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uma feira de produtos ideológicos,
presidente Lula sobre o Fórum Social Mundial.
Há um leitor que volta e meia me envia um e-mail me acusando
de excessivamente ranzinza e azedo com o PT. Não há nada
de bom no partido?, ele indaga com curiosidade apenas retórica,
já que supõe que estou determinado a não reconhecer nenhum
valor na legenda de Lula.
Um outro busca o caminho de certo sarcasmo triste. Diz que eu
deveria ficar feliz com a guinada conservadora dos petistas;
afinal, diz ele, o PT foi para a direita, que é onde ele
localiza o meu pensamento, razão por que eu deveria me alegrar:
Do que você esta reclamando?, ele quer saber.
Observo que seu sarcasmo é triste porque é petista e, pelo
visto, não se conforma com o que se deu com o partido que
escolheu para abrigar as suas ilusões.
Concedo em parte com ele: se eu estivesse, por assim dizer,
buscando conteúdos de direita, o PT, malgré lui-même,
talvez me servisse.
Uma direita que reconheço atrasada, com vocação geiselista:
intervencionista, um pouco xenófoba nos modos, com aspirações
autocráticas.
Não é a minha praia. Combati a ditadura e não me vejo
integrando a campanha O urânio enriquecido é nosso.
País pequeno com delírios de grandeza me provoca arrepios.
Ser governado por um bando de Pestanas tocadores de polca que se
imaginam inspirados por Beethoven é pura melancolia...
Entendo, no entanto, tanta crispação de alguns petistas e
filopetistas com quem identificam como crítico do governo.
Eles e não os que, como eu, não aderiram à fantasia
é que vivem uma crise de valores.
Deve ser muito chato eleger com o entusiasmo dos crentes e dos
adolescentes um governo para vê-lo, uma vez no poder, negar seu
credo a cada esquina.
E, com a desfaçatez dos picaretas, ainda atribuir a
responsabilidade por suas bravatas a terceiros, a antecessores ou
a Santa Maria, Pinta e Nina, a esquadra de Colombo.
A última razão para um petista autêntico lamentar-se foi a
consideração de ninguém menos do que o presidente Lula sobre o
Fórum Social Mundial: uma feira de produtos ideológicos,
cravou a ex-estrela dos alternativos, a esperança da esquerda
latino-americana, o que veio para redimir os oprimidos do
Ocidente e dar abrigo àqueles que Frei Betto julga representar
na terra e dos quais se sente procurador no céu.
Duvido que Lula tenha juntado sozinho essas palavras. E não vai
aqui nenhum preconceito.
É que a cultura metafórica do presidente é de outra extração.
Ele é, como vou dizer?, um pouco mais romano nas
suas alegorias.
Todas elas nascem de experiências muito concretas, de um
universo de referências bem mais cru, infenso a qualquer abstração.
Essa observação é importante porque dá conta do ambiente
que Lula está respirando, da cultura palaciana que hoje o
envolve e que, como se vê, é mais antiesquerdista no conteúdo
do que se pode supor o que não quer dizer, obviamente,
que o PT tenha deixado de ser autoritário. Não deixou. Continua
disposto, dada a sua origem na esquerda, a encabrestar a
sociedade, a aparelhá-la, a fazer-se o Moderno Príncipe.
Porém já sem as utopias de antes, aquelas ilusões que
vendeu tão baratas na campanha eleitoral de 2002 e que alimentou
e lustrou com denodo em um quarto de século de história.
Vejam só: bastaram menos de dois anos de poder para que o ex-herói
do Fórum Social Mundial se convertesse em seu crítico mais
demolidor.
Aquilo que qualquer pessoa de juízo sempre soube sobre
aquelas moças e rapazes que se dedicavam, como diria Rimbaud
(sobre coisa mais solene, claro!), ao desregramento sistemático
dos sentidos nas cabaninhas de Porto Alegre, Lula parece
agora descobrir.
Lula parece que já não está mais interessado, à diferença
de Marilena Chaui, em combater o capitalismo espoliador.
Ao contrário: descobriu que o tal Fórum Social conformou-se
em se reproduzir com subcultura de resistência.
Se um dia alguém explicar um pouquinho de Nietzsche ao
presidente, ele ainda acaba identificando naquela gente uma espécie
de moral escrava, que pretende reivindicar o poder
falando em nome da própria servidão.
Lula agora descobre que isso pode ser bom para satanizar os
adversários políticos, mas não serve ao poder.
Como ele mesmo deixou claro, quer falar com Davos, e não com
meia dúzia de lunáticos que acordam toda dia para conquistar a
terra.
Quanta decepção! Não a minha, é claro! Pessoalmente, o que faço
é ouvir o que diz Lula com certo distanciamento cínico,
controlando a minha tendência ao desprezo.
Lamento, amigos: acho a fidelidade a princípios a única
segurança que se pode ter contra pusilanimidades.
Se Lula nunca acreditou no que dizia, traiu um monte de gente.
Se acreditou e deixou de acreditar, tem de dizer o que o fez
mudar de idéia e ser didático com os que confiaram nele e o
fizeram líder de suas aspirações.
Sabem por que jamais eu integraria a sua grei? Porque não
teria nenhuma segurança de que ele não mudaria de novo a
depender das circunstâncias ou de seus interesses objetivos.
Nesse particular, prezo mais a moral da fidelidade mafiosa do que
a traição abusada, ainda que aquele que trai passe a falar
rigorosamente o que penso, como é o caso.
Eu também acho que o Fórum Social se tornou uma feira
de produtos ideológicos. E acrescentaria: de quinta
categoria.
ILUSÕES:
painel do Fórum Social Mundial, com uma nova geografia: no
centro, a América do Sul e a África. Como se vê, chegaram a
desmembrar o continente americano para diminuir a relevância dos
EUA
Minha história me autoriza a dizer isso com desassombro,
embora sempre se pague um preço.
A de Lula, não. Se operou uma guinada em suas convicções,
faltou avisar os seus. Se eu fosse petista, migraria para o PSOL:
jamais poucos foram tão equivocados sobre temas tão grandes
como a turma de Heloísa Helena. Mas ali está o verdadeiro PT.
Lula está sozinho? Não! Já disse que se trata de um ambiente.
Há dias, José Dirceu, o todo-poderoso, aquele que aspira a
soprar no ouvido de Deus o que Ele gravará em fogo nas tábuas
da lei, afirmou que a reforma agrária, como está, não dá
mais. É impossível.
Na retrospectiva que o Roda Viva (TV Cultura) fez de seus 18
anos de programa, vimos o Lula candidato de 2002 atacar
ferozmente a reforma agrária conduzida por FHC a maior
jamais feita fora de um processo revolucionário. Ele a
considerava tímida. Via falta de vontade política.
Pois bem: no governo do PT, a coisa parou. João Pedro Stedile só
é um pouco mais manso com Lula porque o governo é tolerante com
suas ilegalidades.
Lula, como a revista "Primeira Leitura" noticiou em
capa para escândalo de sacripantas, descobriu que os sem-terra
não existem.
Bem-vindos Dirceu e o presidente à constatação antiga do
site e da revista. Com uma diferença notável: não ganhamos a
eleição pregando o contrário daquilo em que acreditamos.
Na verdade, ter marchado na contracorrente deve mesmo ter-nos
custado alguns leitores, convictos que estavam da fantasia que
lhes era vendida a preço barato: afinal, tratava-se apenas de
deixar a esperança vencer o medo, não é?
Ainda nesta semana, vimos o presidente reconhecer que há
problemas na área social do governo.
Dar, como dizia o então candidato, três pratos de comida
para cada brasileiro com fome não é tarefa assim tão simples,
especialmente quando a promessa só indica que se está com o
diagnóstico errado do problema.
Em seguida, foi a vez de Paulo Skaf, presidente da Fiesp
eleito com o apoio do Planalto , soltar os
cachorros, e com absoluta razão, na política de juros. Com
efeito, a inflação sozinha já não consegue explicá-la.
Também a promessa do desenvolvimento sustentado vai dando os
primeiros sinais de que claudica. Como se vê, não são apenas
os petistas antigos que têm razões para se decepcionar.
Também os neoconvertidos começam a ver que o presente
e as circunstâncias da hora é o único altar em que se
ajoelha o petismo.
Intuo que alguns leitores que adoram detestar o que escrevo ficam
menos chateados com os meus textos do que com aquilo que seu
partido lhes impõe como linha justa.
Não deve ser fácil acordar, a cada manhã, para saber qual
é a tese do dia.
Um verdadeiro supermercado de novidades ideológicas.
primeiraleitura
Comentários:
Saturnino discorda de Lula sobre Fórum Mundial
O senador
Roberto Saturnino (PT-RJ) disse discordar de recente declaração
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o Fórum
Social Mundial.
O presidente sugeriu o direcionamento dos debates no fórum
para dois ou três temas que pudessem resultar em medidas
concretas.
Saturnino disse que o fórum não foi criado para gerar
fatos políticos com efeitos imediatos, mas sim para repudiar
o ideário neo liberal "que transforma tudo em
mercadoria que pode ser comprada numa feira".
O senador frisou que o Fórum Social Mundial não tem a menor
intenção em constituir-se em governo e não pode ter ligação
com o PT ou com qualquer partido.
Ele afirmou que o fórum combate o neo liberalismo e busca
o convencimento da opinião pública contra essa ideologia.
Além disso, acrescentou, o fórum tem que ser uma organização
eminentemente plural.
- Este é um fórum de discussão e debate sobre a
possibilidade de um novo mundo, com valores caros à
humanidade e que devem ser cultivados.
Ele combate o pensamento único de que não há saída
para o mundo além de seguir a cartilha do neo liberalismo,
enfrentando todo o poderio da mídia - concluiu.
Logo após o pronunciamento do senador, a sessão plenária
de hoje foi encerrada.
AgênciaOnline
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