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Escrito por Reinaldo Azevedo   
Saturday, 30 October 2004

O debate hi-tech, de formato pretensamente "inovador", promovido pela Rede Globo para marcar o encerramento da campanha eleitoral em São Paulo, acabou por produzir um encontro frio, entre Marta Suplicy (PT) e José Serra (PSDB).

Debate equilibrado mantém quadro em SP

Serra e Marta alternam bons momentos no confronto da Rede Globo, cujo formato “inovador” esfriou a discussão e nivelou desempenhos

O debate hi-tech, de formato pretensamente "inovador", promovido pela Rede Globo para marcar o encerramento da campanha eleitoral em São Paulo, acabou por produzir um encontro frio.

O evento, anódino, deve produzir pouco ou nenhum efeito sobre o quadro eleitoral até domingo. José Serra (PSDB) e Marta Suplicy (PT) alternaram bons momentos e se preocuparam antes em não cometer erros que lhes tirassem pontos.

Assim, Marta abandonou a postura agressiva do debate da Band e adotou um tom mais sereno, que começou na escolha da roupa e maquiagem claras e culminou no tom de voz menos estridente.

Serra pouco alterou sua estratégia e postura usuais, mas foi irônico para responder a algumas perguntas mais venenosas da rival e aproveitou a experiência de professor para se movimentar pelo estúdio enquanto falava, virando-se ora para um lado, ora para o outro, na tentativa de dirigir-se a todos os eleitores presentes.

Marta esteve à vontade quando falava com os eleitores, mas demonstrou nervosismo no confronto direto com Serra.

Chegou a esbarrar num ato falho ao quase admitir a vitória do oponente: “Você agora vai ver como é difícil [ser prefeito] se for eleito”.

Serra manteve a estratégia de apontar falhas na saúde — tema de duas de suas perguntas — e na distribuição de recursos no orçamento. Marta adotou como tática questioná-lo sobre seus projetos mais populares, com o intuito de sugerir que ele não vai continuar os programas criados por ela, estratégia utilizada também na campanha de rua e no horário gratuito.

Marta chegou a dizer que ele encerraria programas como o de uniforme, de transporte escolar e de corredores de ônibus. O tucano apontou o truque e reiterou que não vai acabar com nada.

A grande “novidade” do debate foi um telão. Os candidatos apertavam uma tecla, e surgia a imagem de um dos eleitores presentes à platéia. O escolhido se levantava e fazia a pergunta de viva voz para os candidatos. Não houve perguntas difíceis ou agressivas.

Em geral, eram questões amplas, genéricas, ou bastante específicas, relativas a realidades do bairro onde mora o eleitor dito indeciso.

No primeiro bloco, Marta mostrou-se segura e procurou ser simpática com os eleitores, sempre chamando-os pelos nome ou como “amigo” quando esquecia.

Procurou usar a região do entrevistador, declarada na pergunta, para falar sobre projetos na área.

Foi o bloco mais frio, em que os candidatos quase não se referiram um ao outro.

O programa esquentou um pouco na segunda parte, quando os candidatos fizeram perguntas um para o outro. Marta trocou a estratégia de criticar o vice de Serra, Gilberto Kassab (PFL) — embora o tenha citado uma vez — e passou a insinuar que o tucano acabaria com os projetos que implementou.

Também apontava, a cada resposta, a suposta falta de projetos de Serra e o acusava de tergiversar e não responder as perguntas.

Marta, por vezes, parecia animada em demasiado, como quando disse que, num eventual segundo mandato, vai fazer muito mais, dando um soquinho no ar.

Em outro momento, também entusiasmada, a prefeita disse que tinha usado muito bem o seu dinheiro e deu a chance a Serra para ironizar: “Marta, o dinheiro não é seu, é da prefeitura”.

Serra centrou fogo nas críticas à saúde e forçou a petista a admitir que seu governo não teve um bom desempenho na área. “Fizemos muito na saúde, mas tenho de dizer que não estou satisfeita”, afirmou.

A prefeita questionou o oponente sobre o projeto dos CEUs e se ele iria mantê-los. “Não sou de mudar nomes para dar a idéia de que é tudo novo.

Os CEUs, eu tenho dito que vou manter e melhorar, inclusive acabando com as indicações políticas”, afirmou.

Ele disse que gostaria de ver se havia recursos no orçamento para fazer as novas unidades que a prefeita prometeu e afirmou que se preocuparia com 50 mil crianças que estudam em “escolas de lata, que, no inverno, são geladeiras e, no verão, verdadeiros fornos”.

A petista usou a observação para dizer que ele havia confessado que não manteria o projeto. Serra retrucou: “Marta, eu queria te pedir: não me julgue por você.

Eu não sou de interromper as coisas, eu sou de manter e aperfeiçoar”.

O terceiro bloco, em que voltaram as perguntas dos eleitores, esfriou de novo. Uma pergunta sobre emprego deu a chance a Serra de lembrar que Lula prometeu 10 milhões de empregos, promessa que não será cumprida.

Ao responder a um eleitor que perguntou se os candidatos vão conseguir cumprir o que prometeram, Serra deu uma resposta longa, sem especificar nenhuma promessa que considera prioritária, dizendo apenas que seu compromisso é com “muito trabalho”.

Abriu espaço para Marta acusá-lo de não responder a questão por não ter projeto. “Eu não vou para lá, não vou para cá, não enrolo”, disse, e se pôs a enumerar suas promessas.

No quarto e último bloco, com confronto direto entre os rivais, Serra insistiu na questão de saúde e em apontar distorções orçamentárias, enquanto Marta voltou à carga, tentando colar no adversário a suspeita de que vai interromper programas sociais.

Nas considerações finais, Marta ficou com olhos marejados, mas, desta vez, não chorou.

Ao se referir ao apelido de “Martaxa”, disse considerá-lo injusto. “Acho injusto, mas aceito. Mas se eu mereço ser a Martaxa, mereço ser também a Marta do CEU, a Marta do Vai e Volta, a Marta do Passa Rápido, a Marta dos pobres, velhos e crianças de São Paulo”, disse. Não chegou a usar todo o tempo de que dispunha.

Serra reiterou a origem humilde e o currículo administrativo. Afirmou que nunca teve “nada de mão beijada” e reforçou sua ligação com o município, dizendo que nasceu e cresceu em São Paulo.

Ele relembrou sua passagem pelos cargos que ocupou e agradeceu “a acolhida” que teve nas ruas.

Também agradeceu a sua família e mencionou até uma neta que nasceu durante o período de campanha. Disse estar convencido de que é possível “melhorar a vida da cidade de São Paulo”.

Comentários:

Encontro neutro favorável ao tucano

Durante o encontro, Marta ameaça um escorregão á moda Reynaldo de Barros em 1982, mas se recupera a tempo; no mais, o que tiver de ser já era antes deste debate

O espírito do debate da Rede Globo era criar condições para que o indeciso se decidisse. Duvida-se que isso tenha a acontecido. Se decisão houver, não será por causa desse confronto.

Os candidatos José Serra (PSDB) e Marta Suplicy (PT) foram ao encontro com suas respectivas estratégias, por assim dizer, congeladas.

Marta, desta vez, não se mostrou a candidata irascível do debate da Band, quando acusou, protestou, falou alto, interrompeu o oponente, chorou, comparou-o até ao diabo. Não! Ela se mostrou a mulher ora firme nos propósitos, ora frágil no trato. Duda Mendonça voltou ao controle.

“Quem bate perde” é a máxima dele. Serra, como sempre, primou pela correção técnica, pela apresentação de dados e números. Sereno como foi ao longo da campanha. Bateu mais nos números do que na prefeita.

Esta Marta soft do debate não corresponde ao que se tem visto na periferia, onde o terrorismo eleitoral corre solto. A estratégia do terror chegou a vazar na fala da prefeita, porém com a mansidão que seu marqueteiro exige.

Acusou, a exemplo dos jornais apócrifos, o oponente de estar determinado a suspender os CEUs e de não estar comprometido com outros programas sociais. Serra, naturalmente, negou a intenção e acusou ali mera estratégia eleitoral.

Em suma, tudo como no horário eleitoral gratuito.

Ora, o que se tinha ali? Marta se alimentava da esperança da virada, dado que duas pesquisas, Datafolha e Ibope, indicaram, nesta semana, uma diminuição da diferença entre ambos.

E isso se deu justamente no período em que combinou terrorismo na periferia com suavidade no vídeo. Se, nos confins da cidade, a tropa-de-choque continua o trabalho sujo, na TV, tratava-se ainda de endurecer sem perder a ternura.

O candidato tucano, embora certa mídia tente fazer parecer o contrário, tem uma vantagem considerável em relação a sua oponente qualquer que seja o instituto. Por que arriscar uma linguagem mais agressiva?

Assim, viu-se, ambos optaram por não ousar.

Marta tentou avançar numa linguagem de mais apelo emocional, com rasgos de subjetividade. Na fala final, mais uma vez, a voz chegou a ficar embargada.

Mas não pôde desempenhar o papel com eficiência. Um debate é, afinal, também um jogo de imagens, um confronto de estratégias. Serra não permite uma linguagem com excessos de intimidade.

Tome-se como exemplo o questionamento sobre as verbas para o gabinete da prefeita: R$ 21 milhões.

Marta tentou negar, dizer que elas incluíam o dinheiro do Carnaval: “Não é para fazer festa e tomar cafezinho”, tentou ironizar, flertando com a graça. Deu-se mal. Ele tinha os números. Eram R$ 21 milhões, sem Carnaval e sem nada, ela própria teve de admitir.

A prefeita insistiu ainda na linha da “justiça”. Reelegê-la, entende-se, e só uma questão de pôr nos dois pratos da balança as qualidades e os defeitos. O discurso da justiça é vizinho do da vitimização. E quase ela se perde.

Ao acusar o adversário de criticar tudo o que ela faz, disparou: “Você agora vai ver como é difícil... se for eleito”.

Entre a oração principal e a condicional, houve um lapso de tempo, pequeno, mas que pode ter parecido uma eternidade aos petistas.

Em 1982, em debate com Franco Montoro, Reinaldo de Barros tentou defender seu padrinho, Paulo Maluf, das críticas e mandou ver: “Governar não é fácil; o senhor vai ver quando for eleito”. Marta não chegou a tanto, mas quase.

Eleitores presentes

Sempre que o jornalismo, de algum modo, cede ao populismo, quebra a cara. A presença dos “eleitores” indecisos só serviu para tornar chato um programa que poderia ser bem mais animado.

Os EUA costumam recorrer a essa prática. Num debate sobre questões nacionais, pode até ser interessante. No caso de questões municipais, é puro aborrecimento.

Os “eleitores” presentes não representam nada. Nem mesmo o seu próprio bairro. Ou as perguntas pecam pela especificidade que só interessa a eles próprios ou pela generalidade que nada revela dos candidatos.

Em suma, o que será já era antes do debate.

Se isso é verdade e se as pesquisas estão certas e Serra está realmente na frente, o encontro, ao ser neutro, foi favorável ao tucano.


primeiraleitura

Comentarios (2)Add Comment
fabio
escrito por Visitante, 2005-08-01 08:16:26
professor vc pode me responder uma pergunta
-jos serra na presidencia.
escrito por Visitante, 2005-12-29 03:46:50
- o Sr. considera jos serra o melhor candidato do psdb a presidencia?.

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