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Fraude? Melancolia? ou A direita são os Outros? PDF Imprimir E-mail
Escrito por Reinaldo Azevedo   
Sunday, 31 October 2004

“uma feira de produtos ideológicos”, presidente Lula sobre o Fórum Social Mundial.

Há um leitor que volta e meia me envia um e-mail me acusando de excessivamente ranzinza e azedo com o PT. “Não há nada de bom no partido?”, ele indaga com curiosidade apenas retórica, já que supõe que estou determinado a não reconhecer nenhum valor na legenda de Lula.

Um outro busca o caminho de certo sarcasmo triste. Diz que eu deveria ficar feliz com a guinada conservadora dos petistas; afinal, diz ele, o PT foi para a direita, que é onde ele localiza o meu pensamento, razão por que eu deveria me alegrar: “Do que você esta reclamando?”, ele quer saber.

Observo que seu sarcasmo é triste porque é petista e, pelo visto, não se conforma com o que se deu com o partido que escolheu para abrigar as suas ilusões.

Concedo em parte com ele: se eu estivesse, por assim dizer, buscando “conteúdos” de direita, o PT, malgré lui-même, talvez me servisse.

Uma direita que reconheço atrasada, com vocação geiselista: intervencionista, um pouco xenófoba nos modos, com aspirações autocráticas.

Não é a minha praia. Combati a ditadura e não me vejo integrando a campanha “O urânio enriquecido é nosso”.

País pequeno com delírios de grandeza me provoca arrepios. Ser governado por um bando de Pestanas tocadores de polca que se imaginam inspirados por Beethoven é pura melancolia...

Entendo, no entanto, tanta crispação de alguns petistas e filopetistas com quem identificam como crítico do governo.

Eles — e não os que, como eu, não aderiram à fantasia — é que vivem uma crise de valores.

Deve ser muito chato eleger com o entusiasmo dos crentes e dos adolescentes um governo para vê-lo, uma vez no poder, negar seu credo a cada esquina.

E, com a desfaçatez dos picaretas, ainda atribuir a responsabilidade por suas bravatas a terceiros, a antecessores ou a Santa Maria, Pinta e Nina, a esquadra de Colombo.

A última razão para um petista autêntico lamentar-se foi a consideração de ninguém menos do que o presidente Lula sobre o Fórum Social Mundial: “uma feira de produtos ideológicos”, cravou a ex-estrela dos alternativos, a esperança da esquerda latino-americana, o que veio para redimir os oprimidos do Ocidente e dar abrigo àqueles que Frei Betto julga representar na terra e dos quais se sente procurador no céu.

Duvido que Lula tenha juntado sozinho essas palavras. E não vai aqui nenhum preconceito.

É que a cultura metafórica do presidente é de outra extração. Ele é, como vou dizer?, um pouco mais “romano” nas suas alegorias.

Todas elas nascem de experiências muito concretas, de um universo de referências bem mais cru, infenso a qualquer abstração.

Essa observação é importante porque dá conta do ambiente que Lula está respirando, da cultura palaciana que hoje o envolve e que, como se vê, é mais antiesquerdista no conteúdo do que se pode supor — o que não quer dizer, obviamente, que o PT tenha deixado de ser autoritário. Não deixou. Continua disposto, dada a sua origem na esquerda, a encabrestar a sociedade, a aparelhá-la, a fazer-se o Moderno Príncipe.

Porém já sem as utopias de antes, aquelas ilusões que vendeu tão baratas na campanha eleitoral de 2002 e que alimentou e lustrou com denodo em um quarto de século de história.

Vejam só: bastaram menos de dois anos de poder para que o ex-herói do Fórum Social Mundial se convertesse em seu crítico mais demolidor.

Aquilo que qualquer pessoa de juízo sempre soube sobre aquelas moças e rapazes que se dedicavam, como diria Rimbaud (sobre coisa mais solene, claro!), ao “desregramento sistemático dos sentidos” nas cabaninhas de Porto Alegre, Lula parece agora descobrir.

Lula parece que já não está mais interessado, à diferença de Marilena Chaui, em combater o capitalismo espoliador.

Ao contrário: descobriu que o tal Fórum Social conformou-se em se reproduzir com subcultura de resistência.

Se um dia alguém explicar um pouquinho de Nietzsche ao presidente, ele ainda acaba identificando naquela gente uma espécie de “moral escrava”, que pretende reivindicar o poder falando em nome da própria servidão.

Lula agora descobre que isso pode ser bom para satanizar os adversários políticos, mas não serve ao poder.

Como ele mesmo deixou claro, quer falar com Davos, e não com meia dúzia de lunáticos que acordam toda dia para conquistar a terra.

Quanta decepção! Não a minha, é claro! Pessoalmente, o que faço é ouvir o que diz Lula com certo distanciamento cínico, controlando a minha tendência ao desprezo.

Lamento, amigos: acho a fidelidade a princípios a única segurança que se pode ter contra pusilanimidades.

Se Lula nunca acreditou no que dizia, traiu um monte de gente. Se acreditou e deixou de acreditar, tem de dizer o que o fez mudar de idéia e ser didático com os que confiaram nele e o fizeram líder de suas aspirações.

Sabem por que jamais eu integraria a sua grei? Porque não teria nenhuma segurança de que ele não mudaria de novo a depender das circunstâncias ou de seus interesses objetivos. Nesse particular, prezo mais a moral da fidelidade mafiosa do que a traição abusada, ainda que aquele que trai passe a falar rigorosamente o que penso, como é o caso.

Eu também acho que o Fórum Social se tornou uma “feira de produtos ideológicos”. E acrescentaria: de quinta categoria.

ILUSÕES: painel do Fórum Social Mundial, com uma nova geografia: no centro, a América do Sul e a África. Como se vê, chegaram a desmembrar o continente americano para diminuir a relevância dos EUA

Minha história me autoriza a dizer isso com desassombro, embora sempre se pague um preço.

A de Lula, não. Se operou uma guinada em suas convicções, faltou avisar os seus. Se eu fosse petista, migraria para o PSOL: jamais poucos foram tão equivocados sobre temas tão grandes como a turma de Heloísa Helena. Mas ali está o verdadeiro PT.

Lula está sozinho? Não! Já disse que se trata de um ambiente. Há dias, José Dirceu, o todo-poderoso, aquele que aspira a soprar no ouvido de Deus o que Ele gravará em fogo nas tábuas da lei, afirmou que a reforma agrária, como está, não dá mais. É impossível.

Na retrospectiva que o Roda Viva (TV Cultura) fez de seus 18 anos de programa, vimos o Lula candidato de 2002 atacar ferozmente a reforma agrária conduzida por FHC — a maior jamais feita fora de um processo revolucionário. Ele a considerava tímida. Via falta de vontade política.

Pois bem: no governo do PT, a coisa parou. João Pedro Stedile só é um pouco mais manso com Lula porque o governo é tolerante com suas ilegalidades.

Lula, como a revista "Primeira Leitura" noticiou em capa para escândalo de sacripantas, descobriu que os “sem-terra não existem”.

Bem-vindos Dirceu e o presidente à constatação antiga do site e da revista. Com uma diferença notável: não ganhamos a eleição pregando o contrário daquilo em que acreditamos.

Na verdade, ter marchado na contracorrente deve mesmo ter-nos custado alguns leitores, convictos que estavam da fantasia que lhes era vendida a preço barato: afinal, tratava-se apenas de deixar a esperança vencer o medo, não é?

Ainda nesta semana, vimos o presidente reconhecer que há problemas na área social do governo.

Dar, como dizia o então candidato, três pratos de comida para cada brasileiro com fome não é tarefa assim tão simples, especialmente quando a promessa só indica que se está com o diagnóstico errado do problema.

Em seguida, foi a vez de Paulo Skaf, presidente da Fiesp — eleito com o apoio do Planalto —, soltar os cachorros, e com absoluta razão, na política de juros. Com efeito, a inflação sozinha já não consegue explicá-la.

Também a promessa do desenvolvimento sustentado vai dando os primeiros sinais de que claudica. Como se vê, não são apenas os petistas antigos que têm razões para se decepcionar.

Também os neoconvertidos começam a ver que o presente — e as circunstâncias da hora — é o único altar em que se ajoelha o petismo.

Intuo que alguns leitores que adoram detestar o que escrevo ficam menos chateados com os meus textos do que com aquilo que seu partido lhes impõe como linha justa.

Não deve ser fácil acordar, a cada manhã, para saber qual é a tese do dia.

Um verdadeiro supermercado de novidades ideológicas.

primeiraleitura

Comentários:

Saturnino discorda de Lula sobre Fórum Mundial

O senador Roberto Saturnino (PT-RJ) disse discordar de recente declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o Fórum Social Mundial.

O presidente sugeriu o direcionamento dos debates no fórum para dois ou três temas que pudessem resultar em medidas concretas.

Saturnino disse que o fórum não foi criado para gerar fatos políticos com efeitos imediatos, mas sim para repudiar o ideário neo liberal "que transforma tudo em mercadoria que pode ser comprada numa feira".

O senador frisou que o Fórum Social Mundial não tem a menor intenção em constituir-se em governo e não pode ter ligação com o PT ou com qualquer partido.

Ele afirmou que o fórum combate o neo liberalismo e busca o convencimento da opinião pública contra essa ideologia. Além disso, acrescentou, o fórum tem que ser uma organização eminentemente plural.

- Este é um fórum de discussão e debate sobre a possibilidade de um novo mundo, com valores caros à humanidade e que devem ser cultivados.

Ele combate o pensamento único de que não há saída para o mundo além de seguir a cartilha do neo liberalismo, enfrentando todo o poderio da mídia - concluiu.

Logo após o pronunciamento do senador, a sessão plenária de hoje foi encerrada.

AgênciaOnline

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