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Não há perfume francês capaz de transformar gambá
em gatinho de estimação, e Campos tinha um olfato aguçado para
detectar os fétidos gambás disfarçados nessa terra de Macunaíma,
como ele gostava de chamar o Brasil.
Lendo a coletânea de artigos do ilustre e saudoso Roberto
Campos, Na Virada do Milênio (*), bateu-me forte
vontade de escrever diversos artigos, como resumos de suas análises
brilhantes.
Após reflexão, entretanto, concluí que era mais justo com o
leitor oferecer a jóia direto da fonte, ficando meu papel
restrito à seleção de pérolas no meio de um mar repleto de
ostras.
Impressiona como os anos passam nesse país, e a abordagem
racional e lúcida nunca se torna ultrapassada, dado a permanente
insistência do país no rumo do ilogismo.
Vamos caminhar um pouco pela estrada da racionalidade:
O mercado é apenas o lugar em que as pessoas transacionam
livremente entre si. Só isso. Mas não é pouco, porque no seu
espaço a interação competitiva entre os agentes econômicos
equivale a um plebiscito ininterrupto, que não só permite fazer
uma apuração, a todos os momentos revista, das preferências
dos indivíduos, como lhes dá uma medição quantitativa,
tornando possível, por conseguinte, o cálculo racional.
Os socialistas, e em especial os marxistas, sempre pensaram
que existia um estado natural de abundância. Nada mais simples,
portanto, que a economia de Robin Hood: tirar dos ricos para dar
aos pobres.
É pela automaticidade, do castigo, e não por inspiração
divina, que os empresários privados não param de pensar em
custos.
Há várias maneiras de prejudicar os pobres. Elas têm
sido deligentemente utilizadas por pessoas e instituições, com
intenções perigosamente boas. Comecemos pela Igreja Católica.
Sua opção pelos pobres tem sido uma opção pela pobreza. De um
lado, favorece a proliferação dos pobres, opondo-se a técnicas
artificiais de controle de natalidade, que são as únicas
realmente eficazes, pois a abstenção sexual nas épocas férteis
não é esporte fácil nos trópicos. De outro, contribui para a
criação de uma mentalidade anticapitalista, pela suspicácia em
relação ao lucro empresarial.
Como diz Hayek, o poder sindical é essencialmente o poder
de privar alguém de trabalhar aos salários que estaria disposto
a aceitar.
Quem se preocupa sinceramente com os pobres deve buscar,
obsessivamente, elevar a demanda de mão-de-obra através de
medidas como: 1) A privatização de empresas estatais, pois o
governo falido perdeu a capacidade de investir; 2) A eliminação
de restrições ao capital estrangeiro, que geraria empregos e
traria tecnologia; 3) A diminuição dos encargos sociais e
burocráticos, que oneram o custo da contratação.
É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e
intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro,
mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar -
bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo
burguês. Trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a
Coca-Cola...
Admitir o liberalismo explícito, num país de
cultura dirigista, é coisa tão esquisita como praticar sexo
explícito em público. Não dá cadeia, mas gera patrulhamento
ideológico. A etiqueta de socialista ou centro-esquerda
dá um ar de respeitabilidade a qualquer patife ou imbecil,
animais abundantes na praça...
No meu dicionário, socialista é o cara que
alardeia intenções e dispensa resultados, adora ser generoso
com o dinheiro alheio, e prega igualdade social, mas se considera
mais igual que os outros...
Nossas leis, assim como a Constituição de 1988, são
abundantes em garantias. O problema é que o irrealismo das
promessas e reinvidicações resulta no crescimento do mercado
informal, à margem das leis. Isso enseja a formulação de uma
nova lei sociológica: a redução do número de garantidos
é diretamente proporcional à ampliação das garantias.
O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito.
O que ele nos pode dar é sempre menos do que nos pode tirar.
O subdesenvolvido procura soluções mágicas. Quando
faltava chuva, o inca não tinha dúvida: sacrificava algumas
crianças ao deus de plantão. Aqui, a mágica agora é o
denuncismo do pega corrupto. Esquecemos as razões
profundas da corrupção, a falência múltipla do Estado,
obsoleto, corporativo, ocupado por interesses espúrios, cuja
ineficiência tem por maiores vítimas os pobres e indefesos. Se
continuarmos a pensar nos sintomas, e não na doença, não
conseguiremos mudar as coisas. Só se Deus for mesmo
brasileiro...
(...) pessoas sérias raramente têm tempo e estômago para
as futricas e brigas para ocupar o espaço corporativo. A OAB
conseguiu a façanha de ser mencionada três vezes na Constituição
besteirol de 1988. É talvez o único caso no mundo em que
um clube de profissionais conseguiu sacralização no texto
constitucional...
A independência do juiz não é uma faculdade absoluta,
poder fazer o que queira sem dar satisfações. O juiz não tem,
nem pode pleitear, moral ou profissionalmente, nenhuma independência
diante da lei. Ele é, tem de ser, pelo contrário, um servidor
incondicional da lei.
O primeiro e mais absoluto dos direitos do cidadão está
no pleno conhecimento da lei. E para isso, é preciso que a lei
seja uniforme e clara, e que haja uma única fonte de interpretação
definitiva.
Nossas esquerdas não gostam dos pobres. Gostam mesmo é
dos funcionários públicos. São estes que, gozando de
estabilidade, fazem greves, votam no Lula, pagam contribuição
para a CUT. Os pobres não fazem nada disso. São uns chatos...
O governo não consegue segurar a criminalidade? Pouco
importa, basta desarmar o cidadão comum, de bem, esse que não
comete crimes, e diante da insegurança oficializada, pediria
pelo menos a ilusão de uma chance de se defender, por pequena
que fosse.
O colapso do socialismo não foi mero acidente histórico,
resultante da barbárie da União Soviética ou da perversão de
carniceiros como Stalin e Mao Tsé-Tung. Era algo cientificamente
previsível. Os aludidos cientistas sociais teriam certamente
chegado a essa conclusão se, ao invés de treslerem a história,
tivessem lido os grandes liberais austríacos.
Seria uma ressurreição satânica retirarmos Lula e
Brizola - esse casamento do analfabetismo econômico com o
obsoletismo ideológico - do lixo da história para o palco do
poder.
Quando sociólogos e economistas buscam classificar nossas
estruturas, os apelidos usados são: mercantilismo,
patrimonialismo, estatismo, pré-capitalismo, proto-socialismo e
dirigismo burocrático. A acusação menos cabível é
precisamente a de liberalismo. Assim, a advertência
contra os perigos do neoliberalismo soa como um chute no vácuo.
Segundo Marx, para acabar com os males do mundo, bastava
distribuir. Foi fatal. Os socialistas nunca mais entenderam a
escassez.
São três as raízes da nossa cultura: a cultura ibérica,
que é a cultura do privilégio; a cultura africana, que é a
cultura da magia; e a cultura indígena, que é a cultura da
indolência. Com esses ingredientes, o desenvolvimento econômico
é uma parada...
Os dois monstros gêmeos, o comunismo e o nazismo, têm
vocação genocida. Naquele, o genocídio de classe; neste, o
genocídio de raça.
A violência comunista não foi mera aberração da psique
eslava, mas sim algo diabolicamente inerente à engenharia social
marxista, que, querendo reformar o homem pela força, transforma
os dissidentes primeiro em inimigos, e depois em vítimas.
Comparados ao carniceiro profissional do Caribe, os
militares brasileiros parecem escoteiros destreinados apartando
um conflito de subúrbio...
É sumamente melancólico - porém não irrealista -
admitir-se que no albor dos anos 60 este grande país não tinha
senão duas miseráveis opções: anos de chumbo ou
rios de sangue...
Tributar pesadamente, tirando do mais capaz e do mais
motivado para dar ao menos capaz ou menos disposto, em geral
redunda em punir aqueles, sem corrigir estes.
Creio que por enquanto tal acervo seja suficiente para
recordarmos de uma das mentes mais lúcidas que esse país já
teve.
Para se ter uma idéia, essas passagens foram retiradas apenas
da primeira metade do livro.
O ideal mesmo seria que todos lessem o livro* inteiro. Vale
cada centavo e minuto utilizado!
* Na virada do milênio, Roberto
Campos Os grandes temas políticos e econômicos estão
analisados com a inteligência e a lucidez que caracterizam o
autor de "A lanterna na popa". Como afirma Henry Kissinger, conversar
com Roberto Campos é, ao mesmo tempo, um prazer e uma humilhação.
Um prazer, pelos aforismos brilhantes que produz. Humilhação,
porque armazena na memória um montão enciclopédico de fatos
que eu não teria a paciência de pesquisar. (Este é o
quinto livro de Roberto Campos, de publicação pela Topbooks. "Reflexões
do crepúsculo", "O século esquisito" e "Antologia do bom senso", estão
esgotados e "A lanterna na popa", ganhou nova edição,
corrigida e aumentada.)
diegocasagrande
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