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O debate hi-tech, de formato pretensamente "inovador",
promovido pela Rede Globo para marcar o encerramento da campanha
eleitoral em São Paulo, acabou por produzir um encontro frio, entre Marta Suplicy (PT) e José Serra (PSDB).
Debate equilibrado mantém quadro em SP
Serra e Marta alternam bons momentos no confronto da Rede
Globo, cujo formato inovador esfriou a discussão e
nivelou desempenhos
O debate hi-tech, de formato pretensamente "inovador",
promovido pela Rede Globo para marcar o encerramento da campanha
eleitoral em São Paulo, acabou por produzir um encontro frio.
O evento, anódino, deve produzir pouco ou nenhum efeito sobre
o quadro eleitoral até domingo. José Serra (PSDB) e Marta
Suplicy (PT) alternaram bons momentos e se preocuparam antes em
não cometer erros que lhes tirassem pontos.
Assim, Marta abandonou a postura agressiva do debate da Band e
adotou um tom mais sereno, que começou na escolha da roupa e
maquiagem claras e culminou no tom de voz menos estridente.
Serra pouco alterou sua estratégia e postura usuais, mas foi
irônico para responder a algumas perguntas mais venenosas da
rival e aproveitou a experiência de professor para se movimentar
pelo estúdio enquanto falava, virando-se ora para um lado, ora
para o outro, na tentativa de dirigir-se a todos os eleitores
presentes.
Marta esteve à vontade quando falava com os eleitores, mas
demonstrou nervosismo no confronto direto com Serra.
Chegou a esbarrar num ato falho ao quase admitir a vitória do
oponente: Você agora vai ver como é difícil [ser
prefeito] se for eleito.
Serra manteve a estratégia de apontar falhas na saúde
tema de duas de suas perguntas e na distribuição de
recursos no orçamento. Marta adotou como tática questioná-lo
sobre seus projetos mais populares, com o intuito de sugerir que
ele não vai continuar os programas criados por ela, estratégia
utilizada também na campanha de rua e no horário gratuito.
Marta chegou a dizer que ele encerraria programas como o de
uniforme, de transporte escolar e de corredores de ônibus. O
tucano apontou o truque e reiterou que não vai acabar com nada.
A grande novidade do debate foi um telão. Os
candidatos apertavam uma tecla, e surgia a imagem de um dos
eleitores presentes à platéia. O escolhido se levantava e fazia
a pergunta de viva voz para os candidatos. Não houve perguntas
difíceis ou agressivas.
Em geral, eram questões amplas, genéricas, ou bastante
específicas, relativas a realidades do bairro onde mora o
eleitor dito indeciso.
No primeiro bloco, Marta mostrou-se segura e procurou ser
simpática com os eleitores, sempre chamando-os pelos nome ou
como amigo quando esquecia.
Procurou usar a região do entrevistador, declarada na
pergunta, para falar sobre projetos na área.
Foi o bloco mais frio, em que os candidatos quase não se
referiram um ao outro.
O programa esquentou um pouco na segunda parte, quando os
candidatos fizeram perguntas um para o outro. Marta trocou a
estratégia de criticar o vice de Serra, Gilberto Kassab (PFL)
embora o tenha citado uma vez e passou a insinuar
que o tucano acabaria com os projetos que implementou.
Também apontava, a cada resposta, a suposta falta de projetos
de Serra e o acusava de tergiversar e não responder as
perguntas.
Marta, por vezes, parecia animada em demasiado, como quando disse
que, num eventual segundo mandato, vai fazer muito mais, dando um
soquinho no ar.
Em outro momento, também entusiasmada, a prefeita disse que
tinha usado muito bem o seu dinheiro e deu a chance a Serra para
ironizar: Marta, o dinheiro não é seu, é da
prefeitura.
Serra centrou fogo nas críticas à saúde e forçou a petista
a admitir que seu governo não teve um bom desempenho na área.
Fizemos muito na saúde, mas tenho de dizer que não estou
satisfeita, afirmou.
A prefeita questionou o oponente sobre o projeto dos CEUs e se
ele iria mantê-los. Não sou de mudar nomes para dar a
idéia de que é tudo novo.
Os CEUs, eu tenho dito que vou manter e melhorar, inclusive
acabando com as indicações políticas, afirmou.
Ele disse que gostaria de ver se havia recursos no orçamento
para fazer as novas unidades que a prefeita prometeu e afirmou
que se preocuparia com 50 mil crianças que estudam em
escolas de lata, que, no inverno, são geladeiras e, no
verão, verdadeiros fornos.
A petista usou a observação para dizer que ele havia confessado
que não manteria o projeto. Serra retrucou: Marta, eu
queria te pedir: não me julgue por você.
Eu não sou de interromper as coisas, eu sou de manter e
aperfeiçoar.
O terceiro bloco, em que voltaram as perguntas dos eleitores,
esfriou de novo. Uma pergunta sobre emprego deu a chance a Serra
de lembrar que Lula prometeu 10 milhões de empregos, promessa
que não será cumprida.
Ao responder a um eleitor que perguntou se os candidatos vão
conseguir cumprir o que prometeram, Serra deu uma resposta longa,
sem especificar nenhuma promessa que considera prioritária,
dizendo apenas que seu compromisso é com muito
trabalho.
Abriu espaço para Marta acusá-lo de não responder a
questão por não ter projeto. Eu não vou para lá, não
vou para cá, não enrolo, disse, e se pôs a enumerar suas
promessas.
No quarto e último bloco, com confronto direto entre os rivais,
Serra insistiu na questão de saúde e em apontar distorções
orçamentárias, enquanto Marta voltou à carga, tentando colar
no adversário a suspeita de que vai interromper programas
sociais.
Nas considerações finais, Marta ficou com olhos marejados, mas,
desta vez, não chorou.
Ao se referir ao apelido de Martaxa, disse
considerá-lo injusto. Acho injusto, mas aceito. Mas se eu
mereço ser a Martaxa, mereço ser também a Marta do CEU, a
Marta do Vai e Volta, a Marta do Passa Rápido, a Marta dos
pobres, velhos e crianças de São Paulo, disse. Não
chegou a usar todo o tempo de que dispunha.
Serra reiterou a origem humilde e o currículo administrativo.
Afirmou que nunca teve nada de mão beijada e
reforçou sua ligação com o município, dizendo que nasceu e
cresceu em São Paulo.
Ele relembrou sua passagem pelos cargos que ocupou e agradeceu
a acolhida que teve nas ruas.
Também agradeceu a sua família e mencionou até uma neta que
nasceu durante o período de campanha. Disse estar convencido de
que é possível melhorar a vida da cidade de São
Paulo.
Comentários:
Encontro neutro favorável ao tucano
Durante o encontro, Marta ameaça um escorregão á
moda Reynaldo de Barros em 1982, mas se recupera a tempo; no
mais, o que tiver de ser já era antes deste debate
O espírito do debate da Rede Globo era criar condições
para que o indeciso se decidisse. Duvida-se que isso tenha a
acontecido. Se decisão houver, não será por causa desse
confronto.
Os candidatos José Serra (PSDB) e Marta Suplicy (PT)
foram ao encontro com suas respectivas estratégias, por
assim dizer, congeladas.
Marta, desta vez, não se mostrou a candidata irascível
do debate da Band, quando acusou, protestou, falou alto,
interrompeu o oponente, chorou, comparou-o até ao diabo.
Não! Ela se mostrou a mulher ora firme nos propósitos, ora
frágil no trato. Duda Mendonça voltou ao controle.
Quem bate perde é a máxima dele. Serra, como
sempre, primou pela correção técnica, pela apresentação
de dados e números. Sereno como foi ao longo da campanha.
Bateu mais nos números do que na prefeita.
Esta Marta soft do debate não corresponde ao que se tem
visto na periferia, onde o terrorismo eleitoral corre solto.
A estratégia do terror chegou a vazar na fala da prefeita,
porém com a mansidão que seu marqueteiro exige.
Acusou, a exemplo dos jornais apócrifos, o oponente de
estar determinado a suspender os CEUs e de não estar
comprometido com outros programas sociais. Serra,
naturalmente, negou a intenção e acusou ali mera
estratégia eleitoral.
Em suma, tudo como no horário eleitoral gratuito.
Ora, o que se tinha ali? Marta se alimentava da esperança da
virada, dado que duas pesquisas, Datafolha e Ibope,
indicaram, nesta semana, uma diminuição da diferença entre
ambos.
E isso se deu justamente no período em que combinou
terrorismo na periferia com suavidade no vídeo. Se, nos
confins da cidade, a tropa-de-choque continua o trabalho
sujo, na TV, tratava-se ainda de endurecer sem perder a
ternura.
O candidato tucano, embora certa mídia tente fazer
parecer o contrário, tem uma vantagem considerável em
relação a sua oponente qualquer que seja o instituto. Por
que arriscar uma linguagem mais agressiva?
Assim, viu-se, ambos optaram por não ousar.
Marta tentou avançar numa linguagem de mais apelo emocional,
com rasgos de subjetividade. Na fala final, mais uma vez, a
voz chegou a ficar embargada.
Mas não pôde desempenhar o papel com eficiência. Um
debate é, afinal, também um jogo de imagens, um confronto
de estratégias. Serra não permite uma linguagem com
excessos de intimidade.
Tome-se como exemplo o questionamento sobre as verbas para
o gabinete da prefeita: R$ 21 milhões.
Marta tentou negar, dizer que elas incluíam o dinheiro do
Carnaval: Não é para fazer festa e tomar
cafezinho, tentou ironizar, flertando com a graça.
Deu-se mal. Ele tinha os números. Eram R$ 21 milhões, sem
Carnaval e sem nada, ela própria teve de admitir.
A prefeita insistiu ainda na linha da justiça.
Reelegê-la, entende-se, e só uma questão de pôr nos dois
pratos da balança as qualidades e os defeitos. O discurso da
justiça é vizinho do da vitimização. E quase ela se
perde.
Ao acusar o adversário de criticar tudo o que ela faz,
disparou: Você agora vai ver como é difícil... se
for eleito.
Entre a oração principal e a condicional, houve um lapso
de tempo, pequeno, mas que pode ter parecido uma eternidade
aos petistas.
Em 1982, em debate com Franco Montoro, Reinaldo de Barros
tentou defender seu padrinho, Paulo Maluf, das críticas e
mandou ver: Governar não é fácil; o senhor vai ver
quando for eleito. Marta não chegou a tanto, mas
quase.
Eleitores presentes
Sempre que o jornalismo, de algum modo, cede ao populismo,
quebra a cara. A presença dos eleitores
indecisos só serviu para tornar chato um programa que
poderia ser bem mais animado.
Os EUA costumam recorrer a essa prática. Num debate sobre
questões nacionais, pode até ser interessante. No caso de
questões municipais, é puro aborrecimento.
Os eleitores presentes não representam nada.
Nem mesmo o seu próprio bairro. Ou as perguntas pecam pela
especificidade que só interessa a eles próprios ou pela
generalidade que nada revela dos candidatos.
Em suma, o que será já era antes do debate.
Se isso é verdade e se as pesquisas estão certas e Serra
está realmente na frente, o encontro, ao ser neutro, foi
favorável ao tucano.
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