Marcelo Yuka, ex-baterista do Rappa.
Mais um fruto da arte marginal, produzida nas favelas e nos
morros do Brasil, Seu Jorge nasceu e foi criado nas favelas do
Rio de Janeiro.
Já foi borracheiro, relojoeiro, marceneiro, office-boy e
contínuo de banco. Músico e ator, Seu Jorge é o codinome de
Jorge Mário da Silva, de 34 anos, ator temporão que participou
até agora de mais de dez filmes, entre eles, Cidade de Deus,
onde ficou famoso pelo personagem Mané Galinha.
Entre 1990 e 1997, ele esteve praticamente fora de combate. Vivia
nas ruas do Rio de Janeiro, como um sem-teto. Em 1997, foi parar
no grupo de teatro Tá na Rua, de Amir Haddad. Dali, foi
"recolhido", por assim dizer, por um grupo de
admiradores de sua obra e convidado para integrar um grupo que
fez furor durante algum tempo nos bares da Lapa: o Farofa
Carioca.
O grupo cresceu que nem massa de fermento e acabou sendo
escalado para o Free Jazz Festival, em 1998.
Sozinho de novo, após o fim da banda, o cantor iniciou o
trabalho do seu primeiro disco por uma gravadora. Seu primeiro
disco sob essa condição é o elogiado Samba Esporte
Fino, produzido por Mario Caldato Jr., o mesmo dos Beastie
Boys.
Entre suas principais influências estão Nelson Cavaquinho,
Estação Primeira de Mangueira, Romário, Stevie Wonder e Zeca
Pagodinho.
Esta
história termina de um jeito um tanto nonsense, com o
encontro entre o narrador e o personagem principal, de
madrugada, no meio da selva. Chegaremos lá.
Mas antes vamos até onde ela começa, ao menos para mim,
há dois anos, no grande Sebolândia, Tucuruvi, na zona norte
de São Paulo, com a compra de um CD usado por R$ 7,00: Samba
Esporte Fino, do Seu Jorge.
Veja bem, este é o segundo preço mais baixo para um CD
na Sebolândia. Não é ofensa, já comprei muita coisa boa
até por menos.
Só é engraçado pesar o longo caminho e a lógica que
faz com que eu tenha ido a uma hiperfesta badalada de
lançamento de um CD que eu comprei usado, por sete
real dois anos atrás. Algo errado? Onde? Com quem?
O CD era independente, seu primeiro solo após a banda de um
álbum só Farofa Carioca.
Seu Jorge já carregava um certo nome, principalmente no
Rio, e tinha na produção um dos melhores do mundo: Mário
Caldato Jr., produtor dos Beastie Boys e Planet Hemp. Mais
importante, a música era extremamente brasileira e popular.
Todos gêneros testados e aprovados pelo povão.
Samba, reguinho, samba-rock, funk brazuca. Tudo nos
conformes, sem arroubos, sem invencionices. Carisma, visual,
o sujeito tinha tudo para estourar.
Bem, foi solapamente ignorado, salvo as exceções de regra.
O clipe, que também não ajudava muito, passou pouco na MTV,
e a coisa ficou confinada a alguns DJs.
A pequena tiragem do CD logo esgotou. A música
"Carolina" pegou e pega bem entre os samba-rocks
nos bailes e parecia que fosse ficar nisso aí. Mas o
sucesso, no caso já foi dito, era inevitável.
De repente, as pessoas começaram a procurar mais o CD que
havia sumido e perguntar onde podiam encontrá-lo. Aí e aí,
veio Cidade De Deus. E de repente, Seu Jorge era o caralho. O
nome dele agora era Mané Galinha. Ou algo assim...
Neste pé, dia 25 de outubro de 2002 assisti a um show
dele no Urbano. Era uma sexta e no domingo aconteceria o
segundo turno das eleições.
Seu Jorge abre o show comentando a casa cheia, que ele
estava animado porque diziam que não valia a pena vir tocar
em São Paulo e que domingo era dia de votar no Lula. Parte
da galera delira, parte vaia...
Grande show, grande som, ele tocando violão de pé, levando
a banda atrás. Comenta que é uma espécie de show de
lançamento do CD, mas que também não é porque não há CD
para vender, ainda que vai sair uma nova tiragem em breve.
Penso, "olha a oportunidade, o momento que o cara
está perdendo". Mas seu sucesso, Jorge, era
inevitável.
Naquele domingo, Lula foi eleito. Montado no CD e no filme, o
Brasil oferecia pouco ao Seu Jorge. Nenhuma grande gravadora
daqui jamais se interessou e não houve nova tiragem do seu
CD, ao mesmo tempo em que ele saia por selos lá fora.
E lá foi ele para o Favela Chic, o bar/restaurante
brasileiro em Paris, que tem um selo de música, por onde ele
gravou seu novo CD Cru.
E lá foi ele ser ator de um filme da Disney, gravando a
trilha sonora com versões black brazuca de David Bowie.
E lá foi ele tanto que um editor de uma revista de world
music depois de ver seu show disse ter visto o futuro da
música e ele era Seu Jorge.
Aí, ele, o ex-morador de rua, ex-hype carioca, ex-Mané
Galinha voltou. E a parte boa desta historinha começa.
Alguns dias atrás...
O Hotel é Unique. Parece uma imensa melancia. Na entrada, o
filho do "ex-rei da soja", que ficou (mais) rico ao
pular fora da bolha da internet na hora certa, lança
cachaça for export. Filho do rei da soja, parece querer ser
o "king of cachaça", ou algo assim.
Faz sentido, embora a caipirinha que deriva da sua
branquinha deixe muito a desejar.
Fotógrafos tiram fotos de famosa colunista social,
certamente para uma outra coluna social. Sinal dos tempos.
O hiper-pós-moderno frio cool hotel design abre seu
espaço para o "evento", e "evento" será
a palavra chave da noite. O ingresso para ver o show custava
dez vezes o que eu paguei no CD, R$ 70,00.
Mas é impossível achar alguém que não tenha entrado de
graça por algum canal da arquitetura da brodagem paulistana.
Só da marca de roupa que patrocina o show são 1.200
"cortesias" (Após o homem cordial de Sérgio
Buarque de Holanda, hoje temos o homem cortesia). Bem, tamos
aí.
E não é só nóis na fita! Fora as celebrity do ramo modelo
e atriz, estavam Milton Nascimento (uma entidade), Raí,
Paulo Ricardo, Érika Palomino, Arnaldo Antunes, Falcão do
Rappa, Mano Brown e etc. Mano Brown!?!?! Caiu a casa pro Ruy
Othake, vida Louka...
Os vips dos vips dos vips têm um espaço próprio, um
pequeno elevado diante do palco, feito para ver e serem
vistos. Palco de um show à parte.
Quando
começa o próprio. Fernanda Lima anuncia a atração e que
sua ex-emissora, a MTV, está gravando o show. O nome do
programa? MTV apresenta Seu Jorge. Muito prazer.
A banda entra no palco. Toda espontaneamente embalada em
roupas da marcas do patrocinador do show e nova tiragem do
CD.
E a música? Ora a música... Formada por excelentes
instrumentistas, tiveram apenas quatro dias para ensaiar.
"Para um show, OK, mas para um DVD, aí, um monte de
coisa deu errado e ficou gravado...", falou após o
show.
A banda errou tanto que, em "Carolina", os
metais saíram completamente fora da música, e depois de
algum debate interno, saíram do palco e simplesmente não
tocaram algumas canções.
Mas era sua volta, e quem vai ligar para isso? Patrocinado,
pouco ensaiado, sendo gravado, sem receber cachê, diante de
platéia branca, rica e, pior, vip.
Lançando um CD de anos atrás. O show foi bom, mas só
bom, bem pior que aquele do Urbano. Mas para a platéia,
repito, não fazia diferença, parte estava empolgada porque
gosta, parte porque virou bacana.
Ainda não foi o dia de convencer minha irmã da qualidade
de Seu Jorge. Na realidade, ganhei algumas de suas dúvidas.
Da sua desconfiança do desconfiado.
No telão, entre frases qualquer coisa, surge "o samba
é a nossa verdade". Será?
Há algo errado aqui, na caipirinha for export, no
público que não consegue sambar, mais duro que os
parisienses que freqüentam o Favela Chic.
Súbito, me lembrei de algo, foi como uma luz em forma de
castanha de caju. No auge da valorização do plano real, do
1 pra 1, as lojas importavam uma marca de castanha em lata
dos Estados Unidos.
Sendo que nos Estados Unidos, esta mesma castanha era
importada do Brasil. Chamava-se Brazil Nut's. Desculpe
quebrar a graça explicando, mas o trocadilho em inglês
(castanha=maluco) era perfeito para a situação do Brasil
importar a mesma castanha que exportava.
E aí, Seu Jorge no Unique me lembrou isso. Macumba para
turista. Nós como nossos próprios turistas. Não dá para
se enganar que esse show marque algum tipo de reencontro da
elite jovem paulistana, da MTV etc com "um pouquinho de
Brasil ia iá".
"Bacana" é Seu Jorge e era Pagodinho, mas o que
não for "bacana" seguirá sem sentido enquanto
não for "bacana".
E esse pessoal hoje esta aqui, amanhã na próxima
boca-livre feita para a corte midiática. E Seu Jorge, o
ex-morador de rua de olhar desconfiado e ao mesmo tempo
curtindo tudo isso, está nesse business perfeito da Brazil
Nuts.
De se exportar como exótico, Terceiro Mundo para lá, e
se importar como internacional, Primeiro Mundo para cá.
Conseguiu superar a sina cantada em sua própria música,
a dura verdade de que "a carne mais barata do mercado é
a carne negra".
As engrenagens agora estão todas ao seu favor. As revistas
já têm as pautas com ele, aqui e na Europa. No dia
seguinte, acordei e o novo clipe, gravado em Roma, com
participação de Bill Murray, passava na MTV.
Tudo perfeito demais. Infelizmente o esquema joga assim. E o
fato do mesmo CD, a mesma coisa, ter essas duas medidas,
mostra a diferença que o peso que está por trás faz.
Como falta verdade, ou ao menos espontaneidade nesse
esquema todo. Tá tudo dominado.
Ele é bom. Canta bem, compõe bem, tem suíngue, presença.
Mas falta algo no seu jeito populista, e repito, desconfiado,
consciente, ainda que vindo donde ele vem faz muito bem de
ter pé atrás.
No camarim, depois do show, na selva de socialites
turbinadas, jornalistas, músicos, famosos, eu que caí lá
por acaso, de carona da carona no canto do canto do espaço.
Um artista que eu admiro pra caramba e sempre quis
conhecer estava tão bêbado que quase disse "sai,
mala", e Seu Jorge muito solícito, simpático, me sai
com essa, quando pergunto se ele já fez alguma coisa com os
Racionais. Afinal, os caras disseram que gostavam da sua
música.
- Chamei o cara e ele veio aí. O Mano Brown taí, no meu
quarto. Dormindo lá em cima. Sensacional... Mas (e é mas
mesmo) essa:
- R$70,00 pau por essa qualidade, um lugar legal, com
segurança. É até pouco.
E mais essa:
- Eu não esperava esta recepção toda, o pessoal cantando
as músicas. E os playboys de São Paulo são diferentes dos
do Rio. O playboy de São Paulo uma hora vai trabalhar na
empresa do pai. O do Rio vai para a praia.
E só para finalizar:
- Samba... Gosto de tocar tudo, tudo (samba, funk,
samba-rock). O que eu gosto de cantar mesmo é o amor. Eu já
fui dessas coisas mais políticas... Mas olha, Bob Marley
cantou de amor e paz e se tornou o homem mais perigoso do
mundo (?).
Tarde, madrugada, álcool etc... Não vou insistir em querer
tirar respostas complexas de um cara com a técnica carioca
de desviar do assunto.
Se por um lado descobri que este negócio de coluna
social, de ir atrás de informação na balada com as pessoas
bêbadas tarde da noite até que funciona, por outro não
tive coragem de, em uma conversa, ainda que tivesse sido
apresentado como jornalista, fazer a pergunta que eu
realmente queria.
Se ele achava que estava fazendo em música aquilo que
realmente parece ser capaz de fazer. Se estava sentindo-se
livre naquilo. Espontâneo.
Alforriado. Admito que talvez a pergunta não faça
sentido ou faça, mas ele não tenha resposta porque não
sabe ou não se importa. Talvez o sujeito tão temido
dormindo no quarto acima tenha. Mas é que aí há alguma
coisa, um enigma, uma história de fato, no que tem e no que
falta ao seu Jorge.
Quem sabe não preciso ir tão longe, porque houve um ruído,
um ato falho dessa resposta no próprio show, no que foi seu
melhor momento. Na volta do bis, ele chamou um músico no
cavaco, "vem cá, pretinho" e disse, quase bravo,
"deu vontade de cantar um samba de João Nogueira".
E cantou. Cavaquinho e voz. E foi bonito. E fora do script. E
parte da platéia ficou meio perdida. E foi bom. E ali, o
samba de fato foi a sua verdade.
Eu quero que Seu Jorge faça o sucesso que lhe é
inevitável. Para depois ver o que ele vai fazer.
Livre das engrenagens dos eventos, dos patrocínios, do
negro para consumo de luxo exótico, aqui e no exterior.
Quando ele estiver em posição de ditar seu próprio
caminho.
Que venha o sucesso inevitável, que ele se mude para Nova
York, que faça filme com Andrucha, que os festivais de World
Music do verão europeu marquem suas datas e que a equipe do
Faustão já vá preparando um arquivo confidencial.
Eu vou é esperar e torcer pelo que pode vir depois disso.
Se vier...
BScene
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