Ser professor é saber aprender descobrindo junto com os
outros; é também saber orientar as pesquisas dos alunos na
comunidade. São os próprios alunos que descobrem o mundo, como
ele é, e como funcionam as coisas e as pessoas.
Professor não é para trazer coisas de fora; é para ajudar a
melhor mergulhar, conscientemente, dentro da cultura da
comunidade, registrá-la e reforçá-la com a participação das
crianças.
Ser professor é ser um modesto catalisador das iniciativas
para descobertas, para auto-descobertas, para redescobertas da
riqueza das criações inteletuais e materiais da comunidade na
sua cultura própria.
Abrir os olhos criticamente para o que é seu, reconhecer nas
coisas concretas já fabricadas propriedades físicas e conceitos
matemáticos utilizados por todas as civilizações; aprender
fazendo, experimentando com o que se constrói de verdade; isto
é o que se vive em oficinas, uma maneira de aprender juntos na
sala de aula e fora dela.
Também aprende-se a escutar as pessoas que sabem porque
fazem, particularmente as mulheres, investigando com elas os
ciclos de produção e preparação da mandioca, chegando assim
à descoberta tuyuka dos processos de evolução e seleção nos
seres vivos, colocados em prática pelas mulheres centenas de
anos antes do Alfred Wallace inspirar-se no próprio Rio Negro e
o Darwin publicar a teoria da origem das espécies.
A atuação relatada neste texto e proposta como semente pedagógica
numa "diferenciada educação escolar indígena"
pretende contribuir ao auto-fortalecimento das culturas indígenas
frente à historicamente insistente penetração militar,
religiosa, comercial, escravizante e escolarizante, à qual cada
povo foi submetido nos tristes 500 anos de contato esmagador.
Hoje existem respeitosas intenções escritas na Constituição
brasileira de 1988. Ela reconhece para as culturas indígenas o
direito de viver e as outorga consequentemente direito à territórios
próprios e educação "diferenciada".
Mas aquele respeito não se reflete no tom e no conteúdo das
perguntas que a grande maioria das pessoas me fazem, no saguão
de uma universidade ou no botequim, ao saberem que acabei de
voltar do que eles chamam de "fundo da floresta amazónica"
em vez de Terras Indígenas Demarcadas.
E ao mesmo tempo que alguns técnicos brancos e suas ONGs se
colocam inteiramente ao serviço de e reforçam a sobrevivença
própria de grupos indígenas, ensinando piscicultura, apoiando
escolhas próprias de cada grupo lingúistico para poder escrever
sua língua com facilidade ou organizando a comercialização
direta de artesanato, encontramos ainda também os candidatos a
Mestrado de universidades da Virgínia ou de Santa Catarina, em
linguistica ou em bioquímica.
Estudando para si próprios a língua de um povo para outros
linguistas gozarem e lhe conferir um canudo acadêmico; ou
estudando e experimentando com os princípios alucinógenos dos
cipós utilizados em cerimônias rituais para outros antropólogos
científicos gozarem e lhe conferir o canudo daquela corporação.
E encontramos ainda o pretendido perito em línguas dos outros
que decreta "errada" toda ortografia indígena que não
siga todas as rígidas convenções fonéticas inventadas por
pesquisadores brancos descomprometidos com a vida indígena.
É portanto num contexto ainda invasivo que os povos indígenas
estão definindo o uso que podem fazer daquela oferta
constitucional de "educação diferenciada".
Minha prática, que proponho a outros educadores viver de coração
aberto, insere-se no que Amilcar Cabral chamava de "resistência
cultural" quando criava um sistema educacional novo nos
territórios libertados do colonialismo português na Guiné
Bissau antes da obtenção da independência nacional pela luta
armada.
...
O texto que segue se dirige aos professores indígenas
e às pessoas que aceitam a delicadíssima tarefa de
"forma"-los.
Mostra, através de exemplos de atividades, como eu,
na posição docente, trabalhei na comunidade para juntos
encontrar coisas do seu interesse, construir na sua língua
conceitos úteis, criando assim uma educação formal própria,
diferenciada do rígido monumento alheio de "ciência e
matemática" construído pelos brancos.
SUA LINGUA É SUA
A sua língua é sua. Ela é indígena. Você a usa, você a
ensina, você alfabetiza as crianças com ela, você e toda
sua comunidade a escreve. Com ela vocês vivem a sua vida,
fazem e constróem, contam e registram a sua cultura.
É nesta língua, paterna ou materna, dependendo dos
povos, que se introduz a escrita e a leitura. É nesta língua
que se discute a história, que se estuda a natureza, ao
longo dos níveis de escolarização formalizados à sua
maneira.
É na língua da comunidade que se "alfabetiza", no
ato de expressar e registrar o mundo com palavras suas. Para
quem esta idéia é nova, lembramos dois fatos:
1) a suposta "alfabetização em Português" nunca
aconteceu (um índio adulto lembrará que até a 4a série,
mesmo apanhando, somente conseguia dizer "bom dia
padre" e não escrevia frases. "Escutava"
português mas falava apenas suas línguas familiares)
2) A impossibilidade de ter êxito ao forçar a primeira
escrita/leitura numa língua diferente da língua falada na
família foi comprovada em numerosos estudos de Departamentos
de Educação de Universidades da Califórnia onde vivem várias
"minorias" étnicas recém emigradas nos Estados
Unidos.
Por isso, lá, a primeira (e única necessária)
alfabetização é oferecida em muitas línguas desde
espanhol até chinês em escolas públicas, apesar das pressões
nacionalistas para impor a língua inglesa.
Para 50% da população atual da Califórnia a língua
inglesa é língua estrangeira aprendida como segunda língua.
Para se comunicar com outras comunidades e quando casar,
homens e mulheres indígenas precisam conhecer outras línguas.
Cada um as aprende quando precisar, ao longo da vida.
Para enfrentar o mundo do branco invasor das terras e das
mentes indígenas, para poder negociar com ele, para poder
reconquistar a independência administrativa e ideológica
necessária para controlar o sistema educacional dito indígena,
mas concedido pelo mundo de fala portuguesa, é necessário
ensinar também a língua portuguesa no momento escolar
certo, quando já tem consciência da necessidade de usa-la.
Mas o português é língua estrangeira para os índios
que vivem em território hoje brasileiro, como o francês é
língua estrangeira para os índios que vivem em território
hoje francês na Guiana.
SUA CIÊNCIA É SUA. SUA MATEMÁTICA É SUA.
Como sua língua, as suas técnicas são suas. Elas são indígenas.
Você as usa, as passa de geração em geração.
Você as ensina na comunidade; cada um fabrica sua canoa,
suas redes, seu tipiti, seu abanador de fogo, seus cestos,
seus instrumentos musicais, seus brinquedos.
Com essas técnicas vocês mantém a sua vida material e
registram a sua cultura. Os conteúdos daquelas técnicas se
ensinam na sua língua, como língua de instrução.
Na interação com outros povos vocês descobrem que existem
outras técnicas, desenvolvidas por outras pessoas.
No Alto Rio Negro, os Maku fabricam os cestos cargueiros
que todos os outros povos utilizam. Aquela técnica é deles.
É uma outra língua técnica.
Para enfrentar o mundo todo tecnologificado do branco invasor
você precisará conhecê-lo no momento educacional certo,
quando terá necessidade de uso, depois de ter sido
alfabetizado tecnicamente nos conteúdos matemáticos e científicos
da sua própria comunidade, na sua própria língua, a partir
dos conteúdos das suas próprias técnicas.
A matemática na qual o mundo "global" externo
se apoia é uma linguagem estrangeira; está formulada em
português nos livros didáticos "oficiais"; foi
colocada no ensino europeu por educadores europeus submissos
frente ao pensar específico de um grupo de matemáticos
franceses dedicados à generalização formal de todo e
qualquer conceito; ficou distorcida e caricaturalmente formal
nas sucessivas traduções e adaptações que sofreu nos
livros didáticos tanto europeus como dos países ditos
"em desenvolvimento" atrelados à ideologia
neocolonial..... Não pode servir na educação indígena.
Não é no fim do mundo além-Atlântico que devemos ir
buscar um modelo para ensinar matemática e ciência entre
indígenas.
Precisamos alfabetizar-nos todos técnico-cientificamente,
redescobrindo juntos (e isso é ensinar) a matemática e a ciência
maternas e paternas contidas nas coisas técnicas indígenas
que mantém a vida.
SER EDUCADOR INDÍGENA
Cada professor indígena e cada formador de professores indígenas
precisa convencer-se, pelo estudo e pela prática de uma
pesquisa coletiva na comunidade, que existe uma riqueza própria
em cada indivíduo e em todo povo indígena, nos domínios
chamados de "Matemática e Ciência".
Cada povo, cada civilização, no mundo inteiro, criou sua
própria maneira de contar, de fazer medições de distâncias,
áreas, volumes; de criar desenhos de construções ou
decorativos (de fazer "geometria"); de estabelecer
regras e "provas" para os mais variados jogos; de
produzir superfícies e volumes a partir de fibras entrelaçadas
de maneiras muito bem definidas e classificáveis (na
cestaria).
Houve trocas e migrações ao longo da historia da
humanidade em toda sua diversidade. Mas a matemática dos
Europeus de hoje, a matemática dos que pretendem nos
globalizar até extinção das nossas diferenças criativas,
é meramente uma expressão particular e reduzida do pensar
humano em questões de matemática.
Por exemplo, cada educador em meio indígena deve saber
que o povo indígena Maya, cujos descendentes formam parte do
movimento indígena Zapatista de Libertação no estado de
Chiapas no sul do México, tinha livros antes dos
conquistadores europeus chegarem.
Que sobraram apenas três livros dos milhares que foram
queimados pelo primeiro Bispo da região....
Que um destes livros contém tabelas astronômicas de
grande precisão sobre os eclipses de sol e lua e sobre as
posições de vênus, que nos permitem prever os eclipses de
hoje...
Que a base de numeração, de contagem, utilizada pelos
Maya era de 20 e não de dez como a dos Indianos que chegou
aos Árabes e depois aos Portugueses e agora domina no mundo
da Organização Mundial do Comercio (OMC).
E que a notação usada para escrever números era de posição
e utilizava um símbolo especial para o zero, isto 700 anos
antes dos Europeus começarem a usá-lo...
Aquilo deve nos ajudar a reconsiderar o que dizem os
livros dos colonialistas: "índios contam até 3 ou 4, e
depois dizem 'muito' "...
Cada educador em meio indígena deve aprender as variadas
maneiras de "fazer matemática" desenvolvidas pelos
povos antes de serem submetidos à colonização européia.
Cada pessoa educadora deve ler o livro da professora
Claudia Zaslavsky, "A África Conta", cuja edição
original com o título "África Counts" aconteceu
em 1970 e foi uma revolução nos meios universitários
americanos que tiveram que reconhecer a existência das matemáticas
das populações indígenas da África, e portanto respeitá-las.
Outro livro indispensável de ler, e a partir do qual é também
indispensável praticar o que apresenta, é: "Desenhos
da África" por Paulus Gerdes, Editora Scipione, São
Paulo, 1990
QUE FAZER. COMO FAZER.
Para dar um exemplo de como proceder, aqui está a meta que
me foi dada por Flora Cabalzar, coordenadora do projeto
Escola Tuyuka pelo Instituto Socioambiental, antes de ir
passar um primeiro período de 10 dias numa comunidade tuyuka
do Alto Rio Tiquié em 2001:
"...na matemática precisamos começar um trabalho
consistente de pesquisa com os tuyuka, de pesquisas a serem
encaminhadas pelos professores e interessados das
comunidades, que avance como pesquisa mas também como
melhoria da qualidade do ensino.
Que torne claro o caráter interdisciplinar dos temas de
pesquisa, e que dê rumos claros para o ensino/pesquisa de
conhecimentos matemáticos."
Cheguei, portanto, com a meta de ajudar a comunidade a se
auto-descobrir. Meu papel de professor foi de solicitador de
material para estudo.
Eu não trouxe nada do mundo exterior branco senão minha
honestidade frente ao valor de idéias matemático-científicas
que, ao detecta-las, achei útil remexer a partir de e no
seio da cultura local.
Nesta "educação indígena", tuyuka no caso
presente, "diferenciada" da educação escolar
brasileira, libertada tanto do seu formalismo pedagógico
como da sua "grade curricular" encarceradora,
participamos, Flora e eu, da continuada criação de um
estilo de trabalho que envolveu toda a comunidade (durante um
total de quinze dias em duas etapas) e os professores e
alunos da iniciante 5a série da Escola Poani (durante 10
dias da segunda etapa).
Tudo na língua tuyuka; eu conseguindo intervir graças ao
apoio das pessoas que "escutam" português; Flora e
professores indígenas sempre sistematizando na escrita
tuyuka no quadro negro o que se descobria, se elaborava,
registrando assim a construção de conceitos e as
propriedades em curso de descobrimento e análise.
Nas primeiras oficinas pedi aos participantes trazerem
objetos úteis que eles próprios fabricam. Apontei que
achava que, em todo uso de técnicas de construção aparecia
algo que se conta, algo que se mede.
Então apareceu o seguinte fato linguístico: os tuyuka
falam de contar e medir com a mesma palavra: KEORE.
Pedi a eles então que conversassem entre si, na língua
tuyuka, sobre como contar e medir (dando exemplos concretos
das duas coisas para diferenciá-las, até quando conversadas
na língua tuyuka).
Ao querer falar da espessura da parede de uma canoa
precisa-se de algum instrumento de medida, precisa estar de
acordo sobre alguma unidade a ser utilizada para contá-la e
"medir" a dita espessura.
Os tuyuka utilizam a largura de um dedo como unidade de
medição para esta espessura. "A canoa de 5 bancos tem
espessura de 3 dedos. A de 4 bancos, uma espessura de 2
dedos. A de 3 bancos, uma espessura de 1 dedo.
" Depois enriquece-se a conversa ao descobrir como se
obtém tais espessuras finais a partir de um tronco inicial.
Todo o processo de fabricação e de determinação da
espessura da parede das canoas se torna objeto de registro
mais e mais detalhado.
A fotografia acima foi tomada na própria escola tuyuka. Aqui
se discute como avaliar a distância e a posição dos bancos
numa canoa.
Qual o tamanho da vara? Porque? O que se mede com ela e
porque? Estes "qual", "porque" e
"como", no fazer medições, são procedimentos
matemáticos.
Um grupo da comunidade decidiu apresentar como são
fabricadas as redes de pescar. Apareceram então as
varetas-padrão que permitem manter constante o tamanho da
malha de cada rede específica.
Apareceram cinco padrões. Para medir o tamanho de uma
malha esticada utiliza-se de novo a largura de um dedo.
Podemos então "ordenar" as várias redes e também
correlaciona-las com os tamanhos dos peixes que se pretende
pegar.
Esta possível "ordenação" corresponde a uma
operação matemática fundamental para estudar conjuntos de
quaisquer coisas.
Fazer tabelas com os possíveis tamanhos das redes numa
direção e os peixes que apanham na outra, permite
introduzir as noções gerais de "incluir" e
"excluir", de "maior", "menor",
"filtrar para cima", "filtrar para
baixo".
Aqui, sim, o professor indígena precisa ter alguma formação
na qual estes conceitos (que são comuns a todo exercer da
matemática em qualquer parte do mundo) foram encontrados nas
mesmas práticas que serão depois utilizadas na escola com
as crianças.
É aqui que o formador de professores indígena precisa
ser culto em matemática, o que significa ter encontrado
estes conceitos em outros estudos de etnomatemática, sabendo
portanto reconhecer sua universalidade atrás da diversidade
das suas concretizações.
Esta atitude pedagógica é totalmente diferente do que se
pratica nas congeladas salas de aula pelo Brasil e fora dele.
Nelas dá-se nomes formais a coisas abstratas e os alunos
apenas repetem estes nomes (o "precursor" de 4 é
3, e o "sucessor" de 5 é 6) que parecem não ter
nenhuma utilidade, e de fato não tem quando apresentados sem
razão prática de existir.
No nosso caso da investigação dos tamanhos das malhas
das redes, organizamos sistematicamente as redes e os peixes
(de tamanho adulto) que conseguem apanhar e os que escapam.
Assim organizamos e classificamos peixes e redes por tamanhos
"sucessivos".
Foi para generalizar aquele conceito que matemáticos
franceses criaram as palavras gerais "sucessor" e
"precursor". Pode não ser de grande utilidade
imediata no alto Rio Tiquié saber aquela história.
A conto aqui porque ela surgiu dos questionamentos que a
comunidade me fez durante nossas oficinas. Assim o formador
pode chegar a enriquecer a pesquisa, dando exemplos tirados
da matemática dos brancos, como pode, em outros momentos,
dar exemplos tirados da matemática dos antigos Egípcios.
Mas, primeiro e profundamente, o formador ajudou a
comunidade a analisar, organizar, registrar seus
conhecimentos próprios e seus procedimentos no que diz
respeito à fabricação e utilização de redes de pescar.
Ao fazer isto, fez também matemática, o que possibilitou
olhar para práticas matemáticas de outros povos a partir
das práticas da própria comunidade.
Ele ajudou o povo tuyuka a se sentir mais seguro, a
superar o reducionismo pedagógico dos brancos, e a viver
atividades matemáticas bastante mais ricas do que um
treinamento "curricular" nas "quatro operações"...
De fato, aquelas operações foram também desenvolvidas e
utilizadas, por necessidade, ao estudar os tamanhos das
redes.
Mais importante ainda que alcançar noções de conceitos
matemáticos de utilidade geral a partir de vivências da
comunidade, este procedimento fez todos os participantes
exercitar de verdade (por ter necessidade de fazê-lo) sua
capacidade de contar na sua língua e de operar comparações.
O professor-matemático-formador não entendia as discussões
em língua tuyuka; não importava; não era para ele que se
trabalhava! Os membros da comunidade fizeram aquele organizar
e ordenar acontecer na língua tuyuka e nomes foram
escolhidos e construídos para estas operações.
Este processo é o mesmo que cada cultura utiliza para
definir sua "linguagem matemática".
Grande parte dos conteúdos escolhidos para este trabalho de
dinamização do processo de estudo para viver, saiu dos
registros feitos pelos próprios jovens nos seus cadernos (na
4a série) durante o semestre entre as duas etapas do nosso
trabalho conjunto.
Por exemplo, a listagem de plantas, acompanhada de desenhos
nos levou ao estudo do que se chama "simetrias"
geométricas nas flores, frutas, sementes e na distribuição
espacial dos vários elementos e orgãos das plantas, como as
espirais que aparecem na organização das folhas do abacaxi
ou da mandioca
Aquele estudo de regularidades e das operações
correspondentes (deslocamento, rotação, reflexão, etc.)
tornou-se muito útil no estudo de objetos manufaturados na
comunidade (bancos, cestos, brinquedos), e até no estudo
cultural, geométrico e de construção, junto com "os
velhos" na "sala de aula", do yuiró.
A construção daquele objeto porta-cuia de aspecto cônico,
com sua relação com o "ser tuyuka", tornou-se
novamente possível através deste estudo respeitoso e ao
mesmo tempo matematicamente exigente.
Cada pessoa se deu conta que não sabia fabricar aquele
objeto, mas soube, num esforço comunitário e tecnicamente
criativo reiniciar a sua confecção, sabendo agora, que, além
dos seus valores tradicionais, o yuiró é uma construção
de dois "hiperbolóides de revolução" gerados por
retas e tangentes entre si no cipó da primeira amarração.
Cada pessoa, jovem e "velho", construiu o seu yuiró
e fez matemática ao mesmo tempo. Todos juntos construímos e
registramos cultura no mundo e na escrita tuyuka para outros
tuyuka poderem viver mais completos.
Vários temas envolveram estudos experimentais e de construção
manual, fora e dentro da "sala", por exemplo a
procura do "centro de massa" de objetos de formas
estendidas, a meta sendo, inicialmente e em parte, entender
porque uma flecha tem as várias características que tem.
Claro, precisávamos juntos reconhecer primeiro estas
características: onde a flecha para caça pesa mais, qual o
papel do rabo comprido e reto, com ou sem penas; como estão
colocadas as penas em diferentes culturas indígenas.
Outro tema estudado foi o seguir do passar do tempo diário
através da observação do deslocamento de sombras no chão
e nas bordas de um cesto redondo colocado na vertical com um
pino horizontal no seu centro para criar a sombra útil.
Mas essa atividade, requerendo observações contínuas e
repetidas, perdeu-se na parte "ocidentalizada" do
mundo inteletual dos professores tuyuka já poluído pelas
perguntas escutadas no mundo branco sobre "se a terra
gira ao redor do sol ou o sol ao redor da terra".
Aquela poluição, cunha de entrada para uma visão
reducionista do mundo natural ao confundir educação e
escolha entre respostas contraditórias, está impedindo uma
redescoberta própria genuinamente honesta (é para isto que
serve a palavra "diferenciada" na "educação
diferenciada") - a partir do que os próprios tuyuka
observam e vivem há milhares de anos na região equatorial
da Terra, num processo da elaboração de uma compreensão
tuyuka do que nós brancos chamamos de astronomia e
aprendemos (se não meramente nos livros teóricos) a partir
de observações feitas e pensadas na nossa realidade nas
latitudes temperadas das matrizes dos impérios coloniais.
Precisa-se de uma volta às fontes de observação local
verdadeira para construir aquele mundo de entendimento do
grande mundo cósmico dentro da vida experiencial e
linguistica tuyuka.
Outras oficinas / treinamentos de professores, olhando
para cima, para o céu verdadeiro deles, precisam acontecer.
prof. Sebastio Silva
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